Vídeo feito por estudantes da UFMG escancara crise da imprensa mineira; assista

Que a imprensa mineira está em crise, acho que até quem não é do Estado nem é jornalista já percebeu. Aliás, isso não é “privilégio” dos mineiros. Mas o que levou a essa crise? Como ela se deu nas Redações dos três maiores jornais diários de Minas (“Estado de Minas”, “Hoje em Dia” e “O Tempo”)? Como foram os passaralhos?

Um vídeo produzido por quatro estudantes do curso de comunicação social da UFMG tenta responder a essas questões a partir do ponto de vista de seis jornalistas que foram demitidos ou pediram demissão nos últimos anos, ao longo desse processo, vindos do “Estado de Minas”, “Jornal da Alterosa” (grupo do EM), “Hoje em Dia” e “Pampulha” (grupo do “O Tempo”). O trabalho foi publicado no Youtube há cinco dias, mas ainda não teve grande repercussão. Por isso, resolvi fazer minha parte, trazendo para o blog.

Não deixem de assistir e compartilhar, especialmente entre os coleguinhas de profissão e os estudantes de jornalismo: Continuar lendo

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Pelo fim da autocensura nos blogs e redes sociais

Saiu a segunda edição da revista “Pauta“, feita pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais. Na primeira edição, eu tinha sugerido a leitura do texto escrito pelo meu pai sobre ser chefe. Desta vez, reproduzo o texto que escrevi lá, porque falo sobre um tema caro a este blog: a censura. Mais especificamente sobre a autocensura de jornalistas em blogs e redes sociais, uma discussão que gosto de abordar desde os tempos do Novo em Folha. Quem quiser ler diretamente na revista, é só clicar AQUI e ir até a página 38.

Mas aí está:

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Sem autocensura, blogueiros

Muito jornalista que trabalha em Redação fica se perguntando se pode emitir suas opiniões livremente em seu blog. Acho que deveríamos poder escrever sobre tudo e, como profissionais da comunicação, ser os primeiros a levantar a bandeira da liberdade de expressão e contra a autocensura.

Mas, se eu criticar o político X em meu blog, depois ele pode usar isso contra mim, em uma reportagem a seu respeito? Pode, se você não tiver sido profissional.

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Carta a Sasha Meneghel

Sasha virou jogadora de vôlei do Flamengo. Mas não pode ser fotografada. Imagina se na transmissão de um jogo do Barcelona os fotógrafos forem impedidos de fotografar o Neymar?

Sasha virou jogadora de vôlei do Flamengo. Mas não pode ser fotografada. Imagina se, em um jogo do Barcelona, os fotógrafos forem impedidos de fotografar o Neymar?

Olá, Sasha,

Queria fazer uma pequena provocação para você.

Não do tipo que você recebeu quando postou tweets com “erros gramaticais”, aos 11 anos de idade. Como se todos os brasileiros fossem letradíssimos, ainda mais nessa idade. Aquele bullying virtual que você sofreu foi um absurdo, principalmente por ser direcionado a uma criança.

Agora minha provocação é dirigida a uma adolescente, a uma pré-adulta. Afinal, você tem 15 anos, pelo que pesquisei agora no Google.

Foi aos 15 anos que comecei a pensar com a minha própria cabeça. Acho que é mais ou menos por essa idade que a maioria das pessoas começa a virar quem elas realmente são. Comecei a refletir sobre a profissão que eu queria seguir pelo resto da vida — o jornalismo –, sobre religião, sobre a família. Foi também quando vivi um pequeno choque pessoal: tive que abandonar a natação por causa de uma tendinite crônica no ombro (eu era atleta do Minas Tênis Clube, um rival do Flamengo, e palco do que vamos relatar abaixo). Também foi o ano que perdi minha avó paterna. E também foi quando perdi minha cachorrinha, e só quem tem um cachorrinho por mais de dez anos sabe como isso é importante a ponto de entrar nessa lista. Foi quando acho que me apaixonei pela primeira vez. Foi quando fiz minha primeira viagem internacional. Foi quando li Carl Sagan e descobri as belezas do ceticismo. E decidi que não queria festa de 15 anos, que sempre achei um porre (ia para as festas dos colegas mais por obrigação do que por vontade, e sempre ia embora logo que o baile acabava). Enfim, foi um ano bem movimentado na minha vida, principalmente do ponto de vista intelectual.

