A Borboleta Azul

Bela foto de André Roberto Melo Silva, um biólogo "borbotólogo" amigo meu.

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A Borboleta Preta de Machado

Se ela ao menos sugasse a seiva da flor mais bonita, lá atrás (em foco), eu não a teria que matar!

Como prometido ontem:

“No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta, tão negra como a outra, e muito maior do que ela. Lembrou-me o caso da véspera, e ri-me; entrei logo a pensar na filha de D. Eusébia, no susto que tivera, e na dignidade que, apesar dele, soube conservar. A borboleta, depois de esvoaçar muito em torno de mim, pousou-me na testa. Sacudi-a, ela foi pousar na vidraça; e, porque eu a sacudisse de novo, saiu dali e veio parar em cima de um velho retrato de meu pai. Era negra como a noite. O gesto brando com que, uma vez posta, começou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito. Dei de ombros, saí do quarto; mas tornando lá, minutos depois, e achando-a ainda no mesmo lugar, senti um repelão dos nervos, lancei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu.

Não caiu morta; ainda torcia o corpo e movia as farpinhas da cabeça. Apiedei-me; tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado.

— Também por que diabo não era ela azul? disse comigo.

E esta reflexão, — uma das mais profundas que se tem feito, desde a invenção das borboletas, — me consolou do malefício, e me reconciliou comigo mesmo. Deixei-me estar a contemplar o cadáver, com alguma simpatia, confesso. Imaginei que ela saíra do mato, almoçada e feliz. A manhã era linda. Veio por ali fora, modesta e negra, espairecendo as suas borboletices, sob a vasta cúpula de um céu azul, que é sempre azul, para todas as asas. Passa pela minha janela, entra e dá comigo. Suponho que nunca teria visto um homem; não sabia, portanto, o que era o homem; descreveu infinitas voltas em torno do meu corpo, e viu que me movia, que tinha olhos, braços, pernas, um ar divino, uma estatura colossal. Então disse consigo: Este é provavelmente o inventor das borboletas. A ideia subjugou-a, aterrou-a; mas o medo, que é também sugestivo, insinuou-lhe que o melhor modo de agradar ao seu criador era beijá-lo na testa, e beijou-me na testa. Quando enxotada por mim, foi pousar na vidraça, viu dali o retrato de meu pai, e não é impossível que descobrisse meia verdade, a saber, que estava ali o pai do inventor das borboletas, e voou a pedir-lhe misericórdia.

Pois um golpe de toalha rematou a aventura. Não lhe valeu a imensidade azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes, contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru. Vejam como é bom ser superior às borboletas! Porque, é justo dizê-lo, se ela fosse azul, ou cor de laranja, não teria mais segura a vida; não era impossível que eu a atravessasse com um alfinete, para recreio dos olhos. Não era. Esta última ideia restituiu-me a consolação; uni o dedo grande ao polegar, despedi um piparote e o cadáver caiu no jardim. Era tempo; aí vinham já as próvidas formigas… Não, volto à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul.”

A Borboleta Preta de Requião

O repórter está lá, fazendo o trabalho dele, de perguntar e de ouvir o que o sujeito tem a dizer. De abrir espaço para o cara, seja ele um pilantra, um vigarista, um canalha ou apenas um senador da República. Terá a versão dele, entre aspas, contemplada no jornal.

“O sr. falou de salário alto. Essa questão da pensão que o sr. está recebendo, que o sr. pode receber, vitalícia, o sr. pretende abrir mão…?”

“Por que que eu abriria mão? Essa pensão no Paraná existe há 40 anos. Todos os ex-governadores recebem. Recebe a mãe do Beto Richa, que é o governador do Paraná, recebe o Paulo Pimentel, ex-governador, e eu recebo essa pensão porque durante o governo, quando eu chamei de ladrões os que haviam roubado o erário, que haviam predado o patrimônio do Estado do Paraná, como eles não tinham sido ainda condenados, eu passei a ser condenado em multas porque os ladrões ainda não tinham sido condenados em instância final. Estou usando essa pensão pra pagar as multas que me foram injustamente impostas.”

“Mas o salário do sr. como senador já não é suficiente para pagar as multas?”

“O salário do senador é um bom salário, no meu gabinete ele é o menor. Todos os funcionários de carreira do Senado ganham mais que o senador e não é só no meu gabinete que ocorre isso. Mas eu estou dizendo a você que eu estou usando a pensão pra pagar multas que me foram impostas injustamente na defesa do interesse público.”

“Mesmo se houver uma pressão inflacionária, os gastos do governo do Estado do Paraná estiverem comprometidos, o sr. também, mesmo assim, não abriria mão, pra garantir…”

Aí o senador Roberto Requião (PMDB) encerra a entrevista arrancando o gravador da mão do repórter Victor Boyadjian, da rádio Bandeirantes, apaga seu conteúdo e pergunta se ele não quer apanhar.

E, para se justificar, no dia seguinte, diz que sofre bullying da imprensa. Ah vá…!

Eu recomendo fortemente a última coluna do Pasquale Cipro Neto na Folha, falando sobre as justificativas bizarras que as pessoas encontram para atos como este.

