Feliz 2018. Feliz?

Texto escrito por José de Souza Castro:

O ano de 2017 acabou sem deixar saudades para a maioria dos brasileiros que começam a sentir os efeitos perniciosos das mudanças na legislação trabalhista, enquanto permanecem como que atordoados diante do que pode acontecer com a Previdência Social e com o destino de nossas riquezas naturais cobiçadas por governos e empresas estrangeiras. Se algo de bom surgiu, foi o início de uma reação à ditadura do Judiciário que se manifesta principalmente pela ação da Lava Jato, de pseudo combate à corrupção.

Para 2018, as forças do retrocesso se organizam para continuar o ataque à “Constituição Cidadã” de 1988 de forma a eliminar o que ainda resta de proteção social. E para derrotar mais uma vez a população nas urnas, começando pelo alijamento, com a inestimável ajuda do Judiciário, do candidato preferido nas pesquisas eleitorais, Luiz Inácio Lula da Silva.

As perspectivas são ruins para a silenciosa maioria dos brasileiros. Se nada mudar nos próximos meses, cairão no vazio as advertências, entre outras, da Frente Brasil Popular – que afirma representar 85 entidades de movimentos sindicais, sociais e populares –sobre a importância de o eleitor escolher bem os candidatos à Presidência da República, à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal.

Enquanto essas entidades se manifestam, o sentimento é de algum alívio para os que, em 2018, ainda vão poder contar, para sua miserável sobrevivência, com um salário mínimo. Mesmo que ele tenha sofrido, a partir de 1º de janeiro, o menor reajuste desde 1995. Ano em que o salário mínimo no Brasil valia pouco mais de 70 dólares e o neoliberalismo a Fernando Henrique Cardoso prosperava. Um avanço interrompido brevemente com a eleição de Lula em 2002. Um presidente que, no entanto, se viu obrigado a fazer imensas concessões aos donos do dinheiro no Brasil e no exterior.

A volta plena do liberalismo, após a derrubada de Dilma Rousseff, que tentou resistir, terá a força de um tsunami. Continuar lendo

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Golpe militar: generais chocam o ovo da serpente

Texto escrito por José de Souza Castro:

Neste momento, quem tem espaço para escrever não pode se omitir diante da revelação do general Antonio Hamilton Mourão de que “as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil”, como afirma o filósofo Vladimir Safatle, acrescentando: “Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, descartou qualquer medida e ainda foi à televisão tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as Forças Armadas podem intervir se o ‘caos’ for iminente.”

Caos é a palavra chave. Sobre isso, raciocina Safatle em seu artigo na “Folha de S.Paulo”, uma semana depois da revelação de Mourão:

“Ao que parece, “caos” seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?

Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.

De toda forma, como esperar moralidade de uma instituição que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes ações morais? As Forças Armadas brasileiras nunca tomaram distância dessas pessoas, expondo à nação um mea-culpa franco.

Ao contrário, elas os defenderam, os protegeram, até hoje. Que, ao menos, elas não venham oferecer ao país o espetáculo patético de aparecerem à cena da vida pública como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas mãos de imoralistas. As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o “caos”. Elas foram parte fundamental do caos.”

Um dia antes, no mesmo jornal, o jornalista Janio de Freitas advertira que, com a contribuição do general Mourão, reforçada com o aviso de que tem a concordância do Alto Comando do Exército, “estamos informados de que o país recuou 53 anos em sua lerda e retardada história. De volta aos antecedentes de tutela armada vividos, com as ameaças, os medos e os perigos cegos do pré-golpe de 1964”.

Como lembra Janio de Freitas, durante o último período da ditadura militar, as ideias na caserna e nas academiais se formaram por processo equivalente a lavagens cerebrais. “Fábricas de posições sem reflexão, apenas ecos de sons vindos do Norte” e, por certo, muitos ainda ocupam níveis mais altos da hierarquia, como o general Mourão. São muitos os Mourões que pensam ser possível derrubar tudo, se têm as armas e não tem ideia do que significa tal decisão. “Essas foram as premissas de todos os golpes militares, fantasiadas ou não”, afirma o experiente colunista da Folha.

