A burrice no poder está acabando com o Brasil

Todas as charges que ilustram este post são do Duke, o melhor chargista do Brasil.

Texto escrito por José de Souza Castro:

A burrice no poder tende não só a se perpetuar, como a nela se afundar. O acúmulo de bobagens ou de tragédias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confissão de incompetência, que os donos de poder continuam até a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso.

É com essa constatação que o economista Ladislau Dowbor, professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, inicia um artigo publicado no site Outras Palavras, que li com grande interesse e que recomendo aos leitores deste blog.

Considerando, porém, que alguns não terão tempo para ler suas 13 páginas (6.571 palavras), me animo a resumi-lo, em parte:

FORÇA DA INÉRCIA

A burrice política obedece a uma impressionante força de inércia. Isso levou, por exemplo, cinco presidentes norte-americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietnã, apesar da convicção íntima, hoje conhecida, de que era uma causa perdida.

Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás, mesmo depois de quatro anos de desastre, não é evidentemente uma coincidência, é a regra. No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esforço de mídia, de fake-news e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo é simplesmente acelerar a Marcha. Com Deus e a Família rumo ao absurdo.

NÃO HÁ FALTA DE RECURSOS

A austeridade nunca funcionou, porque o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas também de consumidores. No centro do raciocínio, está a ilusão de que não temos recursos suficientes para incluir os pobres. As políticas sociais e um salário mínimo decente não caberiam na economia, no orçamento, ou na Constituição, segundo os políticos.

Nosso problema não é falta de recursos, e sim a burrice na sua distribuição.  O Brasil produz 6,3 trilhões de reais de bens e serviços; divididos por 208 milhões de habitantes nos dá um per capita de 30 mil reais ao ano.

Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regiões mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascensão dos pobres gerou nos ricos a reação esperada: a mesma que tiveram com Getúlio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice é muito teimosa.

O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade¸ a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilômetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante.

A NARRATIVA DA ENGANAÇÃO

A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. Então se gera uma forma sofisticada de bobagem chamada hoje de “narrativa”: fazer política para o povo é populismo, o populismo quebrou as contas do Estado e o caminho certo é o da boa dona de casa que só gasta o que tem. Portanto, a dona de casa Dilma tem de ir para casa.

Mas os números são simples: o que gerou o déficit não foram as políticas econômicas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a dívida pública e a dívida privada, a chamada financeirização. Já pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milhões de adultos endividados até o ponto de não poderem mais pagar suas dívidas?

CORTE DE POLÍTICAS SOCIAIS

Quando a Dilma tenta, entre 2012 e 2013, reduzir as taxas de juros, começa a guerra política, com manifestações, boicote e denúncias. A partir de meados de 2013 não há mais governo. Dilma ainda ganha a eleição, mas, como foi anunciado pelos adversários, não governaria. A burrice atinge o seu ápice quando se cortam as políticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mantêm as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista também. Jogaram a economia na recessão.

Em termos políticos, tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprovação de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da prisão de quem ia ganhar a eleição, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro.

Sim, de 2014 para cá, são muitos anos em que estão “consertando” a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da população. Só para lembrar, no Bolsa Família são 30 bilhões de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. Só os juros sobre a dívida pública, na faixa de 320 bilhões de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finanças deformadas quebraram a economia, o déficit aumentou. É um círculo vicioso.

No entanto, persiste a narrativa simplória: Dilma quebrou a economia. Para a maioria das pessoas, em particular quando não entendem os processos, política se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, aliás, mulher e teimosa, vítima ideal.

CAPITALISMO DÁ TIRO NO PRÓPRIO PÉ

O lucro sobre investimento é legítimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. Os banqueiros chamam os diversos papéis que rendem dividendos de “produtos”, o que constitui um disfarce simpático. Dinheiro ganho com aplicações financeiras não coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplicação financeira é básico.

