Francisco, um papa subversivo

Foto: Korean Culture and Information Service

Foto: Korean Culture and Information Service

Texto escrito por José de Souza Castro:

A impressão é que a imprensa mundial controlada pelo grande capital não sabe o que fazer com o Papa Francisco. Não dá para ignorá-lo. Mas que saudades dos tempos do Papa João Paulo II… Aquilo é que era Papa, apesar de polonês! Melhor do que Pio XII, outro grande batalhador contra o comunismo. Sim, um papa italiano piedoso. Admirável, não obstante, ou até por isso, o apreço dele ao fascismo, pelo menos quando este estava em voga durante boa parte de seu longo reinado.

Já não foi fácil lidar com o Papa João XXIII e Paulo VI a acenarem com uma insuspeitada – e suspeita – preferência da Igreja pelos pobres. Por sorte, ambos tiveram um curto reinado. Se o mesmo ocorrer com esse Papa argentino, o humilde Francisco ganhará soberbos necrológios na imprensa que, caridosamente, vai omitir aquelas maluquices que ele pronunciou em castelhano, aqui bem perto de nós, na Santa Cruz de la Sierra, no dia 9 de julho.

Os que ignoraram o que disse o Papa na sua visita à Bolívia, porque não o ouviram ou leram, na ocasião, em nossa imprensa – que tinha coisas mais importantes a tratar, como o impeachment da presidente Dilma ou, mais importante, a desconstrução da imagem de Lula, um presidente populista que ameaça voltar em 2018 –, certamente vão continuar assim, para maior tranquilidade de nossos banqueiros.

Nossos leitores, porém, merecem conhecer um pouco do que disse o Papa “anticapitalista”, como já está sendo rotulado.

“Reconhecemos”, disse Francisco, “que as coisas não andam bem num mundo onde há tantos camponeses sem terra, tantas famílias sem teto, tantos trabalhadores sem direitos, tantas pessoas feridas em sua dignidade”.

Culpa de quem? De uma “economia que exclui e mata”. E não só o homem: “Reconhecemos que as coisas não andam bem quando o solo, a água, o ar e todos os seres da criação estão sob ameaça constante”, afirmou o Papa vermelho. Sim, tão vermelho quanto o Lula! Pois Francisco condena um sistema que impõe a lógica do lucro a todo custo e no qual o dinheiro “reina ao invés de servir”.

Não se ouviria da boca de tantos sábios padres que o precederam palavras como estas pronunciadas por Francisco naquele dia feito para ser esquecido pela imprensa: “Quando o capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema socioeconômico, arruína a sociedade, condena o homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo”.

Talvez se ouvisse algo assim, prestando muita atenção, das bocas ímpias de um Marx ou um Keynes, não de alguém que se julgue representante de Deus na Terra. Deixemos Marx pra lá, para não eriçar alguns pelos delicados, mas Keynes teve a ousadia de dizer que “love of money” é uma patologia, uma aberração, que deveria ser extirpada através da tributação progressiva e da “eutanásia do rentista”.

Voltemos a Francisco: “Os seres humanos e a natureza, disse ele, não devem estar ao serviço do dinheiro. Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra.”

O Papa Francisco sonha com outra economia: “Uma economia verdadeiramente comunitária – poder-se-ia dizer, uma economia de inspiração cristã – deve garantir aos povos dignidade, ‘prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos’. Isto envolve não apenas os ‘3 T’ (Terra, Trabalho e Teto), mas também acesso à educação, à saúde, à inovação, às manifestações artísticas e culturais, à comunicação, ao desporto e à recreação . Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma aposentadoria digna na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social.”

Para o Papa, que parece viver em Marte, essa economia é possível. Sendo utopia o que ele diz, não é a de alguém que não conheça nossa realidade. “O colonialismo, novo e velho, que reduz os países pobres a meros fornecedores de matérias-primas e mão de obra barata, gera violência, miséria, emigrações forçadas e todos os males que vêm juntos”, diagnostica Francisco, que vai além: “Digamos NÃO às velhas e novas formas de colonialismo.”

Estará o Papa se referindo ao colonialismo imposto pelo capital financeiro? Tenho por mim que sim. É ele que vem obrigando governos progressistas, entre eles, o do Brasil, a praticarem políticas econômicas ortodoxas, com o apoio interesseiro dos grandes meios de comunicação.