Parece-me que estamos vivendo circunstâncias históricas parecidas com as que precederam, na Alemanha da década de 1930, a ditadura de Hitler. Na qual pensadores e políticos alemães diziam que não haveria golpe, por diversas razões. Como é o caso, agora, de um pré-candidato à Presidência da República, Ciro Gomes, para quem “não há condições objetivas para a consumação de qualquer golpe, porque os golpistas atuais estão levando a cabo a agenda internacional e local que interessa aos verdadeiros poderosos”. A declaração pode ser vista aqui.

Os verdadeiros poderosos no Brasil são os banqueiros. Desde o governo Lula, eles nunca lucraram tanto. E jamais foram incomodados por irregularidades praticadas na obtenção de lucros estratosféricos.

Nesse ponto, a análise de Ciro Gomes se enfraquece, considerando-se o que revela aqui a “Folha de S.Paulo”. Se o governo Temer ousar mexer com os bancos sonegadores, alarga-se a possibilidade de um golpe, pois Temer vai perder seu principal ponto de apoio internamente. E parece-me que os Estados Unidos, com Donald Trump, veriam com bons olhos militares brasileiros, dada sua formação direitista, no comando do Brasil.

Ressoa neste momento a famosa frase do general Juracy Magalhães pronunciada quando era embaixador nos Estados Unidos, nomeado pelo general Castelo Branco, o primeiro presidente após golpe de 1964: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Só que não. A entrega de áreas do pré-sal para os Estados Unidos e seus aliados no exterior, por exemplo, não é bom para o Brasil.

Voltando, porém, ao ataque aos bancos sonegadores (que, na minha modesta opinião, não dará em nada, havendo ou não golpe), o que dizem as repórteres Maeli Prado e Flávia Lima: Continuar lendo

Cuba, Obama e a audácia da esperança

Obama e Raul Castro fizeram anúncio simultaneamente. Fotos: AFP

Obama e Raul Castro fizeram anúncio simultaneamente. Fotos: AFP

Texto escrito por José de Souza Castro:

Barack Obama foi eleito presidente dos Estados Unidos em novembro de 2008. Dois anos antes, foi lançado pela Crown Publishers, de Nova York, seu livro “The Audacity of Hope” (no Brasil, “A Audácia da Esperança”), para lastrear a campanha eleitoral do então senador democrata pelo Estado de Illinois que sonhava ser o primeiro negro a presidir seu país. Em suas quase 400 páginas, o livro trata de muitos problemas, mas nada fala sobre Cuba, uma ilha do Caribe com 11 milhões de habitantes, castigada pelos Estados Unidos desde a revolução vitoriosa liderada por Fidel Castro em 1959.

Uma revolução contra um cruel regime ditatorial de Fulgêncio Batista. Não tinha inspiração comunista, mas foi lançada nos braços da União Soviética, em plena Guerra Fria, para que os cubanos que não haviam fugido para Miami pudessem sobreviver, vítimas de um cruel embargo econômico imposto pela nação mais poderosa da terra. E que já dura 53 anos.

Na quarta-feira, Obama surpreendeu o mundo ao anunciar substanciais mudanças para normalizar as relações com Cuba, uma ação audaciosa para pôr fim a um dos mais mal orientados (“misguided”) capítulos na política exterior americana, como reconhece o “New York Times” em editorial.

Misguided? É pouco, tendo em vista o que escreveu Janio de Freitas, em sua coluna das quintas-feiras na “Folha de S. Paulo”: “Os 53 anos do bloqueio americano a Cuba não foram ao regime comunista cubano. Foram a milhões de crianças, e a milhões de mulheres, e a milhões de homens, que compuseram na infância, na juventude, como adultos e como velhos as sucessivas gerações submetidas a mais de meio século do flagelo inútil de carências terríveis”. Íntegra AQUI.

