A fábula do menino de 2 anos que aprendeu a valorizar o que tem

Luiz se divertindo com baldinhos cheios de terra e água | Foto: arquivo pessoal

– OLHA O QUE EU GANHEI, PAPAI!

Foi assim que o Luiz chegou em casa, no último sábado. Todo alegre, ele mostrava ao pai o que tinha acabado de ganhar no passeio que fez comigo, na livraria infantil do bairro.

Era um pedacinho de papel rosa, com um número “3” escrito a caneta no meio.

O pai ficou meio sem entender. Expliquei:

– A livraria sorteou três livros, depois que a contação de histórias terminou. Não ganhamos nenhum livro, mas o Luiz adorou o papelzinho rosa com seu número no sorteio.

Claro que desandei a pensar num monte de coisas por causa desse singelo episódio.

Em como as crianças ficam maravilhadas com pequenas coisas, com pequenos gestos, surpresas, presentes-sucata de papel, caixinhas, embrulhos, tão ou mais valiosos que seus conteúdos.

Em como, para o Luiz, o simples fato de ter participado de um sorteio, com a aventura de poder ganhar um presente a partir da sorte, do aleatório, já foi emocionante.

Em como perder, no fim das contas, não desmerece o percurso da expectativa de ganhar.

Em como seríamos todos mais felizes, os adultos, se soubéssemos valorizar e agradecer por essas pequenas trivialidades que compõem a vida, em vez de estarmos sempre esperando pelas conquistas grandiosas, as mais difíceis, que só acontecem de vez em quando.

Em como sou sortuda, pra começo de conversa, por ser mãe desse baixinho sorridente, que sente felicidade em empunhar um papelzinho rosado, e que me faz pensar em todas essas coisas.

É muita fortuna junta!

 

E aí na sua casa? Quantos papeizinhos rosas te deixaram contentes nos últimos dias? E quantos vocês simplesmente jogaram fora sem nem reparar?

Leia também:

ttblogfaceblog

Anúncios

Começou a contagem regressiva para as férias!

Eu tive muito poucas férias na vida.

Mesmo quando era “funcionária pública”, concursada pelo Banco do Brasil — a empresa mais certinha em termos de direitos trabalhistas na qual já trabalhei na vida –, eu sempre tirava férias quando já estava quase vencendo o prazo de dois anos. Na época, o esforço era para conciliar as férias no trabalho com a pausa na faculdade, em meses muito disputados também por outros colegas.

Daí entrei na “Folha de S.Paulo” e, bom, fiquei quatro anos sem férias de verdade. No máximo, uns dias de pausa perto do Natal.

Depois voltei a Beagá em outubro de 2012 e fui tirar minhas primeiras férias em maio de 2014. Merecidíssimas, desejadíssimas, foram minhas melhores férias de que consigo me lembrar. Pegamos o carro e descemos vários quilômetros em uma road trip até Santa Catarina, com diversas paradas por praias, cachoeiras e pela maravilhosa Serra da Mantiqueira. Lavei a alma e voltei com pique total para o jornal “O Tempo”.

Depois tive férias de novo em julho de 2015, já grávida, bastante prejudicadas por uma sinusite que me derrubou por uma semana. E em maio de 2016, emendando com a licença-maternidade, que eu não considero que tenham sido férias de verdade, porque era o dia inteiro por conta do Luiz, naquela fase da vida de mãe em que eu mal conseguia sair de casa por meia hora sozinha, porque tinha que amamentar toda hora e blablablá. E foi isso.

Daqui a exatamente 1 mês, terei minhas primeiras férias de verdade desde 2015, férias com direito a viajar, a desconectar, a refugiar, a esquecer senhas, a ler um bom livro, a sair da rotina até cansar. Ahhh, mais uma vez, espero ansiosamente pela oportunidade de lavar a alma, para voltar renovada, desestressada, pronta pra dar o gás total de novo.

Eu sou uma pessoa quase workaholic, custo a me desligar do trabalho no dia a dia, dou um gás sobre-humano em todos os empregos, visto a camisa completamente do trabalho que eu estiver exercendo no momento, nunca faço só o que me é pedido, sempre tento ir além, e além, e além. Mas considero o descanso uma das coisas mais essenciais do universo. Pra alguém com tanta carga de energia como a que eu dedico, se não tiro um descanso nos fins de semana, uma hora, eventualmente, eu pifo.

Folgas são fundamentais.

