Antes tarde do que nunca

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O escarcéu com a bagagem do papa

Foto: Alberto Pizzoni/AFP

Foto: Alberto Pizzoni/AFP

Os jornalistas que acompanharam o papa na viagem de volta a Roma se espantaram: o papa subiu no avião carregando sua própria bagagem! Se ele carregou a própria maletinha de mão, sem ajuda de ninguém, deve ter algum bem precioso dentro dela, certo? Perguntaram ao “santo padre” por que ele fez isso, em vez de deixar a “tarefa pesada” a seus auxiliares. E ele respondeu o seguinte:

“Eu sempre fiz isso. Quando viajo, levo minhas coisas. E, dentro, o que tem? Um barbeador, um breviário [livro de liturgia], uma agenda. Tinha um livro para ler, sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre levei a minha maleta. É normal. Temos de ser normais.”

Espanto geral. Pipocam notícias. A foto repercute em todo o mundo. Os jornais de hoje trazem o título “Papa diz que sempre carregou sua própria bagagem de mão“. A TV também só fala nisso.

Há algumas explicações para a surpresa. Uma delas: há pouco mais de dois meses, a “Folha” fez uma reportagem mostrando que o Senado mantém nove funcionários, com salários líquidos de R$ 14 mil a R$ 20 mil, apenas para fazer check-in e despachar as malas dos nossos “sumos” políticos. Na época, um ou outro ficou indignado com o desperdício de dinheiro, mas o fato é que a maioria dos brasileiros já se acostumou a associar “gente com poder” a “regalias”. Uma coisa está praticamente grudada à outra. E acho até que em boa parte do mundo é assim. Não me lembro mais qual grande autoridade, ditador, presidente, rei ou bispo, que disse certa vez que uma das coisas mais surpreendentes do poder é não ter tido nunca mais que abrir e fechar uma porta na vida, pois sempre havia um assistente para fazer o serviço “pesado” de girar a maçaneta (pai, você lembra? Me salva aí nos comentários!).

O fato é que o Vaticano teve uma sacada genial ao convocar esse simpatiquíssimo queixudo para ser o novo papa. Sua mensagem de simplicidade e seu apelo a que sejamos mais “normais” vem numa hora muito propícia, num mundo em crise econômica severa, varrido por protestos e manifestações e com declínio do poder da Igreja, que agora, por pura simpatia, ele começa a refrear. Seja a pessoa católica, evangélica, agnóstica ou ateia, é fácil admitir que o que Jorge Mario Bergoglio diz contém, sobretudo, bastante sabedoria.

***

COBERTURA BABA-OVO – Jornalistas ficaram numa espécie de êxtase ou encantamento, ou foi o puro tino comercial dos executivos de imprensa e mídia do país, mas o fato é que a cobertura do “santo padre” foi, em geral, muito ruim. Em alguns momentos, me pareceu até desrespeitosa com pessoas com outras religiões ou sem religião. Um exemplo de exagero engraçado AQUI.

***

CONSERVADOR OU PROGRESSISTA? – É óbvio que este papa não vai mudar dogmas intrincados da Igreja Católica, como a participação das mulheres, o casamento homossexual, o aborto, o uso da camisinha. Há um poder muito forte por trás dele, milenar, que impediria grandes guinadas. E nem sei se é o interesse dele mudar certas posições, mesmo em nome de resgatar “ovelhas desgarradas”. De qualquer forma, já li várias frases progressistas atribuídas ao papa. Tentei procurá-las agora, pra este post, mas estou sem tempo. Lembro que ele já sinalizou aproximação com outras religiões (é grande amigo pessoal de um rabino, por exemplo), que ele destaca sempre a necessidade de acolher os mais pobres (não é à toa que na visita ao Brasil foi primeiro a uma favela), que já frisou em vários momentos que prefere se despojar da riqueza sempre reservada aos chefes da Igreja e do Estado, que já disse que é “obrigação do cristão envolver-se na política”, que já afirmou que casais que moram junto antes do matrimônio são um “fato antropológico”, que o condutor da paróquia não tem o direito de se meter na vida privada dos outros e, agora, por fim, que “se a pessoa é gay, quem sou eu para julgá-la?“. São coisas pequenas diante dos incríveis 2.013 anos pós-Cristo em que vivemos, evoluindo a passos de tartaruga. Mas, vindo de quem vêm, já são revolucionárias e podem contribuir para que algumas pessoas que se julgam superiores apenas por seguirem uma religião aprendam a se enxergar com mais simplicidade e a ver o outro, por mais diferente que seja, como um igual.