Eu era um jovem universitário quando li, entre outros livros de Sartre, “Furacão sobre Cuba”, publicado no Brasil pela Editora do Autor. É um relato entusiasmado do que o filósofo francês e sua mulher Simone de Beauvoir viram na ilha, entre fevereiro e março de 1960. O livro publica também depoimentos de Rubem Braga e Fernando Sabino sobre suas próprias viagens a Cuba.

O livro era um contraponto interessante a tudo que se lia em revistas e jornais brasileiros sobre Cuba. Todos esquecidos dos horrores da ditadura Fulgêncio Batista, derrubada pela revolução. Nesse meio século, pouco mudou do que se lê por aqui, com raros interregnos, como a série de reportagens feitas por Fernando Morais em 1975 que deu origem ao livro “A Ilha”. Entrevistado no mesmo dia do anúncio de Obama pelo jornal paulista, Morais comemorou: “Não é só uma frase de efeito, mas a Guerra Fria acabou hoje”. Em 2011, ele havia publicado novo livro sobre Cuba, intitulado “Os Últimos Soldados da Guerra Fria” – uma referência aos cinco cubanos que estavam presos nos EUA sob a acusação de espionagem.

Em seu editorial, o NYT afirma que, como parte das negociações secretas que se desenvolveram nos últimos meses entre Cuba e EUA, o governo cubano libertou um espião norte-americano que estava preso havia quase 20 anos e um empresário norte-americano, Alan Gross, preso em Havana em 2009. Já o governo Obama libertou três espiões cubanos que ficaram presos por mais de 13 anos. O que terá acontecido com os outros dois?

De qualquer forma, a troca de prisioneiros pavimentou o caminho para uma revisão política que poderia se tornar o principal legado da política externa de Obama, afirma o editorial do mais importante jornal norte-americano. Que adverte, no entanto, que o Congresso provavelmente não dará, tão cedo, passos complementares rumo a uma relação mais saudável com Cuba.

Como se sabe, o Partido Democrata, de Obama, perdeu o controle das duas casas do Congresso dos Estados Unidos, para o Partido Republicano, historicamente inimigo de Cuba, desde que seus dirigentes desapropriaram propriedades agrícolas de norte-americanos e fecharam os cassinos, boates e prostíbulos pertencentes à Máfia dos Estados Unidos, doadora da campanha eleitoral de John Kennedy. Que só não derrubou Fidel Castro por causa do fracasso da invasão na Baía dos Porcos, em abril de 1961.

É cedo para comemorar o anúncio de Obama, que teria as bênçãos do Papa Francisco.

Lembre-se que em janeiro de 1998 o papa João Paulo II, que muito havia contribuído para o fim do comunismo na Rússia e da União Soviética, visitou Cuba e se encontrou com Fidel Castro. Bill Clinton, do Partido Democrata, presidia os Estados Unidos. E muito se falou, na época, do fim do embargo e do reatamento das relações diplomáticas com Havana, como agora. Em editorial, no dia 16 de fevereiro de 1998, a “Folha de S. Paulo” citou o chanceler britânico Robin Cook, que havia condenado o bloqueio econômico imposto à ilha, e concluiu: “A nova política de Fidel Castro começa a dar frutos e, se incrementada, pode representar a única oportunidade do líder cubano de dar uma sobrevida ao seu regime exausto.”

Quase 16 anos se passaram. Fidel Castro ainda não morreu, seu irmão Raúl assumiu o poder, e o bloqueio econômico por parte dos Estados Unidos permaneceu. E o livro de Obama, oito anos após sua publicação, mal serve como citação para os futuros historiadores, malsucedidas que têm sido aquelas suas audazes esperanças de fazer com que seu país pudesse ainda tornar o mundo menos injusto e belicoso.

