Algumas coisas que quero fazer antes de morrer

Desculpem o post estilo ESTAS BOBAGENS, mas é que estou ouvindo um DVD do Ray Charles ao vivo no Festival de Montreux e me ocorreu como eu gostaria de ir a um desses antes de morrer. Aí fui lembrando de outras coisas e concluí que, em algum momento da vida, vou ter que ganhar MUITO dinheiro, pra conseguir realizar todos estes sonhos:

  • Cobrir uma guerra.
  • Ir a um pub de Chicago para ouvir alguma bandinha local de blues, que tenha aprendido com alguns dos mestres antes de morrerem.
  • Ir a algum pub de New Orleans pra ouvir alguma bandinha local de jazz que tenha pianinho, sax e uma vocalista com a voz da Cassandra Wilson (que é do Mississippi, aliás).
  • Ver o Eric Clapton tocando (outubro tá aí!).
  • Cruzar a rodovia 66 de ponta a ponta, como os caras de On The Road fizeram (mas sem todas aquelas drogas).

  • Passar por toda a rota do vinho da Califórnia, como os caras de Sideways fizeram (e com todo aquele vinho).
  • Subir a BR-101 de sul a norte, parando em várias praias desconhecidas.
  • Cruzar o Expresso Oriente de ponta a ponta, com os meus pais.
  • Cruzar a Abbey Road, só pra falar que cruzei. E descalça, como o Paul 😉

  • Conhecer a Praça Vermelha de Moscou e conhecer São Petersburgo.
  • Conhecer todo o leste europeu.
  • Conhecer Machu Picchu e o Deserto de Sal da Bolívia e o México.
  • Conhecer o Pantanal e a Amazônia.
  • Conhecer Moçambique e Angola; e Marrocos e Egito.
  • Ver de pertim um daqueles ursos das Montanhas Rochosas canadenses.

  • Entrar numa sauna no meio de uma floresta e em frente a um lago congelado da Finlândia.
  • Andar em cima de um elefante na Índia.
  • Voar de balão em Paris; descer de parapente ali na Serra da Moeda mesmo.

(E o post nunca vai acabar, porque sonhos são um novo por dia ;))

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O céu está azul

Outono é época do ano de céu eternamente azul, pelo menos em Beagá (mas, de vez em quando, até na Terra Cinza!). O que me faz lembrar do estado de espírito lindo da música Blues Skies, na melhor versão da Ella Fitzgerald. O que me faz lembrar que já vi muito céu bonito por aí, em vários cantos do Brasil. Hoje o post será uma galeria deles, como já fiz com Beagá, São Paulo, Rio, com a natureza, com a Serra do Cipó e com o Reveillon na Paulista.

Bom céu pra vocês também:

Todas as fotos: CMC

Mudar dá trabalho!

Noite de quarta: roupas nas malas, livros em sacos, panelas em caixas, um trabalho sem fim. Diós, por que acumulamos tanto, mesmo num apezinho de 30 m²?! Eu queria ser como Gandhi e Kierkegaard (se não me engano), que sabiam viver só com o mínimo necessário. Tarefa se estende até o começo da madrugada.

7h de quinta: despertador toca, inconveniente. Vou ao apê novo fazer uma primeira faxina (ele é perto do antigo, felizmente). Volto às 9h quando o carreto chega e acaba de colocar tudo em caixotões. Eles terminam a mudança toda ao meio-dia. Inicio tarefa penosa de tirar tudo dos caixotões e colocar nos lugares certos e vou nisso até as 18h, sem pausa pra lanche ou almoço. Saio pra comprar três móveis que ficaram faltando e outras coisinhas (filtro, armarinho de banheiro, lixeira, cesto de roupas etc). Tenho que ir ao apê velho pra tomar banho quente e tenho que passar a noite no novo apê a luz de velas e sem geladeira, graças à gentileza da Eletropaulo, que deveria ter ligado a luz uma semana antes e não ligou.