Com você não é diferente. Porque é assim com todas as meninas. Não sei quanto aos meninos, eles costumam ser mais atrasados. Mas as meninas todas passam por uma sacudida nessa idade.

Sei muito pouco sobre você. Não costumo ler revistas de “celebridades”, inclusive porque as celebridades que me interessam não costumam entrar nessas revistas. O que sei sobre você cabe em um parágrafo curto: quando sua mãe ficou grávida de você, isso foi anunciado no Domingão do Faustão. Quando você nasceu, o parto foi televisionado pelo Jornal Nacional, o telejornal mais influente do país, numa “reportagem” que durou uns dez minutos — provavelmente o parto mais documentado e exposto da história do Brasil. Quando já conseguia andar, você começou a aparecer de vez em quando nos programas da sua mãe. Todos os seus aniversários foram expostos nas tais revistas e na “mídia especializada”. Tudo isso aconteceu contra a sua vontade, porque crianças não têm discernimento para decidir sobre como expor as próprias vidas — pelo contrário, elas precisam ser protegidas pelos pais e existe um Estatuto da Criança e do Adolescente justamente para garantir isso. Tudo aconteceu, portanto, a sua revelia. Você não pôde nem tinha condições de opinar, porque já estava presa nessa bolha desde antes de nascer.

Passei uns bons anos sem me lembrar da sua existência. Até que, na semana passada, li uma notícia que dizia que você tinha virado jogadora de vôlei do Flamengo e chegou a ser convocada pela seleção carioca da categoria infanto-juvenil. Muito legal que esteja praticando esportes e tenha encontrado um talento próprio, uma luz à parte das pretensões de vida de modelo-apresentadora-e-atriz que parecia ser reservada a você desde sempre. Não fosse por um porém: fiquei sabendo dessa sua nova fase da pior maneira possível: repórteres-fotográficos que cobriam o jogo — como cobrem qualquer jogo — foram ameaçados e, no caso de um deles, agredido por seguranças truculentos (supostamente) do Flamengo, que diziam ter feito isso porque o clube tinha um acordo com você de preservar sua imagem.

Repare bem: não eram paparazzi te perseguindo para falar da sua noitada, mas profissionais cobrindo um jogo de um dos maiores times do Brasil, fotografando não só você, mas toda a equipe. O fotógrafo agredido talvez tenha sofrido uma fratura na coluna — em seu nome, veja bem. Terá que ficar dez dias afastado do trabalho.

Fotográfico do "Estado de Minas" Gladyston Rodrigues sofreu fratura na coluna após agressão cometida em nome da proteção a Sasha. Foto: "O Tempo".

Repórter-fotográfico do “Estado de Minas” Gladyston Rodrigues sofreu fratura na coluna após agressão cometida em nome da proteção a Sasha. Foto: “O Tempo”.

Depois do incidente, sua mãe não veio a público lamentar o que houve e garantir que não concorda com essa agressão gratuita. Ela silenciou.

Se a ideia era te proteger de superexposição, falhou imensamente, já que sua foto saiu estampada na primeira página dos jornais do dia seguinte — e associada a uma agressão absurda. O assunto passou a ser comentado nos sites, nas redes sociais, blogs, rádios e todo tipo de mídia — e não era destacando seu desempenho no jogo. Seu brilho pessoal na sua escolha de seguir uma outra carreira foi totalmente ofuscado pela superproteção desnecessária e truculenta — que é totalmente espantosa, levando em conta a superexposição em que você vive desde antes de nascer.

Imagino o quanto deve ter chorado ao ver o papelão que te fizeram passar naquele dia. Como deve ter batido portas e gritado um sonoro “Te odeio!”, como costumam fazer alguns adolescentes em relação a pais opressores. Eu te entendo. Você não é um fantoche, é uma pessoa. E agora está na idade de ser você mesma, como dizia aquele poema do Paulo Leminski que linkei alguns parágrafos acima.

