Por que temer uma ditadura bolsonariana

Texto escrito por José de Souza Castro:

A leitura do livro “Relato de um Náufrago” ocorreu-me só agora, quase meio século desde sua publicação em Barcelona, em 1970, quando Gabriel García Márquez já era um escritor famoso. Embora tardia, ela chegou num bom momento para reafirmar que a censura à imprensa, por suas várias formas, só serve aos que, no governo, querem esconder a verdade do público.

O Relato, dividido em episódios, foi publicado durante 14 dias seguidos pelo jornal “El Espectador”, da Colômbia. O nome de Márquez só apareceu 15 anos depois, quando aqueles episódios redigidos pelo então jovem repórter ganharam a forma de um livro.

A decisão de assinar o relato com o nome do náufrago, Luis Alejandro Velasco, de 20 anos, teve como objetivo fazer com que o leitor acreditasse nele. O leitor vinha sendo bombardeado, inclusive no rádio e TV, por relatos oficiais da tragédia que se abateu sobre o contratorpedeiro “Caldas” que viajava de Mobile, nos Estados Unidos, para Cartagena, na Colômbia, carregado de geladeiras, televisores e lavadoras contrabandeadas.

O navio da Marinha de Guerra colombiana era proibido de transportar cargas. Elas estavam mal amarradas no convés e caíram ao mar numa guinada do contratorpedeiro, levando consigo oito marinheiros. Só Velasco sobreviveu agarrando-se a uma balsa desprovida de água potável e alimentos. Ficou à deriva durante dez dias, até chegar a uma praia deserta no norte da Colômbia.

Salvo por moradores, foi levado à capital e recebido como herói pela ditadura militar e folclórica do general Gustavo Rojas Pinilla, aliado dos Estados Unidos. Um mês depois procurou o jornal, um dos mais antigos e importantes do país, propondo que lhe pagassem pelo relato verdadeiro do naufrágio.

Em princípio, “El Espectador” não topou, pois o náufrago já havia falado a respeito várias vezes, enquanto se recuperava num hospital naval. As entrevistas só eram permitidas a jornalistas aliados da ditadura. Segundo Márquez, os leitores pareciam fartos de um herói que vinha ganhando uma pequena fortuna ao fazer propaganda de marcas de relógios e sapatos que também haviam resistido ao naufrágio.

“Era previsível que não teria muito a nos contar, que seria capaz de inventar qualquer coisa por dinheiro e que o governo lhe havia sinalizado muito bem os limites de sua declaração”, escreveu Gabriel García Márquez na introdução ao livro.

Mas, ao longo de 20 sessões de seis horas diárias, o escritor se surpreendeu ao ouvir um relato compacto e verídico de seus dez dias no mar. “Era tão minucioso e apaixonante, que meu único problema literário seria conseguir que o leitor acreditasse. Concordamos em escrever em primeira pessoa e assinado por ele”.

Quantos repórteres, tendo nas mãos uma reportagem tão interessante e impactante, se resignariam em não ter seu nome ligado a ela?

A verdade, nunca publicada até então, é que não houvera nenhuma tempestade naquele dia e que por causa do vento e do sobrepeso do contrabando o contratorpedeiro deu uma guinada e não pôde manobrar para resgatar os náufragos. “O navio levava também mal arrumada uma carga moral e política que não havíamos previsto”, descreveu o Prêmio Nobel de Literatura.

A reportagem fez sucesso enorme, com filas de leitores diariamente na porta do Espectador, que depois reuniu a série completa numa edição especial. O governo tentou negar o relato, sem sucesso, e passou a pressionar o jornal, cuja tiragem estava quase dobrando.

Bem antes de o general cair, dois anos depois, o náufrago foi desligado da marinha. “O relato lhe custou sua glória e sua carreira, e a mim podia custar minha pele”, disse Márquez. Foi salvo porque o jornal o enviou a Paris, como correspondente na Europa, iniciando-se um longo exílio do escritor.