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A banca da Creusa e a informação inflacionada

Quando eu era criança, ao longo de vários anos, ia passear com a Kika (meu apelido surgiu dessa minha querida vira-lata) até a padaria, para comprar pão, e depois ficava no mínimo uns 30 minutos batendo papo com a Creusa, dona da banca de revistas em frente. Fiz amizade com vários vizinhos ali na banca, troquei figurinhas de álbuns — compradas na banca da Creusa — com outras crianças, e foi ali mesmo, na frente da banca, que consegui meu primeiro “emprego fixo”, para dar aulas particulares à filha de uma moradora da região.

A Creusa era amiga de todos do bairro e sempre prestava informações a todos que pediam. Não é à toa que fazia tão boas vendas, porque ir-até-a-banca-da-Creusa já era quase que um programa por si só, e não só um acidente de percurso, uma passagem até a padaria. E a Creusa continua firme e forte no mesmo ponto, até hoje. Mesmo quando a padaria ia fechando por falta de clientes.

Todo mundo sabe que jornaleiro, trocador de ônibus e taxista são as três pessoas mais indicadas para prestar informações sobre as ruas. Ah sim, e os carteiros, mas eles a gente vê com menos frequência. É parte da profissão: o jornaleiro sendo um expert nas redondezas, o trocador sendo um conhecedor do trajeto de seu ônibus e o taxista, o bom taxista, tendo um mapa da cidade toda na cabeça. Esse “domínio de informações geográficas” deveria ser motivo de orgulho desses profissionais e tenho certeza que, quando as prestam com gentileza, eles saem ganhando a simpatia de um futuro cliente.

Mas eis que hoje leio na “Folha”, em matéria do Leandro Machado, que um jornaleiro do bairro Água Branca, em São Paulo, resolveu cobrar R$ 8 para dar esse tipo de informação! Uma inflação absurda, porque, em um mês, passou a cifra de R$ 2 para R$ 8. Diz que é pra evitar amolação, porque “virou vício” pedir informação a jornaleiro. Ora, mas que amolação ele evita? Comparem os dois diálogos abaixo:

DIÁLOGO 1

— Por favor, o sr. sabe onde fica a rua Dona Germaine Burchard?

— Sim, é só virar a primeira à esquerda.

— Muito obrigada! E quanto tá o chocolate? Mê vê dois, por favor.

DIÁLOGO 2

— Por favor, o sr. sabe onde fica a rua Dona Germaine Burchard?

— Custa R$ 8 a informação. Tá na placa aí fora.

— O quê? R$ 8 pra dizer o nome de uma rua? O sr. tá brincando?!

— Não. Tá na placa.

— Não vou pagar! Que absurdo!

— Então não sei onde fica a rua.

— Vai tomar no %$#¨%$, seu mal-humorado! Sovina! Nunca mais compro nada nessa banca!

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, na "Folha" de 29.7.2013

Foto: Eduardo Knapp/Folhapress, na “Folha” de 29.7.2013

Enfim, acho que os diálogos se aproximam da realidade e mostram que a amolação, provavelmente, triplicou. Como diz uma colega: “RIP Gentileza” (“Descanse em paz”). O que o “Palmeirense” ganha com essa atitude? Certamente, não deve ter ganhado R$ 8 de ninguém. Mas sim uma antipatia generalizada de quem precisava genuinamente de informação e pensava poder contar com ela a partir de uma pessoa que está fixa no bairro há anos. Quem sabe virar cliente dessa pessoa.

Eu já tinha notado essa má vontade algumas vezes lá em São Paulo. Na avenida Paulista mesmo, às vezes me desnorteava sobre qual era a estação seguinte e perguntava na banca: a Trianon está pra lá ou pra cá? Sempre com cuidado pra ver se o jornaleiro estava ocupado atendendo alguém na hora ou não. Bastava o cara apontar um dedinho pra um dos dois lados, mas, não raro, ele respondia, rabugento: “Não sei!” Ora, como não sabe? Que má vontade! E eu desistia na hora de fazer uma das coisas que eu mais gostava na vida, graças à banca da Creusa: ficar por ali mais uns minutinhos, olhando as revistas, e escolher umas duas pra levar.

