O grande blefe do ministro Guedes

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes blefa

O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu paciência, durante “um ou dois anos”, para que o Brasil volte a crescer em razão de suas medidas ultraliberais. Terão os brasileiros mais paciência que os chilenos?

Os chilenos, depois de 17 anos submetidos à ditadura Pinochet que ainda orgulha Bolsonaro e Guedes – este, um admirador das reformas defendidas pela Escola de Chicago, que na época era o templo mundial do ultraliberalismo –, perderam a paciência, botaram o general para correr, e voltaram a ser governados pela socialdemocracia.

Para manter os chilenos “pacientes”, a ditadura assassinou 3.200 opositores, prendeu e torturou 38 mil pessoas e 100 mil foram obrigados a se exilar. Durante os primeiros 12 anos da ditadura, os mais brutais, o governo militar impôs “toque de recolher” a todos, de 10 da noite às 6 da manhã.

Esses dados, tirei-os de um artigo, assinado pelo cientista político José Luís Fiori. Tem como título “O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes”. O blefe é apostar que o Chile de Pinochet teve um modelo econômico que deve ser imitado.

Na verdade, um modelo catastrófico, sustenta Fiori, contrapondo-se ao que diz toda a imprensa conservadora e o que expressa o “superministro” de Economia do capitão.

Os economistas da Escola de Chicago imperaram no Chile de 1973, ano do golpe militar, a 1982, quando uma crise catastrófica obrigou Pinochet a estatizar o sistema bancário chileno, demitir o seu superministro da Economia e reverter várias reformas, como a desregulamentação do setor financeiro e da própria política cambial que vinha sendo praticada pelo Banco Central do Chile.

Em 1982, o PIB chileno caiu 13,4%, o desemprego chegou a 19,6% e 30% da população chilena se tornou dependente dos programas de assistência social que foram criados ad hoc, para enfrentar a crise. “E assim mesmo, quatro anos depois, já em 1986, o PIB per capita chileno ainda era de apenas US$ 1.525, inferior ao patamar que havia alcançado em 1973”, diz Fiori.

Quando a ditadura acabou, em 1990, o PIB real per capita médio do Chile havia crescido apenas 1,6% ao ano. A taxa de desemprego estava em 18%. E 45% da população viviam abaixo da linha da pobreza.

Guedes tenta impor ao Brasil, um país de mais de 200 milhões de habitantes e uma indústria relevante, um modelo que fracassou no Chile, que tinha apenas 10 milhões de habitantes em 1973 e uma única indústria importante, a do cobre. É uma indústria estatal que nem mesmo os “Chicago Boys”, em seu auge, ousaram privatizar.

Mas eles, ao longo da ditadura, conseguiram realizar reformas, que se repetiram no mundo, em governos neoliberais: flexibilização ou precarização do mercado de trabalho; privatização do setor produtivo estatal; abertura e desregulação de todos os mercados, e em particular, do mercado financeiro; abertura comercial radical e fim de todo tipo de protecionismo; privatização das políticas sociais de saúde, educação e previdência; e finalmente, privatização inclusive dos serviços públicos mais elementares, tipo água, esgoto, e de fornecimento de energia e gás.

No Brasil de Bolsonaro, elas avançam muito. Bem mais que no de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer.

Impulsionadas pelo presidente direitista dos Estados Unidos, que nesta semana impôs condições para fechar um acordo comercial com o Brasil. Tais como: proteção à propriedade intelectual americana, redução de barreiras às empresas americanas e restrição do papel das estatais brasileiras.

É um modelo que está levando a Argentina ao fracasso e à derrota eleitoral de seu presidente e que vem se mostrando ineficiente em todos os países que o adotaram. Mas Guedes e seus amigos economistas não desistem. Em suas análises, quando falam do Chile, sempre se esquecem de dizer que esse país só se tornou o que é hoje depois do fim da ditadura e a partir do momento em que voltou a ser governado pela socialdemocracia.

Fazendo lobby pela aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, nomeado por Guedes e Bolsonaro, disse na última terça-feira, no Senado, que sem essa aprovação, que autorizaria a União a fazer pagamento de US$ 9 bilhões em indenização à estatal, esta não poderá participar do leilão da cessão onerosa de áreas do pré-sal, previsto para o início de novembro.

Uma boa desculpa para vender tudo às multinacionais do petróleo, como exige Trump, que só quer em seu quintal uma única potência – os Estados Unidos.

