A galeria [definitiva] de ipês do inverno de 2017

Começa hoje a primavera, conhecida como estação das cores. Mas acho o apelido meio injusto com o inverno — a estação do ano, ao menos aqui no Sudeste brasileiro, em que o céu está mais azul-azul-sem-nuvens, e em que as paisagens são cortadas a todo instante pela amarelidão maravilhosa dos ipês. Ou por suas variáveis rosas, roxas e brancas. Sim, os ipês são minhas árvores favoritas (não diga, Cris!).

Como já virou tradição aqui no blog, no começo do inverno, pedi aos leitores que cruzassem com essas lindas árvores em seu horizonte para enviarem uma foto delas para mim. Recebi, ao todo, 84 imagens, de ipês roxos, rosas, amarelos e brancos, clicadas em várias cidades de Minas, São Paulo e Goiás. Obrigada a todos que contribuíram, de coração! ❤

Nesta troca de estação, encerro a coleta de fotos de 2017 com a linda galeria abaixo, todas árvores flagradas neste ano. Você não verá outra galeria de fotos tão bonita e completa assim:

 

CLIQUE AQUI para ver a galeria completa, com fotos também dos invernos de 2014 e 2015.

Leia também:

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Toda criança tem algum objeto de devoção: a fase do boi

Boi da cara preta 🙂

O pai do Luiz foi com ele a uma livraria pequenininha que existe aqui no bairro, por onde eles passam quase todos os dias. Desta vez, entraram, e o Luiz pôde escolher o livro que quisesse de presente. Ele viu um livro com um boi imenso na capa e imediatamente escolheu aquele.

O pai comentou com a dona da lojinha:

— Luiz é doido com boi! (Já foi doido com passarinho, depois com urso — por causa de Masha e o Urso –, mas agora ele só fala em boi, pede para ouvir a música do boi da cara preta, pede para ver ilustrações de bois nos livros, pede para achar bois no YouTube etc.)

Ao que ela respondeu:

— Engraçado, cada criança que vem aqui tem alguma fixação diferente. Tem menino que é louco por carros, outros são doidos com aviões, outros preferem dinossauros. Mas toda criança é doida por alguma coisa!

Em casa, quando ouvi essa história, concluí que a fixação do Luiz é com animais. Todos os dias, antes de dormir, ele pede para ver um livro de contos favorito. Fica irritado quando tento ler um conto: o que ele quer mesmo é sair ditando os animais, um a um, enquanto corro para encontrar suas ilustrações pelas páginas. Começa sempre pelo boi. Depois é o peixe, o urso, o fapo (sapo), o au-au, a popó, o gol (Galo), a anhanha (aranha), o côrco (porco), e assim por diante. É emocionante ver a empolgação com que ele narra essas palavrinhas lindas, nomes de animais, que estão entre as primeiras de seu já extenso vocabulário, e vai brilhando os olhos à medida que reconhece os desenhos correspondentes a cada nome.

Depois, ele se despede do livro e me pede de novo: “Boi! Boi”. Desta vez, sei que ele quer é ouvir minha versão adaptada para a música do boi da cara preta, que hoje é sua favorita para a hora de dormir:

Como eu disse mais acima, o boi não foi sempre o rei das preferências do Luiz. Já foi precedido pelo urso e pelo passarinho. E suspeito que logo dará lugar a outro herói mais fácil de se encontrar nos desenhos animados e produtos licenciados. Até que talvez chegue o dia em que ele não tenha mais nenhuma fixação, em que nada faça seus olhinhos brilharem com a mesma alegria devota de hoje. Ele terá, então, deixado de ser criança.

***

Conte para mim: seu filhote é doido com quê? Qual é a fixação dele/a?

Brasil, o ex-país do Carnaval

Carnaval do Rio em 2014, bons tempos. Foto: Wikimedia Commons

 

Dia desses, postei no Facebook um singelo desabafo:

Me perguntaram a que aspecto eu me referia e respondi: “Vários, basta acompanhar o noticiário”.