Há 40 anos, as palavras do Papa em Santa Cruz de la Sierra seriam classificadas pelo governo brasileiro como subversivas. Operação Condor nele! Mas os tempos são outros e Francisco não se cala: “Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas”, diz. E completa: “A nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro.”

Parece pouco, mas não é.

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85 anos depois, ainda há vinhas da ira

vinhas

“As Vinhas da Ira” é um daqueles poucos livros que você lê e sofre o impacto das cenas e palavras durante o resto da vida. Mais: é um livro que retrata uma situação específica — a vida itinerante dos boias-frias norte-americanos durante a Depressão dos anos 1930 naquele país –, mas de uma maneira universal. Tanto que até hoje podemos fazer um paralelo daquela realidade com, digamos, a dos imigrantes africanos na França ou com a de moradores de ocupações aqui mesmo, em Beagá.

Não foi à toa que o livro rendeu um Pulitzer a John Steinbeck e o consagrou como um dos autores mais importantes da literatura universal, vencedor do Prêmio Nobel. É um clássico sobre temas universais, como a miséria, a esperança, a solidariedade, a família, o sonho e o trabalho.

Steinbeck tece a história em capítulos alternados: em alguns, ele pinta o quadro geral, sem nomes para os personagens, como se estivesse abrindo sua lente grande-angular. Em outros, ele dá um zoom na família Joad, que tem o pai, o tio John, a mãe (a personagem mais extraordinária da história), os filhos Tom, Al, Noah, Rosa de Sharon, as crianças Ruthie e Winfield, o avô, a avó, Connie (marido de Rosa) e o ex-pregador Casy, que traz as principais reflexões sobre o que está acontecendo.

Assim, enquanto acompanhamos a saga dessa família, somos sempre interrompidos por um contexto maior, que a situa em meio a milhares/lhões de outras famílias em situação idêntica.

São nesses momentos de generalizações que o autor escreve as pérolas sobre a gaita e o violão e sobre os pecadores, que reproduzi aqui no blog nos últimos dias, além de outros pensamentos sobre a força motivadora da ira (em contraste com o desalento da tristeza) e histórias paralelas de quem foi testemunha ocular daquela migração leste-oeste: donos de postos de gasolina, vendedores de carros velhíssimos, donos de oficinas, garçonetes de beira de estrada etc.

Durante e ao fim da leitura, depois de termos viajado tantos quilômetros com aquela família, e de termos passado por tantos perrengues e injustiças, vemos a ira crescendo dentro da gente, junto a um cansaço enorme, uma sensação de impotência. Poucos são os livros que alimentam sentimentos tão intensos nos leitores.

Senti falta do humor que está sempre presente nos livros de Steinbeck — mas talvez não fosse o caso de abrir brecha para a graça, mesmo. O que é contado ali — e ainda ocorre, em várias partes do planeta — é muito cruel. O único respiro de leveza no romance é observar que, mesmo na miséria total, é possível haver dignidade e solidariedade entre os humanos, inclusive entre completos desconhecidos. Se isso era possível até naquele cenário, por que não seria também no nosso Brasil de hoje?

As Vinhas da Ira (Original: The Grapes of Wrath, de 1939)
John Steinbeck
BestBolso edições
585 páginas
De R$ 24,65 a R$ 59,63

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Quem são nossos moradores de rua?

Não encontrei quem é o autor da foto.

Não encontrei quem é o autor da foto.

Na semana passada, a prefeitura de Belo Horizonte divulgou um estudo muito importante: o terceiro Censo da População em Situação de Rua na cidade. Falhou, no entanto, ao não divulgar, nem disponibilizar em seu site, os dois censos que tinham sido feitos anteriormente, para que pudéssemos ver um panorama histórico desse problema.

Este blog solicitou os dois censos na última sexta-feira, mas a Secretaria de Políticas Sociais informou que eles não são fáceis de encontrar e só poderia nos enviar a partir desta segunda-feira. Como amanhã entro de férias (:D), resolvi buscar ajuda no incansável Google e encontrei um estudo da UFMG que traz alguns dos dados que eu queria. Pode ser lido AQUI.