Papéis financeiros renderam nas últimas décadas entre 7% e 9% ao ano. Só para lembrar, a produção efetiva de bens e serviços aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, irão optar pelas aplicações financeiras. A cada dia a maior parte deste dinheiro é reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilionários e trava a economia. É o capitalismo dando o tiro no próprio pé, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. É sistemicamente disfuncional.

A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com geração de emprego e renda. Hoje os “mercados”, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redução dos direitos da população. É a lógica da insensatez.

Um exemplo prático ajuda: há alguns anos a Coréia do Sul desbloqueou recursos públicos pesados para financiar sistemas de transporte público não poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produção, e portanto emprego. Como utilizar transporte coletivo é muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que compensam o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emissões tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redução do uso de automóveis. Menos poluição nas cidades significa menos doenças de diversos tipos, e economias na área da saúde. A redução do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da população, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o óbvio: os recursos têm de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamização econômica, de proteção do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das famílias. Tanta inteligência que se gasta para encontrar a aplicação financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais úteis. E enriquecer a sociedade.

No Brasil, a economia não funciona, porque não se coloca o dinheiro onde vai ter efeitos multiplicadores.

BANCOS EXTORQUEM AS FAMÍLIAS

No Brasil, as famílias e as empresas pagam anualmente, só em juros, sem reduzir a dívida, 1 trilhão de reais. Ou 16% do PIB. Em fevereiro de 2018, por exemplo, os juros bancários para pessoa física estavam na faixa de 137% ao ano, quando na França são inferiores a 5%. Assim o sistema financeiro drenou a capacidade de compra das famílias e a capacidade de investimento das empresas.

O dinheiro dos nossos depósitos e o fluxo de juros que os bancos extorquem das famílias e das empresas são em grande parte aplicados em títulos da dívida pública. O governo pagou aos bancos e aos ricos que têm aplicações deste tipo 341 bilhões de reais em 2017, cerca de 6% do PIB. Nossos impostos, em vez de financiarem políticas sociais e infraestruturas, vão parar nos bolsos dos especuladores financeiros, de gente que não produz nada.

Isso é agravado pelo sistema tributário. Enquanto na Europa se corrige em boa parte a deformação taxando o capital financeiro, as grandes fortunas, as heranças, e as rendas mais elevadas, no Brasil os ricos pagam proporcionalmente menos que os pobres, e desde 1995 os lucros e dividendos distribuídos são isentos de impostos. Além disso, cerca de um terço do nosso PIB se encontra em paraísos fiscais. Parte dos imensos drenos que sangram a nossa economia, que vaza por todo lado.

A nossa Constituição é clara: “O sistema financeiro nacional [será] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade.” Hoje, serve essencialmente para alimentar improdutivos, sejam eles banqueiros, grupos nacionais ou internacionais, e em particular a classe média alta que com tanto entusiasmo ocupa a avenida Paulista. A realidade é que os bancos criaram um sistema em que os nossos impostos são desviados em grande parte para os seus cofres e para os rentistas que participam da festa, essencialmente os mais afortunados. Os banqueiros manejam o Estado, drenam os seus recursos, e explicam que a culpa é do Estado, dos impostos elevados, e dos “gastos” com os mais pobres.

Seria incomparavelmente mais produtivo para todos, inclusive para os bancos, fomentarem a economia em vez de drená-la. A China tem esse ritmo de desenvolvimento porque canaliza os recursos financeiros “de forma a promover o desenvolvimento”.

MANUTENÇÃO DA DESIGUALDADE É BURRA

Manter a desigualdade é particularmente absurdo, mas está no centro das propostas do poder. Afinal, os ricos que nos regem defendem os seus próprios interesses, e é raríssimo ter alguém no poder que não seja rico, branco, homem, e centrado em aumentar as suas próprias vantagens.

O sistema se torna disfuncional, inclusive para os donos do poder. Jogaram a economia na recessão, no desemprego, e no caos político. Esse sistema nem para os ricos funciona.