Por isso, Sasha, resolvi te escrever esta carta. É hora de você romper essa bolha. É a idade de se rebelar desse mundinho que te constrange e envergonha, em vez de te incentivar no único momento em que decidiu alçar seu próprio voo-solo. Se você é atleta de um clube como o Flamengo, e quer mesmo seguir nessa vida de atleta (é árdua, viu?), é preciso que saiba que você é a pecinha de um time e que essa engrenagem só funciona porque todos são igualmente importantes em sua função. Vôlei é um esporte de equipe, de coletivo. Você não pode impedir que o jogo seja coberto e transmitido pelas TVs, como sempre foi. Você não pode constranger as colegas de equipe, que nem podem falar a seu respeito, por força de contrato. Você tem que se impor, se quiser ter luz-própria, para garantir o seu sagrado direito de ser como todas as outras do time.

Reaja, menina! E sirva de inspiração a outras crianças e adolescentes que, em vez de receberem o cuidado dos pais “famosos”, se veem presos numa armadilha de constrangimento e de cerceamentos e agressões inadmissíveis, cometidos em seu nome.

De cá, fico na torcida para que sua vida seja muito feliz e você encontre seu próprio lugarzinho no mundo. Que a opção e a liberdade de escolha cheguem algum dia para você, antes tarde do que nunca 😉

***

Atualização em 21/8: Fiz uma moderação tardia nos comentários, para manter o bom nível e o respeito, sem interferir no debate. Não deletei nenhum comentário, mas apaguei um ou outro insulto/xingamento que pudesse ofender diretamente a terceiros (ex.: outros comentaristas, seguranças, fotógrafo, Xuxa e Sasha). Qualquer novo comentário que surgir com palavras assim também vai passar por essa moderação.

Prefeito de BH, amigo dos bancos

Texto de José de Souza Castro:

Tenho criticado a imprensa mineira por não cumprir o seu papel mais importante, que seria dar voz aos que não se conformam com a má administração pública, tanto no governo estadual como em prefeituras. Por isso, devo reconhecer que houve uma mudança. Por enquanto, se limita a um jornal diário da capital, o “Hoje em Dia”, mas é importante.

Para mim, a mudança se tornou mais clara a partir do momento em que um ex-repórter da “Folha de S. Paulo”, Hélcio Zolini, voltou em 2011 ao “Hoje em Dia”, onde havia sido editor de Economia, para ser o diretor de Jornalismo. O jornal fundado por Newton Cardoso, quando governador, para se contrapor ao “Estado de Minas” – que pela primeira e única vez em sua longa história fazia oposição a um governador –, foi comprado pouco depois pelo grupo do bispo Edir Macedo, que atualmente controla também a TV Record, a emissora com maior audiência no Estado, depois da Globo.

O bispo Fabiano Freitas, da Igreja Universal do Reino de Deus, é o presidente do “Hoje em Dia” e da “Record Minas”. Se ele mantém a mesma orientação de independência jornalística também na televisão – não sei, pois raramente assisto TV –, a situação passa a não ser tão fácil para os ocupantes de cargos públicos no Estado continuarem a enganar os eleitores desinformados pela imprensa.

Muitos devem ter-se surpreendido, neste domingo, com a manchete da primeira página do “Hoje em Dia”, pouco favorável ao prefeito da capital, que tenta se reeleger, mais uma vez, com o apoio do PT e do governo mineiro, controlado pelo PSDB e por uma chusma de partidos caudatários do governador. Revela a manchete: “Prefeitura tem R$ 1 bilhão em caixa e obras paradas”. A reportagem, assinada por Humberto Santos, ocupa toda a página 3. Primeiro parágrafo:

“Empresário bem-sucedido, o prefeito Márcio Lacerda (PSB) levou para a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) os preceitos da administração privada. Estabelecimento de metas, premiação por produtividade e lucro. Nos três primeiros anos de seu mandato, Lacerda fez o montante de dinheiro da prefeitura aplicado em bancos saltar de R$ 492 milhões, em 2008, para R$ 1 bilhão em 2011. Entretanto,o dinheiro que está investido em aplicações financeiras poderia ter outra destinação, que não fosse render dividendos. Se fosse investido em intervenções urbanas, poderia tirar do papel obras que há anos embalam os sonhos dos belo-horizontinos. Os números estão disponíveis no site da transparência da administração municipal.”

