O grande blefe do ministro Guedes

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ministro da Economia do governo Bolsonaro, Paulo Guedes blefa

O ministro da Economia, Paulo Guedes, pediu paciência, durante “um ou dois anos”, para que o Brasil volte a crescer em razão de suas medidas ultraliberais. Terão os brasileiros mais paciência que os chilenos?

Os chilenos, depois de 17 anos submetidos à ditadura Pinochet que ainda orgulha Bolsonaro e Guedes – este, um admirador das reformas defendidas pela Escola de Chicago, que na época era o templo mundial do ultraliberalismo –, perderam a paciência, botaram o general para correr, e voltaram a ser governados pela socialdemocracia.

Para manter os chilenos “pacientes”, a ditadura assassinou 3.200 opositores, prendeu e torturou 38 mil pessoas e 100 mil foram obrigados a se exilar. Durante os primeiros 12 anos da ditadura, os mais brutais, o governo militar impôs “toque de recolher” a todos, de 10 da noite às 6 da manhã.

Esses dados, tirei-os de um artigo, assinado pelo cientista político José Luís Fiori. Tem como título “O ditador, a sua ‘obra’, e o grande blefe do senhor Guedes”. O blefe é apostar que o Chile de Pinochet teve um modelo econômico que deve ser imitado.

Na verdade, um modelo catastrófico, sustenta Fiori, contrapondo-se ao que diz toda a imprensa conservadora e o que expressa o “superministro” de Economia do capitão.

Os economistas da Escola de Chicago imperaram no Chile de 1973, ano do golpe militar, a 1982, quando uma crise catastrófica obrigou Pinochet a estatizar o sistema bancário chileno, demitir o seu superministro da Economia e reverter várias reformas, como a desregulamentação do setor financeiro e da própria política cambial que vinha sendo praticada pelo Banco Central do Chile.

Em 1982, o PIB chileno caiu 13,4%, o desemprego chegou a 19,6% e 30% da população chilena se tornou dependente dos programas de assistência social que foram criados ad hoc, para enfrentar a crise. “E assim mesmo, quatro anos depois, já em 1986, o PIB per capita chileno ainda era de apenas US$ 1.525, inferior ao patamar que havia alcançado em 1973”, diz Fiori.

Quando a ditadura acabou, em 1990, o PIB real per capita médio do Chile havia crescido apenas 1,6% ao ano. A taxa de desemprego estava em 18%. E 45% da população viviam abaixo da linha da pobreza.

Guedes tenta impor ao Brasil, um país de mais de 200 milhões de habitantes e uma indústria relevante, um modelo que fracassou no Chile, que tinha apenas 10 milhões de habitantes em 1973 e uma única indústria importante, a do cobre. É uma indústria estatal que nem mesmo os “Chicago Boys”, em seu auge, ousaram privatizar.

Mas eles, ao longo da ditadura, conseguiram realizar reformas, que se repetiram no mundo, em governos neoliberais: flexibilização ou precarização do mercado de trabalho; privatização do setor produtivo estatal; abertura e desregulação de todos os mercados, e em particular, do mercado financeiro; abertura comercial radical e fim de todo tipo de protecionismo; privatização das políticas sociais de saúde, educação e previdência; e finalmente, privatização inclusive dos serviços públicos mais elementares, tipo água, esgoto, e de fornecimento de energia e gás.

No Brasil de Bolsonaro, elas avançam muito. Bem mais que no de Fernando Henrique Cardoso e Michel Temer.

Impulsionadas pelo presidente direitista dos Estados Unidos, que nesta semana impôs condições para fechar um acordo comercial com o Brasil. Tais como: proteção à propriedade intelectual americana, redução de barreiras às empresas americanas e restrição do papel das estatais brasileiras.