Todos esses ricaços irresponsáveis que esbanjam os seus recursos com consumo espalhafatoso ou especulação financeira, em vez de ajudar na implementação de políticas que funcionam para o conjunto da sociedade, todas essas corporações que geram tragédias sociais e ambientais, navegam em valores de primatas, na ética de que o sucesso consiste em arrancar o pedaço maior, que se dane o sofrimento, que se dane o planeta. Aqui temos inteligência impressionante para gerar novos meios, mas uma burrice impressionante em termos de definir os fins. Vamos construir mais muros, abrir mais condomínios, mais casulos de riqueza, sistemas de repressão mais violentos?

Essa desigualdade é evidentemente disfuncional também em termos sociais e políticos. E a desigualdade constitui em particular uma burrice no plano econômico. Porque funcionaram o New Deal de Roosevelt, o Welfare State dos países hoje desenvolvidos, o milagre da Coréia do Sul, o impressionante ritmo de desenvolvimento da China, a “década dourada” do Brasil? Todos tiveram em comum a expansão da capacidade de compra da base da população, e o acesso a políticas sociais públicas e universais, que permitiram ampliar a escala de produção e o emprego.

O consumo das famílias e a produção empresarial geram por sua vez impostos que aumentam as receitas do Estado, permitindo o financiamento das políticas sociais: uma população com mais saúde e educação é mais produtiva. Aqui não são necessários ideologias e ódios, e sim um simples olhar para o que funciona. E o que funciona é quando a economia é orientada segundo as prioridades e o bem-estar das famílias. A desigualdade, em termos econômicos, apenas mantém uma atividade de base estreita e de baixa produtividade.

O leitor interessado pode acessar o texto completo AQUI.

Leia também:

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Em uma semana de Jair Bolsonaro eleito, pelo menos 14 notícias de retrocesso

Todas as charges deste post são do Duke, o melhor chargista do Brasil na atualidade.

Passaram-se apenas oito dias desde que o Brasil inteiro ficou sabendo que 39% dos brasileiros aptos a votar elegeram Jair Bolsonaro (PSL) para ser o presidente da República pelos próximo 4 anos. E, apesar do curto tempo, já li tantas – mas tantas tantas tantas – notícias ruins, que não tem como eu guardar nem um pingo de otimismo com o que virá a partir da posse, em primeiro de janeiro de 2019.

Selecionei abaixo algumas. Não todas, porque não tive tempo de ficar armazenando os links nesta semana. Por isso, fique à vontade para citar outras na parte de comentários do blog. Se sobrar tempo, manterei este post atualizado.

Pode-se dizer que este post é da série “eu avisei”. Não que isso faça qualquer diferença, já que eu preferiria mil vezes não estar certa e apontar o dedo aos eleitores de Bolsonaro a ver o meu querido país regredir décadas para trás. Afinal, estamos todos na mesma canoa furada. Mas aí vai, eu avisei:

1. Gabinete de transição de Bolsonaro tem 28 membros: todos homens (um deles foi o maior fornecedor da campanha e o outro já foi foi preso após queixa de agressão à ex; a lista toda, com 4 militares, AQUI. ATUALIZAÇÃO: Depois de críticas, anunciaram que vão incluir “3 a 5 mulheres”).

2. Ministros confirmados incluem Sergio Moro, general Heleno, e o superministro Onyx Lorenzoni, que ocupará a Casa Civil. Onyx foi citado durante a Lava Jato e confessou ter recebido R$ 100 mil de caixa 2 na campanha de 2014.

3. Magno Malta pode virar “ministro da Família”.

4. Retirar ensino superior do MEC pode provocar quebra no atual sistema educacional (AQUI, mais sobre as propostas do presidente eleito para a educação, que incluem mensalidades em universidades públicas e ensino à distância desde a infância).

5. Fusão do Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente, anunciada logo de cara, geraria imensos problemas para o país; após pressão, Bolsonaro teve que recuar da ideia.