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‘Lula não teve direito a um julgamento imparcial’, dizem juristas ao redor do mundo

“Ficamos chocados ao ver como as regras fundamentais do devido processo legal brasileiro foram violadas sem qualquer pudor. Num país onde a Justiça é a mesma para todos, um juiz não pode ser simultaneamente juiz e parte num processo.”

“Hoje, está claro que Lula não teve direito a um julgamento imparcial. Ressalte-se que, segundo o próprio Sérgio Moro, ele foi condenado por “fatos indeterminados”. Um empresário cujo depoimento deu origem a uma das condenações do ex-presidente chegou a admitir que foi forçado a construir uma narrativa que incriminasse Lula, sob pressão dos procuradores. Na verdade, Lula não foi julgado, foi e está sendo vítima de uma perseguição política.”

“No caso de Lula, não só a Justiça foi instrumentalizada para fins políticos como o Estado de Direito foi claramente desrespeitado, a fim de eliminar o ex-presidente da disputa política.”

Quem fez estas declarações não fui eu, uma mera jornalista, mas sim 17 juristas do mais alto calibre, de vários países do mundo.

Susan Rose-Ackerman já tinha declarado que ofensiva contra a corrupção no Brasil não pode ser seletiva. Foto: Chiago-Kent College of Law

Entre eles, Susan Rose-Ackerman, professora da Universidade de Yale, uma das mais prestigiosas dos EUA. Susan é tida como uma das maiores experts em combate à corrupção do planeta e já foi elogiada, quem diria, pelo procurador Deltan Dallagnol. (Não que isso deva ter feito diferença na vida dela.)

Outros juristas que assinam o manifesto, dirigido aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) são, conforme leio na “Folha de S.Paulo” deste domingo, “o professor italiano Luigi Ferrajoli, referência do garantismo jurídico no mundo, o ex-juiz espanhol Baltasar Garzón, que condenou o ex-ditador chileno Augusto Pinochet por crimes contra a humanidade, Alberto Costa, ex-ministro da Justiça de Portugal, e Herta Daubler-Gmelin, ex-ministra da Justiça da Alemanha. O grupo é integrado ainda por ex-presidentes e integrantes de cortes superiores, como Pablo Cáceres, ex-presidente da Suprema Corte de Justiça da Colômbia, e Diego Valadés, ex-juiz da Suprema Corte de Justiça do México e ex-procurador-geral da República”.

Só resta a mim, uma cidadã que não pôde votar em Lula nas eleições de 2018 por causa desse golpe orquestrado pelo judiciário brasileiro, esperar que os ministros do STF leiam com atenção o alerta desses juristas, de que “a Justiça brasileira vive atualmente uma grave crise de credibilidade dentro da comunidade jurídica internacional”, “por causa dessas práticas ilegais e imorais”, e encerrem de vez essa perseguição a Lula. Que, por sinal, deixou claro a seus advogados que não quer ir para regime semiaberto, ao qual já tem direito. Ele quer ser absolvido ou ver sua condenação anulada pela Justiça, para ser libertado, já que é inocente.

Também tenho a esperança/ilusão de que os responsáveis por tudo isso, com destaque para o ministro de Bolsonaro Sergio Moro, sejam devidamente punidos.

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Segue abaixo a carta dos 17 juristas na íntegra:

Lula não foi julgado, foi vítima de uma perseguição política

Nós, advogados, juristas, ex-ministros da Justiça e ex-membros de Cortes Superiores de Justiça de vários países, queremos chamar à reflexão os juízes do Supremo Tribunal Federal e, mais amplamente, a opinião pública do Brasil para os graves vícios dos processos movidos contra Lula.

As recentes revelações do jornalista Glenn Greenwald e da equipe do site de notícias The Intercept, em parceria com os jornais Folha de São Paulo e El País, a revista Veja e outros veículos, estarreceram todos os profissionais do Direito. Ficamos chocados ao ver como as regras fundamentais do devido processo legal brasileiro foram violadas sem qualquer pudor. Num país onde a Justiça é a mesma para todos, um juiz não pode ser simultaneamente juiz e parte num processo.

Sérgio Moro não só conduziu o processo de forma parcial, como comandou a acusação desde o início. Manipulou os mecanismos da delação premiada, orientou o trabalho do Ministério Público, exigiu a substituição de uma procuradora com a qual não estava satisfeito e dirigiu a estratégia de comunicação da acusação.