É um modelo que está levando a Argentina ao fracasso e à derrota eleitoral de seu presidente e que vem se mostrando ineficiente em todos os países que o adotaram. Mas Guedes e seus amigos economistas não desistem. Em suas análises, quando falam do Chile, sempre se esquecem de dizer que esse país só se tornou o que é hoje depois do fim da ditadura e a partir do momento em que voltou a ser governado pela socialdemocracia.

Fazendo lobby pela aprovação de uma PEC (Proposta de Emenda Constitucional), o presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco, nomeado por Guedes e Bolsonaro, disse na última terça-feira, no Senado, que sem essa aprovação, que autorizaria a União a fazer pagamento de US$ 9 bilhões em indenização à estatal, esta não poderá participar do leilão da cessão onerosa de áreas do pré-sal, previsto para o início de novembro.

Uma boa desculpa para vender tudo às multinacionais do petróleo, como exige Trump, que só quer em seu quintal uma única potência – os Estados Unidos.

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Marcos de Souza Castro e a interferência da morte

Texto escrito por José de Souza Castro:

“Devo ser o único brasileiro em todos os tempos, e um dos raros em todo o mundo, a fazer três dicionários ao mesmo tempo”, escreveu Marcos de Souza Castro em dezembro de 2015. Diz que iniciou o de alemão em maio de 2010 e que o dicionário já estava com 1.323 páginas e 30.626 verbetes definidos; o de francês, começado em junho de 2014, tinha 320 páginas e 7.334 verbetes; o de inglês, iniciado um ano depois, contava com 165 páginas e 5.603 verbetes definidos.

O trabalho, que poderia ter tornado famoso esse professor de línguas, foi interrompido pelas intermitências da morte na última terça-feira, quando Marcos, com 65 anos, sofreu um ataque cardíaco quase chegando ao lar, no Bairro São Lucas, em Belo Horizonte. A morte foi noticiada pelo site BHAZ com o título: “Morre em acidente na avenida do Contorno professor que execrou a própria filha por apoio ao PT”.

Tudo mais que ele fez na vida foi obscurecido por esse trágico ataque, pela Internet, de um pai a uma filha, um ataque visto por mais de 15 mil pessoas. E que vale como exemplo de como o radicalismo ou fanatismo na política pode ser pernicioso para a família, o país e o mundo.

Marcos, meu irmão, nasceu em 1954 numa fazenda no município de Luz. Era o sétimo filho do fazendeiro Homero Theotônio de Castro que, uns 10 anos antes, falira durante a crise do zebu e se tornara um sem-terra. A família continuou crescendo e chegou a 12 filhos. Nesse meio tempo, o pai conseguiu recuperar sua fazenda, com muito trabalho e a ajuda de irmãos.

Serviriam de inspiração para um bom romancista a história dessa família. Sobressaindo Marcos, sua mulher economista e os três filhos – dois advogados e uma médica. Com seus conflitos emocionais e políticos; suas realizações como professor de veterinária na Universidade Federal de Viçosa (da qual foi expulso duas vezes por um reitor que havia sido coronel do Exército) e do seu curso próprio de línguas estrangeiras em Belo Horizonte; e que além dos três dicionários inacabados escreveu um livro também inédito de mais de 500 páginas contando sua vida com a esposa, Ivone Moreira de Castro, falecida em 2003, aos 47 anos de idade, de câncer.

Desde o final de 2015, seus dicionários avançaram muito. Em um vídeo de 23 de junho passado, ele se mostrava bem animado com o dicionário de alemão. Dá os números: 2007 páginas, 1.206.301 palavras e 42.463 verbetes.

Seria lastimável se do Marcos ficasse como lembrança, nas pessoas que o conheceram, bem ou mais ou menos, somente aquele episódio triste do ataque à filha médica, motivado pela política. “O que o tornou tão mau?”, perguntou-me a Cris, sobrinha que conheceu dele mais o lado negativo. Não soube responder. E não consigo ver pessoa nenhuma só pelo seu lado mau. No caso do Marcos, foram tantos os lados bons, que a balança certamente penderia a seu favor.