Os interessados podem ler mais AQUI.

Termino com uma questão simples, que o leitor saberá responder: a quem beneficia, além dos próprios banqueiros, tanto dinheiro público depositado em bancos?

Dídimo Paiva, o jornalista

Texto de José de Souza Castro:

Durante anos, fui escravo da agenda. Libertei-me dela depois da aposentadoria – e fiz mal. Tenho faltado a eventos que eu gostaria de ter ido, por falta de uma agenda e excesso de esquecimento. O último foi o lançamento, dia 13 deste mês, dos livros sobre um admirável jornalista mineiro, Dídimo Paiva. Hoje, lendo um artigo de José Cleves no Observatório da Imprensa, soube que a imprensa mineira havia ignorado o evento. Inclusive o jornal Estado de Minas, que pôde contar, sem o merecer, com o trabalho diário de Dídimo Paiva, por um longo período.

Transcrevo um trecho do artigo de Cleves: “Basta dizer que ele comandou a opinião do jornal Estado de Minas durante mais de 40 anos sem nunca ter tirado proveito disso para benefício próprio, embora fosse o jornal um monopólio poderosíssimo. Praticamente o único do estado durante quase todos esses anos. Enfrentou [Dídimo] ditadura, pressão externa e interna, vaidades, assédios, se meteu nas lutas sindicais por melhores salários, brigou, xingou, não aceitou imposições, defendeu colegas de trabalho injustiçados, fez manifestos contra a ditadura, elaborou o Código de Ética da profissão de jornalistas, desafiou deputados e governadores, contrariou interesses dos donos de jornais e sobreviveu a tudo isso. Comprou um fusquinha, o seu único carro, e um apartamento, onde mora dignamente com a sua mulher, Cidinha.”

De fato, muitos dos que trabalharam com Dídimo no “grande jornal dos mineiros” enriqueceram. Ele não.

O portal do Sindicato dos Jornalistas publicou duas notícias sobre o lançamento do livro. Uma é assinada por Virgínia Castro. Segundo ela, o foyer do Palácio das Artes estava repleto de jornalistas. “Todos nós, ali, naquela noite, tínhamos um pouco do Dídimo”, escreveu Virgínia. “E o Dídimo, ali, tinha um pouco de cada um de nós. Foi tudo muito significativo, como uma chuva de fogos brilhantes! Parecíamos um bando de andorinhas que, sozinhas, jamais fazem verão.”

Eu queria ter estado lá. Ainda vou comprar uma agenda, mas a prioridade é adquirir Passos de uma paixão – Dídimo Paiva e a dignidade no jornalismo e Um bunker na imprensa – Dídimo Paiva em seis décadas de profissão. Conforme a outra notícia publicada pelo Sindicato dos Jornalistas, o primeiro livro, escrito pelos jornalistas Tião Martins e Alberto Sena Batista, “conta os 60 anos da vasta e ininterrupta atividade do ex-presidente do nosso Sindicato, na imprensa brasileira, desde a adolescência, na sua cidade, Jacuí.” Já o segundo, “é uma coletânea da prodigiosa obra do jornalista, garimpada em milhares de recortes de jornais e revistas, guardados em mais de 60 grandes caixas de papelão”.

Dídimo Paiva está com 83 anos. Foi aposentado compulsoriamente pelo jornal, há cerca de três anos. Atualmente, trabalha para terminar outro livro, que já tem título: “A Maldição dos Países Ricos em Minerais”. Um tema importantíssimo para o Brasil, que, com o Pré-Sal, se não tomar cuidado, terá o mesmo destino terrível dos países do Oriente Médio: uma pequena classe dirigente riquíssima a serviço das grandes potências e um grande povo cada vez mais pobre.