Além disso, colocou sob escuta telefônica os advogados de Lula e decidiu não cumprir a decisão de um desembargador que ordenou a liberação de Lula, violando assim a lei de forma grosseira.

Hoje, está claro que Lula não teve direito a um julgamento imparcial. Ressalte-se que, segundo o próprio Sérgio Moro, ele foi condenado por “fatos indeterminados”. Um empresário cujo depoimento deu origem a uma das condenações do ex-presidente chegou a admitir que foi forçado a construir uma narrativa que incriminasse Lula, sob pressão dos procuradores. Na verdade, Lula não foi julgado, foi e está sendo vítima de uma perseguição política.

Por causa dessas práticas ilegais e imorais, a Justiça brasileira vive atualmente uma grave crise de credibilidade dentro da comunidade jurídica internacional.

É indispensável que os juízes do Supremo Tribunal Federal exerçam na plenitude as suas funções e sejam os garantidores do respeito à Constituição. Ao mesmo tempo, esperamos que as autoridades brasileiras tomem todas as providências necessárias para identificar os responsáveis por estes gravíssimos desvios de procedimento.

A luta contra a corrupção é hoje um assunto essencial para todos os cidadãos do mundo, assim como a defesa da democracia. No entanto, no caso de Lula, não só a Justiça foi instrumentalizada para fins políticos como o Estado de Direito foi claramente desrespeitado, a fim de eliminar o ex-presidente da disputa política.

Não há Estado de Direito sem respeito ao devido processo legal. E não há respeito ao devido processo legal quando um juiz não é imparcial, mas atua como chefe da acusação. Para que o Judiciário brasileiro restaure sua credibilidade, o Supremo Tribunal Federal tem o dever de libertar Lula e anular essas condenações.

Lista de Signatários

Bruce Ackerman, professor Sterling de direito e ciência política, Universidade Yale

John Ackerman, professor de direito e ciência política, Universidade Nacional Autônoma do México

Susan Rose-Ackerman, professora emérita Henry R. Luce de jurisprudência, Escola de direito da Universidade Yale

Alfredo Beltrán, ex-presidente da Corte Constitucional da Colômbia

William Bourdon, advogado inscrito na ordem de Paris

Pablo Cáceres, ex-presidente da Suprema Corte de Justiça da Colômbia

Alberto Costa, Advogado, ex-ministro da Justiça de Portugal

Herta Daubler-Gmelin, advogada, ex-ministra da Justiça da Alemanha

Luigi Ferrajoli, professor emérito de direito, Universidade Roma Três

Baltasar Garzón, advogado inscrito na ordem de Madri

António Marinho e Pinto, advogado, antigo bastonário (presidente) da ordem dos advogados portugueses

Christophe Marchand, advogado inscrito na ordem de Bruxelas

Jean-Pierre Mignard, advogado inscrito na ordem de Paris

Eduardo Montealegre, ex-presidente da Corte Constitucional da Colômbia

Philippe Texier, ex-juiz, Conselheiro honorário da Corte de Cassassão da França, ex-presidente do Conselho econômico e social das Nações Unidas

Diego Valadés, ex-juiz da Corte Suprema de Justiça do México, ex-procurador-Geral da República

Gustavo Zafra, ex-juiz ad hoc da Corte Interamericana de Direitos Humanos

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As barbaridades que Bolsonaro fala, seus três grupos de eleitores que aplaudem e, enquanto isso, um Brasil que afunda

A gente nem bem se recobra do trauma causado por uma barbaridade saída da boca do presidente da República, e lá vem ele e solta outra. Sua claque, ignorante até o último fio de cabelo, aplaude feliz, sem pestanejar, sem pensar, como robozinhos programados para tapar os olhos para os absurdos e sorrir felizes para tudo o que parece provocante, indecente, atrevido. “Ele fala o que pensa. Ele me representa.”

Bolsonaro está pleno. Testou o que pôde do novo cargo nos últimos sete meses e agora se sente confiante para falar as besteiras sempre falou, nos mais de 20 anos de vida pública (ao arrepio da lei, do decoro, da ética, e agora da liturgia de seu cargo no Executivo). Ele está confiante que nada nunca lhe será cobrado, que nada nunca vai lhe acontecer, que ele nunca terá que pagar. Desde o golden shower, lá atrás, no Carnaval, até a fala absurda que o coloca nos porões da ditadura militar.

