2º filme das férias: o demônio humano (ou: quem avisa amigo é)

Para ver no cinema: PRECISAMOS FALAR SOBRE O KEVIN (We need to talk about Kevin)

Nota: ?

Como veem, não tenho a menor condição de dar uma nota para esse filme.

Escrevo ainda sob o impacto dele, que me deixou pensativa em todo o caminho a pé do cinema até minha casa, e deve deixar muito mais.

Provavelmente é um filme muito bom, merecedor de um 10 com louvor, para ter me deixado assim. Sinal de que a história é forte, foi muito bem contada naquele entremeado de três épocas da vida da protagonista Eva, esses três tempos foram muito bem editados e tudo foi transmitido de forma tão convincente pelos atores (Tilda Swinton está perfeita, John C. Reilly está OK e as palmas vão para o ódio que os três atores que interpretam Kevin em diferentes idades nos despertam, especialmente o adolescente Ezra Miller) que saímos da sala estuporados, confusos, pensando se aquilo que vimos foi uma história real e, deus-do-céu, se foi, a vida é uma abominação.

Mas aí é que caberia uma nota baixa, só pela reação que provocou em mim. Não estou de TPM nem nada, mas chorei quase soluçando no final do filme, levada a isso pela forma com que o roteiro é conduzido, cheio de suspense, com um clímax que vai se tornando cada vez mais esperado, no sentido neutro da palavra previsível. É como se minhas lágrimas, em vez de aflorar, fossem se acumulando num poço próximo da minha garganta, bem salgadas, e de repente explodissem no final. E a verdade é que fazia tempo que eu não chorava com filme nenhum.

Poxa, então é mais um motivo para o 10, certo? Sendo tão emocionante. Ou vai que passa batido por muitos, menos sensíveis que eu, que dão de ombros, mas certamente se impressionam pelas atuações e todas as outras questões técnicas.

Bom para eles, mas, para mim, foi o filme mais pesado que já vi na vida. Não que tenha cenas “impróprias”, que jorre sangue para todos os lados, que seja uma sequência de Jogos Mortais e O Albergue e Psicopata Americano e Contos Proibidos do Marquês de Sade, com as “pesadezas” que cada um deles pôde produzir, a seu modo. Não é isso. É que traz o que pode haver de pior na alma humana e não o disfarça, como fazem os filmes de terror do gênero de “O Exorcista”, em questões sobrenaturais risíveis. E não estou nem só falando do Kevin, mas de tantos outros mostrados ao longo do filme.

Por isso, deixo aqui meu 10 e meu 1. A nota mais baixa vale porque eu não queria ter levado essa surra numa tarde assim tão agradável. Era melhor ter visto “O Gato de Botas”…

(E vocês, se forem assistir, pelo menos sentirão bem menos, agora que já os alertei.)

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Prefeito de BH, amigo dos bancos

Texto de José de Souza Castro:

Tenho criticado a imprensa mineira por não cumprir o seu papel mais importante, que seria dar voz aos que não se conformam com a má administração pública, tanto no governo estadual como em prefeituras. Por isso, devo reconhecer que houve uma mudança. Por enquanto, se limita a um jornal diário da capital, o “Hoje em Dia”, mas é importante.

Para mim, a mudança se tornou mais clara a partir do momento em que um ex-repórter da “Folha de S. Paulo”, Hélcio Zolini, voltou em 2011 ao “Hoje em Dia”, onde havia sido editor de Economia, para ser o diretor de Jornalismo. O jornal fundado por Newton Cardoso, quando governador, para se contrapor ao “Estado de Minas” – que pela primeira e única vez em sua longa história fazia oposição a um governador –, foi comprado pouco depois pelo grupo do bispo Edir Macedo, que atualmente controla também a TV Record, a emissora com maior audiência no Estado, depois da Globo.

O bispo Fabiano Freitas, da Igreja Universal do Reino de Deus, é o presidente do “Hoje em Dia” e da “Record Minas”. Se ele mantém a mesma orientação de independência jornalística também na televisão – não sei, pois raramente assisto TV –, a situação passa a não ser tão fácil para os ocupantes de cargos públicos no Estado continuarem a enganar os eleitores desinformados pela imprensa.