Enfim, na minha opinião, a falta de gentileza faz todo mundo perder. Não só quem leva a patada, mas, muito mais, quem a desfere. E o mundo vai ficando cada vez mais cinza na Terra Cinza…

Dia das avós

avos

Eu nem lembrava mais que era em 26 de julho que se comemorava o dia dos avós. Afinal, não tenho avós há muito tempo já. Mais tempo que eu gostaria de lembrar. Os avós eu nem cheguei a conhecer. E as avós eu perdi, uma aos 11 anos de idade, e outra aos 16.

Foi uma mensagem carinhosa escrita pela colega Isis para sua avó que me encheu de lembranças das minhas vovós Rosa e Angélica.

A primeira era a melhor cozinheira do universo. Sei que esse título é disputado por quase todas as avós do mundo, mas duvido que alguma supere a cozinha da vovó Rosa. E ela amava cozinhar. Fazia roscas deliciosas, doces, biscoitões de polvilho. Toda semana, fazia meu bolo de banana com canela favorito e enviava lá pra casa. Eu passava minhas férias com ela, brincando no playground com as outras crianças do prédio ou com minha prima Marcela, e também ia todos os domingos para o almoço de família — que, naquela época, reunia todos os tios e primos, em casa lotada. Ah sim, almoço precedido de duas fornadas de pães de queijo feitos e amassados pela vovó, infinitamente mais gostosos que esses “Forno de Minas” da vida. Outra coisa que ela adorava fazer era jogar baralho — buraco ou mexe-mexe. E ela roubava em todos os jogos! Eu deixava, então ela adorava jogar comigo. Passávamos tarde inteiras só jogando. Nossa música favorita era “Eu Sei que Vou te Amar” na versão do Milton Nascimento, que a gente ouvia no repeat durante os jogos. Como gostava tanto de comer quanto de cozinhar, ela era muito gorda, chegou a bater os 90 kg. Mas aí entrou no Vigilantes do Peso e ficou toda satisfeita quando atingiu a meta dos 70 kg e ganhou um chaveirinho para certificar, que mostrava pra todo mundo. Quando ela morreu, de infarto fulminante, em 1996, guardei esse chaveirinho de lembrança, que está comigo até hoje. Curioso que o que mais lembro dela é justamente sua gordura, porque não tinha nada mais gostoso do que abraçá-la, sempre quentinha, sorridente, baixinha, e com algum perfume superforte no cangote 🙂

Tive menos contato com a vovó Angélica, porque ela morava no interior e só íamos vê-la de vez em quando. Além disso, ela tinha muito mais filhos e netos com quem dividir a atenção. Mas também lembro com carinho dela. Infelizmente, o que mais me marcou foram seus últimos anos, já atingida pelo Mal de Alzheimer, que se agravou nos últimos cinco anos, mais ou menos. No começo, ela ainda sabia que eu era sua neta e filha de quem. Depois de um tempo, passou a saber apenas que eu era uma neta, mas não sabia muito bem de qual filho. Por um bom tempo, eu era apenas um sorriso. Explico: ela não sabia quem eu era, era a “menina” que aparecia de vez em quando, mas bastava eu abrir meu sorriso que os olhos dela se iluminavam, registrando o reconhecimento. Isso enchia meu peito de alegria. Até que um dia, em que chorei até, eu sorri e os olhos dela continuaram opacos. Ela não tinha a mais remota ideia de quem eu era. Antes de perder o bem mais precioso de um ser humano — a capacidade de se comunicar –, o que vovó Angélica mais gostava de fazer era relembrar coisas do seu passado mais distante, da primeira infância. Acho que quanto mais velhos nos tornamos, mais vamos reconquistando nosso lado criança perdido no tempo. E ela ficava cantando músicas e falando trava-línguas de seu tempo de criança.

Um deles eu lembro até hoje:

“Eu c’aminha, cumade c’adela.

Bebemo café e fumo.

Cheguemo lá, topei Dano com a vara de tocá gado

E nem fé deu!”

Lendo rápido, vira um amontoado de cacófatos escatológicos e engraçadíssimos, ainda mais partindo de uma senhora de 82 anos, com óculos pesados sobre o narizinho fino, cabelos partidos ao meio, lisinhos e, naquela época, branquíssimos (pararam de pintá-los depois de um tempo). Ela morreu em 2001.