Todas as charges que ilustram este post são do Duke e foram originalmente publicadas no portal O Tempo (www.otempo.com.br/charges)

E assim seguiremos – até quando? Com quais consequências? – sendo governados por um presidente que parece estar sentado numa carteira de uma turma de quinta série. Com as mesmas piadinhas e a mesmíssima mentalidade.

Gênio da comunicação – já que ele conversa com seu eleitorado (o grosso dele), que tem a mesma mentalidade. A outra parcela importante do eleitorado, de empresários riquíssimos que querem vender tudo o que for possível do Brasil, que querem aprovar todas as reformas que mais possam sacanear o povo mais calejado do país, esta tapa o ouvido e o nariz e vai sorrindo amarelo, com uma blusa da CBF mais discreta por baixo de algum paletó.

E não podemos nos esquecer de uma terceira parcela de seu eleitorado, a mais conservadora nos costumes, que se viu bombardeada nos últimos ANOS por fake news estapafúrdias envolvendo mamadeiras de piroca, masturbação de bebês por professores comunistas malucos, implantação de uma ditadura de ideologia de gênero dentro de creches, e assim por diante. Tudo vinculado ao PT, ao PT, ao PT, assim como todo e qualquer esquema de corrupção dos últimos 500 anos. Essa parcela é a preferencial de gente que segue a cartilha de Steve Bannon (inclusive os filhos de Bolsonaro) e que já está tão dopada pelas mentiras que lê há anos que ficou cega, em defesa de valores que acredita que foram afrontados pela esquerda e que só poderão ser salvos por esta direita maniqueísta que ocupa o poder.

Esses três grupos que compõem o eleitorado de Bolsonaro lhes dão força para que ele sinta toda essa confiança e continue não só falando o que fala como fazendo o que faz. Enquanto a gente, do lado de cá, só assiste, boquiabertos, incrédulos, perplexos – calados. As consequências poderão ser universidades cada vez mais enfraquecidas, assim como as escolas em geral, o que vai minar ainda mais a capacidade de as gerações futuras conseguirem se resguardar contra medidas autoritárias. As consequências também serão drásticas e irrecuperáveis para nosso já combalido meio ambiente.

Sobre isso, vale demais compartilhar por aqui o artigo “Pornô florestal“, do jornalista científico Claudio Ângelo, publicado no dia 20 de julho. Naquele dia, ele ainda estava – e todos nós, os que ainda pensam – sob o impacto das declarações de Bolsonaro, extremamente irresponsáveis, contestando o desmatamento na Amazônia e os dados do Inpe. (Depois disso já foram tantas outras declarações atrozes, que acho que muita gente já até se esqueceu dessa…)

O texto de Claudio Ângelo é genial do início do fim, por isso recomendo sua leitura na íntegra, clicando AQUI. Mas destaco alguns números como alerta geral:

  • “na manhã de quinta o Observatório do Clima havia publicado no Twitter que o desmatamento em julho estava em 981 km2. Agora, 36 horas depois, estava em 1.209 km2. (…) Os alertas de desmatamento de fato haviam subido 228 km2 em um dia e meio – dez campos de futebol tombando por minuto”.
  • “Julho de 2019 é disparado o mês com mais alertas desde que o Deter-B entrou em operação, em 2015/2016. Como sabemos, julho de 2019 ainda está a uma semana e meia do fim. No momento em que escrevo, manhã de sábado, estamos em 1.260 km2”.
  • “chegaremos à beira dos 10 mil km2 de desmatamento na Amazônia no primeiro ano da Nova Era”.
  • “Na última vez que o desmatamento na Amazônia esteve em cinco dígitos, em 2008, ainda não existia Instagram, Obama ainda não era presidente e a Alemanha era apenas o país de quem a gente tinha vencido a Copa de 2002.”

Escrevo este post na noite de terça-feira, 30 de julho, e o agendo para ser publicado na quinta, dia 1 de agosto. Provavelmente, nesse meio-tempo, já teremos sido bombardeados por mais uma dúzia de asneiras e fake news vindas direto da boca do presidente da República. Ah sim, e outros dez campos de futebol terão sido tombados por minuto, ali no Norte do nosso país. Mas, e daí, né? Ali só devem viver mesmo uns índios e uns “paraíbas” e, se bobear, eles nem têm acesso ao Twitter – o verdadeiro “país” para o qual Bolsonaro governa.