7h30 de sexta: despertador só ia tocar duas horas depois, mas acordo com vários pesadelos consecutivos relacionados à falta da energia em casa. O corpo todo dói-dói-dói, como se eu tivesse sido atropelada na véspera. Custo a conseguir levantar. Logo chega o cara da NET, o da Eletropaulo (ufa!) e o da Comgas (empresa que se mostrou muito eficiente). Ainda tenho que chamar encanador e eletricista pra resolver problemas na casa. Ligo para o banco, as concessionárias, a Folha e vários outros para fazer mudança de endereço. Pausa na “folga” para fazer mais entrevistas e melhorar a matéria que tem que ser fechada na sexta para sair no domingo. Faço faxina no apê novo e vou ao velho para fazer faxina lá também. Termino tudo depois das 21h.

Durmo como uma pedra e acordo tarde no sábado, finalmente relaxada. Ontem pude definitivamente curtir o novo lar — o quarto lar, em três anos e dois meses, quando cheguei a São Paulo. E hoje acordei com um solão e céu azul, típico de outono belo-horizontino, e estou feliz 🙂

Mudar dá trabalho; vivam as mudanças!

Banalizando o desmatamento

O Código Florestal foi aprovado na Câmara, e não em votação apertada, mas com 410 votos favoráveis e apenas 63 contrários. Foi um verdadeiro massacre para o governo Dilma, que era contra, dentre outros pontos polêmicos, a anistia a pessoas que desmataram até 2008.

O Código, apesar do nome, que remete à proteção ambiental, prevê ainda redução das áreas de proteção ambiental, como topos de morro (que ajudam, por exemplo, na formação de nascentes), beiras de rios e florestas. Com o discurso social de que estaria beneficiando uma porção de pequenos ruralistas, os grandões do agronegócio, os latifundiários da CNA, saíram vencendo. Os pequenos ruralistas continuarão pequenos e com a natureza cada vez mais frágil, dificultando ainda mais uma produção saudável.

Agora cabe ao Senado “rever” o código, nas palavras políticas de Aécio Neves (PSDB-MG). E a Dilma, se tiver colhões, vetá-lo. Ou o que teremos será a banalização do crime ambiental, como maravilhosamente ilustrou o gênio Angeli:

E eu pergunto: cadê os churrasqueiros de Higienópolis, os fumaceiros da Marcha da Maconha, os buseiros do Movimento Passe Livre fazendo barulho, aos milhares, na porta do Congresso? Realmente, as questões ambientais ainda não tocam a população. Talvez na geração de nossos netos a coisa mude de figura, ainda que tarde demais.

 

Concorrência na barbearia

Depois da minha crônica sobre Rondônia, esta experiência que aconteceu com o meu pai, a cinco quarteirões da nossa casa, em Beagá, mostra como existem justiceiros e loucos até nos lugares menos imaginados.

Divirtam-se:

Carlitos não acreditaria.

Texto de José de Souza Castro

Entro na barbearia do Gilberto, como tenho feito uma vez por mês, nos últimos 15 anos, e no lugar do barbeiro estava um rapaz que já havia trabalhado lá. Há pelo menos dois anos, Gilberto trabalhava sozinho. Não me parecia um negócio muito próspero, mas eu gostava do corte de cabelo dele.

— Cadê o Gilberto? – pergunto ao rapaz, que estava cortando o cabelo ralo de uma velha.

— Morreu. Na Semana Santa.

O Gilberto devia ter uns 35 anos. Era magro e um pouco pálido, mas não me pareceu doente, 30 dias atrás.

— Acidente?

Eu sabia que ele tinha um carro, mas era quase tudo o que sabia do Gilberto. Talvez fosse Atleticano. Quando ele queria puxar conversa, costumava perguntar o que eu tinha achado do jogo do Atlético. Eu respondia qualquer coisa, bastante evasiva, pois não tinha achado nada. Nem sabia que o Atlético havia jogado.

— Não. Tiros…

Esperei que o rapaz acrescentasse alguma coisa, enquanto absorvia aquela informação. Como continuasse calado, cortando o cabelo da velha, perguntei.

