Toda criança tem algum objeto de devoção: a fase do boi

Boi da cara preta 🙂

O pai do Luiz foi com ele a uma livraria pequenininha que existe aqui no bairro, por onde eles passam quase todos os dias. Desta vez, entraram, e o Luiz pôde escolher o livro que quisesse de presente. Ele viu um livro com um boi imenso na capa e imediatamente escolheu aquele.

O pai comentou com a dona da lojinha:

— Luiz é doido com boi! (Já foi doido com passarinho, depois com urso — por causa de Masha e o Urso –, mas agora ele só fala em boi, pede para ouvir a música do boi da cara preta, pede para ver ilustrações de bois nos livros, pede para achar bois no YouTube etc.)

Ao que ela respondeu:

— Engraçado, cada criança que vem aqui tem alguma fixação diferente. Tem menino que é louco por carros, outros são doidos com aviões, outros preferem dinossauros. Mas toda criança é doida por alguma coisa!

Em casa, quando ouvi essa história, concluí que a fixação do Luiz é com animais. Todos os dias, antes de dormir, ele pede para ver um livro de contos favorito. Fica irritado quando tento ler um conto: o que ele quer mesmo é sair ditando os animais, um a um, enquanto corro para encontrar suas ilustrações pelas páginas. Começa sempre pelo boi. Depois é o peixe, o urso, o fapo (sapo), o au-au, a popó, o gol (Galo), a anhanha (aranha), o côrco (porco), e assim por diante. É emocionante ver a empolgação com que ele narra essas palavrinhas lindas, nomes de animais, que estão entre as primeiras de seu já extenso vocabulário, e vai brilhando os olhos à medida que reconhece os desenhos correspondentes a cada nome.

Depois, ele se despede do livro e me pede de novo: “Boi! Boi”. Desta vez, sei que ele quer é ouvir minha versão adaptada para a música do boi da cara preta, que hoje é sua favorita para a hora de dormir:

Como eu disse mais acima, o boi não foi sempre o rei das preferências do Luiz. Já foi precedido pelo urso e pelo passarinho. E suspeito que logo dará lugar a outro herói mais fácil de se encontrar nos desenhos animados e produtos licenciados. Até que talvez chegue o dia em que ele não tenha mais nenhuma fixação, em que nada faça seus olhinhos brilharem com a mesma alegria devota de hoje. Ele terá, então, deixado de ser criança.

***

Conte para mim: seu filhote é doido com quê? Qual é a fixação dele/a?

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No dia da maior birra, fiz uma coisa simples — e a reação do meu filho foi surpreendente

Meu filhote ainda não chegou aos temidos 2 anos, mas já aprendeu a fazer um pouco de birra. Ou manha, ou pirraça, chame como preferir.

Nada como lemos em vários relatos por aí, de se deitar no chão da fila do supermercado e espernear por alguma coisa, ou de ficar 5 minutos inteiros gritando a plenos pulmões, ou de prender a respiração até desmaiar, ou de se bater, ou de bater em mim.

Nada tão dramático. Mas ele já faz aquela manha básica e esperada para a faixa de idade. Que a gente lê que é um grande marco do desenvolvimento da criança, porque mostra que ela chegou ao ponto de querer marcar posição, de querer testar seus limites, de querer tentar ser mais independente. Legal, legal, mas que é uma fase danada de chata, isso é. Daí porque ganhou o apelido de “terrible two”.

Eis que, há algumas noites atrás, Luiz fez uma birra maior que de costume. Além de jorrar suco pelo chão da sala — algo que ele sabe que eu detesto que ele faça, e faz, e depois ainda me olha, bem desafiador, mostrando que fez –, de cuspir toda a comida da janta que passei um tempão cozinhando — outra coisa que ele sabe que eu detesto que ele faça –, de repetir o cuspe na segunda tentativa de janta da noite, de jogar comida no chão, ele ainda gritou bem alto quando falei com ele que estava errado etc.

Às vezes dá vontade de apenas chorar. Ou de dar um gritão mais alto que o dele, competindo pra ver quem é a criança mais pirracenta da casa. Ou de dar uma daquelas palmadas dos tempos da geração da minha avó (porque meus pais nunca me bateram). Ou de deixar ele num cantinho, com a porta fechada, chorando até que ele se canse.

Mas aí me lembro que a mãe sou eu, que a adulta sou eu, que a pessoa com um mínimo de maturidade sou eu, que ele não tem nem 2 anos de idade, que se eu gritar ele vai achar que ganha quem grita mais alto, que se eu bater ele vai achar que ganha quem usa a violência, que tem hora que é cansativo, mas ninguém nunca me falou que a maternidade era bolinho.

E o que fiz naquela noite foi o seguinte. E deu certo:

1- Desisti de dar o jantar e fui dar o banho nele enquanto ele chorava, falando (num tom de voz normal) que não tinha por que ele chorar e que eu não tinha gostado nem um pouco do comportamento anterior.

2- Enquanto tomava o banho, cercado de brinquedos, ele foi parando de chorar aos poucos e começou a se acalmar. E eu falando sem parar nem por um minuto. Que não foi legal o que ele fez etc.