Lembro-me, por exemplo, de suas lágrimas na despedida do irmão Luiz, a quem agora faz companhia num túmulo do cemitério municipal de Lagoa da Prata, juntamente com os pais e o irmão aviador Homero e da mulher deste. Marcos era o que mais chorava – exatamente ele, que tinha estado brigado, desde alguns anos, com o Luiz, um engenheiro agrônomo formado em Viçosa e que tomava conta da fazenda da família.

Logo mais, acredito, Marcos teria se arrependido da briga com a filha Iara e até pedisse perdão. Faltou o tempo e a sabedoria que costumam fazer companhia aos mais velhos, aos que perdem as ilusões e passam a compreender de fato a antiga oração sobre os que nos têm ofendido.

Sem o perdão e a compaixão, é muito difícil a todos viver neste mundo, neste “Vale de Lágrimas”.


Leia também:

    1. O Dia da Madrinha
    2. O Dia da Tia
    3. Uma reflexão sobre a morte
    4. A simplicidade da morte, por Rubem Alves
    5. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
    6. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo

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A venda da Petrobras Distribuidora, um ‘negócio da China’

Petrobras está sendo privatizada aos poucos. Charge de Nani.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Fui demitido da Petrobras no dia 30 de abril de 1971. Sete meses depois, foi criada a Petrobras Distribuidora. O responsável pelos dois fatos foi o general Ernesto Geisel.

Ele era o presidente da estatal desde 1969. Antes, foi chefe de gabinete do Gabinete Militar do presidente Castelo Branco e se aposentara como ministro do Superior Tribunal Militar. Presidiu a Petrobras até 1973 e, no ano seguinte, foi escolhido presidente da República. Vivo fosse, seria uma voz respeitável contra a privatização da Petrobras Distribuidora formalizada na última terça-feira (23).

Diante desse último fato, que importância tem ter sido eu demitido da Petrobras por ordem do general presidente? É que eu não fui demitido sozinho. Geisel mandou que fossem demitidos todos os empregados da Petrobras que não fizessem opção pelo FGTS. Ao ser criado, em setembro de 1966, no governo do marechal Castelo Branco, o FGTS substituiria a estabilidade no emprego, que era conquistada pelo trabalhador após dez anos numa mesma empresa. E o FGTS era optativo.

Se eu não tivesse sido demitido, daí a quatro anos teria estabilidade, um sonho de qualquer trabalhador na época. Comigo foram demitidos mais de 400 petroleiros que preferiram não fazer opção pelo FGTS e tentar a sorte em outra profissão. No meu caso, o jornalismo.

Conto isso para que você saiba o que vai acontecer se passar a proposta do ministro da Fazenda de os trabalhadores fazerem opção pela previdência privada, em prejuízo do INSS. Em pouco tempo, o chamado “mercado” se encarregará de transformar tal opção numa obrigatoriedade. A história está aí para provar. A decisão de Geisel na Petrobras teve seguidores em todas as empresas brasileiras. Logo elas não teriam qualquer trabalhador estável. A exceção era no serviço público, com seus privilégios conhecidos desde o Brasil Colônia.

Nos seis anos em que estive na Petrobras, a luta dos petroleiros era para que a empresa pudesse também distribuir seus produtos para o consumidor final. A distribuição era considerada a parte mais lucrativa do setor petroleiro. Quando a Petrobras foi criada, em outubro de 1953, o presidente Getúlio Vargas, para acalmar as petroleiras estrangeiras, deixou para elas o lucrativo mercado da distribuição.

Geisel não deixou. E não demorou, a Petrobras Distribuidora passou a liderar esse mercado, concorrendo em igualdade de condições com Exxon/Esso, Shell e Texaco, entre outras multinacionais – as famosas “sete irmãs” do petróleo.

