O jornalismo como conheci está com os dias contados

Quando eu era criança, sempre que me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, respondia: “Quero ser autora!” Achava que autora era mais chique que escritora.

O fato é que eu queria escrever histórias, contar histórias. E o fazia, desde bem cedo. Dia desses, meu pai encontrou na casa dele meu primeiro livro: “A Festa Encantada”. Fiz ilustração para meu texto e, no fim, escrevi, como estava acostumada a ler nos meus livrinhos da época: “A autora – Cristina tem 8 anos e esse foi o primeiro livro dela. Ela nasceu em 27 de março de 1985. Tem 25 parágrafos.” E pus a data: 16 de agosto de 1993.

Depois deste, não parei mais. “O Terremoto”, segundo me conta a última folha de papel almaço em que ele está grampeado, foi meu quarto livro. “A autora – Ela fez esse livro porque gosta de histórias. Fez porque gosta de ler”, escrevi, referindo-me a mim mesma em terceira pessoa. E prossegui, sem modéstia nenhuma: “Tinha hora que ela ficava com dúvida do que escrever, mas no final dava um livro bom e bonito”.

Depois de um tempo, em vez de imaginar que eu queria ser escritora, passei a me imaginar jornalista. “Ser escritora não dá dinheiro”, ouvi por aí – e isso ficou marcado na minha alma. “Nem profissão é.” E jornalista era a profissão do meu pai. O melhor de tudo: eu seria remunerada para contar histórias!

Fiz jornalismo para escrever textos e contar boas histórias.

Na “Folha de S.Paulo”, meu primeiro emprego como jornalista, pude mesmo contar boas histórias. Eu trabalhava em Cotidiano, a editoria que era a clássica editoria de Cidades, mas que, como seu nome diz, agregava um pouco mais que isso. Ali entravam, por exemplo, discussões que corriam no STF e poderiam impactar todo o Brasil. Notícias de comportamento. Não era só o que estava acontecendo na avenida Paulista ou no Jardim Pantanal, embora, é claro, essas histórias da cidade de São Paulo coubessem muito bem ali dentro.

Tive um pauteiro muito legal, o Guto Gonçalves, que valorizava meus potenciais, ainda que eu fosse só uma repórter iniciante. Ouvi do subeditor Conrado Corsalette que eu tinha grande sensibilidade e grande texto, duas características importantes para um repórter, e isso me deixou muito entusiasmada. Eu não me importava de pegar as histórias que não seriam a manchete do dia seguinte, desde que pudesse escrever um bom texto sobre elas, desde que fossem boas histórias. Claro, eu cobri todo tipo de coisa, não só as boas histórias. Mas é delas que eu mais me orgulho e de que mais me lembro.

Das histórias de personagens como o doutor Ratão, o Bob Chiclete, o detetive Eric, os pais avós e o skinhead gay que luta contra a homofobia. Ou de histórias da cidade mesmo: o lado B da avenida Paulista, os fícus que adoeceram misteriosamente, os prédios que passaram a multar por causa de palavrão, os clubes obrigando as babás a usarem branco, o último bonde de São Paulo. E a história que mais gostei de contar, a dos órfãos do Rodoanel.

Decidi sair da “Folha” por N motivos, deixei São Paulo por outros N e retomei minha vida em Beagá, numa decisão da qual nunca me arrependi, pelo contrário. Aqui na terrinha, tive oportunidade de contar mais algumas histórias e editar outras tantas. O que mais mudou nesses mais de seis anos desde a minha volta a BH não foi a minha vontade de sempre estar perto das boas histórias, foi o jornalismo.

Se antes o bloquinho e a caneta eram os instrumentos mais importantes para um repórter, inseparáveis mesmo, hoje tudo está lá no smartphone. Eu saía às ruas com um gravador de fita K7, hoje os meninos vão com o celular mesmo. Gravam, escrevem, enviam, tudo por ele. Parabéns para os avanços tecnológicos.

Por outro lado, sinto que o interesse pelos textos vem diminuindo proporcionalmente a esse avanço tecnológico. Que o leitor não quer mais, realmente, ler uma boa história, porque contenta-se com um stories curtinho de Instagram, mostrando um clique e uma frase. Um tweet de 140 caracteres resolve, é fácil de compartilhar, então pra que estender demais?

