A notícia mais triste do jornal do dia 29.11.2011

Em homenagem ao motorista Edmilson dos Reis Alves, que foi linchado por ter passado mal enquanto dirigia o ônibus em que trabalhava. Foi enterrado no dia em que faria 60 anos. Deixa mulher e quatro filhos.

 

Foto: Hélio Torchi / Futura Press

Não fumava, não bebia
só trabalhava.

Estava em seu quinto emprego
após seis bicos.

Tinha que sustentar a esposa
e os quatro filhos.

Pilotava um busão lotado
dez horas por dia.

Praça da Sé-Jardim Planalto
centro-zona leste.

Nas horas vagas,
cuidava da hortaliça.

Nas horas vagas?
trabalhava muito.

“Exemplar”, diziam os colegas.
O filho se espelhava nele.

Às 23h30 de domingo,
terminava a jornada do dia
cansado
a dez minutos de casa
passou mal
(beirava os 60 anos)
paralisado
olhos arregalados
bateu em 3 carros
3 motos
e no pé de um homem
estava morrendo?
nunca se saberia
porque uma horda de 40
o arrancou pela janela
e estraçalhou sua cabeça
com um extintor de incêndio
assim, sem mais:
“Endemoniados”,
cegos de fúria
cegos do julgamento precoce
fomentado pelo fato de serem
Multidão.

Ele virou capa de jornal.
A viúva chora.
Os filhos choram.
Os colegas choram.
Os passageiros choram.
Os leitores choram.

O churrasco de aniversário teve que ser cancelado: foi enterrado no dia da festa.

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Os dois lados de Belo Monte

Texto de José de Souza Castro:

Há alguns dias, 19 artistas da Rede Globo de Televisão desferiram um ataque maciço contra a construção da Usina de Belo Monte. O canhoneio veio na forma de um simpático vídeo que se inspirou num outro feito nos Estados Unidos por Spielberg durante a campanha eleitoral que elegeu o atual presidente, para motivar os eleitores a votarem.

O vídeo dirigido por Marcos Prado pode ser visto AQUI.

No dia 25 último, o blog Verde informou que o Movimento Gota D’Água conseguiu, por meio desse vídeo, reunir mais de um milhão de assinaturas em sua página na internet, num abaixo-assinado a ser entregue à presidente Dilma Rousseff pedindo a interrupção imediata das obras da hidrelétrica de Belo Monte.

Um dos que assinaram, impressionado com os argumentos de Ary Fontoura, Juliana Paes, Cissa Guimarães, Maitê Proença, Marcos Palmeiras e outros 14 atores globais, me enviou no último dia 25 o vídeo. Perguntei se ele se preocupara em ouvir o outro lado. Não. Três dias depois, se redimiu, enviando este outro vídeo, que responde com números ao vídeo anterior. Usa-os, em vez de artistas. O vídeo é uma voz de homem, duas mãos, papéis, caneta… e números.

Antes de tomar posição a respeito, é preciso pelo menos ver os dois vídeos. Ou então ir ao site da Agência Nacional de Energia Elétrica e procurar lá, no mapa do site, o edital de geração, publicado em 2009, da usina de Belo Monte. Parece que foi isso que fez o jornalista Davis Sena Filho, do blog Palavra Livre, do site do Jornal do Brasil, antes de escrever ESTE artigo.

Um artigo que, se convidado, eu assinaria embaixo.

“Belém-belém, daqui a pouco tou de bem”

Já briguei com vários amigos ao longo da vida, ou simplesmente me afastei, por força das circunstâncias. No último ano, por exemplo, duas amigas ficaram para trás e agora são praticamente apenas parte da memória.

Isso me lembra que, quanto mais crescemos, mais as coisas vão se tornando “definitivas”. É por isso que um velho escritor disse, certa vez, que afortunado é aquele que tem um amigo verdadeiro na hora da morte, porque valerá mais do que dez amigos fajutos.

Eu acho que ainda conto uns dez verdadeiros, mas é uma contagem que se altera com o passar do tempo. E, ao mesmo tempo, nos adaptamos cada vez mais fácil a esse tipo de perda.

Por outro lado, quando somos crianças, as brigas duram meia hora, e logo se faz as pazes, sem ressentimentos, como se a memoriazinha curta, ainda em formação, não alcançasse mais do que isso. (Ou – acho mais provável – quando somos crianças os problemas e as sacanagens cometidas são bem menos graves ou doloridos do que com o avançar da idade.)

Quando eu era criança, era muito comum brigar no recreio, por qualquer bobagem, e olhar para a amiga, fazendo um gesto da mão dando um tapinha nas bochechas, alternadamente, entoando: “Belém-belém, nunca mais tou de bem!”

Cada cidade e época deve ter sua variante para a tradição.

Eu própria “criei” uma, que preferia usar: “Belém-belém, daqui a pouco tou de bem.” Achava mais realista.

Lembrei disso agora por causa da minha sobrinha de 3 anos.

Certo dia, ela chegou para a mãe e disse: “Você é minha melhor amiga para sempre!”

Semanas depois, esquecida da declaração, a mãe a chateou por algum motivo e ela soltou a seguinte pérola:

“Nunca mais falo com você!!!”

Pensativa, ruminou o que acabara de dizer por alguns segundos e completou:

“… só quando eu precisar de ajuda pra fazer cocô!”

😀

Para quem odeia ou ama o Legião Urbana

Já postei sobre o Legião na minha infância e os comentários mostraram como é uma banda amada e odiada por muitos (fora os indiferentes e os que nasceram na geração de Restart, que nem sei o que é).