Eu sempre fui fascinada com o assunto “moradores de rua”, e vira e mexe ele é abordado aqui no blog (veja longa lista ao pé do post). Mexe muito comigo ver uma pessoa dormindo no chão, ao relento, se aquecendo com caixas de papelão, pedindo ajuda para comer e tomar água. Lá em São Paulo, me impressionava demais a quantidade de moradores de rua, de usuários de crack e de crianças pequenas, magrelas, que eu via estendidos no chão perto do bairro em que eu morava — Santa Cecília — como se fossem mortos. Às vezes as crianças estavam tão apagadas que ficavam fervendo no sol de meio-dia, com mosquitos no rosto e pés passando sobre elas, e nem assim acordavam. Também já contei aqui como fiquei “amiga” dos moradores de rua que ficavam na praça onde eu ia fazer caminhada e como me sentia segura com eles por perto, para me proteger de bandidos. Já interceptei muito guarda municipal que ia lá mexer com eles, como se estivessem cometendo um crime. Não, ficar na rua, dormir e morar na rua, não são crimes. São tragédias humanas e sociais, mas não crimes.

Seja como for, acho importantíssimo esse censo, essa tentativa de conhecer os anônimos que não têm endereço fixo, mas que precisam mais do que muitos da ajuda do Estado e das pessoas devidamente endereçadas. É uma forma de tirá-los da invisibilidade. Acho que todo mundo deveria se debruçar sobre os dados divulgados pela prefeitura para tentar entender quem são essas pessoas. E o Estado, mais do que ninguém, para desenvolver políticas sociais melhores.

Eu me debrucei. O arquivo pode ser baixado por quem quiser, basta clicar AQUI.

O primeiro dado impressionante é como a quantidade de pessoas nas ruas aumentou em Belo Horizonte. Em 1998, segundo aquele estudo da UFMG que citei mais acima, havia 1.120 moradores de rua. Em 2005, sete anos depois, havia 1.239 (um aumento de 10%). E agora, em 2013, oito anos depois, havia 1.827 (um aumento de 47% em oito anos e de 63% em 15 anos).

Quem são esses 1.827 moradores de rua em Beagá?

Segue um perfil, a partir dos dados majoritários: eles são homens (86%), têm principalmente entre 31 e 45 anos, são negros e pardos (79,4%), heterossexuais (93,7%), sabem ler e escrever (82%), são mineiros (75%) e principalmente de BH ou de cidades próximas. Os que vieram de outras cidades queriam encontrar um trabalho (47%) e permaneceram justamente para trabalhar (31%), 46% já passaram por abrigos e 40% já estiveram presos, 52% foram parar nas ruas por problemas familiares e 43,9%, também por causa do alcoolismo (36% também por falta de moradia). Moram sozinhos nas ruas, sem grupo, parente ou companheiro (64%), nunca se encontram com os parentes (39%). Já trabalharam fichados, mas não no momento (70%), hoje trabalham principalmente com coleta de recicláveis. Já sofreram roubo, furto, preconceito, ameaça, tentativa de homicídio, remoção forçada, violência sexual e outros crimes violentos, e os crimes foram cometidos principalmente por agentes públicos (44%) ou por outros moradores de rua (43%), querem sair das ruas (94%), utilizam as unidades de acolhimento da prefeitura (46%), possuem algum documento (78%) — e 48% têm título de eleitor, viu candidatos? 31% recebem Bolsa Família e só minorias de 1% a 3% recebem outro tipo de benefício, como seguro-desemprego e aposentadoria. Têm principalmente hipertensão (16%) e doenças de pele (14%), 13% têm alguma deficiência física e 5% têm algum transtorno mental — 43% têm depressão. 48% não usam drogas, mas 32% usam crack, 69% bebem, dos quais metade bebe todos os dias. Ficam principalmente na região Centro-Sul da cidade (44,8%).

Destaquei em negrito os dados que mais me impressionaram e acho que merecem mais atenção.

Um dado me chamou a atenção positivamente, principalmente por atestar em números uma percepção que eu já tinha: em 1998, havia 204 menores de idade nas ruas, ou seja, crianças e adolescentes. Eram os meninos de rua, que chamávamos de “pivetes”, e eram muito-muito comuns em Belo Horizonte. Em 2005, o número de menores de idade caiu para 75. E, em 2013, havia só 13 crianças e adolescentes nas ruas, segundo a constatação do censo. A população de rua envelheceu ou as crianças estão ficando mais no banco da escola? Acho que um pouco das duas coisas, e parte da segunda podemos colocar na conta do Bolsa Família, que tem a importante exigência de obrigar as crianças a terem frequência escolar para que o benefício seja concedido aos pais.