O noticiário que coloca um defensor da ditadura militar e de torturador condenado nas primeiras posições da disputa presidencial. Um noticiário que entrevista esse cara e ouve dele que transformará, caso eleito, todas as escolas em colégios militares. Um noticiário que mostra que um grupelho de aborrecentes reacionários conseguiu censurar uma mostra que reúne várias obras de arte, algumas centenárias. E até um tumblr foi banido em consequência disso. O noticiário recente inteiro me mostra um país cada dia mais careta e carola, mais a fim de marchar e rezar, um ex-país do Carnaval, do Stanislaw, do criativo, do humor, do samba e do lúdico. Um país cada dia mais obscurantista, fanático, retrógrado, radical. De volta à Idade Média.

Suspiros.

Esta obra é de 1910, for Christ sake!!!

Eu não ia mais escrever sobre Bolsonaros, MBLs e afins porque acho que esses caras não deveriam ganhar nenhuma linha no noticiário, nem nos jornalões nem nos blogs alternativos. Também não ia comentar o caso do Santander, porque, sinceramente, foi um assunto da semana retrasada e tendo a achar que tudo o que devia ser dito a respeito já foi, tanto pelos xiitas quanto pelos “sunitas”.

Mas hoje concluí que trata-se daqueles temas que a gente não pode deixar de se posicionar, pra não consentir calando. E, ainda por cima, é um dos temas que são mais caros a este blog. Já disse aqui antes: não levanto bandeira de quase nada nesta vida, mas se tem uma causa que eu abraço é a da liberdade de expressão, imprensa e pensamento. Liberdade artística, é claro, entra no meio.

Vi as peças — algumas poucas, dentro da enorme coletânea — que seriam expostas pelo Queer Museu. Minha reação foi parecida com a que tenho após visitar qualquer exposição: achei algumas obras péssimas, outras geniais, algumas vazias e outras bonitas. Não sou crítica nem super entendida de arte, então essa minha opinião é simplesmente irrelevante.

Só acho que todos têm direito a produzir e expor arte. E que arte tem como um de seus objetivos justamente incomodar, provocar, pôr o dedo na ferida para gerar reflexão ou mudanças. Algo que essa coleção censurada conseguiu, afinal, tá de parabéns. “Ah, mas é ofensivo”. Se todas as obras de arte que ofendem a algum grupinho tivessem que ser censuradas, não haveria mais arte no mundo. Só a ditadura do pensamento único. Charlie Hebdo ofendeu um grupo islâmico radical e levou bomba. É isso que queremos? Censura ou bomba para tudo o que nos incomoda ou diverge de nós?

“Ah, mas crianças não deveriam ver”. E daí? Existe um mecanismo aplicado há anos pelo Ministério da Justiça que se chama “classificação indicativa”. Só garotos acima de 14, 16 anos estão preparados para ver algumas daquelas peças? Bota classificação então, tão simples.

Mas não: o Brasil abdicou do direito de pensar, de rir, de provocar. Agora a ordem da vez é marchar e rezar. Salve-se quem puder.

Cena do clipe superclássico do Pink Floyd “Another Brick in the Wall”

 

Leia também:

  1. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  2. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?
  3. Manifesto a favor do direito de divergir
  4. Fanatismo é burro, mas perigoso
  5. O anarquista que enxerga
  6. Para uns, para outros e para mim
  7. Tem certeza absoluta? Que pena
  8. O vizinho que pensa diferente de você
  9. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  10. Reflexão para as pessoas cheias de si
  11. A saudável loucura de cada um de nós
  12. Qual é a sua opinião, cidadão?
  13. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  14. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  15. Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

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O engenheiro Geraldo e a navalha de Maugham

Texto escrito por José de Souza Castro:

W. Somerset Maugham, romancista e dramaturgo nascido em Paris em janeiro de 1874, já havia publicado 39 livros ao lançar, em 1946, “The Razor’s Edge” (“O Fio da Navalha”). Eu estava na faculdade quando li esse livro pela primeira vez. Na época, com menos de 30 anos de idade, não me chamou a atenção um parágrafo sobre a velhice, ao contrário de agora, quando o estou relendo.