Muitos devem ter-se surpreendido, neste domingo, com a manchete da primeira página do “Hoje em Dia”, pouco favorável ao prefeito da capital, que tenta se reeleger, mais uma vez, com o apoio do PT e do governo mineiro, controlado pelo PSDB e por uma chusma de partidos caudatários do governador. Revela a manchete: “Prefeitura tem R$ 1 bilhão em caixa e obras paradas”. A reportagem, assinada por Humberto Santos, ocupa toda a página 3. Primeiro parágrafo:

“Empresário bem-sucedido, o prefeito Márcio Lacerda (PSB) levou para a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) os preceitos da administração privada. Estabelecimento de metas, premiação por produtividade e lucro. Nos três primeiros anos de seu mandato, Lacerda fez o montante de dinheiro da prefeitura aplicado em bancos saltar de R$ 492 milhões, em 2008, para R$ 1 bilhão em 2011. Entretanto,o dinheiro que está investido em aplicações financeiras poderia ter outra destinação, que não fosse render dividendos. Se fosse investido em intervenções urbanas, poderia tirar do papel obras que há anos embalam os sonhos dos belo-horizontinos. Os números estão disponíveis no site da transparência da administração municipal.”

Os interessados podem ler mais AQUI.

Termino com uma questão simples, que o leitor saberá responder: a quem beneficia, além dos próprios banqueiros, tanto dinheiro público depositado em bancos?

3º livro das férias

Para mim, o sujeito que escreve um livro de quase 500 páginas, com trocentos personagens, misturando figuras históricas reais e outras inventadas (para dar ambientação), que solta nomes estranhos a rodo e os retoma centenas de páginas adiante, que deixa diversas expressões francesas intraduzidas (o que considero um erro da editora no Brasil), que mistura tramas e fala através da voz de três totalmente diferentes narradores, inclusive com estilos diferentes, e que, apesar disso, nunca deixa seu leitor perdido é, sem sombra de dúvida, alguém que domina a arte da narração.

Este é Umberto Eco. Você pode começar a ler seu livro na primeira semana de janeiro, após devorar, um por dia, dois livros bem mais leves (já resumidos aqui no blog), parar por mais de uma semana enquanto faz viagens por lugares belos do Brasil e, ao retomar, tanto tempo depois, relembrar de tudo o que já foi tratado antes.

Isso é fácil e aceitável para muitas narrativas, mas essas com tantos personagens, tantas tramas intrincadas e tantas questões em suspense — além de todas as informações históricas, com suas várias datas e questões políticas locais demais (na Itália e França) para alguém que estudou numa escola brasileira — tornam o trabalho do narrador muito mais habilidoso e seu resultado, já que satisfatório, muito mais competente.

Assim é “O Cemitério de Praga“. Você começa sem entender nada daquele personagem, capitão Simone Simonini, que destila tanto ódio aos judeus, aos maçons, aos jesuítas, às mulheres e às gentes de várias nacionalidades, como os italianos, franceses e alemães.

O suposto herói da trama, aquele que vai narrar em primeira pessoa boa parte do mundo que nos será apresentado, é esse crápula? Esse sujeito egoísta, cínico, desonesto, traíra, mesquinho, glutão, mercenário, frio, sórdido e merecedor de tantos outros adjetivos negativos?

Pior é que é, mas, como costuma acontecer aos protagonistas literários, nem por isso conseguimos evitar torcer um pouquinho por ele, talvez em nome da extrema sinceridade (não honestidade!), da ironia e, graças a deus, do excelente humor que ele deixa escapar de vez em quando.

Eis o resumo desse livro: um emaranhado de fatos e personagens históricos reais (por incrível que possa parecer), apinhados de tramas e complôs surreais, geralmente produzidos por esse protagonista asqueroso (mas baita personagem) e descritos com bastante suspense, do início ao fim — mas tão bem descrito que nenhuma ponta fica solta, tudo é explicadinho e vai se fechando, ao longo do livro, em vários maravilhosos “cliques” mentais.

E essa história europeia, que já sabíamos ter muito de religião, aparentemente também teve muito de satanismo, de clubes secretos, de espionagem, de rituais escabrosos e de eventos criados para satisfazer o poderoso da vez — rei, premiê, papa etc –, sacrificando quantas vidas fossem necessárias.

Alguém duvida que seja assim até hoje, passando pelo 11 de setembro e tantos outros eventos mais ou menos conhecidos de todos nós?

“O Cemitério de Praga”
Umberto Eco
R$ 28 a R$ 75
Record
479 págs.

2º livro das férias

Histórias Apócrifas“, de Karel Capek, foi uma das dicas que recebi de vocês naquele post de março, sobre o quanto eu andava lendo pouco.