Apesar desse dado positivo, podemos concluir que nossos moradores de rua estão adoentados, sofrem cotidianas formas de violência, dependem de subemprego para tocar a vida (muito mais que de bolsas e demais benefícios), são solitários, usam drogas e álcool com frequência para tolerar esta vida, não param de crescer e, sobretudo, esmagadoramente: quase todos querem sair das ruas (94%, poxa!).

Eles se concentram na região mais rica da cidade, a Centro-Sul, não por acaso: contam com a solidariedade dos mais afortunados, com suas doações e esmolas, com ajuda dos comerciantes e donos de bares e restaurantes. Que tal retribuirmos esse voto de confiança?

ADENDO de 6/6/2014: Consegui obter os outros dois censos, CLIQUE AQUI para ler 😉

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Defesa desleal do mercado para médicos brasileiros

Charge do Lute para o jornal "Hoje em Dia" de  25.8.2013.

Charge do Lute para o jornal “Hoje em Dia” de 25.8.2013.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Os brasileiros têm assistido nos últimos dias grande batalha entre o Ministério da Saúde e os Conselhos de Medicina. O primeiro parece defender o direito à saúde, explicitado na Constituição de 1988, mesmo que esteja de olho nas eleições de 2014 como alegam os que a ele se opõem; o segundo parece mais atento, salvo melhor juízo, à reserva de mercado para meio milhão de médicos brasileiros, se tanto, num país de quase 200 milhões de habitantes.

Depois das tentativas de demonstrar que há médicos em número suficiente no Brasil, o Conselho Federal de Medicina, que nos últimos anos vinha se destacando no combate à abertura de novas escolas de medicina, parece ter-se retraído, abatido pelos números impressionantes de falta de médicos nos municípios e regiões mais pobres divulgados pelo governo. O alarido maior agora vem dos Conselhos Regionais de Medicina. No último sábado, o correspondente da Agência Folha em Minas, Paulo Peixoto, publicou na “Folha de S. Paulo” o seguinte:

“Em tom de ameaça, representantes regionais da classe médica rotularam ontem de ‘ilegal’ a atuação de profissionais cubanos no Brasil por meio do programa Mais Médicos e prometeram acionar a polícia quando eles começarem a trabalhar no país.

Presidentes de CRMs (Conselhos Regionais de Medicina) também chamaram o programa de ‘afronta’ e disseram que eventuais erros cometidos por cubanos não serão corrigidos por brasileiros”.

O ministro da Saúde, de acordo com a Agência Estado, repudiou veementemente a declaração do presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas, João Batista Gomes Soares, que aconselhou médicos brasileiros a não socorrerem erros que venham a ser cometidos por colegas cubanos no programa Mais Médicos. “Não sei em qual juramento ele se baseou para fazer essa declaração. É omissão de socorro e é afronta ao código de ética médica. Nenhum profissional pode se negar a atender ou socorrer qualquer brasileiro ou brasileira”, disse o ministro Alexandre Padilha.

E acrescentou:

“Não admitimos qualquer incitação ao preconceito ou à xenofobia. Temos de receber de braços abertos os médicos e médicas que aceitaram convite do governo brasileiro, muitos deles colocando dinheiro em segundo plano”.

No texto de Peixoto, chamou atenção essa declaração de outro presidente de CRM, o do Maranhão, Estado que tem um dos piores atendimentos de saúde do país: “Não vamos dar registro para médico estrangeiro só porque a Dilma, o Padilha e o Mercadante, a tríade do mal no Brasil, estão mandando”. [O presidente desse Conselho Regional de Medicina chama-se Abdon Murad Neto.] E esta outra, do presidente do CRM do Paraná, Alexandre Bley: “É lei [o Revalida]. Não importa se o médico veio no colo do ministro ou da Dilma. É exercício ilegal da profissão, e isso é caso de polícia”.

