Pelo fim dos ‘doutores’ e ‘excelências’

Quem acompanha este blog há mais tempo deve se lembrar da fábula do juiz que queria ser chamado de “doutor” pelo porteiro do prédio em que morava. Apesar de a história parecer uma fábula, ela aconteceu de verdade — por incrível que pareça.

Hoje leio no site do Senado que existe um projeto de lei para acabar com o “Vossa Excelência” e todos os outros pronomes de tratamento direcionados às autoridades e detentores de cargos públicos no país, com exceção das palavras “senhor” e “senhora”.

Acho meio ridículo precisarmos de um projeto de lei para isso, mas, no Brasil, tem coisas que só funcionam mesmo quando se tornam lei. Tipo exigir o fim dos uniformes brancos para babás nos clubes, como aconteceu no início do mês em Minas. Assim como os pronomes especiais para juízes e promotores, esses uniformes são resquícios do período monárquico e da escravidão.

O autor da lei de agora é o senador Roberto Requião (PMDB-PR). Ele explica muito bem seus motivos, por isso vale reproduzir trecho da matéria da Agência Senado: Continuar lendo

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Qual é sua melhor lembrança?

Viva aventuras! Foto: Elvis Ma

No dia 26 de dezembro, logo depois do Natal, é celebrado o Dia da Lembrança. Tudo bem que, naquele momento, nossas lembranças provavelmente giraram em torno de ceias com perus e farofas ou reencontros com familiares sumidos. Mas a data pode ser também uma oportunidade para uma reflexão mais profunda sobre quais são nossas lembranças mais importantes.

Vira e mexe me pego pensando em como é assustador o fato de que uns 90% da nossa vida vão parar no esgoto da nossa memória. São trilhões de momentos esquecidos sorrateiramente, dia após dia. Só uma minoria incrível é impressa em nosso cérebro. E são geralmente as lembranças mais marcantes, as menos corriqueiras, aquelas coisas que fogem da rotina, ou acontecimentos tragicamente ruins ou outros maravilhosamente bons.

Lembro muito bem do dia em que descobri que estava grávida, por exemplo. E também do dia em que o Luiz nasceu. Mas é custoso lembrar do que fiz há duas semanas. Meus aniversários estão gravados na minha memória de forma razoável, principalmente dos 16 anos para cá. Antes disso, ficam meio nebulosos, mas lembro bem do niver de 7 anos em que ganhei uma corda de presente e fui com a prima Marcela e a melhor amiga, Ju, brincar lá na garagem do prédio. Tem uma foto minha, toda suada e descabelada, ao lado da Kika, minha cachorrinha de quem herdei meu apelido, que ajudou a imprimir essa recordação na minha mente.

Naquele dia 26 de dezembro, as redes sociais da revista Canguru, na qual trabalho, lançaram a desafiadora pergunta aos seus leitores: “Qual é sua melhor lembrança?” Não resisti e respondi também. Foi difícil e seguramente não respondi com A MELHOR lembrança, mas com uma boa lembrança, com um sentimento perene que ficou marcado no meu coração. Até porque não tenho esse ranking das vivências mais marcantes de toda a minha vida (será que alguém tem? Um definitivo mesmo? Não invejo). Mas eis o que respondi:

Difícil escolher a melhor… Lembro com carinho da época em que a família toda ia ao sítio, eu adorava subir nas árvores, ficava bem acima do telhado da casa, no alto do ipê, me sentindo uma fada da natureza… A gente colhia amoras juntos, ou goiaba, ou andu, o que estivesse na época, e descascava ou debulhava em torno da mesa… Eu varria e limpava a casinha e às vezes passava o resto do dia lá dentro, lendo um livro, não raro com um barulho de chuva caindo lá fora… Cheiro de terra, passarinhos… As lembranças na roça, de uma época em que a família era mais unida, e eu ainda era criança, são as mais doces.

Gostei também de ler as respostas das outras pessoas:  Continuar lendo

‘Ninguém é racista no Brasil’, por Graziele Martins

O texto escrito pela designer gráfico Graziele Martins merece ser lido e compartilhado por todos. Que este Mês da Consciência Negra desperte reflexões importantes como estas em toda a sociedade. Diga NÃO ao racismo!

Vamos ao texto dela. Os grifos em negrito são meus, só pra destacar as partes mais absurdas do que ela viveu:

 

“Ninguém é racista, mas aos 5 anos eu fui vítima de racismo sem nem saber do que se tratava. A mãe de uma garotinha (da mesma idade) a tirou de perto de mim na piscina que brincávamos no clube com os dizeres: ‘Não quero você brincando com essa neguinha’.

Ninguém é racista, mas, aos 13, um colega de escola que não ia com minha cara gritou aos berros: ‘Macaca preta!’ Aos 17 eu entrei na faculdade (através do ProUni) e minha vaga era de cotas para negros, já que na ficha de inscrição eu não me enquadrava nas categorias de cores que ali estavam: eu não era branca, nem amarela, nem parda, eu era negra. A faculdade exigiu que eu comprovasse minha cor, se nem na minha certidão de nascimento estava escrito: cor negra. Fui obrigada a escrever uma carta de próprio punho explicando que minha cor era negra e era assim que eu me considerava.

Ninguém é racista, mas aos 18, numa loja de departamentos, a vendedora (branca) me perseguia por achar que eu não tinha condições de comprar nada ali… Aos 25, uma mulher branca deixou de sentar ao meu lado, o único lugar vazio dentro de um ônibus lotado, com aquele olhar de superioridade, e disse em tom de voz baixo: ‘Não gosto de preto’. E, em seguida, sentou-se com medo de encostar em mim…

Ninguém é racista, mas no ano passado eu fui a uma festa (predominante de pessoas brancas) e eu era a única negra do local, quase um evento à parte. Perdi as contas de quantas pessoas ‘elogiaram’ minha cor, meu cabelo. Um rapaz (branco, claro) disse que nunca tinha ficado com uma mulher da minha cor (eu não seria a primeira, com certeza).

Ninguém é racista, mas olha com cara de desprezo quando um negro se aproxima, ou infelizmente com olhar de medo, já que os negros são sempre marginalizados na nossa sociedade…

Ninguém é racista, mas não dá credibilidade quando vê um negro em um cargo que ‘deveria ser de um branco’. Quantas vezes você duvidou da capacidade de um médico, advogado negro? Quantos profissionais dessas áreas, negros, você conhece? Quantos negros trabalhavam na mesma empresa que você?

Ninguém é racista, o Brasil não é racista, mas os números (infelizmente) não mentem, Continuar lendo