A necessidade de hoje é poder compartilhar, e não absorver internamente. Para compartilhar, basta ler o título. Daí porque ficou tão fácil deturpar as mensagens e criar fake news (mas isso é tema para outros posts).

escrevi sobre isso aqui no blog, mas meu foco era outro. Meu desalento de cinco anos atrás era com o fim das cartas e e-mails e, com isso, o fim de memórias pessoais e coletivas. Hoje minha preocupação é com o fim do jornalismo como eu o conheci e desejei. Afinal, as qualidades mais requisitadas dos jornalistas hoje não são bom faro para pautas, boa apuração e bom texto. Mas sim a capacidade de fazer vídeos para as redes sociais, subir rápido um lide burocrático para alimentar o portal, ter olhar multimídia e ser conhecedor de marketing digital.

E tudo isso mudou em coisa de cinco anos. Um pulo!

As Redações, como as conhecemos, estão com os dias contados. Mas contados MESMO, não tem mais vez. OK, o jornalismo não vai acabar, está se reinventando, o problema é que está virando uma coisa que se distancia cada vez mais do meu objetivo ao me tornar jornalista. Eu não quero ser a tarada das notícias, a pessoa que recebe todos os alertas pelo whatsapp assim que a coisa acontece, que fica sabendo de tudo o tempo todo. Eu queria mesmo era ser aquela pessoa que se debruça sobre uma boa história e vai fundo nela, e trabalha com cuidado no lide, para que o texto seja realmente saboroso para o leitor final.

E eu realmente me esmerava nos lides:





Só que o leitor final parece que não quer mais saber disso, então uma coisa não sustenta a outra.

Chego aos 34 anos, mais de 12 de formada, com um bocadinho de experiência em jornalismo tradicional, com passagem por rádio, jornal diário, revista e portal de notícias. Mas, diante do que se espera hoje do jornalismo e dos jornalistas, sinto-me cada vez mais defasada e, ao mesmo tempo, com muitas potencialidades represadas dentro de mim. Com a Cris de 8 anos coçando para continuar perseguindo o sonho de ser “autora”, mas numa realidade em que o que menos se pede e espera é investimento em textos.

Uma verdadeira sinuca, que muito me angustia. Que já me angustiava há uns quatro anos, mas de um jeito diferente, e hoje sinto urgência em encontrar uma saída.

Se alguém esperava um final para este post, pode esperar sentado. Porque o final é esta falta de solução. Talvez valha terminar com um pedido de socorro: alguém tem alguma boa ideia? Uma luz no fim do túnel? Sou toda ouvidos.

 

Leia também:

 

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‘The Post’, filme sobre jornalismo que já não se pratica mais, merecia 8 em vez de 2 indicações

Para ver no cinema: THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post)
Nota 9

A partir de agora, todos os estudantes de jornalismo passarão a assistir a este filme em seus cursos de graduação, assim como já deviam ver Spotlight, Todos os Homens do Presidente, e tantos outros filmes clássicos nostálgicos sobre um jornalismo que já não se pratica mais. Mas não se iludam, caros aspirantes a repórteres e editores: vocês não encontrarão mais, em nenhuma Redação, esse nível de comprometimento com a notícia e descomprometimento com o governante da vez.

Talvez por isso mesmo, cheguei a chorar em determinado ponto do filme, saudosista de um jornalismo que nunca cheguei a viver, fora do meu sonho e da minha imaginação. Que me fez mergulhar nesta profissão tão cheia de altos e baixos, em constante montanha-russa. Saudosista ainda de um tempo em que as pessoas faziam manifestações nas ruas em defesa da liberdade de imprensa, em que os jornais se preocupavam em ter uma equipe de repórteres de grande qualidade, que ganharia salários decentes e teria até três meses para mergulhar numa história de forma aprofundada, para realmente soltar uma manchete de impacto. E que ocuparia até seis páginas de jornal, que depois seria lido e relido por todos, em todos os lugares.

Hoje temos Redações sucateadas, pequenas, jornalistas pouco preparados, com tempo corrido demais para fazer qualquer coisa realmente aprofundada, e leitores pouco interessados nessa leitura mais árdua, em tempos de tweets e zaps curtíssimos.

Enfim. Já estou mudando de assunto.

Voltando ao “The Post”, ficou claro que um dos motivos pelos quais adorei o filme Continuar lendo

Vamos abraçar o Setembro Dourado?

A pequena Sophia, de 3 anos, foi prejudicada pelo diagnóstico tardio, por culpa de médicos despreparados. Por isso a campanha Setembro Dourado é tão importante: até a comunidade médica não dá a devida atenção aos sintomas do câncer infantojuvenil! Foto: Gustavo Andrade / Canguru

Pra quem não sabe, começou hoje o mês para se falar sobre as crianças com câncer.