6. Pela primeira vez na História, Congresso veta jornalistas em plenário no primeiro compromisso de Bolsonaro eleito (AQUI, Bolsonaro ameaçou a Folha de S.Paulo; AQUI, ele barrou vários jornais em sua primeira coletiva após eleito; ataques dele à imprensa chegaram a 10 por semana).

7. Bolsonaro diz que não fará mais demarcação de terra indígena.

8. Brasil pode perder investimentos árabes com embaixada em Jerusalém anunciada por Bolsonaro (e Egito cancela viagem de comitiva brasileira após declaração; lembrando que países árabes são grandes parceiros comerciais do Brasil e o Egito é o maior deles). Eduardo Bolsonaro confirmou que mudança de embaixada vai ser feita. (O que o Brasil ganha em mexer com esse vespeiro?!)

9. Bolsonaro não abre mão sobre flexibilização de posse de arma (e AQUI, Eduardo Bolsonaro defende ampliação do acesso a armas por decreto presidencial; lembrando que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível).

10. Superministro Paulo Guedes desdenha de Mercosul e gera reação de países vizinhos.

11. Bolsonaro defende que professores sejam gravados em sala de aula (lembrando que a Justiça mandou a deputada apoiadora de Bolsonaro parar com a incitação à perseguição de professores; lembrando também que ela já foi dar aulas com camisa do político).

12. Sobre os “guardas da esquina” desde que Bolsonaro foi eleito: além da deputada que quer perseguir professores, temos o estudante que pregou “matar a negraiada“, o homem que foi espancado e morto por oito homens que gritavam o nome de Bolsonaro, os alunos da USP pregando mensagens de ódio às mulheres. Ah, e policial federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro. Não vi nenhuma reação do presidente eleito a esses crimes praticados por apoiadores.

13. Bolsonaro demonstra desconhecimento ao falar sobre cálculo do desemprego no IBGE. (E precisamos ter muito cuidado com manipulação de dados oficiais a partir do ano que vem, hein?)

14. Bolsonaro invoca Deus em seus discursos, ignorando que Estado é laico.


Atualização a partir de 7.11.2018:

15. Bolsonaro anuncia extinção do Ministério do Trabalho, criado por Getúlio Vargas em 1930, justamente agora que o Brasil enfrenta a maior crise de desemprego da sua história. Decisão revanchista pode afetar do pagamento do FGTS ao combate ao trabalho escravo no país. (Dias depois, ele recuou da péssima ideia.)

16. Bolsonaro entrega prestação de contas final com omissão de gastos. TSE pressiona.

17. Bolsonaro diz que, em seu governo, “vai tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem pelos estudantes, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame.

18. Parte do Ministério do Trabalho deve ir para as mãos de Paulo Guedes, que quer criar a “carteira de trabalho verde e amarela”, retirando direitos de trabalhadores. Os contratos de trabalho serão ainda mais flexibilizados. (Lembrando que a nova CLT completou 1 ano sem gerar mais empregos, como era prometido. Bolsonaro disse que o país “tem muitos direitos trabalhistas“.)

19. O superministro Paulo Guedes já gerou crise com o legislativo, o que deve comprometer a governabilidade do novo presidente. (Sem contar o tanto que demonstrou desconhecimento sobre coisas básicas, como a votação do Orçamento)

20. Bolsonaro gera crise com a China, maior parceiro comercial do Brasil.

21. Equipe de Bolsonaro pensa em fusão do Banco do Brasil com Bank of America

22. Bolsonaro diz que “muita coisa” do governo Temer vai ser mantida

23. Alberto Fraga (DEM), que tem áudio gravado pedindo propina, foi convidado (e depois desconvidado, tamanha a repercussão negativa) para fazer parte do governo.

24. Bolsonaro repetiu a mentira do “kit gay”, comprovadamente falso, em entrevistas já como presidente eleito. Ou seja, ele não se importa de mentir MESMO, nem quando a campanha eleitoral já acabou.