Será? Mas não é lei, também, a Medida Provisória que liberou tais médicos – nesse caso específico – do exame de validação de diplomas para formados em escolas de medicina estrangeiras? O Revalida, pelo que se alega, tem servido de barreira quase intransponível para que médicos estrangeiros possam trabalhar no Brasil. Não sei quanto à sua dificuldade, pois nada entendo de medicina, mas bem que gostaria de ver quantos dirigentes do CFM e dos CRMs seriam aprovados num exame desses.

O que parece claro para mim é a defesa intransigente de um mercado, à custa de uma população sofrida. Sem dúvida, é atitude legítima de entidades de classe querer valorizar a profissão, mas não à custa de um povo e de outros profissionais. E muito menos sob o pretexto de estar defendendo a saúde dos brasileiros.

Um pretexto que não colou quando quiseram derrubar os vetos da presidente Dilma Rousseff à Lei do Ato Médico aprovado pelo Congresso Nacional. A manutenção dos vetos era defendida por 13 categorias não médicas, entre elas, psicólogos e enfermeiros. Os vetos foram mantidos pela maioria dos 458 deputados e 70 senadores que participaram da votação, há seis dias. “Com os vetos, prova-se possível que a atividade dos médicos seja regulamentada, sem que isso interfira de forma perniciosa na atuação de outros profissionais que se orgulham por participar da construção diária de uma saúde multiprofissional”, comemorou o Conselho Federal de Psicologia, que congrega 235 mil profissionais. Para o presidente do Conselho Federal de Enfermagem, Osvaldo Albuquerque, “os parlamentares tomaram o remédio da lógica e da razão”.

Enquanto os Conselhos de Medicina não fizerem o mesmo, veremos esse assunto tomando o tempo de juízes. Já se tentou no Supremo Tribunal Federal a declaração de inconstitucionalidade do programa Mais Médicos. Outras ações estão previstas. A cada ação deve corresponder uma reação. Como ocorreu, há um ano, quando o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) quis proibir o trabalho de parteiras e a realização de partos, mesmo feito por médicos, fora dos hospitais.

Essa defesa da profissão de médicos – reforçada, no caso, pela defesa dos hospitais – se vingasse, poderia impedir o trabalho de uma profissão tradicional no Brasil, reconhecida pelo Ministério da Saúde e regulamentada pela lei nº 7.498/86. A proibição foi derrubada pela 2ª Vara Federal do Rio, em ação proposta pelo Conselho Regional de Enfermagem. Segundo o juiz Gustavo Arruda Macedo, as resoluções 265 e 266 do Cremerj são incompatíveis com as normas federais e inviabilizam o exercício da atividade de parteiras, “porquanto ao mesmo tempo em que proíbem a atuação de médicos em partos domiciliares, com exceção das situações de emergência, também vedam a participação das aludidas profissionais em partos hospitalares”.

As resoluções do Cremerj eram pioneiras e, certamente, seriam acompanhadas por outros Conselhos Regionais, se subsistissem.

A mim, sobram motivos pessoais para defender essa categoria visada, pois eu e a maioria dos meus 11 irmãos – inclusive o que é médico – nascemos aos cuidados de uma parteira, numa área rural do interior de Minas. Infelizmente, não sei o nome dela, ao contrário de Alair Martins, o fundador do Grupo Martins, de Uberlândia, cuja biografia foi escrita por dois professores da Fundação Dom Cabral e está sendo lançada pela Campus/Elsevier. A parteira que foi à fazenda Córrego da Gordura, onde ele nasceu em fevereiro de 1934, era conhecida como Sá Marica. Feliz com mais um parto bem-sucedido, ela teria profetizado ao pai de Alair, seu Jerônimo: “Olha, esse menino vai ter muita sorte.”

É o que queremos para todos os brasileiros, principalmente para os que tiverem a sorte de serem atendidos por médicos, qualquer que seja a sua nacionalidade.

Infográfico da "Folha de S.Paulo" muito antes do imbróglio atual.

Infográfico da “Folha de S.Paulo” muito antes do imbróglio atual.