São muitos os meses “coloridos” que criaram para tudo quanto é causa, o que acho que enfraquece as campanhas que realmente importam, mas o Setembro Dourado, o Outubro Rosa e o Novembro Azul têm toda a minha atenção.

Você quer ler uma reportagem sobre o câncer infantojuvenil que vai realmente te sensibilizar para o assunto? Recomendo a leitura da revista “Canguru” deste mês, que foi a que mais gostei de editar desde que comecei a trabalhar lá, há um ano e um mês. A reportagem de capa, assinada pela excelente Rafaela Matias, está emocionante. De quebra, nos mostra como podemos ajudar — são muitas as formas!

CLIQUE AQUI e boa leitura 😉 ❤ Ah, não se esqueça de compartilhar.

Minha seleção pessoal de notícias boas que ajudei a divulgar

Foto: Nidin Sanches / Canguru

 

Na semana passada, compartilhei aqui minha exasperação ao ler apenas notícias tenebrosas no noticiário em geral. Crimes e outros relatos, principalmente nas editorias de Cidades, de fazer a gente perder a fé na humanidade. Tipo tatuagem na testa de garoto e afins.

Instei os leitores a procurarem notícias boas nos sites e jornais e me ajudarem a formar uma coleção de histórias bacanas e inspiradoras aqui no blog – mas recebi pouquíssimo retorno, porque a maioria só encontrou notícias péssimas mesmo.

Por fim, meu pai escreveu ontem um contraponto a essas divagações, em que contou do esforço dos governos, desde sempre, em comprarem a imprensa para apenas noticiarem coisas boas sobre o país/Estado/cidade e sobre o interesse maior dos leitores em lerem noticias ruins do que boas.

Pra fechar o assunto, que já está rendendo demais, quero apenas deixar claro que as notícias boas que eu defendo no noticiário não são aquelas pagas ou encomendadas pelo governante-anunciante da vez, mas as várias histórias incríveis que pululam ao nosso redor, e que cabe ao repórter com alguma sensibilidade conseguir descobrir e recontar.

Felizmente, tive a oportunidade de tomar conhecimento de algumas dessas histórias, nos veículos onde trabalhei, e sempre gostei de valorizá-las em minhas sugestões em pauta. Em meio ao negativismo majoritário, dos acidentes, crimes, desvios e cagadas em geral dos governantes, acho que cabe um respiro de humanidade.

Compartilho aqui 20 reportagens que gostei de ter feito e que, mesmo quando não se tratam 100% de “notícias boas”, muitas vezes carregam histórias curiosas que fazem os olhos da gente brilharem um tiquinho: Continuar lendo

O repórter Jorge Bastos Moreno e seus amigos

O jornalista Jorge Bastos Moreno | Foto: Reprodução

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Uma das últimas notícias publicadas pelo Blog do Moreno, dia 12, tem como título “Quadrilha’ de Aécio perde integrantes”. Dois dias depois, o dono do blog, Jorge Bastos Moreno, morreu – e me lembrei do dia em que conheci esse jornalista muito conhecido por seu trabalho no jornal “O Globo” e noutros veículos do grupo de Roberto Marinho.

Moreno foi muito elogiado, nesta quarta-feira, como um dos maiores repórteres brasileiros, sobretudo na TV Globo e na Globo News. Ao morrer, estava com 63 anos. Quando o conheci, ele tinha 36; eu, dez anos mais velho, nunca havia encontrado um repórter com tanta garra na busca da notícia exclusiva.

Encontrei-o em São João Del Rei, no dia 8 de dezembro de 1990, para cobrir, pelo “O Globo”, a solenidade de inauguração do Memorial Tancredo Neves. Dias antes, eu estivera lá para escrever sobre esse memorial que estava sendo organizado por Andrea Neves, a neta de Tancredo, hoje presa numa penitenciária mineira como cúmplice do irmão, o senador afastado Aécio Neves.

Andrea não ficou nem um pouco satisfeita, naquele dia, quando me apresentei como repórter do Globo e informei sobre a pauta recebida da redação, no Rio.

— Quem te mandou aqui? — perguntou.

— Um editor que ficou sabendo, provavelmente por você, desse museu Tancredo Neves.

Seguiu-se uma discussão. Continuar lendo