“Pela primeira vez em quarenta anos Elliott não passava a primavera em Paris. Embora não aparentasse essa idade, estava agora com setenta anos e, como acontece comumente com homens tão idosos, havia dias em que se sentia cansado e doente. Ia aos poucos abandonando os exercícios e agora quase que só se limitava aos passeios a pé. Preocupava-se muito com a saúde e seu médico vinha vê-lo duas vezes por semana, para espetar alternadamente numa das nádegas uma agulha com a injeção da moda. Em todas as refeições, tanto em casa como fora, Elliott tirava do bolso um estojinho de ouro e dele extraía um comprimido, engolindo-o com o ar compenetrado de quem está cumprindo um rito sagrado.”

Quando se é jovem, um homem de 49 anos parece velho. Foi nessa idade que Plínio Carneiro, meu professor de Relações Públicas no curso de Jornalismo da UFMG, morreu em consequência de um aneurisma cerebral, deixando viúva e duas filhas adolescentes. Eu gostava muito dele e me consolei pensando que Plínio já havia vivido muito – e bem.

Mas Maugham, ao escrever aquilo, estava com 70 anos. Teve tempo e disposição para escrever depois mais 15 livros, incluindo “A Servidão Humana”. Foi um escritor incansável. Aos 13 anos, teve publicado seu livro de estreia, “O Pecado de Liza”, e aos 87, “Purely for My Pleasure”, o último de seus 55 romances, livros de viagem e crítica, aos quais se somam mais 24 peças teatrais. Só morreu em dezembro de 1965, faltando um mês para completar 90 anos.

Eu pensava nisso, sem tantos detalhes, quando encontrei no clube em que caminho diariamente por uma hora e faço mais meia hora de ginástica, um velho desconhecido que estava tentando ver seu peso numa balança, com dificuldade para enxergar, perto dos pés, os números. Continuar lendo

No dia da maior birra, fiz uma coisa simples — e a reação do meu filho foi surpreendente

Meu filhote ainda não chegou aos temidos 2 anos, mas já aprendeu a fazer um pouco de birra. Ou manha, ou pirraça, chame como preferir.

Nada como lemos em vários relatos por aí, de se deitar no chão da fila do supermercado e espernear por alguma coisa, ou de ficar 5 minutos inteiros gritando a plenos pulmões, ou de prender a respiração até desmaiar, ou de se bater, ou de bater em mim.

Nada tão dramático. Mas ele já faz aquela manha básica e esperada para a faixa de idade. Que a gente lê que é um grande marco do desenvolvimento da criança, porque mostra que ela chegou ao ponto de querer marcar posição, de querer testar seus limites, de querer tentar ser mais independente. Legal, legal, mas que é uma fase danada de chata, isso é. Daí porque ganhou o apelido de “terrible two”.

Eis que, há algumas noites atrás, Luiz fez uma birra maior que de costume. Além de jorrar suco pelo chão da sala — algo que ele sabe que eu detesto que ele faça, e faz, e depois ainda me olha, bem desafiador, mostrando que fez –, de cuspir toda a comida da janta que passei um tempão cozinhando — outra coisa que ele sabe que eu detesto que ele faça –, de repetir o cuspe na segunda tentativa de janta da noite, de jogar comida no chão, ele ainda gritou bem alto quando falei com ele que estava errado etc.

Às vezes dá vontade de apenas chorar. Ou de dar um gritão mais alto que o dele, competindo pra ver quem é a criança mais pirracenta da casa. Ou de dar uma daquelas palmadas dos tempos da geração da minha avó (porque meus pais nunca me bateram). Ou de deixar ele num cantinho, com a porta fechada, chorando até que ele se canse.