De qualquer modo, vale torcer para que, desta vez, Obama tenha êxito. Para felicidade de Obama e da Construtora Odebrecht, que conseguiu do governo brasileiro, a partir de 2009, que o BNDES desembolsasse muito dinheiro, concedendo crédito para o governo cubano comprar de fornecedores brasileiros de bens e serviços. Cito mais uma vez a “Folha de S. Paulo”:

“O maior símbolo da aposta é o porto de Mariel, a 45 km de Havana. Inaugurado em janeiro, foi um projeto da Odebrecht e recebeu financiamento de US$ 800 milhões. Mas Mariel é apenas a parte mais vistosa da investida do Brasil. São mais de 300 as empresas brasileiras que têm negócios ou se fixaram em Cuba. Grande parte usa recursos do Banco do Brasil ou BNDES. Muitas são fornecedoras do porto. Em Cuba, a Odebrecht também trabalha na ampliação do aeroporto Jose Martí, em Havana, e tem um projeto no setor sucroalcooleiro.”

É quase um consenso entre analistas (leia AQUI, AQUI e AQUI) que o Brasil será um grande beneficiado por esta reaproximação entre Cuba e Estados Unidos justamente por causa do porto de Mariel, tão duramente criticado pela campanha tucana durante as eleições deste ano. Esqueça-se o comunismo. Como disse o marqueteiro político norte-americano James Carville, durante a campanha de Bill Clinton à presidência dos Estados Unidos, em 1992: “É a economia, estúpido!”

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FHC, o homem da Avenue Foch

Paisagem na Avenue Foch. Foto: Wikipedia

Paisagem na Avenue Foch. Foto: Wikipedia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Alguém lembra, num site muito lido na Internet, o artigo escrito por Janio de Freitas e publicado pela “Folha de S.Paulo”, no dia 12 de janeiro de 2003, sob o título “O endereço”.

Transcrevo aquilo que continua interessando, 12 anos depois, “em tempo de murici”. Aquele tempo bicudo no qual, conforme o coronel Pedro Tamarindo, em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, “cada um cuida de si” – do que parece não ter-se dado conta (e nem eu) o ex-presidente da República que tanto tem escrito sobre corrupção no governo atual. Escreveu Janio de Freitas:

“Data imprecisada, ou imprecisável, e não recente. Fernando Henrique Cardoso, no uso de toda a simpatia possível, discorre para os comensais suas apreciações sobre fatos diversos e pessoas várias. De repente, intervém a mulher de um brasileiro renomado, há muito tempo é figura internacional de justo prestígio, ministro mais de uma vez, com importantes livros e ensaios. Moradores íntimos de Paris por longos períodos, mas não só por vontade própria, consta que nela nada restringe a franqueza. Se alguém na conversa desconhecia a peculiaridade, ali testemunhou um motivo para não esquecê-la:

— Pois é, mas nós sabemos do apartamento que Sérgio Motta e você compraram na Avenue Foch.

Congelamento total dos convivas. Fernando Henrique é quem o quebra, afinal. Apenas para se levantar e afastar-se. Cara fechada, lívido, nenhuma resposta verbal.

A bela Avenue Foch, seus imensos apartamentos entre os preços mais altos do mundo, luxo predileto dos embaixadores de países subdesenvolvidos, refúgio certo dos Idi Amim Dada, dos Bokassa, dos Farouk e, ainda, de velhos aristocratas europeus.

Avenue Foch, onde a família Fernando Henrique Cardoso está instalada. No apartamento emprestado, é a informação posta no noticiário, pelo amigo que passou a figurar na sociedade da fazenda também comprada por Sérgio Motta e Fernando Henrique Cardoso, em Buritis.

Avenue Foch, é ela que traz de volta comentários sobre a historieta, indagações de sua autenticidade ou não, curiosidade em torno do que digam outros possíveis comensais.”

Já que estamos em fase de recordações, vale lembrar, para os ingênuos que acham que a corrupção na ditadura militar era menor que a atual (e não era; apenas menos divulgada pela imprensa, por razões diversas). O fato é que a imprensa brasileira preferia não falar sobre corrupção no governo, sobretudo porque ela envolvia, desde sempre, grandes empresas públicas e privadas.