Muitos militares mais velhos ainda se lembram, com orgulho, dos feitos de Geisel nessa área. A Petrobras Distribuidora, que tinha os brasileiros como acionistas, encerrou essa história, nesta semana, com números impressionantes: presença nos 26 Estados brasileiros e no Distrito Federal, com mais de 8.000 postos de serviços; maior empresa do setor de distribuição de combustíveis no Brasil; e segunda maior empresa brasileira em faturamento.

A Petrobras, que vai sendo privatizada aos poucos, se desfez do controle acionário de sua principal subsidiária por R$ 8,6 bilhões, ao vender 30% de suas ações. Em 2017, já havia vendido 28,75% das ações por cerca de R$ 5 bilhões.

Só em 2018, a Petrobras Distribuidora registrou lucro líquido de R$ 3,193 bilhões. Aumento de 177,4% sobre 2017.

De tudo isso, uma coisa é certa: quem comprou essas ações fez um “negócio da China” para nenhum Sergio Moro botar defeito.

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Febeapá comemora a morte de Paulo Henrique Amorim (1943-2019)

Vai fazer falta, PHA!

Texto escrito por José de Souza Castro:

Comecei a prestar atenção em Paulo Henrique Amorim em 1972, ano em que iniciei minha carreira profissional no Jornal do Brasil e em que ele ganhou o Prêmio Esso por uma reportagem sobre distribuição de renda, publicada pela Veja. Uma revista que, naquela época, era impossível de se imaginar que viesse a se transformar naquele “detrito sólido de maré baixa”, satirizado por PHA no seu Conversa Afiada.

Muito aprendi com PHA nos oito anos em que convivemos no JB, quando ele chefiava a redação no Rio e eu a redação da sucursal mineira. Muito antes de o jornal lançar seu primeiro manual de redação, em julho de 1988 (quatro anos depois de Paulo Henrique Amorim ter sido demitido por Nascimento Brito), ele redigiu algumas normas para melhorar o jornal. Apesar dos vários defeitos apontados pelo rigoroso Chefe de Redação, o JB era considerado desde muitos anos o melhor jornal do país.

“Nos últimos tempos”, escreveu PHA no começo da década de 1980, “se tem observado que as entrevistas restringem-se, cada vez mais, a informações reveladas pelo entrevistado. Na verdade, além de tornarem-se áridos à leitura, esses textos não transmitem ao leitor as circunstâncias em que os fatos foram anunciados. Muitas vezes, os ambientes em que se dão as entrevistas – pelo que possam conter de bizarro, de inusitado ou mesmo de adequado – encerram informações tão valiosas quanto as que são fornecidas pelo entrevistado. Esses detalhes dificilmente serão o lead da notícia, mas servirão, certamente, para transmitir ao leitor um quadro completo do acontecimento”.

Os leitores e ouvintes contumazes do Conversa Afiada, como eu, sabem que ele continuava acreditando nisso. E o sucesso do seu blog comprova que estava certo. Nisso e em muitas outras coisas, como a indispensável coragem com que exercia a profissão.

Charge do Latuff

Coragem que lhe rendeu, como prêmio adicional, a condenação, por exemplo, de pagar indenização de R$ 150 mil ao ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, a quem chamava de “ministrário”. A condenação foi por ter PHA anunciado o “lançamento comercial do ano”, o “cartão Dantas Diamond”, em referência ao banqueiro Daniel Dantas, que havia sido beneficiado por dois habeas corpus do “ministrário” em 2008.

Desde o início do governo Bolsonaro, eu temia que ele passaria a enfrentar novos processos judiciais, dada a ousadia com que vinha atacando o capitão e seus seguidores. Paulo Henrique Amorim teve a sorte de morrer, por enfarte, antes que a milícia bolsonariana, judiciária ou não, o atacasse. Seu afastamento, há alguns dias, do Domingo Espetacular, o mais assistido dos programas jornalísticos da tevê do bispo Edir Macedo, era um prenúncio do que viria a seguir.