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O escarcéu com a bagagem do papa

Foto: Alberto Pizzoni/AFP

Foto: Alberto Pizzoni/AFP

Os jornalistas que acompanharam o papa na viagem de volta a Roma se espantaram: o papa subiu no avião carregando sua própria bagagem! Se ele carregou a própria maletinha de mão, sem ajuda de ninguém, deve ter algum bem precioso dentro dela, certo? Perguntaram ao “santo padre” por que ele fez isso, em vez de deixar a “tarefa pesada” a seus auxiliares. E ele respondeu o seguinte:

“Eu sempre fiz isso. Quando viajo, levo minhas coisas. E, dentro, o que tem? Um barbeador, um breviário [livro de liturgia], uma agenda. Tinha um livro para ler, sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre levei a minha maleta. É normal. Temos de ser normais.”

Espanto geral. Pipocam notícias. A foto repercute em todo o mundo. Os jornais de hoje trazem o título “Papa diz que sempre carregou sua própria bagagem de mão“. A TV também só fala nisso.

Há algumas explicações para a surpresa. Uma delas: há pouco mais de dois meses, a “Folha” fez uma reportagem mostrando que o Senado mantém nove funcionários, com salários líquidos de R$ 14 mil a R$ 20 mil, apenas para fazer check-in e despachar as malas dos nossos “sumos” políticos. Na época, um ou outro ficou indignado com o desperdício de dinheiro, mas o fato é que a maioria dos brasileiros já se acostumou a associar “gente com poder” a “regalias”. Uma coisa está praticamente grudada à outra. E acho até que em boa parte do mundo é assim. Não me lembro mais qual grande autoridade, ditador, presidente, rei ou bispo, que disse certa vez que uma das coisas mais surpreendentes do poder é não ter tido nunca mais que abrir e fechar uma porta na vida, pois sempre havia um assistente para fazer o serviço “pesado” de girar a maçaneta (pai, você lembra? Me salva aí nos comentários!).

O fato é que o Vaticano teve uma sacada genial ao convocar esse simpatiquíssimo queixudo para ser o novo papa. Sua mensagem de simplicidade e seu apelo a que sejamos mais “normais” vem numa hora muito propícia, num mundo em crise econômica severa, varrido por protestos e manifestações e com declínio do poder da Igreja, que agora, por pura simpatia, ele começa a refrear. Seja a pessoa católica, evangélica, agnóstica ou ateia, é fácil admitir que o que Jorge Mario Bergoglio diz contém, sobretudo, bastante sabedoria.

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COBERTURA BABA-OVO – Jornalistas ficaram numa espécie de êxtase ou encantamento, ou foi o puro tino comercial dos executivos de imprensa e mídia do país, mas o fato é que a cobertura do “santo padre” foi, em geral, muito ruim. Em alguns momentos, me pareceu até desrespeitosa com pessoas com outras religiões ou sem religião. Um exemplo de exagero engraçado AQUI.

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CONSERVADOR OU PROGRESSISTA? – É óbvio que este papa não vai mudar dogmas intrincados da Igreja Católica, como a participação das mulheres, o casamento homossexual, o aborto, o uso da camisinha. Há um poder muito forte por trás dele, milenar, que impediria grandes guinadas. E nem sei se é o interesse dele mudar certas posições, mesmo em nome de resgatar “ovelhas desgarradas”. De qualquer forma, já li várias frases progressistas atribuídas ao papa. Tentei procurá-las agora, pra este post, mas estou sem tempo. Lembro que ele já sinalizou aproximação com outras religiões (é grande amigo pessoal de um rabino, por exemplo), que ele destaca sempre a necessidade de acolher os mais pobres (não é à toa que na visita ao Brasil foi primeiro a uma favela), que já frisou em vários momentos que prefere se despojar da riqueza sempre reservada aos chefes da Igreja e do Estado, que já disse que é “obrigação do cristão envolver-se na política”, que já afirmou que casais que moram junto antes do matrimônio são um “fato antropológico”, que o condutor da paróquia não tem o direito de se meter na vida privada dos outros e, agora, por fim, que “se a pessoa é gay, quem sou eu para julgá-la?“. São coisas pequenas diante dos incríveis 2.013 anos pós-Cristo em que vivemos, evoluindo a passos de tartaruga. Mas, vindo de quem vêm, já são revolucionárias e podem contribuir para que algumas pessoas que se julgam superiores apenas por seguirem uma religião aprendam a se enxergar com mais simplicidade e a ver o outro, por mais diferente que seja, como um igual.

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