25. Joaquim Levy, que falhou no ajuste fiscal como ministro da Fazenda do governo Dilma, é anunciado como presidente do BNDES do novo governo.

26. Cotado para Ministério da Saúde é investigado sob suspeita de caixa 2 e fraude.

27. Bolsonaro dá declarações irresponsáveis sobre Cuba, colapsa o Mais Médicos, irrita prefeitos que dependem do programa para manter a saúde funcionando e ainda pode gerar apagão de atendimentos em pequenas cidades do país. Nada menos que 24 milhões de brasileiros foram prejudicados. (Questionado sobre repercussão, ele encerra coletiva. Fujão.)

28. Chanceler do novo governo foi indicado por Olavo de Carvalho, prega coisas impensáveis para um futuro ministro das relações exteriores e gera apreensão entre políticos e outros países. Veja as pérolas do sujeito.

29. Equipe de transição já tem racha. Imagina como será quando esse povo todo estiver efetivamente no poder, a partir de janeiro!

30. Bolsonaro critica ONGs e põe em xeque R$ 1 bi de projetos ambientais

31. Aproximação com ultradireita na Hungria, com direito a promessa de parceria com líder antissemita e xenófobo.

32. Bolsonaro discute privatização da Petrobras, nosso maior patrimônio. (Depois o futuro presidente da estatal negou privatização… Mas daí Paulo Guedes diz que vai criar Secretaria de Privatizações. E Futuro chefe da Petrobras já disse que privatização da empresa é “urgente”).

33. Ainda na série “adeus, patrimônio brasileiro”: Paulo Guedes escolhe especialista em privatizações para o comando da Caixa

34. Da mesma série: novo presidente do BB afirmou que privatização será prioridade em sua gestão.

35. Equipe de transição discute retirar Funai do Ministério da Justiça; temor é que vá parar nas mãos do agronegócio, colocando em risco pelo menos 130 demarcações que ainda dependerão do novo governo.

36. Começou o cabide de emprego, que você também pode chamar de nepotismo: Boslonaro vai voltar Comunicação Social ao status de ministério e quer nomear o filhote que é apenas vereador para o cargo de ministro. Motivo: “ele é fera em redes sociais”. (Depois… adivinha? Ele recuou da ideia)

37. General que comandará Segurança Pública defende uso da força para promover a paz.

38. Bolsonaro não decepciona em sua ruindade: depois de quase anunciar Mozart Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e que parecia bastante qualificado para o cargo de ministro da Educação, e depois de o nome de Mozart ter sido vetado pela bancada evangélica (!) por ser, aparentemente, neutro em relação ao Escola Sem Partido, Bolsonaro elege o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo. Ah sim: Rodríguez foi indicado por Olavo de Carvalho, que já tinha emplacado o chanceler. Impressionante como esse astrólogo e pseudofilósofo tem influência sobre o futuro presidente do país, que horror! O novo ministro da Educação é contra o Enem!!! Ah, e disse que o golpe de 64 tem que ser comemorado!!!

39. Bolsonaro se oferece a Trump como aliado-chave e relança cúpula conservadora latina. Sem comentários. Leiam a reportagem de Afonso Benites no El País e pensem no estrago que isso pode causar ao Brasil.

40. Novo ministro da Educação diz que Bolsonaro poderá ver a prova do Enem antes (o que confronta critérios técnicos e de segurança do exame) e diz ainda que democratização da universidade “é bobagem”. Adeus, alunos mais pobres com ensino superior! Adeus, cotas!

(to be continued… pelos próximos quatro anos!)