Foi o que aconteceu, por exemplo, com o terceiro livro do jornalista mineiro José Carlos de Assis, que conheci na década de 1970, no Copy do Jornal do Brasil, no Rio. Depois de a editora Paz e Terra ter lançado com sucesso dois de seus livros – “A Chave do Tesouro” e “Os Mandarins da República” –, o editor Fernando Gasparian se animou a publicar no ano seguinte (em 1984, quando a ditadura já agonizava), “A Dupla Face da Corrupção”. Saiu com uma tiragem ambiciosa, para os padrões brasileiros da época. Mas os 45 mil exemplares ficaram em grande parte encalhados no depósito da editora, pois não receberam a divulgação esperada. O livro pode ser encontrado para compra na internet. Por exemplo, AQUI. Certamente, em tempo de murici, é um livro bem atual.

Mais que os recentes artigos de Fernando Henrique Cardoso, o homem do apartamento da Avenue Foch, um dos endereços mais caros do mundo.

Ah, e quem acha que o Brasil é um dos países mais corruptos do mundo, convém se informar melhor. Por exemplo, AQUI.

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Uma história numa frase

Dou uma pausa na enxurrada de posts sobre filmes, nesses tempos de Oscar, para publicar um excelente artigo do meu pai, que andava sumido do blog, sobre uma frase proferida na última quarta-feira por Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal Federal, que tinha passado batido por mim. Mas é uma frase para entrar na história. Vamos ao artigo:

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Texto escrito por José de Souza Castro:

O julgamento foi um espetáculo, uma farsa, uma maneira ridícula de procurar a verdade. Mas, como pude perceber, a verdade não era importante. Talvez em outros tempos um julgamento fosse um exercício de apresentação dos fatos, a busca pela verdade e a descoberta da justiça. Hoje um julgamento é um concurso em que um lado vencerá e o outro perderá. Cada lado espera que o outro se curve às regras ou trapaceie, então nenhum lado faz um jogo justo. A verdade se perde na disputa.

Não, não estou escrevendo sobre a Ação Penal 470, o chamado julgamento do mensalão petista. Nem fui eu quem escreveu o relato acima. Trata-se simplesmente de um parágrafo de “O manipulador”, o último livro de John Grisham, publicado em 2012 nos Estados Unidos e, no ano seguinte, no Brasil, pela Rocco, traduzido por Maira Parula. (E que ainda não acabei de ler.)

Nada a ver com a AP 470. Mas me faz pensar nesse processo, tendo em vista o muito que já se escreveu sobre esse julgamento do Supremo Tribunal Federal.

Desde logo vou avisando que sou um cético em relação ao judiciário. Cheguei até a escrever um livro que faz parte da biblioteca deste blog (Injustiçados – o Caso Portilho), antes mesmo de conhecer esse famoso trecho do discurso de Rui Barbosa no Senado sobre o caso do Satélite II: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

Ninguém se lembra mais desse caso que provavelmente foi famoso nos tempos de Rui Barbosa, mas o que o jurista baiano escreveu continua inesquecível, porque é muito atual.

A questão que se apresenta é esta: houve injustiça no julgamento da AP 470 ou na aplicação das penas aos condenados, apesar da inquestionável maioria dos que acham, principalmente na imprensa, que a maioria dos juízes do Supremo acertou ao mandar para a prisão José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares e tantos outros?

No dizer de céticos como Wentworth Dillon, poeta inglês que viveu no século 17, “a multidão está sempre errada”. E já que me lembrei desse inglês, não custa citar Charles Dickens, nascido na mesma Inglaterra dois séculos depois, que dedicou parte de seu talento de crítico social para escrever em 1853 o romance “Bleak House”. A descrição das leis e do judiciário britânico de seu tempo talvez abale a confiança do leitor brasileiro honrado que ainda considera os ingleses que exploraram o ouro das Minas Gerais como paradigmas de civilização. A estes, serve de consolo uma frase de Samuel Johnson, pensador inglês que viveu um século antes de Dickens: “É melhor sofrer injustiça do que fazê-la, e preferível ser às vezes enganado do que não confiar.”

Aos que, como eu, preferem confiar desconfiando, talvez fosse mais prudente seguir o conselho de Siro, que na Roma antiga pensava que o remédio para os males é esquecê-los. Não sei se Siro chegou a conhecer Jesus, que não esqueceu e foi crucificado.