Tanto vovó Rosa quanto vovó Angélica nasceram no inverno, sendo que esta última nasceu no dia em que a estação começa. Esta época de frio, mas, em Minas, de céu normalmente azulíssimo, e lua absurdamente cheia e amarela. Foram avós curtas na minha vida, mas deixaram muitas lembranças boas. Que minhas sobrinhas aproveitem bastante os avós que têm, porque são pessoas muito importantes em nossas vidas 🙂

E você, já ligou para seus avós hoje?

***

Leia também:

A saga do Galo na Libertadores, em 13 estrofes

(Reprodução da SporTV)

(Reprodução da SporTV)

1

Começou desacreditado

Desde 71, coisa e tal

Independência lotado

Contra o São Paulo maioral.

Junior César machuca,

Ronaldinho “goleia” Rogério

E o 2 a 1 começa assim

Com pegadinha levada a sério.

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2

Depois, em duas semanas

Desta vez fora de casa,

aquela virada que amamos

Arsenal, 2; 5, a Massa.

3

Os “mais fortes” sofrem de cara

3 minutos, 4 escanteios

Mas chutam primeiro gol antes,

que Tardelli empata, certeiro.

Depois, encaixa mais um, anulado

Mas Marcos Rocha sofre pênalti feio

Ronaldinho cobra, abençoado,

e garante a bola no meio.

2 a 1, sem receio!

4

Eis que a volta é em La Paz

3.000 metros de altitude.

Mas 2 a 1 o Galo refaz

Lidera grupo com folga e saúde.

5

Repetir placar é mais legal

Dá sorte e um bom presságio

E de novo o pobre Arsenal

Levou 5 a 2 no nosso estádio.

6

Voltamos ao Morumbi

Desta vez, só para o treino

São 2 a 0 pro São Paulo

Que já se vê como freio.

Imprensa paulista comemora

Pobre Galo contra a tradição

Mas logo verá que foi antes da hora

Mais adiante ainda tem muito chão.

"Camisa pesa". Pesou tanto que até afundou! :D

“Camisa pesa”. Pesou tanto que até afundou! 😀

7

De novo, no Morumbi

E São Paulo faz 1 a 0

De virada eu preferi

ver nossos dois gols, é vero.

Insistem que Lúcio expulso

Mudara o rumo da noite

Mas o 4 a 1 no susto

Confirma quem deu o açoite.

8

Já nas Quartas de final

no México do Tijuana

2 a 0, íamos mal,

até Tardelli salvar na gana

e Luan, com sangue nos ói,

aos 46, empatar a gincana.

9

Que Pânico a volta, deus!

1 a 1 era medo certo

E o pênalti aos 47

parecia o fim do time seleto.

Mas eis que o pé do Victor

desvia a bola do trajeto.

galo2

10

É semifinal em Rosário

e os “velhos garotos” marcam dois

“Sonhando com o quê, otária?”

Ouço dos cruzeirenses depois.

11

Mas, espera, acabou não!

2 a 0 garantimos

Apaga a luz, meu irmão,

pros pênaltis entoa os hinos.

Jô do céu! Ô Richarlyson!

Mas, ó, eu ainda acredito!

Ronaldinho marca golaço

E, perfeito, defende São Victor.

— Libera o grito!

galo3

12

Olímpia jogava mal

na final em Assunção.

Mas Galo jogou pior

nos deixou em suspensão.

Mas 100% confiantes

Até cruzeirense pôs Galo em bolão,

Vetam o Horto das mortes

Semana na fila pro Mineirão.

(60 mil com coração na mão)

13

Finalmente o grand finale

Torcida que mais canta no mundo

Muitos olé! Vários dá-lhe!

E o time jogando muito.

.

Primeiro tempo sofrido

Segundo tempo chorado

Prorrogação conquistada

Até pênalti suado

Com defesa de cara — e toda bola encaixada!

.

Fácil não ia ser

Que nada pro Galo é de graça

Com esta saga conquistamos

A Libertadores na raça.

Brasil inteiro torceu

Sorriu, chorou, não entendeu

Mas ninguém está mais feliz

Que este gigante do país, a Massa.

***

Escrito por Cristina Moreno de Castro em 24.7.13 (2 + 4 + 7 = 13, o Galo)

Pode compartilhar à vontade, mas com link pra fonte, plis 😉

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(Reprodução da SporTV)

Foto de João Godinho, de "O Tempo" (25.7.2013)

Foto de João Godinho, de “O Tempo” (25.7.2013)