Espero que o presidente eleito do Brasil, que nem general é, não venha a se tornar um ditador. Verdade que a biografia de Pinilla destoa um tanto da de Bolsonaro.

Primeiro, porque fez uma brilhante carreira militar, iniciada em 1920 ao sair da Academia Militar como subtenente. Quatro anos depois, pediu licença para estudar engenharia civil nos Estados Unidos, onde se formou em 1927. Em 1932, vinculou-se de novo ao Exército, como capitão. Em 1949, chegou ao generalato. Era o chefe militar da Colômbia quando se deu o golpe de 1953 e Pinilla se tornou ditador. No primeiro discurso, como presidente da República, alertou os colombianos para defender as instituições e sinalizou o caminho de “Paz, Justiça e Liberdade” para todos os colombianos.

Seu governo ficou marcado, porém, segundo Gabriel García Márquez, por duas façanhas memoráveis. A primeira, a matança de estudantes no centro da capital, quando o Exército desbaratou a balas uma manifestação pacífica.  A segunda, o assassinato, pela polícia secreta, de um número indeterminado de aficionados de touradas dominicais que vaiavam a filha do ditador na Plaza de Toros.

Ah, sim, Bolsonaro tem uma filha, concebida “num momento de fraqueza”. Ah, sim, foi durante a ditadura de Pinilla que as colombianas ganharam o direito de votar.

 

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‘O único preso político pós-redemocratização do Brasil’

No dia 24 de janeiro de 2014, divulgamos aqui no blog a prisão do jornalista Marco Aurélio Flores Carone, criador do “Novo Jornal”, um dos poucos sites a denunciar absurdos no governo Aécio.

Naquele ano, Aécio concorria à presidência da República pelo PSDB e ainda não tinha vazado áudio dele pedindo R$ 2 milhões a empresário investigado pela Lava Jato e dizendo sua famosíssima frase: “Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação”. Era um favorito, e vários circulavam pelas ruas de Beagá com adesivo prestando homenagens ao tucano nos carrões.

No dia 7 de novembro daquele mesmo ano noticiamos que Carone fora solto no dia 4, apenas poucos dias após o segundo turno das eleições presidenciais que deram vitória a Dilma e que ocorreu no dia 26 de outubro.

Nem disfarçaram.

Agora, tantos anos depois, o site Viomundo traz duas informações importantes sobre o desenrolar dos inquéritos que levaram à prisão preventiva do jornalista em 2014:

1- O primeiro foi arquivado por falta de provas.

2- O segundo foi concluído, sem indiciamento de Carone, e o delegado Rodrigo Bossi de Pinho, chefe do Departamento Estadual de Fraudes da Polícia Civil de Minas Gerais, ainda pede investigações contra o promotor do caso.

Segundo o delegado, Carone “sofreu todo tipo de perseguição por denunciar os esquemas de corrupção nos governos de Minas” e “foi uma das vítimas de uma organização criminosa que operou em Minas Gerais para perseguição política”, nas palavras do site Viomundo. E mais:

“O chefe do Departamento de Fraudes da Polícia Civil de Minas ainda salienta: Carone é “único, autêntico, preso político pós-redemocratização” e que seu caso deveria ser apreciado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).”

CLIQUE AQUI para ler a reportagem na íntegra, com as fotos dos documentos citados.

Aécio segue forte nos bastidores, mas foi desmoralizado para o público eleitor: foi “o primeiro a ser comido”, nas palavras de Romero Jucá.

(Pra quem já esqueceu, aí vai a ilustre fala de Jucá de novo: “O primeiro a ser comido vai ser o Aécio [Neves (PSDB-MG)]. O Aécio não tem condição, a gente sabe disso, porra. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB…”.)