Foi apenas o segundo que li, dentre as sugestões — por enquanto. E quem me aconselhou veementemente, e mais de uma vez, a ler esses contos, foi meu amigo Jaime “Groo” Guimarães.

Pois bem, a orelha era promissora: “Como teria sido o tribunal que condenou Prometeu por roubar o fogo dos deuses? Que resmungos trocaria um velho casal da Idade da Pedra lamentando a decadência das novas gerações e a fala de perspectivas da humanidade? Quais seriam os comentários maldosos que corriam entre os soldados gregos no cerco de Troia? O que um esforçado padeiro de Jerusalém diria sobre Cristo e seu milagre dos pães?”

Realmente, todas essas perguntas abrem margem para mil possibilidades de histórias paralelas aos clássicos trazidos até nós pela Bíblia, pela mitologia grega e pela História. Possibilidades que uma mente criativa como a desse escritor tcheco transforma em iguarias.

Tem de tudo ali. Muito humor, muito sarcasmo e, sobretudo, um certo tom de parábola, de reflexão, de tentar encontrar a moral da história por trás das velhas histórias que engolimos desde crianças.

Isso é sensacional.

Mas coloco um porém. Esses exemplos listados na orelha são justamente os melhores contos do livro. Fora eles, a fórmula fica um pouco repetitiva. E o próprio estilo do Capek, que é delicioso, não muda muito: diálogos, muitos diálogos, praticamente só diálogos formando os contos, bem curtos, com os personagens falando em tom rabugento, mantendo as formas do português mais correto, com todos os seus “vós sois” e afins.

E isso tem explicação: os contos foram escritos em datas aleatórias, publicados em jornal, sem a intenção original do autor de formar um livro fechado com todos eles. Então é natural que uma fórmula que funciona excelentemente para um conto isolado fique desgastada quando ele é colado, em fileira, ao lado de outros contos com o mesmo estilo, inspiração e intenção.

Nada disso, porém, tira o mérito do autor. Minha sugestão é que vocês leiam muito mais devagar que eu li (devorei em dois dias, espreguiçada na rede), esperando, entre um conto e outro, algumas semanas. E comecem pelos vovôs da Idade Média, são imperdíveis!

“Histórias Apócrifas”
Karel Capek
De R$ 21 a R$ 35
Editora 34
175 págs

1º livro das férias

Buddy Bolden’s Blues“, de Michael Ondaatje, foi escrito como um jazz.

Um enredo, baseado no personagem do título, faz a costura de diversos retalhos de notas musicais, muito poéticas, que não respeitam a pontuação convencional e fluem com muita velocidade.

Faltam vírgulas, especialmente nos vocativos e sequências. Mas como parecem dispensáveis!

Para completar, o narrador ora é do tipo onisciente, em terceira pessoa, ora está em primeira pessoa: e essas pessoas se misturam subitamente, mas nunca saem do ritmo, nunca é difícil entender quem está falando, tamanhas as forças dos personagens.

O principal, Buddy Bolden, justifica todo esse malabarismo literário. Afinal, ele é ninguém menos que um dos criadores do jazz. Um filho de New Orleans.

Com esse título, o livro bem poderia ser uma biografia. E ele tem, sim, vários dados biográficos, baseados em documentos históricos, que chegam a ser inseridos na narrativa, como âncoras para lembrar o desvairado do cornetim de que ele tem audiência e ela não pode se perder totalmente.

Mas o livro não é uma biografia e o motivo para isso é muito simples: quase nada se sabe sobre Bolden. Não há, por exemplo, nem um único registro fonográfico de suas músicas. Uma única foto, desbotada, junto dos outros músicos, dá uma ideia de como ele era fisicamente. Não há certeza do ano em que nasceu, nem do que fez até surgir, de repente, tocando num desfile, aos 20 e poucos anos.

Mas sabe-se que, aos 31, ficou louco, justamente tocando num desfile, e que passou 24 anos de sua vida internado num hospício, onde morreu, em 1931.

O que encanta neste livro é, além da narrativa jazzística, o personagem que surgiu do nada e morreu perdido em seu próprio mundinho, e o quanto ele era interessante, como músico, barbeiro, editor de um “jornal” de fofocas, amante, pai, amigo e inimigo. Tão interessante e misterioso que terminamos a leitura — mais literária que biográfica, lembremos — ainda sem entender totalmente quem foi esse homem do sopro e o que aconteceu com ele.

“Buddy Bolden’s Blues”
Michael Ondaatje (de “O Paciente Inglês”)
R$ 22 a R$ 45
Companhia das Letras
173 págs.