Crescer é difícil, mas pode ser divertido

Não deixe de assistir: DIVERTIDA MENTE (Inside Out)
Nota 8

divertidamente

Alegria, tristeza, raiva, medo e aversão. Esses sentimentos nos controlam desde o dia em que nascemos e ditam a forma como nos relacionamos com o mundo. Cada um deles tem sua importância.

É essa a mensagem que o filme “Divertida Mente” passa a seus espectadores, mirins ou não. Mas, apesar de ser uma animação, teoricamente voltada para crianças, este filme tem um dos roteiros mais filosóficos da Disney.

Tanto que, além de concorrer como melhor animação no Oscar deste ano, Inside Out também concorre na categoria de melhor roteiro original. Escrito e dirigido por Pete Docter, a mente por trás de outros sucessos como “Toy Story”, “Montros S.A.” e “Up”, o filme envereda fundo dentro da mente humana, passando pelas memórias profundas, as que moldam nossas personalidades, pelos sonhos, pela imaginação, pelo subconsciente e até pelo esquecimento. A história aborda, de forma simples e didática, temas como a nostalgia e o amadurecimento. Mostra como crescer é difícil, principalmente quando estamos deixando de ser crianças, como a personagem do filme, que tem 11 anos de idade.

Originalmente, o filme incluiria outras das várias emoções que sentimos, como orgulho, surpresa e confiança. Elas foram cortadas e os roteiristas deixaram apenas aquelas cinco principais, para facilitar o entendimento. Afinal, mesmo com a redução, a animação já comporta grande nível de complexidade.

Mas não fiquem pensando que é um filme-cabeça disfarçado de animação. Como sugere o nome em português, trata-se de um filme muito divertido, capaz de agradar a todas as crianças — inclusive aquelas que ainda não morreram dentro de nossos cérebros adultos.

Que a ilha da bobeira nunca desapareça! 😀

Veja o trailer do filme:

Leia também:

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A morte de um sábio e a sombra que ele deixou

Reprodução / Facebook

Reprodução / Facebook

Estou triste pela morte de Rubem Alves. Felizmente, ele trata do tema “morte” em várias páginas de seus livros. Sua visão da morte é, como em todas as suas visões, de uma sabedoria sem fim. Sábio, sábio Rubem Alves. Vou lá ler suas palavras para me consolar com sua eternidade literária.

Enquanto isso, deixo aqui recomendado que leiam os dois posts em que escrevi sobre Rubem Alves aqui no blog.

O primeiro é o “Memórias de um sábio — e a solidão infantil”. CLIQUE AQUI para ler.

O segundo, que pode ser visto AQUI, é a resenha de outro livro dele de que gostei muitíssimo, “Ostra Feliz Não Faz Pérola”. Abaixo, um dos continhos que lá encontrei e que iluminaram minha mente:

“Viviam, num país do oriente, cinco cegos que mendigavam juntos à beira de um caminho. Eram amigos em virtude de seu infortúnio comum. Todos tinham um grande desejo. Já haviam ouvido falar de um animal extraordinário, enorme, chamado elefante. Tão maravilhoso era o dito animal que muitos afirmavam que ele era divino. Mas eles, pobres cegos, nunca haviam estado com um elefante. Ah! Como gostariam de conhecer um elefante. Aconteceu, porque Alá ouviu suas preces, que um domador de elefantes foi por aquele caminho conduzindo seu animal. Foi uma festa! A criançada gritando, homens e mulheres falando. Ouvindo tal rebuliço os cegos perguntaram: ” O que está acontecendo?” “Um elefante, um elefante”, responderam. Eles se encheram de alegria e pediram ao domador que os deixassem tocar o elefante, já que ver não podiam. O domador parou o animal e os cegos se aproximaram. Um deles foi pela traseira, agarrou o rabo do elefante e ficou encantado. O segundo foi pelo lado, abraçou uma perna e ficou encantado. O terceiro apalpou o lado do elefante e ficou encantado. O quarto passou as mãos nas orelhas do elefante e ficou encantado. E o último segurou a tromba e ficou encantado. Ido o elefante os cegos começaram a conversar. “Quem diria que o elefante é como uma corda!”, disse o primeiro. “Corda coisa nenhuma”, disse o segundo. ” É como uma palmeira”. “Vocês estão loucos”, disse o terceiro. ” O elefante é como um muro muito alto.” “Vocês não são só cegos dos olhos”, disse o quarto. ” São também cegos da cabeça. Pois é claro que o elefante é como um ventarola.” ” Doidos, doidos”, disse o quinto. ” O elefante é como uma cobra enorme…” Por mais que conversassem eles não conseguiram chegar a um acordo. Começaram a brigar. Separaram-se. E cada um deles formou uma seita religiosa diferente: a seita do deus-corda, a seita do deus-palmeira, a seita do deus-parede, a seita do deus-ventarola, a seita do deus-cobra… Assim são as religiões.”