A morte do jornalista será motivo para muito pesar para seus leitores e amigos. Mas também de comemoração para muitos inimigos. Não podemos ter ilusão: quanto melhor o jornalismo que se faz, mais os inimigos que se cria.

Paulo Henrique Amorim morreu aos 76 anos, deixando uma filha e a mulher, a jornalista Geórgia Pinheiro. O blog Conversa Afiada postou a noticia com as primeiras repercussões da morte por enfarte, durante a madrugada, de um dos maiores jornalistas da atualidade.

Resta-nos o sentimento de que o destino escolheu um péssimo momento para obrigar Paulo Henrique Amorim a afastar-se de nós. Sem ele, vai crescer o Festival de Besteiras que Assola o País (Febeapá).

Charge do Pires publicada no Charge Online.


Nota da Cris: No livro “Sucursal das Incertezas”, meu pai relembra histórias de seus tempos de “Jornal do Brasil”. Paulo Henrique Amorim é citado no livro três vezes. Numa delas, meu pai conta o motivo pelo qual ele acabou demitido do JB. Você pode baixar o livro gratuitamente na Biblioteca do Blog

 

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Invasão do Brasil por uma potência estrangeira teria impacto igual ao do programa de Paulo Guedes

Todas as charges deste post são do genial Duke e foram originalmente publicadas no jornal mineiro “O Tempo” – www.otempo.com.br

Texto escrito por José de Souza Castro:

Em setembro de 2017 tive oportunidade de resumir aqui um artigo do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães sobre o programa econômico feito pelo ministro Henrique Meirelles para o governo Temer. O autor se debruçou agora sobre o projeto do sucessor de Meirelles, Paulo Guedes, o “Posto Ipiranga” do governo Bolsonaro.

O novo artigo tem aproximadamente duas mil palavras. Didático, fácil de ler e entender, o texto de Guimarães foi dividido por ele em 24 itens. A íntegra pode ser lida AQUI. O penúltimo item nem precisa ser resumido. É este:

“23.  A natureza do Governo do Presidente Jair Bolsonaro, em seu ataque permanente e enviesado às instituições econômicas, sociais e políticas, é tão radical que a implementação de suas políticas terá resultados mais graves do que as políticas que decorreriam da invasão e da ocupação do Brasil por uma Potência estrangeira, que se empenhasse em dificultar o desenvolvimento do país e de submetê-lo a seus interesses políticos, econômicos e militares.”

O embaixador tem 79 anos. Formou-se em 1963 em Ciências Jurídicas e Sociais na Universidade do Brasil e em 1969 concluiu o mestrado de economia na Universidade de Boston. Entre os diversos cargos que ocupou, foi secretário-geral de Relações Exteriores do Itamaraty entre 2003 e 2009 e ministro-chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos entre 2009 e 2010, no governo Lula.

Segundo Samuel Pinheiro Guimarães, é uma “terceirização” inédita na História do Brasil a decisão do presidente Bolsonaro de transferir a um economista ultraliberal, cuja visão é a visão do mercado, toda a responsabilidade para formular e executar a política econômica.

Guedes adotou, integralmente, o Projeto do Mercado para o Brasil. É o projeto dos muito ricos, dos megainvestidores, das empresas estrangeiras, dos rentistas, dos grandes ruralistas, dos proprietários dos meios de comunicação de massa, dos grandes empresários, dos grandes banqueiros, e de seus representantes na política, na mídia e na academia. “É o projeto de uma ínfima minoria de indivíduos, para se beneficiar como ínfima minoria do trabalho de 210 milhões de brasileiros”.

Acrescenta Guimarães que dos 150 milhões de brasileiros adultos (o que corresponde ao número de eleitores), 120 milhões ganham menos de dois salários mínimos por mês e estão isentos de apresentar declaração de renda. E cerca de 20 mil que declaram ter renda superior a 160 salários mínimos por mês são os que controlam o mercado. É para estes que o ministro de Bolsonaro quer governar.