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Juros altos e o caos na economia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Só assisto ao “Bom Dia Brasil” da TV Globo enquanto tomo o café da manhã. Nesta terça-feira, surpresa!, a Miriam Leitão saiu-se com uma crítica aos altos juros cobrados pelos bancos, algo impensável quando Roberto Marinho era o dono do Banco Roma nos maus dias da ditadura. E bem depois disso, é verdade. Não sei se me senti bem ou mal acompanhado. Durante anos, desde os tempo em que dirigi o jornalismo da Rádio Alvorada em Belo Horizonte, sentia-me isolado ao criticar bancos.

Naquele tempo, cheguei a ser proibido de dar notícias ou fazer comentários sobre bancos brasileiros. Afinal, o dono da rádio era o proprietário do Banco Bandeirantes. Se Gilberto Faria houvesse me escutado, talvez seu banco não precisasse ter sido vendido quase às vésperas da bancarrota (ainda existe essa palavra que aprendi na adolescência lendo “O Homem da Máscara de Ferro” de Alexandre Dumas?). Hoje banco em dificuldade não vai à bancarrota, pois recebe uma mãozinha do governo e é comprado por outro banco na bacia das almas. O Bandeirantes, comprado por um banco português em 1998, acabou no ano 2000 caindo nas mãos do Unibanco e, em seguida, do Itaú.

Só não tive impedimentos aqui, no blog, e no “Hoje em Dia”, quando eu escrevia os editoriais do então jornal do bispo Edir Macedo que, tenho certeza, não precisava pagar juros a bancos, dono de uma igreja talvez mais rendosa do que muitos deles.

Eu me pergunto: o que terá levado Miriam Leitão a cair na real? Será que clientes de sua carteira de bem remuneradas palestras já não aguentam mais os juros? Mas, e os bancos que, se não me engano, também contratam seus serviços? Com extrema boa vontade, diria que se deve à real preocupação dela com o estado atual da economia brasileira, que se encontra num caos, como bem descreveu, domingo passado, em editorial, o novo “Jornal do Brasil”, que pode ser lido aqui e que chegou a propor a estatização do sistema bancário, “Porque somente sem eles nossa economia poderá voltar a crescer”.

Trabalhei no JB por 16 anos e, por um tempo bem mais curto, a Miriam Leitão foi sua editora de economia e o Paulo Henrique Amorim, o chefe da redação. Agora, diz o novo “Jornal do Brasil”, a taxa Selic caiu para 6,5%, a mais baixa de toda a história, mas o “oligopólio que forma o sistema bancário brasileiro, composto por quatro famílias que administram 60% da base monetária, não se sensibiliza diante do caos instalado na economia, cujo principal motivo são as taxas de juros que cobram, não só de quem cria riquezas e gera empregos, mas também de 62 milhões de trabalhadores que se encontram inadimplentes junto aos bancos e financeiras”.

Os bancos fazem isso sob o “olhar complacente da Justiça, pois, na maioria das ações contra as empresas e trabalhadores, dá-se ganho de causa aos bancos, jogando o devedor no precipício da desesperança, diante dessa injustiça ‘legalizada’”, diz o JB, acrescentando que ocorre o mesmo quando os bancos são perdoados de dívidas, “como foi o caso do Itaú, que teve perdoada, no CARF, dívida fiscal de R$ 25 bilhões.”

O jornal aponta os quatro bancos privados que fazem o oligopólio do sistema financeiro no Brasil: Itaú, Santander, Bradesco e Safra. Os três últimos também estão sendo processados por suposta compra de votos no CARF para anular multas bilionárias.

O JB mencionou ainda que “a causa do endividamento público nos últimos 20 anos deveu-se, sobretudo, às taxas de juros que o Estado brasileiro pagou aos bancos e, na última linha, aos rentistas que, sem nada produzir, vivem do suor alheio”.

Renascido em papel, o jornal carioca demonstra aqui a velha têmpera do JB no qual trabalhei. Por exemplo, não vê justificativa “para que as quatro famílias continuem cobrando, das empresas e dos trabalhadores deste país, juros acima do que cobra qualquer agiota que atua na clandestinidade. E ainda gozam do privilégio de não pagar imposto sobre os generosos dividendos. Não é possível – e já provamos neste jornal – que à revelia de qualquer fundamento macroeconômico e/ou político, as taxas praticadas possam continuar sendo de 400% ao ano!”