Um trecho:

Na terça, no plenário, o senador disse, entre outras joias, que sequestrou o gravador para evitar que o repórter editasse a entrevista. Pois bem, caro leitor, o que está por trás do que disse o senador? A clara afirmação (acusação) de que o repórter da Bandeirantes edita entrevistas, ou seja, manipula, monta e remonta o que lhe dizem seus entrevistados.
(…) Não é preciso ser doutor em análise do discurso para perceber a inconsistência dos argumentos do senador. O fato é que ele tomou uma atitude violenta e apresentou para seu ato justificativas dignas de torcedores fanáticos, daqueles de torcidas organizadas (Xi! Lá vem o pessoal do politicamente correto dizer que… Dai-me força e paciência, Senhor!), ou seja, justificativas que “justificam” o injustificável. É claro que isso só vale para os próprios atos (para os do outro, não e não).
Do alto da minha insignificância, sugiro ao nobre senador (e a quem mais possa interessar-se) a leitura do genial capítulo 31 de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (“A Borboleta Preta”), de Mestre Machado de Assis. O percurso dos argumentos que o narrador apresenta para a toalhada que dá na borboleta preta faz do senador um principiante na matéria. Aula das aulas. É isso.

Amanhã vou postar “A Borboleta Preta” aqui e vocês vão entender melhor.

O filho das águas lamacentas

Como prometido no post de ontem, mais dois vídeos do showzaço de Mud Morganfield, filho de Muddy Waters, tocando dois clássicos: “Got My Mojo Working”, logo antes do bis, e “I’m a Man”, no bis:

No primeiro vídeo ficou com uma pausa esquisita, mas estou sem tempo de editar, então vocês perdoam 😉

O primeiro festival da Galeria do Rock

Na primeira vez que fui à Galeria do Rock, conhecê-la, em 2008, fiquei muito desapontada. O lugar estava completamente abarrotado de lojas ligadas ao hip hop, não ao rock. Nada contra, mas não era o que eu esperava da famosa galeria. Parecia a galeria da praça Sete de Beagá, que também mais promete que cumpre (embora eu tenha passado bons momentos lá, inclusive a compra do bilhete da passagem que me levaria ao show dos Stones, no Rio :)).

Pois bem, 19 anos depois que adotou a proposta de se tornar uma Galeria do Rock, houve ali ontem seu primeiro festival, de jazz e blues. A ideia é que, a partir de agora, ocorram muitos outros festivais, mais ou menos a cada dois meses. Que bom!

Esta primeira vez era fechada, com 500 convidados/sorteados, e fui para lá graças à lembrança do meu amigo Maurício Horta, que sabe como eu gosto de blues. Eles montaram o palco no quarto andar, com um prédio comercial ao fundo que, recebendo luzes formando símbolos de guitarra e outros, ficou sensacional. Aos fundos, um balcão vendia latinha de Itaipava a R$ 4 e long neck de Stella Artois ou Heinecken a R$ 8 (a latinha acabou no meio da festa).

Ao todo, foram seis apresentações. E talvez esse tenha sido o maior problema do evento, porque o deixou muito longo e com as primeiras bandas muito fracas, o que esvaziou um pouco o lugar lá pela metade.

As bandas foram escolhidas por Facebook. As duas primeiras, que não me lembro como chamavam, tocaram um blues de garagem, com guitarra meio suja e um aspecto todo amador.

Acho que a banda chama Expresso Santiago.

A terceira foi a apresentação da cantora Ana Paula Lopes, que tem uma ótima voz e estava acompanhada de uma boa banda de jazz, com teclado, contrabaixo e bateria. Mas achei a apresentação dela completamente deslocada, com versões melosas e lentíssimas de Billie Holiday, que provocaram comentários nervosos de parte do pessoal, que estava na expectativa por um show mais agitado. Foi um erro de repertório porque, como representante do jazz na noite, ela poderia ter escolhido outras músicas que caberiam melhor ali.

Ana Paula Lopes e banda.

Mas depois a noite só melhorou! Entrou a banda The Suman Brothers Band, que levantou o público com um blues bem do delta do Mississipi e com músicas mais rock’n’roll.

The Suman Brothers.

Depois, entrou o gaitista Daniel Granado, endorser da Hohner, com sua Blues Sessions, que tocou um funk-groovie animadíssimo.

Por fim, a Igor Prado Band, sempre ótima, anunciou a entrada do tecladista Donny Nichilo, que trabalha com Buddy Guy, e do filho de Muddy Waters, o figuraça Mud Morganfield.

Ele tem a voz muito parecida com a do pai, mas o melhor é sua aura de blues, todo o jeitão de bluesman trazido lá da Chicago dos anos 50, com sapatos de couro vermelho, vários anéis na mão direita e um extravagante terno vermelhíssimo. Entoou hinos como Hoochie Coochie Man, Baby Please Don’t Go, I am a Man, Got my Mojo Working e várias outras.

Grande bluesman! =)

Termino o post com três vídeos que fiz dele, cantando as mais clássicas. Agora é torcer para esse festival continuar, cada vez melhor!

[prometo acrescentar os outros aqui até amanhã ;)]