Com isso em mente, e curiosa, fui pesquisar sobre a origem das férias. Fiquei surpresa ao constatar que são poucos os textos a respeito no Google, e poucos com qualidade. O melhor que achei foi este do TST, que traz um histórico mundial da adoção das férias, além de algumas regras e curiosidades. Recomendo a leitura na íntegra, mas destaco uns trechos muito interessantes:  Continuar lendo

Diferenças, o exercício da empatia e os direitos humanos

As pessoas tendem a não enxergar aqueles que são muito diferentes delas. Seja fisicamente, culturalmente ou economicamente. E isso dificulta o exercício da empatia, de colocar-se no lugar do outro, que faz com que seja possível haver uma sociedade vivendo em harmonia mínima.

Tem um episódio da série “Black Mirror” que sintetiza muito do que eu disse aí em cima, de maneira muito interessante. (Se você não gosta de spoiler e não viu o episódio 5 da temporada 3, pule para o próximo parágrafo.) Os soldados do Exército recebem uma “configuração” que os faz enxergar os inimigos com rostos de “baratas”. A justificativa para se fazer essa tecnologia é que, quando vêem pessoas, os soldados têm menos coragem de atirar, e as baixas das guerras são bem menores do que interessa ao Estado. Eles até citaram uma estatística da Primeira Guerra Mundial, da qual já não me lembro mais, porque vi esse episódio há muito tempo, mas que dizia que houve pouquíssimas mortes em solo, e foi isso que levou ao desenvolvimento das bombas aéreas etc. Mas, ao olharem para o inimigo e enxergarem rostos de barata, os soldados atiravam sem pensar, com nojo e ódio, como calha ao Exército. Quando um dos soldados, o protagonista do episódio, passa a enxergar as pessoas com rostos de verdade, em vez de baratas, ele passa a ter empatia e arrependimento, culpa e solidariedade. Torna-se incapaz de atirar – e um inútil para seus comandantes.

É fácil não ter empatia por baratas. São asquerosas, chafurdam no lixo e no esgoto (que nós produzimos), são feias, esquisitas, diferentes demais de nós. Mas deveria ser fácil termos empatia com aqueles da nossa mesma espécie, certo? Afinal, somos todos humanos, todos iguais.

Por exemplo, é muito mais fácil respeitarmos o motorista do carro ao lado, no trânsito, quando vemos seu rosto, já reparou? Se alguém abre a janela, dá um sorriso, e pede passagem, é difícil recusar. Se alguém faz barbeiragem e, ao vermos seu rosto, nos identificamos com aquela pessoa, é mais fácil sublimar. Afinal, é só gente como a gente, também capaz de cometer erros, ou estar com pressa, ou precisar atender uma ligação urgente no horário mais impróprio. O contrário também prevalece: é fácil disparar ofensas e palavrões contra o barbeiro escondido detrás de um vidro escuro. O cérebro demora a processar que você está xingando uma pessoa: você está xingando a máquina de aço, o carro de vidros fechados, outra espécie, não a sua.

E quando vemos pessoas de carne e osso como nós e não temos um pingo de empatia por elas, tampouco? São pessoas que nos parecem tão diferentes, mas tão diferentes, que quase de outra “espécie” também, como as baratas e os carros. Tornam-se invisíveis na sociedade. Moradores de rua, por exemplo, parecem pessoas com outro nível de resistência, com outra “casca” na pele. Como conseguem suportar o frio e o vento, como conseguem dormir ao relento? Pessoas com distúrbios psiquiátricos também podem ser invisíveis para nós. Como podem viver num mundo tão diferente, num plano de realidade tão diverso? E assim a lista vai crescendo, até chegar aos distanciamentos por conta de cor de pele, de religião, hoje em dia, até de pensamento político.

Como desenvolver essa empatia? Ter cultura e informação são duas coisas que contribuem muito para ampliar a mente e o olhar. Por exemplo, é muito mais fácil a pessoa que lê clássicos como “Vidas Secas” e “Vinhas da Ira” se apaixonar pelos mais pobres, por aqueles que vivem no substrato da pirâmide socioeconômica, entendê-los, enxergá-los quando identificados diante do nariz. Cumprimentá-los como os seres humanos iguais a nós que são. Querer ajudá-los em sua necessidade.

Só com essa sensibilidade para os outros é possível, por exemplo, entender a importância dos direitos humanos, porque a pessoa passa a enxergar os humanos, em primeiro lugar. Sem enxergá-los, como supor que tenham direitos?

Mas, independentemente do acesso a cultura e informação, acredito que qualquer um pode desenvolver o exercício de olhar para o outro. É um exercício, como fazer ginástica e alongamento. Basta ter um cérebro e um coração, para treinar o direcionamento do olhar para os outros.

Do contrário, você pode acabar enxergando baratas onde há apenas crianças. E a deformação, lembre-se disso, está em seu olhar turvo – não nos outros.

Leia também:

faceblogttblog