E pretende convencer o restante da população de que são verdadeiras estas suas premissas: a iniciativa privada pode resolver sozinha todos os problemas brasileiros; a iniciativa privada estrangeira é melhor do que a brasileira; o Estado impede a ação eficiente da iniciativa privada; é correta a teoria das vantagens comparativas para explicar a divisão internacional do trabalho entre nações industriais e nações produtoras/exportadoras de matérias primas, e que incluiria, entre essas últimas, o Brasil; o Brasil deve procurar se aliar econômica e politicamente a Estados poderosos do Ocidente, em especial aos Estados Unidos, e não a países subdesenvolvidos, pobres, atrasados, turbulentos.

Entre as políticas que estão sendo executadas por Guedes, em conformidade com aquelas premissas, estão o congelamento constitucional dos gastos públicos primários, em termos reais, por vinte anos; a prioridade absoluta ao pagamento do serviço da dívida pública; o não aumento de impostos e até redução de impostos (e, portanto, de receitas públicas); a privatização, para o capital nacional ou estrangeiro, de todas as empresas do Estado, agora de forma acelerada; a reforma (privatização) da Previdência; a abertura de todos os setores da economia a empresas estrangeiras; a eliminação radical e unilateral de tarifas aduaneiras; a revogação da legislação trabalhista para reduzir o “custo” do trabalho; a política anti-inflacionária, de real valorizado e juros elevados, com consequente desindustrialização; a redução dos impostos sobre as empresas; a desregulamentação geral; a redução do Estado ao mínimo, e sua degradação técnica, com redução de órgãos, funcionários e salários; a descentralização de competência e de recursos da União para Estados e Municípios; e o alinhamento político, militar e econômico com os Estados Unidos, através da participação na OTAN e na OCDE.

Para quem acompanha o noticiário, sabe que essa política vem sendo implementada desde 2016,  no governo Temer.

E as consequências, de acordo com o embaixador, são visíveis: as medidas geraram 13 milhões de desempregados, mais de seis milhões de “desalentados”, 40 milhões de empregados informais (sem carteira e sem direitos), 60 milhões de endividados, falência de centenas de milhares de empresas, estagnação da economia, deterioração da infraestrutura, aumento da desindustrialização, precarização dos sistemas de saúde e educação, retorno de doenças que haviam sido erradicadas e não conseguiram, nem de longe, gerar a “confiança” dos investidores.

Tem mais, diz o embaixador. A política econômica de Paulo Guedes está destruindo os recursos naturais, mediante a liberação indiscriminada de agrotóxicos, da não repressão ao desmatamento e da leniência nas liberações ambientais. Está permitindo a degradação da infraestrutura de transportes, degradando a força de trabalho, destruindo a indústria, ameaçando-a com a redução unilateral e radical de tarifas aduaneiras, e o sistema de pesquisa científica e tecnológica.

Ao mesmo tempo, consolida o sistema financeiro improdutivo, o que se agravará com a eventual autonomia do Banco Central e sua “captura” definitiva pelos bancos, enquanto destrói a capacidade do Estado de promover o desenvolvimento, através da desarticulação e privatização dos bancos públicos, do corte de cargos; da transferência de competências da União para Estados e municípios.

Destrói também “a capacidade de construir um sistema dissuasório de Defesa da Soberania”, lamenta o embaixador, que poderia acrescentar que isso ocorre nas barbas dos generais que assessoram o governo Bolsonaro. Há mais coisas que ele diz, e que você pode ler no próprio artigo de Samuel Pinheiro Guimarães. Não perderá seu tempo.

Para concluir: o capitão Bolsonaro, se ele quer mesmo fazer tudo o que Paulo Guedes planeja, teria muito a ensinar a Hitler. Soubesse tudo o que sabemos agora, o ditador alemão poderia espalhar sua doutrina por todos aqueles países que invadiu e ocupou sem disparar nenhum tiro. E matar, igualmente, milhões de pessoas – de fome e miséria.

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