— Assalto?

— Não, foi o barbeiro ali do lado.

Havia há muitos anos outra barbearia, logo dobrando a esquina. Certa vez em que encontrei a do Gilberto fechada, quase fui lá, mas algo ali não me agradou e deixei o corte para outro dia.

Peguei o jornal e comecei a ler a notícia de que o Tribunal de Contas do Estado havia voltado atrás e autorizado o governo de Minas a alugar o prédio do Ipsemg, na Praça da Liberdade, para uma rede hoteleira, por R$ 13.330,00 por mês ou a venda por R$ 22,5 milhões. Quarenta dias antes, o Ministério Público Estadual tentou embargar a licitação, alegando que o prédio valia R$ 57,65 milhões ou aluguel de 208 mil reais por mês. Os vencedores da licitação prometiam investir 41 milhões na reforma do prédio de 12 mil metros quadrados de área construída e inaugurar o novo hotel antes da Copa do Mundo. Mais um bom negócio no futebol…

Quando a velha saiu, sentei na cadeira do barbeiro e voltei a puxar a língua do rapaz.

— Você vai continuar o negócio do Gilberto?

— Vou. Sou sobrinho dele…

— Ele era casado?

— Era.

— Tinha filhos?

— Não.

— Ele já tinha brigado com o barbeiro vizinho?

— Tinha. Uns tempos atrás, os dois se agarraram, e ele bateu muito no Gilberto.

— Qual o motivo?

— Ciumeira. Ele tinha raiva, porque o Gilberto tinha mais fregueses. Antigos fregueses dele passaram a cortar cabelo com o Gilberto, porque o cara não tinha hora para abrir o salão. Ele vivia drogado. Tomava chá do Santo Daime e ficava doidão. Já brigou com todos os barbeiros do bairro. Antes de vir aqui para matar o Gilberto, no Sábado de Aleluia, ele foi ao salão onde eu trabalhava. Ali, na esquina da rua. Éramos dois barbeiros lá, e ele queria matar nós dois. Mas estava fechado. Até perguntou a vizinhos se o salão ia abrir, e disseram que não. Então veio para cá. O Gilberto estava aproveitando o feriado para pintar o salão. Estava lá no fundo. O homem entrou e foi dando tiros. O Gilberto ainda tentou segurar o revólver, e levou mais três tiros na mão. Conseguiu correr para a porta. Foi levando tiros nas costas. Um dele acertou o coração, e o Gilberto caiu no passeio, morto. Vizinhos ouviram os tiros e viram o que aconteceu depois. O homem foi até à esquina da rua (no fim do quarteirão) e voltou. E deu mais dois tiros na nuca do tio, que já estava morto. Depois entrou aqui para os fundos e suicidou com dois tiros na boca.

Depois de uma breve pausa, continuou:

— Ele já estava planejando isso. Mas deu azar, pois queria matar os três… Em dezembro do ano passado, comprou a pistola semiautomática de 20 tiros. Descarregou a pistola no Gilberto e ainda recarregou para dar os dois tiros na boca. No sábado havia vencido o contrato de aluguel dele, e a imobiliária disse que ele não quis renovar. Estava tudo planejado na cabeça do homem…

Terminou aí o desabafo do sobrinho. Continuamos em silêncio, enquanto ele cortava meu cabelo. Eu lia o jornal, sem prestar muita atenção. Pensava naquele drama. O pobre homem queria monopolizar o negócio na região, matando os concorrentes. Tenho que reconhecer: não é isso o que prega o sistema capitalista. Mas não é a primeira vez que o drama é encenado no mundo.

— Sucesso no seu negócio – disse ao rapaz, depois de pagar os 20 reais costumeiros.

— Obrigado. Volte sempre.

Vou voltar. Sei que não tenho qualquer concorrente com motivos para me matar. Mas, não sei nem o nome do sobrinho do Gilberto… E o Gilberto, pensando bem, sabia o meu nome.