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Filho de Bolsonaro é um embaixador ideal para Trump

Texto escrito por José de Souza Castro:

O deputado federal Eduardo Bolsonaro com boné “Trump 2020”. Foto: Paola de Orte/Agência Brasil

Em pouco mais de 3.000 palavras, Samuel Pinheiro Guimarães, que foi secretário geral do Itamaraty (2003-2009) e ministro de Assuntos Estratégicos (2009-2010) no governo Lula, explica como a Operação Lava Jato se incluiu entre os objetivos dos EUA para a América Latina e, em especial, para o Brasil. Entre estes, está o acordo de livre comércio Brasil-Estados Unidos, anunciado na última terça-feira por Jair Messias Bolsonaro como um dos objetivos de seu governo.

A eleição de Bolsonaro, por sua vez, atingiu o principal objetivo estratégico dos Estados Unidos: eleger líderes políticos favoráveis aos objetivos americanos. Antes com Temer e agora com o Jair Bolsonaro, estão alcançando todos os demais objetivos econômicos.

O artigo foi publicado no dia 29 de julho AQUI. Sei que os mais interessados vão preferir ler o original. Mas, para quem não tem tempo, faço abaixo um resumo.

Desde 1823, com a chamada Doutrina Monroe, a América Latina foi declarada zona de influência exclusiva dos Estados Unidos, que desde então defendem o que consideram seu direito ao exercício de uma hegemonia natural sobre a América Latina. Isso ficou explícito em 1904 com o chamado “Corolário Roosevelt”.

Já então, os EUA, por meio de várias guerras, haviam excluído as potências europeias de seu território continental, tinham expulsado os povos indígenas das terras dos antepassados e, com intervenções e ocupações militares, por vezes longas, e o patrocínio de ditaduras sanguinárias, haviam consolidado a influência econômica, política e militar americana sobre a América Central e os países do Caribe.

Segundo Pinheiro Guimarães, os objetivos estratégicos permanentes dos Estados Unidos para a América Latina são:

1. impedir que Estado ou aliança de Estados possa reduzir a influência americana na região;
2. ampliar sua influência cultural/ideológica sobre os sistemas de comunicação de cada Estado;
3. incorporar todas as economias da região à economia americana;
4. desarmar os Estados da região;
5. manter o sistema regional de coordenação e alinhamento político;
6. impedir a presença, em especial militar, de Potências Adversárias na região;
7. punir os Estados que contrariam os princípios da liderança hegemônica americana;
8. impedir o desenvolvimento de indústrias autônomas em áreas avançadas;
9. enfraquecer os Estados da região;
10. eleger lideres políticos favoráveis aos objetivos americanos.

Para alcançar seu objetivo, tratam os Estados Unidos de manter e ampliar sua presença cultural/ideológica nos sistemas de comunicação de cada país da região, de modo a aumentar sua capacidade de obter melhores condições legais (fiscais e regulatórias) para a ação de suas megaempresas (petroleiras, por exemplo); para obter contratos de venda de equipamentos militares; para lograr alinhamento e apoio às iniciativas americanas em nível mundial; para promover a “simpatia” pelos Estados Unidos na sociedade local; para obter o apoio da sociedade e dos governos para seus objetivos estratégicos.

Este objetivo tem como instrumentos a defesa da mais ampla liberdade de imprensa e de internet e para a livre ação das ONGs “internacionais” e “altruístas”; dos programas de formação de pessoal, desde os institutos de língua aos intercâmbios; às bolsas de estudo; ao recrutamento de talentos; à aquisição de editoras para publicações de livros americanos; a hegemonia na programação de cinema e de TV; os programas de formação de oficiais militares e lideranças políticas; e recentemente a aquisição de instituições de ensino, em todos os níveis.

Outro objetivo é incorporar todas as economias dos países da América Latina à economia norte-americana, de forma neocolonial, no papel de exportadores de matérias primas e importadores de produtos industriais.

“O instrumento para alcançar este objetivo são os acordos bilaterais de livre comércio que levam à eliminação das tarifas aduaneiras e à abertura dos mercados dos Estados subdesenvolvidos nas áreas de investimentos; de compras governamentais; de propriedade intelectual; de serviços; de crédito e, às vezes, incluem cláusulas investidor-Estado”, relata Pinheiro Guimarães.