Mas o estrago já estava feito. A censura implementada nos anos do governo de Aécio tem efeitos até hoje. Assim como a censura da época da ditadura militar faz estrago até hoje, com tantos incautos pedindo a volta dos milicos porque naquela época “não havia corrupção, o Brasil cresceu pra caramba” etc etc. O estrago de calar jornalistas é grande. Quase tanto quanto o de fortalecer boatos, que hoje são mais conhecidos como fake news.

Nossa democracia apodrece a passos largos.

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É hoje o ato nacional contra a censura!

Pra quem não sabe, é nesta terça-feira, dia 21 de novembro, o ato nacional contra a censura. Vai ser no Palácio das Artes, aqui em Beagá, a partir das 18h, com várias apresentações musicais.

O movimento foi criado pela Frente Nacional Contra a Censura e já teve o apoio de vários artistas de peso, como Caetano Veloso, Chico Buarque, o Grupo Galpão, Débora Falabella, dentre vários outros.

Chico Buarque resume bem por que devemos todos participar deste ato ou pelo menos apoiá-lo:

“É necessário que artistas e brasileiros esclarecidos em geral se manifestem enquanto é tempo contra a escalada desses movimentos que se dizem conservadores, mas que na verdade se valem de práticas fascistas de intimidação e violência nas ruas e nas redes sociais contra a liberdade de expressão.”

 

Esta é uma bandeira que este blog e esta blogueira carrega com muito orgulho! #CensuraNuncaMais #ArteLivre

Leia também:

  1. Brasil, o ex-país do Carnaval
  2. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  3. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?
  4. Manifesto a favor do direito de divergir
  5. Fanatismo é burro, mas perigoso
  6. O anarquista que enxerga
  7. Para uns, para outros e para mim
  8. Tem certeza absoluta? Que pena
  9. O vizinho que pensa diferente de você
  10. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  11. Reflexão para as pessoas cheias de si
  12. A saudável loucura de cada um de nós
  13. Qual é a sua opinião, cidadão?
  14. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  15. O fanatismo e o ódio de um país que está doente

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A estátua do Duque de Caxias e as lições da História

Texto escrito por José de Souza Castro:

Este texto com correção na edição do dia 7 deste mês do jornal “Folha de S.Paulo” lembrou-me de episódio do qual já havia me esquecido e que, no entanto, foi marcante no jornalismo brasileiro em plena ditadura militar. Uma ditadura que muitos, por ignorância ou má fé, querem ter de volta.
Não me lembrei do artigo do jornalista Lourenço Diaféria quando eu escrevia, uns 30 anos depois, para o blog da Novae, um relato contrário ao Duque de Caxias, o herói da Guerra do Paraguai. Houve polêmica entre os leitores, e pouco depois a Novae desistiu do blog e eu deixei de colaborar para o site do qual uma das minhas filhas jornalistas, a Kika, fora por um tempo a subeditora.

De qualquer forma, o artigo não me levou à prisão, ao contrário de Diaféria. Os tempos eram outros, não vivíamos mais numa ditadura. As ameaças a jornalistas vinham da Justiça, como se vê aqui. Por enquanto, nada mudou.

Lourenço Diaféria era colunista da “Folha de S.Paulo”. No dia 1º de setembro de 1977, publicou um texto intitulado “Herói. Morto. Nós”, em que comentava a morte de um sargento do Exército dentro do fosso das ariranhas no Zoológico de Brasília. O sargento estava de folga e levara sua mulher e os quatro filhos para passear. Ao ver um garoto de 14 anos sendo atacado pelas ariranhas, pulou dentro, jogou-o para fora – e morreu dilacerado pelos bichos.

O autor também pagou pela ousadia. Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Seu texto foi considerado pelo ministro da Justiça e pela Justiça Militar ofensivo às forças armadas. Pode-se ler o texto aqui, no final do artigo de Franklin Valverde, publicado em setembro de 2008 pelo Observatório da Imprensa, pouco depois da morte de Lourenço Diaféria, que já havia sido absolvido pela Justiça.

