Eu quero a minha mãããããe!

É engraçado como a gente cresce, entra na faculdade, entra no primeiro emprego, compra, parcelado, o primeiro carro, quita a dívida do carro, vai ganhando independência, muda de cidade, muda de emprego, consegue um apartamento para alugar, vende o carro, compra a mobília do apartamento, paga as contas mensais (cada vez maiores), completa mais de um quarto de século, fica totalmente independente e, mesmo assim, quando vem um problema grande, a primeira frase que nos ocorre é: “Eu quero a minha mããããe!”

Se é problema de coração, então, coitada: mãe sofre junto. Ou sofre mais. Ver a filha acabrunhada por causa de um porqueirinha que não vale nada, e não saber como fazê-la seguir em frente e se valorizar deve ser de matar. Minha mãe já me abraçou durante vários minutos enquanto eu soluçava por um amor não correspondido, anos atrás. Eu nunca vou me esquecer daquela noite.

(Pra recompensá-la, sempre conto quando surge um novo amor. E ela torce e fica feliz.)

Ontem eu soube que meu contrato do aluguel venceu e querem DOBRAR o preço e tenho um mês para achar outro lugar para morar ou fechar esse novo contrato escandaloso. Como meu salário não dobrou também, só me resta a primeira alternativa. Tive vontade de chorar, por ter enfiado na minha cabeça que meu contrato era de três anos, não 30 meses, e não ter me precavido como sempre faço. Em vez de chorar, liguei pra minha mãe. E ela me confortou, dizendo que vai dar tudo certo, que temos que dançar conforme a música, que eu sempre saio dessas frias e que ela pode vir para São Paulo me ajudar, se eu precisar.

(Belo presente de dia das mães eu dei a ela!)

Ela não gosta dessa história de dia das mães. “Dia das mães é todo dia”. Mas não é todo dia que a gente se fala, nem que posso prestar homenagens a ela (haja criatividade!). E, em nossa relação, houve os dias de discussões, de emails irritados, de brigas e tudo o mais. Mas acho que foram minoria em nossa história, porque não consigo me lembrar de muitos exemplos. Até o dia fatídico em que tomei meu primeiro porre e fui recebida pela minha mãe, de pijamas, bravíssima e decepcionadíssima, virou agora uma história de humor para ser contada em roda de família.

A verdade é que nossa história é de muito carinho. É de ir ao cinema juntas toda vez que vou a Beagá. E de ela comprar mil coisinhas no supermercado quando veio me visitar, porque a minha geladeira estava muito vazia. E de ela escrever toda vez que São Paulo ocupa o noticiário com os alagamentos ou crimes, preocupada, querendo saber se meu bairro alagou também ou se tive que cobrir aquele crime. É de receber essas minhas ligações nas horas de apuros.

Acho que minha mãe tem ciúmes do meu pai, acha que eu gosto mais dele que dela. Ela já até me disse isso — e eu também não me esqueci. Não é verdade, mamãe. Cada um tem seu papel importante e eu não viveria sem nenhum dos dois. E nas horas em que o alarme grita, em tom de autopiedade, “eu quero minha mããããe!”, é só você que serve, e aquele abraço de vários minutos que você me deu naquela noite, confortando meus soluços.

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