Pois é, eu dizia algo assim, sem a mesma contundência, nos artigos que tenho escrito. Em 10 editoriais do “Hoje em Dia”, em 2014, tratei do problema trazido à economia pelos bancos. Naquele ano, Dilma Rousseff disputaria a reeleição e não conseguira segurar a Taxa Selic. Ela começou com 7,25% em janeiro de 2013 e chegou a 10% ao fim desse ano. No dia 31 de janeiro, escrevi: “Se a política econômica do governo tem sido boa para os trabalhadores, que vêm obtendo salários melhores e enfrentando menos dificuldade para pagar suas dívidas, ela tem sido ótima para os bancos, que lucram com maiores taxas de juros e inadimplência menor”.

Não vale a pena transcrever outros trechos, pois, como eu previa, já que não sou de todo tapado, os editoriais não mudaram em nada a política econômica. Até mesmo porque, como observa o JB, os presidentes do Banco Central “são sempre funcionários dos bancos que formam o oligopólio”. Um escárnio.

Tão grande a aberração, que até a “Folha de S.Paulo” descobriu, em reportagem de Mariana Carneiro, na última segunda-feira, que “um ano e quatro meses depois do início do corte dos juros pelo governo, a taxa cobrada pelos bancos no cheque especial praticamente não saiu do lugar”.

Só lembrando que a formação do oligopólio começou na década de 1990, no governo Fernando Henrique Cardoso, o feliz comprador do apartamento de 450 m² no rico bairro paulistano de Higienópolis, logo depois de deixar a presidência da República. O apartamento pertencia a Edmundo Safdié, dono do Banco Cidade, vendido no último ano de seu governo (2002) ao Bradesco.

Bradesco, Itaú e o espanhol Santander foram grandes beneficiários do programa de privatização dos bancos estaduais levada a efeito pelo governo FHC. Foram parar nas mãos do Itaú: Banerj, Bemge, BEG e Banestado. Com o lucro do primeiro ano de funcionamento do Bemge privatizado, o Itaú recuperou os R$ 583 milhões que pagara ao governo de Minas, governado por Eduardo Azeredo, do PSDB. Que, não por isso, foi condenado em segunda e terceira instância, mas continua em casa.

Foi depois de Azeredo que seu amigo Aécio Neves se tornou presidente nacional do PSDB. E que ontem se tornou réu, por decisão do Supremo Tribunal Federal. Quando e se será condenado, Deus sabe.

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O programa do Mercado feito por Henrique Meirelles e suas consequências desastrosas para o povo brasileiro

Olha o sorrisão de Henrique Meirelles…

Texto escrito por José de Souza Castro:

O Mercado, informa Samuel Pinheiro Guimarães, é integrado por cerca de 200 mil pessoas que declaram à Receita Federal rendimentos mensais superiores a 80 salários mínimos (cerca de R$ 80 mil). Seu número é inferior a 0,2% da população adulta brasileira. E menos de 1% dos declarantes do Imposto de Renda.

Pois bem, é para essa população reduzida que se orienta toda a política econômica do governo Temer. Visando a satisfazê-la e seguindo à risca as políticas do Consenso de Washington formuladas, em 1989, por economistas do Fundo Monetário Internacional, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, satisfazendo também os integrantes do Mercado mundial. Tudo boa gente.

É um assunto árido que o embaixador Pinheiro Guimarães, no entanto, trata de forma bem clara e didática num artigo publicado na última quinta-feira. Vou resumi-lo. Para quem não sabe, o autor foi secretário-geral do Itamaraty e Ministro de Assuntos Estratégicos no Governo Lula.