Pois bem. Este post é para os dois grupos. Porque morri de rir principalmente por conhecer as letras em seus ritmos originais. E quem detesta o Renato Russo terá ainda mais motivos para gargalhar.

Bom domingo a todos: http://renatoerachato.tumblr.com/ 😀

Caminhoneiros do Brasil, um relato

Hoje, ao conversar com o motorista (do jornal, óbvio) a caminho do aeroporto, descobri como é dura a vida dos que trabalham com caminhão.

Confesso que, apesar de ser uma profissão de machões ou de mulheres estigmatizadas como “sapatões”, sempre achei que deveria ser divertido trabalhar na estrada. Primeiro porque adoro dirigir na estrada. Segundo porque a pessoa deve conhecer o Brasil em todos os seus rincões e deve ver paisagens lindíssimas que nem sonhamos que existem. Terceiro pela sensação de liberdade, por não ter, necessariamente, que lançar âncora em lugar nenhum (coisa que a gente acaba fazendo vez ou outra, mas até hoje não ancorei de vez).

Mas eu me “esqueci” da pressão pela entrega dos produtos, do baixo pagamento, que tenta ser contornado com horas absurdas de trabalho sem sono, das estradas em estado deplorável (especialmente as mineiras) etc.

E o que ele me contou, da rotina que levou por muito tempo, enquanto foi caminhoneiro, me acordou.

Era assim (tirado de memória da conversa às 5h30):

Fernão Dias é meu lar

“Eu conhecia a estrada São Paulo-Beagá como a palma da minha mão, porque fazia ela quase todo dia. Mas enquanto os carros normais levam oito horas para cumprir os 580 km de distância, eu levava sete. Sete horas de caminhão!

Saía às 22h com o carregamento cheio e chegava a Beagá às 5h. Descarregava a mercadoria, dormia só uma hora de sono e voltava às sete horas até São Paulo, chegando aqui umas 15h.

Uma hora de sono

Às 21h, eu tinha que estar de volta para começar tudo de novo. E tinha medo de dormir entre 15h e 21h porque eu morava na Penha e pegava um trânsito grande até o depósito. Um dia eu dormi e depois peguei um acidente no caminho, congestionou tudo e só consegui chegar no serviço às 23h. Já fui partindo, na correria, pra Beagá.

Fazia sempre dois dias de trabalho, pra um de folga. Na folga eu dormia o dia intero, pra compensar. Mas no trabalho eram 14 horas por dia com uma hora de sono só.

Férias de um ano, nove anos sem férias

Fiquei assim por nove anos, sem férias. Um dia não aguentei: pedi as contas. O empregador ofereceu 15 dias de férias e eu respondi: “Que 15 dias o quê! Eu vou pra Natal e vou sumir. Quero minha demissão!” Eles pagaram tudo e eu tirei um ano inteirinho de descanso. Não fiz mais nada além de descansar nesse ano.

Depois eu voltei pra São Paulo e recomecei no trabalho com caminhão. Fiz, além de Beagá, Curitiba e Rio. O Rio era mais perto, mas detesto aquele lugar: fui assaltado duas vezes e, na última, atiraram contra o caminhão. No dia seguinte falei: “Trabalho em qualquer lugar, mas, no Rio, nunca mais.” Cheguei a fazer Brasília, saindo às 13h e chegando lá só de madrugada.

Um soninho tão bom…!

No natal a correria aumenta e eu chegava a fazer vários dias sem folga e sem dormir. Num dia, descendo a serra de Igarapé, cochilei no volante. Até sonhei, foi tão bom…!

Acordei com a buzina de uma carreta no meu ouvido.

Eu estava indo pro acostamento. Foi a única vez que dormi no volante e nunca me acidentei.

Na mesma hora parei no primeiro posto que vi e dormi até recuperar as forças. Porque quando o sono vem, não tem alarme que seja suficiente, não adianta tomar café ou lavar o rosto: você dorme mesmo, apaga. E em um segundo pode causar uma tragédia.

A tragédia do rebite

Eu nunca usei rebite. Meu rebite é o meu sono, nada substitui. Não gosto porque é droga, vicia. No começo você toma um comprimido para ficar nove horas acordado. Depois precisa tomar dois comprimidos pra ficar o mesmo período. Vai cada vez fazendo menos efeito.

Conheci um cara que já estava tomando uma cartela de 30 comprimidos para ficar acordado só três horas! Eu falava com ele: “Você deve ter uma farmácia aí dentro, né? Faz muito mais efeito dormir.” Naquela época a gente trabalhava com transporte de soja e levava dias só na fila para descarregar no porto, dava pra dormir no sofá do caminhão numa boa, por várias horas. Mas ele já estava era viciado mesmo.

E tem uma história que aconteceu com um amigo meu que me serve de exemplo para nunca tomar rebite. Ele ia pra Bahia com a mulher, grávida de um bebê, o primeiro filho deles. Foi dirigindo de São Paulo a Beagá, depois de lá pra Governador Valadares, direto. Chegando em Valadares, tomou rebite pra continuar acordado. Quando estava na divisa com a Bahia, apagou. Acordou só 20 dias depois, saído do coma.

Sua mulher e o bebê já estavam enterrados. E ele nunca mais quis ver um caminhão em sua frente.

***

Hoje eu tomei antipatia de caminhão. Às vezes faço uns bicos nas folgas, mas tenho recusado mais que aceitado. A saúde é mais importante.”