Gordofobia, padrões inatingíveis e o controle sobre as mulheres

Li um texto muito-muito bacana, como há tempos não lia, sobre os assuntos que enumerei no título deste post. Foi escrito pela jornalista Nathalia Ilovatte e publicado em sua página no Facebook Entre Borboletas. É daqueles textos que não carecem de introdução ou complemento, porque já dizem tudo. E eu assino embaixo mesmo. Então vamos direto a ele:

Reprodução/ facebook.com/entreborboletasblog

“”Caraca, tô gorda!”, pensei ao bater o olho nessa foto. E não foi mera constatação. O pensamento veio em tom de crítica e de lamentação, como que provando que eu não dou conta da minha vida e não tenho competência nem para murchar essa barriga.

Passei a vida com vergonha do espelho e não me lembro de algum dia não ter reclamado do meu corpo. Tudo nele sempre me pareceu muito ou pouco, nunca a medida certa. E isso, para mim, era motivo para desgostá-lo e escondê-lo.

Na adolescência, comecei dietas que viraram um transtorno alimentar, custei a reencontrar equilíbrio na relação com a comida, e julgava as outras pessoas pela forma física delas também.

Hoje, 11 meses depois do meu filho nascer, eu não sou gorda, mas também não pareço com nenhuma mulher de outdoor – nem daqueles que dizem exibir as mulheres reais (o que faz a gente se perguntar: seriam as magras de mentira?).

Embora reeducar a mente seja um trabalhoso exercício diário e em alguns momentos a gente dê 35 passos para trás, a maior diferença entre eu hoje e dois anos atrás não está no desenho da silhueta, mas no significado que vejo nele. (…)”

CLIQUE AQUI para ler até o final, vale a pena 😉

 

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A gente se acostuma a se acostumar

‘E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas’ (Marina Colasanti)

Tenho passado os últimos dias meio cabisbaixa. Dias, semanas, não sei bem. Acho que já transpareci isso por aqui. Pensando em coisas mais ou menos assim: “A gente se acostuma a desistir dos nossos sonhos. A gente se acostuma a viver como uma máquina. A gente se acostuma a se conter. A gente se acostuma a passar sempre pelo mesmo caminho e nem mesmo olhar ao redor. A gente se acostuma com rotinas sem sentido. A gente se acostuma a achar que não pode mais. A gente se acostuma a achar que podemos pouco. A gente se acostuma a achar que já passou da hora. A gente se acostuma a se acomodar. A gente se acostuma a se acostumar com tudo, até o que fazemos de pior ou o que deixamos de fazer de melhor.”

E eis que hoje li um texto de Marina Colasanti que vai muito além. Foi retirado do livro “Eu Sei, Mas não Devia” (Rocco, 1996, página 9). Foi escrito em 1972, mas podia ter sido escrito ontem, de tão atual (ou atemporal) que é. Deixo a íntegra para quem quiser abraçar a mesma reflexão — e que seja útil a vocês como está sendo para mim:

 

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer Continuar lendo

Boas notícias. É o que realmente queremos?

Texto escrito por José de Souza Castro:

Vejo a Cris querendo boas notícias. Quem não quer? Parece óbvia a resposta, mas não é. Estou completando 45 anos de jornalismo e já vi nesse tempo muitas tentativas fracassadas, feitas por jornalistas, de tocar a profissão ocupando-se preferencialmente com boas notícias.

O problema é o leitor. Antes, a natureza humana, que teve como mestra primordial a própria natureza, na qual os fortes se alimentam dos fracos, numa cadeia alimentícia implacável. Ficar atento ao mal à nossa volta é essencial.

Se houvesse grande interesse em boas notícias, os house organs de grandes empresas com suas informações oba oba seriam um sucesso de leitura. Não são. No jornalismo brasileiro, temos muitos exemplos de importantes jornais que fracassaram quando mudaram de orientação para satisfazer governos que queriam boas notícias.

O “Correio da Manhã”, depois de se ver obrigado a fechar por causa da perseguição dos vitoriosos no golpe militar de 1964, deixando para trás um título respeitado, portanto valioso, foi refundado anos depois por empreiteiros incentivados pelo ditador de plantão. E morreu de novo, logo depois. Desta vez, morte inglória.

As revistas “Manchete” e “Fatos e Fotos”, de Adolfo Bloch, tiveram sucesso enquanto apoiavam um governo democrático popular, o de Juscelino Kubitschek. Mas elas sucumbiram ao fazer o mesmo – agora com o reforço de uma concessão, a TV Manchete – à ditadura.

A imprensa mineira, sempre disposta a agradar governos, em busca de verbas oficiais, nunca teve importância.

O “Jornal do Brasil”, relevante entre meados das décadas de 50 e 80 do século passado, começou a naufragar em março de 1985. Conto no livro “Sucursal das Incertezas”. O governo Sarney convenceu Nascimento Britto, genro da condessa Pereira Carneiro, que seria de interesse da empresa publicar boas notícias. A condessa havia morrido e o JB estava em crise, depois de a empresa investir muito para obter a concessão de uma televisão (a futura TV Manchete), negada pelo último ditador.

As “Histórias de Sucesso” patrocinadas pela Petrobras, por ordem de Sarney, e publicadas pelo JB, foram um rumoroso insucesso de leitura. Bem como o esforço do jornal para mostrar um Brasil em pleno crescimento econômico e descobrir cidades com uma população feliz. Trecho de minha narrativa:

“No fim, os proprietários do jornal viram o resultado dessa submissão. Além de o JB perder credibilidade e prestígio, Sarney concedeu a Roberto Marinho mais quatro concessões de televisão, durante seu governo. A televisão Globo massacrava o jornal da condessa. Divulgava doses maciças de publicidade do jornal O Globo, no horário nobre, mediante pagamento apenas simbólico e contábil dessa publicidade (…). Pois, imagine então encontrar, no vasto interior de Minas, uma cidade em que as pessoas sejam felizes… Bom, com muita força de imaginação, é até possível – mas jornalismo, presume-se, lida com fatos. (…) O contraponto ao Brasil visualizado por Sarney e retratado em preto e branco pelo JB veio de pesquisa do Instituto de Estudos Políticos e Sociais dirigido pelo cientista Hélio Jaguaribe. Em 26 de maio de 1986, Ricardo Noblat divulgou em sua coluna política no JB alguns dados da pesquisa: 38 milhões de brasileiros em estado de miséria; metade da população tem acesso a apenas 13% da renda nacional, enquanto 33% estão concentrados nas mãos de 5% da população mais rica; 1% dos mais ricos detém igual percentual (13%) de renda dos 50% mais pobres; a mortalidade infantil é de 65 crianças por mil nascidas vivas; e pelo menos um terço das famílias brasileiras vive em estado de subnutrição.”

Desde então, todos os governos tentaram passar uma imagem de país muito melhorado, com a ajuda interessada da grande imprensa, e, sobretudo da TV Globo. Mas, o que era ruim ficou pior.

É claro que não defendo um jornalismo só de más notícias. É preciso haver equilíbrio. Minha seleção de reportagens, no livro “O Caçador de Estrelas”, reflete essa minha preocupação.

O filósofo Vladimir Safatle reflete sobre a existência de paixões tristes e paixões alegres. Escreveu: Continuar lendo