Qual a ofensa do jornalista? Continuar lendo

Brasil, o ex-país do Carnaval

Carnaval do Rio em 2014, bons tempos. Foto: Wikimedia Commons

 

Dia desses, postei no Facebook um singelo desabafo:

Me perguntaram a que aspecto eu me referia e respondi: “Vários, basta acompanhar o noticiário”.

O noticiário que coloca um defensor da ditadura militar e de torturador condenado nas primeiras posições da disputa presidencial. Um noticiário que entrevista esse cara e ouve dele que transformará, caso eleito, todas as escolas em colégios militares. Um noticiário que mostra que um grupelho de aborrecentes reacionários conseguiu censurar uma mostra que reúne várias obras de arte, algumas centenárias. E até um tumblr foi banido em consequência disso. O noticiário recente inteiro me mostra um país cada dia mais careta e carola, mais a fim de marchar e rezar, um ex-país do Carnaval, do Stanislaw, do criativo, do humor, do samba e do lúdico. Um país cada dia mais obscurantista, fanático, retrógrado, radical. De volta à Idade Média.

Suspiros.

Esta obra é de 1910, for Christ sake!!!

Eu não ia mais escrever sobre Bolsonaros, MBLs e afins porque acho que esses caras não deveriam ganhar nenhuma linha no noticiário, nem nos jornalões nem nos blogs alternativos. Também não ia comentar o caso do Santander, porque, sinceramente, foi um assunto da semana retrasada e tendo a achar que tudo o que devia ser dito a respeito já foi, tanto pelos xiitas quanto pelos “sunitas”.

Mas hoje concluí que trata-se daqueles temas que a gente não pode deixar de se posicionar, pra não consentir calando. E, ainda por cima, é um dos temas que são mais caros a este blog. Já disse aqui antes: não levanto bandeira de quase nada nesta vida, mas se tem uma causa que eu abraço é a da liberdade de expressão, imprensa e pensamento. Liberdade artística, é claro, entra no meio.

Vi as peças — algumas poucas, dentro da enorme coletânea — que seriam expostas pelo Queer Museu. Minha reação foi parecida com a que tenho após visitar qualquer exposição: achei algumas obras péssimas, outras geniais, algumas vazias e outras bonitas. Não sou crítica nem super entendida de arte, então essa minha opinião é simplesmente irrelevante.

Só acho que todos têm direito a produzir e expor arte. E que arte tem como um de seus objetivos justamente incomodar, provocar, pôr o dedo na ferida para gerar reflexão ou mudanças. Algo que essa coleção censurada conseguiu, afinal, tá de parabéns. “Ah, mas é ofensivo”. Se todas as obras de arte que ofendem a algum grupinho tivessem que ser censuradas, não haveria mais arte no mundo. Só a ditadura do pensamento único. Charlie Hebdo ofendeu um grupo islâmico radical e levou bomba. É isso que queremos? Censura ou bomba para tudo o que nos incomoda ou diverge de nós?

“Ah, mas crianças não deveriam ver”. E daí? Existe um mecanismo aplicado há anos pelo Ministério da Justiça que se chama “classificação indicativa”. Só garotos acima de 14, 16 anos estão preparados para ver algumas daquelas peças? Bota classificação então, tão simples.

Mas não: o Brasil abdicou do direito de pensar, de rir, de provocar. Agora a ordem da vez é marchar e rezar. Salve-se quem puder.

Cena do clipe superclássico do Pink Floyd “Another Brick in the Wall”

 

Leia também:

  1. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  2. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?
  3. Manifesto a favor do direito de divergir
  4. Fanatismo é burro, mas perigoso
  5. O anarquista que enxerga
  6. Para uns, para outros e para mim
  7. Tem certeza absoluta? Que pena
  8. O vizinho que pensa diferente de você
  9. Post especial para quem se acha com o rei na barriga
  10. Reflexão para as pessoas cheias de si
  11. A saudável loucura de cada um de nós
  12. Qual é a sua opinião, cidadão?
  13. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  14. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  15. Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

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