3- Ao deitá-lo no trocador para colocar a roupinha, ele já completamente calmo e sem chorar, aproveitei que ele estava mais atento e fiz um longo discurso. Disse que ele tinha feito três coisas erradas: desperdiçado comida que a mamãe tinha cozinhado com todo o carinho; desobedecido a mamãe, ao fazer algo que já falei mil vezes para não fazer (jogar comida e suco no chão); e desrespeitado a mamãe, ao gritar enquanto eu estava corrigindo o que ele tinha feito de errado.

4- Repeti esse discurso com as palavras mais simples que encontrei, da forma mais clara que encontrei, num tom de voz baixo (mas firme), sempre olhando nos olhos do Luiz, enquanto colocava a roupa nele. Quando chegava ao fim do falatório, perguntava: “Entendeu?”. Fiz isso umas quatro vezes, até que, na última, ele acenou positivamente com a cabeça, olhando para mim, e percebi, pelo olhar dele, que ele realmente tinha entendido.

5- Logo em seguida, ele se sentou e disse “Mamãe!”, num tom de voz alegre, pegou no meu rosto com as duas mãozinhas, aproximou os olhinhos dos meus, e fez carinho. Nunca vou me esquecer dessa reação tão espontânea e, ao mesmo tempo, inusitada, depois de ter ouvido quatro ou cinco vezes o mesmo longo e entediante sermão. Foi muito mágico! Depois disso, ele pediu pela comida que tinha jogado no chão antes do banho, e comeu um pouquinho antes de recusar de vez. Era um daqueles dias de pouca fome e eu não sou de ficar forçando a comer quando não tá a fim.

Depois daquela noite, ele não chegou a fazer nenhuma birra que mereça destaque. Ficou naquela. E levei como lição para mim que, por mais difícil que seja, é importante insistir na compreensão. Uma criança de 2 anos tem capacidade de compreensão já impressionante, mas ainda limitada. Cabe a mim, a adulta da família, a mãe, a comunicadora por formação e profissão, achar um jeito de me fazer comunicar, de me fazer entender, de ser compreendida pelo meu pequeno.

Essas ideias que algumas pessoas têm de que crianças de apenas 2 anos estão “manipulando” me parecem completamente nonsense. Para mim, eles são apenas serzinhos em desenvolvimento — e acontece, muitas vezes, de serem mais desenvolvidos do que muita gente que já tem décadas de vida nas costas. Que bom que meu Luiz está me permitindo seguir em constante evolução, ao lado dele!

***

P.S. Antes que alguém comente isso: sei que ainda há uma longa jornada da “fase da birra” pela frente. É bem provável que outras birras, mais homéricas, ainda aconteçam, e não sei se minha “fórmula mágica” vai funcionar nas próximas vezes. Simplesmente porque não exitem fórmulas mágicas, não é mesmo? Cada dia é um dia, cada experiência é única, e raramente as reações se repetem. Mas a cada experiência aprendemos um pouquinho mais, Luiz e eu, e o pai dele. Que assim seja!

E você, como lida ou lidou com as birras dos seus filhos? Como passou pela “terrible two”?

7 poemas de Drummond que eu gostaria que meu filho conhecesse

O título deste post contém uma imprecisão.

Não queria que meu filho conhecesse apenas sete poemas do meu poeta favorito, o Carlos Drummond de Andrade, Dru-dru para mim desde a adolescência – em minha opinião, o maior poeta brasileiro.

Queria que ele conhecesse todos, que devorasse seus livros, todos à mão nas estantes de nossa casa, que também conhecesse as histórias interessantíssimas que compunham a personalidade sisuda, bem-humorada, reservada e amigável do poeta, como dizem os que com ele conviveram.

Li com muito prazer o especial que o jornal “O Tempo” produziu sobre Dru-dru, na esteira de seu aniversário de morte. Recomendo a leitura a todos, basta clicar AQUI. O trecho que mais curti foi a entrevista com Humberto Werneck, autor do delicioso livro “O Desativo da Rapaziada” (leitura obrigatória em todas as faculdades de jornalismo, ao menos quando eu frequentava uma delas), que agora escreve uma biografia sobre o itabirano. Vejam o que ele disse, por exemplo, sobre a personalidade do poeta:

“Drummond era um homem reservado, e, ao se tornar amplamente conhecido, era natural que se fechasse ainda mais, como forma de preservar seu tempo e sua intimidade. Não era, porém, um bicho do mato. Entre amigos, boa parte de suas reservas caía. Era falante e divertido. Tinha um lado brincalhão – já depois dos 80 anos, era capaz de dar cambalhotas para divertir crianças. Tinha um lado moleque: quem imaginaria Carlos Drummond de Andrade passando trotes ao telefone, como fez durante anos, disputando com outro moleque, Fernando Sabino, para ver quem pregava mais peças no outro?”

Ou seja, como eu ia dizendo antes de me dispersar, eu não gostaria que meu filho conhecesse apenas sete poemas do Drummond. Mas, se fosse para escolher apenas sete, e que tratem de alguma forma do tema “família” ou “infância”, eu escolheria os seguintes. Só pra começar: Continuar lendo