Sem querer nada parecido para os leitores, acho perfeitamente possível esquecer Joaquim Barbosa, o grande protagonista da AP 470, que logo estará deixando a presidência do Supremo e talvez nem seja eleito para outro cargo importante. Mas, como aquela frase de Rui Barbosa (e outras citadas aqui), talvez dure muito mais na memória escrita, depois que todos nós tivermos partido desta vida (para melhor, espero), esta frase dele numa das últimas sessões do julgamento: “Foi feito para isso sim!”.

Não saberia explicar a importância dessa frase com a competência de Janio de Freitas, na “Folha de S. Paulo” deste domingo. Como sei que alguns leitores deste blog não leem o jornal, reproduzo abaixo o artigo intitulado “Uma frase imensa”, sem pedir permissão ao autor e ao editor, na esperança de que nenhum dos dois vá se importar:

“Palavras simples, para uma frase simples. E, no entanto, talvez a mais importante frase dita no Supremo Tribunal Federal nos 29 anos desde a queda da ditadura.

Um ministro considerara importante demonstrar que determinadas penas, aplicadas pelo STF, foram agravadas desproporcionalmente, em até mais 75% do que as aplicadas a crimes de maior gravidade. Valeu-se de percentuais para dar ideia quantitativa dos agravamentos desproporcionais. Diante da reação temperamental de um colega, o ministro suscitou a hipótese de que o abandono da técnica judicial, para agravar mais as penas, visasse um destes dois objetivos: evitar o reconhecimento de que o crime estava prescrito ou impedir que os réus gozassem do direito ao regime semiaberto de prisão, em vez do regime fechado a que foram condenados.

Hipótese de gritante insensatez. Imaginar a mais alta corte do país a fraudar os princípios básicos de aplicação de justiça, com a concordância da maioria de seus integrantes, é admitir a ruína do sistema de Justiça do país. A função do Supremo na democracia é sustentar esse sistema, viga mestra do Estado de Direito.

O ministro mal concluiu a hipótese, porém, quando alguém bradou no Supremo Tribunal Federal: “Foi feito para isso sim!”. Alguém, não. O próprio presidente do Supremo Tribunal Federal e presidente do Conselho Nacional de Justiça. Ninguém no país, tanto pelos cargos como pela intimidade com o caso discutido, em melhor situação para dar autenticidade ao revelado por sua incontinência agressiva.

Não faz diferença se a manipulação do agravamento de pena se deu em tal ou qual processo, contra tais ou quais réus. O sentido do que “foi feito” não mudaria conforme o processo ou os réus. O que “foi feito” não o foi, com toda a certeza, por motivos materiais. Nem por motivos religiosos. Nem por motivos jurídicos, como evidenciado pela inexistência de justificação, teórica ou prática, pelos autores da manipulação, depois de desnudada pelo presidente do Supremo.

Restam, pois, motivos políticos. E nem isso importa para o sentido essencial do que “foi feito”, que é renegar um valor básico do direito brasileiro –a combinação de prioridade aos direitos do réu e segurança do julgamento– e o de fazê-lo com a violação dos requisitos de equilíbrio e coerência delimitados em leis.

Quaisquer que fossem os seus motivos, o que “foi feito” só foi possível pela presença de um fator recente no Supremo Tribunal Federal: a truculência. “O Estado de S. Paulo” reagiu com forte editorial na sexta-feira, mas a tolerância com a truculência tem sido a regra geral, inclusive na maioria do próprio Supremo. A sem-cerimônia com que o presidente excede os seus poderes e interfere, com brutalidade, nas falas de ministros, só se compara à facilidade com que lhes distribui insultos. E, como sempre, a truculência faz adeptos: a adesão do decano da corte, outrora muito zeloso de tal condição, foi agora exibida outra vez com um discurso, a título de voto, tão raivoso e descontrolado que pareceu, até no vocabulário, imitação de Carlos Lacerda nos seus piores momentos.

Nomes? Não fazem hoje e não farão diferença, quando acharmos que teria sido melhor não nos curvarmos tanto à truculência.”