O engenheiro Geraldo e a navalha de Maugham

W. Somerset Maugham, romancista e dramaturgo nascido em Paris em janeiro de 1874, já havia publicado 39 livros ao lançar, em 1946, “The Razor’s Edge” (“O Fio da Navalha”). Eu estava na faculdade quando li esse livro pela primeira vez. Na época, com menos de 30 anos de idade, não me chamou a atenção um parágrafo sobre a velhice, ao contrário de agora, quando o estou relendo.

“Pela primeira vez em quarenta anos Elliott não passava a primavera em Paris. Embora não aparentasse essa idade, estava agora com setenta anos e, como acontece comumente com homens tão idosos, havia dias em que se sentia cansado e doente. Ia aos poucos abandonando os exercícios e agora quase que só se limitava aos passeios a pé. Preocupava-se muito com a saúde e seu médico vinha vê-lo duas vezes por semana, para espetar alternadamente numa das nádegas uma agulha com a injeção da moda. Em todas as refeições, tanto em casa como fora, Elliott tirava do bolso um estojinho de ouro e dele extraía um comprimido, engolindo-o com o ar compenetrado de quem está cumprindo um rito sagrado.”

Quando se é jovem, um homem de 49 anos parece velho. Foi nessa idade que Plínio Carneiro, meu professor de Relações Públicas no curso de Jornalismo da UFMG, morreu em consequência de um aneurisma cerebral, deixando viúva e duas filhas adolescentes. Eu gostava muito dele e me consolei pensando que Plínio já havia vivido muito – e bem.

Mas Maugham, ao escrever aquilo, estava com 70 anos. Teve tempo e disposição para escrever depois mais 15 livros, incluindo “A Servidão Humana”. Foi um escritor incansável. Aos 13 anos, teve publicado seu livro de estreia, “O Pecado de Liza”, e aos 87, “Purely for My Pleasure”, o último de seus 55 romances, livros de viagem e crítica, aos quais se somam mais 24 peças teatrais. Só morreu em dezembro de 1965, faltando um mês para completar 90 anos.

Eu pensava nisso, sem tantos detalhes, quando encontrei no clube em que caminho diariamente por uma hora e faço mais meia hora de ginástica, um velho desconhecido que estava tentando ver seu peso numa balança, com dificuldade para enxergar, perto dos pés, os números. Continuar lendo

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Chegou a hora de ser otimista

Texto escrito por José de Souza Castro:

Há um mês escrevi que chegou a hora de ser pessimista. Errei. Certifiquei-me do erro ao ler esta entrevista do governador do Maranhão, Flavio Dino, publicado dois dias antes do 7 de Setembro pelo Brasil de Fato. Pessimismo, diz o político do PCdoB, “é uma armadilha ideológica, porque é a paralisia da sociedade em relação aos problemas nacionais e, ao mesmo tempo, uma espécie de diversionismo, porque você desvia a atenção do que está acontecendo”.

É hora, isso sim, de a esquerda se programar para as eleições de 2018, trazendo ao eleitor novas propostas. “Não se pode continuar a fazer o mesmo que fazíamos, porque há novas questões”, disse Flávio Dino à repórter Cristiane Sampaio. “Precisamos financiar os serviços públicos e, para isso, precisamos de Justiça Tributária, no sentido de que os mais ricos, os milionários, bilionários, os rentistas e o capital financeiro têm que pagar os seus impostos com proporcionalidade em relação aos mais pobres”, exemplificou Dino. Para ele, a injustiça tributária no Brasil é uma anomalia escabrosa.

Ao lado disso, o país está perdendo o próprio conceito de soberania que é o poder de estabelecer a confiabilidade da nossa moeda, a segurança das relações jurídicas, Conforme Dino, “quando olhamos tudo isso que está acontecendo, é que nós identificamos que, com esse sentimento de que o Brasil não tem jeito, o povo brasileiro realmente põe tudo a perder, ou, no sentido mais da luta política, de que ‘a culpa é dos vermelhos’, ‘a culpa é da esquerda’, é algo que atende exatamente aos interesses dessa minoria de privilegiados que não têm o menor respeito pelo sofrimento do nosso povo, pelos desempregados, por aqueles que precisam do trabalho, da geração de renda, de investimentos, que moram no Brasil”.

Só é possível para a esquerda voltar ao comando do país se Continuar lendo

O programa do Mercado feito por Henrique Meirelles e suas consequências desastrosas para o povo brasileiro

Olha o sorrisão de Henrique Meirelles…

Texto escrito por José de Souza Castro:

O Mercado, informa Samuel Pinheiro Guimarães, é integrado por cerca de 200 mil pessoas que declaram à Receita Federal rendimentos mensais superiores a 80 salários mínimos (cerca de R$ 80 mil). Seu número é inferior a 0,2% da população adulta brasileira. E menos de 1% dos declarantes do Imposto de Renda.

Pois bem, é para essa população reduzida que se orienta toda a política econômica do governo Temer. Visando a satisfazê-la e seguindo à risca as políticas do Consenso de Washington formuladas, em 1989, por economistas do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, satisfazendo também os integrantes do Mercado mundial. Tudo boa gente.

É um assunto árido que o embaixador Pinheiro Guimarães, no entanto, trata de forma bem clara e didática num artigo publicado na última quinta-feira. Vou resumi-lo. Para quem não sabe, o autor foi secretário-geral do Itamaraty e Ministro de Assuntos Estratégicos no Governo Lula.

O programa do Mercado é o programa econômico do ministro Henrique Meirelles, que foi presidente do BankBoston entre 1996 e 1999 e do FleetBoston Financial, nos Estados Unidos. Que presidiu o Banco Central do Brasil, de 2003 a 2010. E, entre 2012 e 2016, o Conselho de Administração da holding J&F, de Joesley Batista, aquele que até junho deste ano era um dos milionários amigos de Temer.

Esse programa, diz Pinheiro Guimarães, é “desejado com ardor (e promovido com recursos) pelos banqueiros, rentistas, grandes empresários comerciais e industriais, grandes proprietários rurais, donos de grandes órgãos de comunicação, gestores de grandes fortunas, executivos de grandes empresas e seus representantes no Congresso”.

Tudo gente boa.

O problema é que o Programa de Reformas de Meirelles – na verdade, contrarreformas – promove um retrocesso econômico e social ao período anterior a 1930. Anterior a Keynes. Um programa que deveria ser rejeitado, não fosse a ignorância, pela esmagadora maioria do povo. Enquanto o povo não se informar e reagir, esse programa será imposto de forma implacável ao Brasil. Continuar lendo