O programa do Mercado é o programa econômico do ministro Henrique Meirelles, que foi presidente do BankBoston entre 1996 e 1999 e do FleetBoston Financial, nos Estados Unidos. Que presidiu o Banco Central do Brasil, de 2003 a 2010. E, entre 2012 e 2016, o Conselho de Administração da holding J&F, de Joesley Batista, aquele que até junho deste ano era um dos milionários amigos de Temer.

Esse programa, diz Pinheiro Guimarães, é “desejado com ardor (e promovido com recursos) pelos banqueiros, rentistas, grandes empresários comerciais e industriais, grandes proprietários rurais, donos de grandes órgãos de comunicação, gestores de grandes fortunas, executivos de grandes empresas e seus representantes no Congresso”.

Tudo gente boa.

O problema é que o Programa de Reformas de Meirelles – na verdade, contrarreformas – promove um retrocesso econômico e social ao período anterior a 1930. Anterior a Keynes. Um programa que deveria ser rejeitado, não fosse a ignorância, pela esmagadora maioria do povo. Enquanto o povo não se informar e reagir, esse programa será imposto de forma implacável ao Brasil. Continuar lendo

A desintegração da Petrobras

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Texto escrito por José de Souza Castro:

A Petrobras vem oferecendo extraordinário reforço de caixa à TV Globo, principalmente, com suas campanhas publicitárias. O anjo da guarda dos comerciais feitos pela agência de publicidade NBS, mais do que proteger a rede de postos de combustíveis e os consumidores, está amparando veículos de comunicação de massa numa época de retração do mercado publicitário brasileiro.

A outra campanha, criada pela Heads, ao afirmar que “a Petrobras mudou e está seguindo em frente”, é tapa na cara de quem leu a “Carta aberta à Sociedade Brasileira sobre a desintegração da Petrobrás”, que acaba de ser divulgada pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet). Sim, Petrobrás, com acento. A Aepet, pelo visto, ainda não se conformou com a retirada do acento agudo, feito no governo Fernando Henrique Cardoso. Talvez, como consolo ao presidente de então, por não ter podido mudar o nome da estatal para Petrobrax, para que ele soasse melhor aos ouvidos estrangeiros a quem o governo tucano queria privatizar toda a empresa, como fez com a Companhia Vale do Rio Doce, na bacia das almas. O governo Temer vai vendendo aos pedaços, mas também na mesma bacia.

O anjo da guarda certamente não conseguiu proteger o posto Petrobras que há anos funciona em frente ao restaurante Roda D’Água, em Juatuba, a 40 quilômetros de Belo Horizonte. Neste fim de semana, ele estava operando sem bandeira de distribuidora. Não sei o motivo. Se for retração das vendas de combustível, deve piorar com o último reajuste feito pela Petrobras.

Não sei também quanto a Petrobras está gastando em publicidade, para nos enganar, diante do rápido declínio da empresa – e do governo Temer.

A Petrobras parece que não se acha obrigada a dar tal informação. A última vez que informou sobre investimentos em publicidade, pelo que verifiquei no Google, foi em março de 2015, quando ela se viu obrigada a tirar do ar a campanha “Superação”, criada para tentar reverter a crise de imagem desencadeada pela Operação Lava Jato.

Dilma ainda estava no governo. Um de seus adversários, o deputado José Carlos Aleluia, do DEM baiano, reclamou junto ao Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar), pedindo mudança na campanha. O Conar deliberou notificar a empresa, que decidiu cancelar a campanha. Na época, informou-se que a Gerência de Comunicação Institucional da Petrobras contou em 2013 com orçamento de cerca de R$ 1,2 bilhão para patrocínios, contratos de publicidade, atendimento a imprensa e planejamento institucional da marca.

Essa fonte valiosa de dinheiro para alguns setores empresariais privilegiados, como o Grupo Globo, pode secar na mesma rapidez com que a Petrobras se desintegra. E o Brasil com ela.

Vamos ao que diz a carta aberta da Aepet, que pode ser lida na íntegra AQUI. Continuar lendo