Rubem Alves não era só um escritor. Era um homem completo em seus 80 anos nesta Terra: pedagogo, poeta, filósofo, cronista, contador de histórias, ensaísta, teólogo, acadêmico, palestrante, autor de livros para crianças e psicanalista. É possível conhecer um pouco de sua carreira AQUI. Era um verdadeiro pensador, dos raros que existem no Brasil. Era bem-humorado, era simples. Fará falta nas páginas dos jornais e nas estantes das livrarias. Agora aguardo ansiosamente pelo surgimento de novos sábios como Rubem Alves, para nos trazer um pouco de alívio e frescor em meio ao blablabá conservador, irracional, extremista, radical, mal-humorado e politicamente correto que assombra nossos tempos modernos.

Leia abaixo:

O homem que enxergava

(Leia antes ESTE post)

escada

Ele respirou fundo e desligou o celular. Tinha acabado de ver uma atualização de status de sua ex-namorada: “em um relacionamento sério”. Maldito Facebook.

Sua primeira reação foi querer deletar a conta naquela rede social estúpida. Pra que ficar se inteirando da vida de pessoas que deveríamos esquecer que existem? Mas preferiu desligar o celular, por via das dúvidas. Penso melhor sobre isso, depois me decido.

Olhou ao redor. O trem estava apinhado de gente, mas bem menos do que no horário de pico. Das vantagens de ter uma jornada de trabalho mais flexível… Ele conseguiu se sentar e resolveu espiar se não havia, de pé, nenhuma pessoa mais velha ou com cara de grávida para quem precisasse ceder seu lugar. Respirou aliviado ao constatar que eram todos marmanjos também.

Passou a olhar para os passageiros que estavam sentados, como ele. Quem seriam aquelas pessoas? Ele gostava de analisar os rostos e tentar adivinhar.

A primeira coisa que notou é que quase todos estavam com o celular na mão, compenetrados. Não sorriam, não tinham nenhuma expressão no rosto, apenas aquela tensão de quem está lendo numa tela pequena e brilhante.

Levou um susto. Ver aquele tanto de pessoas imersas num aparelhinho dava uma sensação estranha. Como se ele estivesse em outro mundo, assistindo, de fora. Como se elas fossem personagens de um filme de ficção científica, e ele estivesse na poltrona do cinema.

Desviou o olhar e viu uma senhora com um livro. Ficou mais aliviado, aquele era um velho conhecido, um objeto milenar e, ao mesmo tempo, precioso e raro, porque quase ninguém o observava mais naqueles vagões.

Tentou ver a capa do livro, percebeu que era um best-seller da moda, algo como “Meu querido John”. Devia ser uma senhora meio frívola e que nunca lia, pensou, quase imediatamente arrependido pelo preconceito que aquele pensamento carregava.

Procurou um novo rosto. Encontrou o de uma moça, jovem como ele, bonita. Ela não estava olhando para o celular, mas tampouco parecia interessada no que acontecia ao seu redor. Estava perdida nos próprios pensamentos, olhando fixamente para um ponto que provavelmente não estava naquela mesma dimensão.

Percebeu que alguma coisa emanava dela, algum sentimento forte, intenso. De repente se deu conta de que era tristeza. Ela estava triste. Teria visto também que seu ex-namorado atualizou o status? Não, certamente era algo muito mais profundo, que não caberia numa rede social.

Ficou abatido com a tristeza daquela moça. E, ao mesmo tempo, sentia uma certa emoção por ter encontrado alguém com um sentimento tão palpável em um mero vagão de trem.

Queria falar com a moça que a tristeza dela não era em vão, que seu sentimento era importante para o mundo, que tinha modificado seu dia e que ela era a pessoa mais viva em toda aquela linha de trem.

Depois de alguns minutos, a moça piscou mais rápido, como que se lembrando de algo, olhou para as placas da estação que se aproximava, e levantou correndo para conseguir sair antes que uma multidão invadisse o vagão.

Num impulso, ele resolveu segui-la, mesmo ainda não sendo sua parada. Não sabia muito bem o que queria fazer, mas não queria perdê-la de vista.