Mas aí me lembro que a mãe sou eu, que a adulta sou eu, que a pessoa com um mínimo de maturidade sou eu, que ele não tem nem 2 anos de idade, que se eu gritar ele vai achar que ganha quem grita mais alto, que se eu bater ele vai achar que ganha quem usa a violência, que tem hora que é cansativo, mas ninguém nunca me falou que a maternidade era bolinho.

E o que fiz naquela noite foi o seguinte. E deu certo:

1- Desisti de dar o jantar e fui dar o banho nele enquanto ele chorava, falando (num tom de voz normal) que não tinha por que ele chorar e que eu não tinha gostado nem um pouco do comportamento anterior.

2- Enquanto tomava o banho, cercado de brinquedos, ele foi parando de chorar aos poucos e começou a se acalmar. E eu falando sem parar nem por um minuto. Que não foi legal o que ele fez etc.

3- Ao deitá-lo no trocador para colocar a roupinha, ele já completamente calmo e sem chorar, aproveitei que ele estava mais atento e fiz um longo discurso. Disse que ele tinha feito três coisas erradas: desperdiçado comida que a mamãe tinha cozinhado com todo o carinho; desobedecido a mamãe, ao fazer algo que já falei mil vezes para não fazer (jogar comida e suco no chão); e desrespeitado a mamãe, ao gritar enquanto eu estava corrigindo o que ele tinha feito de errado.

4- Repeti esse discurso com as palavras mais simples que encontrei, da forma mais clara que encontrei, num tom de voz baixo (mas firme), sempre olhando nos olhos do Luiz, enquanto colocava a roupa nele. Quando chegava ao fim do falatório, perguntava: “Entendeu?”. Fiz isso umas quatro vezes, até que, na última, ele acenou positivamente com a cabeça, olhando para mim, e percebi, pelo olhar dele, que ele realmente tinha entendido.

5- Logo em seguida, ele se sentou e disse “Mamãe!”, num tom de voz alegre, pegou no meu rosto com as duas mãozinhas, aproximou os olhinhos dos meus, e fez carinho. Nunca vou me esquecer dessa reação tão espontânea e, ao mesmo tempo, inusitada, depois de ter ouvido quatro ou cinco vezes o mesmo longo e entediante sermão. Foi muito mágico! Depois disso, ele pediu pela comida que tinha jogado no chão antes do banho, e comeu um pouquinho antes de recusar de vez. Era um daqueles dias de pouca fome e eu não sou de ficar forçando a comer quando não tá a fim.

Depois daquela noite, ele não chegou a fazer nenhuma birra que mereça destaque. Ficou naquela. E levei como lição para mim que, por mais difícil que seja, é importante insistir na compreensão. Uma criança de 2 anos tem capacidade de compreensão já impressionante, mas ainda limitada. Cabe a mim, a adulta da família, a mãe, a comunicadora por formação e profissão, achar um jeito de me fazer comunicar, de me fazer entender, de ser compreendida pelo meu pequeno.

Essas ideias que algumas pessoas têm de que crianças de apenas 2 anos estão “manipulando” me parecem completamente nonsense. Para mim, eles são apenas serzinhos em desenvolvimento — e acontece, muitas vezes, de serem mais desenvolvidos do que muita gente que já tem décadas de vida nas costas. Que bom que meu Luiz está me permitindo seguir em constante evolução, ao lado dele!

***

P.S. Antes que alguém comente isso: sei que ainda há uma longa jornada da “fase da birra” pela frente. É bem provável que outras birras, mais homéricas, ainda aconteçam, e não sei se minha “fórmula mágica” vai funcionar nas próximas vezes. Simplesmente porque não exitem fórmulas mágicas, não é mesmo? Cada dia é um dia, cada experiência é única, e raramente as reações se repetem. Mas a cada experiência aprendemos um pouquinho mais, Luiz e eu, e o pai dele. Que assim seja!

E você, como lida ou lidou com as birras dos seus filhos? Como passou pela “terrible two”?