Em homenagem ao motorista Edmilson dos Reis Alves, que foi linchado por ter passado mal enquanto dirigia o ônibus em que trabalhava. Foi enterrado no dia em que faria 60 anos. Deixa mulher e quatro filhos.

Não fumava, não bebia
só trabalhava.
Estava em seu quinto emprego
após seis bicos.
Tinha que sustentar a esposa
e os quatro filhos.
Pilotava um busão lotado
dez horas por dia.
Praça da Sé-Jardim Planalto
centro-zona leste.
Nas horas vagas,
cuidava da hortaliça.
Nas horas vagas?
trabalhava muito.
“Exemplar”, diziam os colegas.
O filho se espelhava nele.
Às 23h30 de domingo,
terminava a jornada do dia
cansado
a dez minutos de casa
passou mal
(beirava os 60 anos)
paralisado
olhos arregalados
bateu em 3 carros
3 motos
e no pé de um homem
estava morrendo?
nunca se saberia
porque uma horda de 40
o arrancou pela janela
e estraçalhou sua cabeça
com um extintor de incêndio
assim, sem mais:
“Endemoniados”,
cegos de fúria
cegos do julgamento precoce
fomentado pelo fato de serem
Multidão.
Ele virou capa de jornal.
A viúva chora.
Os filhos choram.
Os colegas choram.
Os passageiros choram.
Os leitores choram.
O churrasco de aniversário teve que ser cancelado: foi enterrado no dia da festa.





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