Nas escadas rolantes, segurou seu braço e perguntou, meio sem entender o que queria com aquilo:

– Moça, por que está tão triste?

Ela sorriu, ainda que com um espanto nos olhos, mas respondeu apenas (sem responder nada):

– Obrigada.

E foi embora.

E aí ele se deu conta de que ela agradecia pelo mesmo motivo que ele se sentiu grato ao vê-la no trem: por tê-la lembrado de que, naquela multidão de rostos duros, que mal se dão conta da existência dos outros, ela era a mais viva de todas. E ele, por ter tido a sensibilidade de enxergá-la, também se sentia mais vivo, com todas as tristezas que a vida permite.

Na mesma hora, ligou de novo o celular e deletou a maldita conta do Facebook e todas aquelas atualizações sem sentido.

***

OBS.: Texto ficcional, baseado em um relato real (que li numa atualização do Facebook, vejam só)

Leia também:

Por que aqui é Terra Cinza

Acordei hoje, no meio de um sonho bizarro que ficou sem fim, com aquele despertador cuja música já não aguento mais ouvir — e estava tudo escuro. Uai, horário de verão? Nada, já estamos em abril, lembrei. E já eram 7h10. Fui à janela da sala, onde bate mais luz. Eca, a mesma coisa. Aquela camada de cinza (sim, como se a cor fosse algo sólido) intransponível no céu de São Paulo, que não deixa ver nem contorno de nuvem nem raio de sol nem gota de chuva nem qualquer nuance que nos faça perceber um infinito ao redor. É como se houvesse um cenário de “O Show de Truman”, e não um cosmo. Se puser uma escadaria bem alta, ou subir num balão, toc-toc-toc com a mão na estrutura de concreto.

Bom, para não acharem que estou mentindo, ou que é meu exagero de sempre, seguem as fotos que eu fiz:

Hoje, às 7h15 DA MANHÃ! Fotos: CMC.

Depois me perguntam por que apelidei a Terra Cinza assim. Preciso responder? 😛

Nos primeiros meses aqui, quando eu ainda me sentia perdida, solitária e, muitas vezes, melancólica, esse tempo típico surreal quase me deprimiu.

O que posso dizer aos demais forasteiros desacostumados a céus tão opressivos é: acalmem-se, esse céu também passa! E também pode produzir, após uma noite de céu LARANJA (juro que existe), coisas assim:

Então, sejamos otimistas! Até a Terra Cinza tem salvação. E, depois de um dia cinza, sempre pode vir outro surpreendente (ou um mais cinza ainda, que traz junto a vantagem de reforçar nossa piada ;)).

vinte-e-sete-anosei :)

Acabou o período de fechamento pra balanço!

Apesar dos momentos de melancolia e seriedade que vez por outra me cutucam, não dá pra escapar da conclusão de que, de um modo geral, sou muito feliz.

A tristeza é útil, para nos fazer reconhecer a alegria.

Assim como a morte existe para destacar e distinguir a vida.

Acho que, ao longo desses 27 anos, já tive alguns sobressaltos e sufocos, mas foi com eles que aprendi a ter um mínimo de serenidade apesar da minha natureza ansiosa e hiperativa, que aprendi a contemplar melhor a natureza, em vez de apenas fotografá-la, aprendi a perdoar mais os erros dos outros, em vez de brigar o tempo inteiro (embora haja os perdões mais demorados que outros), aprendi a escolher melhor os amores e me desprender mais rápido dos que não me valorizam, tenho aprendido a gerar valor para meu trabalho e já consegui aprender a administrar minha vida, incluindo todas as contas para pagar e perrengues para lidar. Consegui aprender, até mesmo, a gostar de São Paulo, embora Minas seja incomparavelmente melhor 😀

A vida ficou bem mais veloz de uns tempos para cá: praticamente não vi os últimos cinco anos passarem. Não vi quando um fio de cabelo branco surgiu bem em cima da minha testa. Nem quando a pele embaixo dos meus olhos ficou mais enrugadinha na hora do sorriso. E quando criei uma rotina, totalmente nova, quatro anos atrás.

Os emails semanais, que mando para a família e os amigos de Beagá desde que me mudei, deixaram de trazer mil dilemas e dúvidas e passaram, cada vez mais frequentemente, a trazer apenas o arroz-com-feijão da semana.

Vejo minha vida, até agora, como um filme de muitos lances emocionantes, que eu gostaria de assistir de novo. Estou feliz com esse balanço. Novas aventuras me aguardam até o capítulo final 😀