Na sua opinião, “o acordo Mercosul/União Europeia será instrumental para a abertura de mercados para os Estados Unidos sem ônus político pois, após sua entrada em vigor, estarão criadas as condições para os Estados Unidos reivindicarem ao Brasil e ao Mercosul igualdade de tratamento. Outros países altamente industrializados como o Japão, a Coréia do Sul, o Canadá e a China farão o mesmo e o Brasil não terá mais a tarifa como instrumento de política industrial”.

Para atingir outro objetivo estratégico – desarmar os Estados da região – os EUA promovem “o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e de outros tratados na área química e biológica, e mesmo sobre armas convencionais; a venda de equipamentos militares defasados a preços mais baixos e o “estrangulamento” de eventuais indústrias bélicas locais; os acordos de associação à OTAN; a transformação das Forças Armadas nacionais em forças de caráter policial, voltadas para o combate ao narcotráfico e a crimes transnacionais e, portanto, necessitando apenas de equipamento leve”.

Outro instrumento para alcançar este objetivo é promover a dissolução da UNASUL, como foro de solução de controvérsias concorrente da OEA e como organização de cooperação em defesa, da qual os Estados Unidos não participam.

A estratégia prevê ainda impedir a presença, na região, de países adversários de sua hegemonia, como Rússia e China.  A presença russa e chinesa é especialmente temida na área militar, inclusive por ameaçar a Costa Sul do território dos Estados Unidos e os acessos ao Canal do Panamá, uma via comercial e militar estratégica.

Para demonstrar sua determinação de exercício de hegemonia na América Latina, os EUA têm como objetivo punir, dentro ou fora do sistema da OEA, com ou sem o apoio de outros Estados da região, aqueles governos que contrariarem, em maior ou menor medida, os princípios da liderança mundial americana. Tais princípios, são:

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Bolsonaro, o filho embaixador e os limites do poder

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

Sob a ameaça de termos o filho de 35 anos do presidente Jair Messias Bolsonaro embaixador do Brasil nos Estados Unidos, lembrei-me de um artigo que escrevi aqui em junho de 2016, dois meses antes de Michel Temer tomar posse com sua “Ponte para o Futuro”.

Os Estados Unidos eram presididos pelo democrata Barack Obama, que se destacou por tentar manter o império por meio da persuasão, de preferência ao uso do poderio militar.

Em três anos, muita coisa mudou. No mundo, por influência do republicano Donald Trump, no poder desde 20 de janeiro de 2017; no Brasil, por influência de Trump e, desde o começo do ano, pelas bobeiras de Bolsonaro.

O que era ruim com Obama e Temer, pode piorar muito com Trump e Jair Messias, os líderes maiores do possível futuro embaixador nos Estados Unidos, Eduardo Bolsonaro.

A Pax Americana, instituída desde 1991, na qual os Estados Unidos presidiam um grande projeto de convergência político-econômica e integração comumente referida como globalização, não foi abandonada por Trump. Mas a persuasão, agora, mais do que antes, se baseia na ameaça, por enquanto, do uso da força.

Jair e Eduardo Bolsonaro, ao se jogarem sob a proteção de Trump, não estarão ao abrigo das intempéries políticas e econômicas que rondam o Brasil e o mundo. Porque o poder formidável do presidente dos Estados Unidos tem seus limites, como bem definiu o professor Andrew J. Bacevich no livro “The Limits of Power – The End of American Exceptionalism”, lançado em 2008, por ocasião do início da grande crise financeira mundial.

“Oscilamos à beira da insolvência, tentando desesperadamente fechar as contas confiando em nossas presumivelmente invencíveis forças armadas. No entanto, aí também, tendo exagerado o nosso poder militar, cortejamos a bancarrota”, escreveu Bacevich. Já então, ele antevia uma gradual erosão do poder dos EUA no mundo.

Aparentemente, uma erosão não percebida, até agora, pelos Bolsonaros.

“Os americanos precisam reassumir o controle sobre seu próprio destino, acabando com sua condição de dependência e abandonando suas ilusões imperialistas”, prescreveu Bacevich em 2008.

Será que Trump percebeu isso? Bolsonaro, certamente não. O sonho de Bolsonaro talvez seja transformar o Brasil numa grande colônia, na qual poderá mandar e desmandar, até mesmo nomeando um filho ignorante para embaixador, sob o olhar autorizativo dos patrões do Norte, da complacência da imprensa tupiniquim e da ajuda inigualável das forças armadas brasileiras e americanas.

E do nosso judiciário.

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