Autonomia do Banco Central, lucro dos bancos estrangeiros e a taxa de juros

Texto escrito por José de Souza Castro:

A ideia de dar independência aos Bancos Centrais não é coisa nova. Surgiu da tendência de políticos, quando governantes, de manipularem para baixo as taxas de juros, buscando aumentar sua popularidade. Jair Bolsonaro não entende de economia, embora tenha ficado rico com a política, e se deixou levar, numa boa, para que o BC se torne independente. Legalmente, pois de fato ele é independente desde o governo Fernando Henrique Cardoso.

O tema é complexo e polêmico. Para um político como Ciro Gomes, do PDT, em busca de popularidade depois de mais uma derrota na sua ambição de ser eleito presidente da República, se o projeto de Bolsonaro for aprovado, é caso “de ir para a rua e quebrar tudo.”

Eu não irei e não aconselho ninguém a ir. É ruim entrar em briga de cachorro grande. Mesmo concordando que dar independência legal ao BC é uma forma de torná-lo ainda mais dependente de meia dúzia de bancos que dominam o Brasil.

“Isso é a violenta e definitiva formalização de entrega do destino da nação brasileira a três bancos”, disse Ciro Gomes em entrevista.

A ideia de dar independência aos Bancos Centrais surgiu nos Estados Unidos na década de 1970 e foi acompanhada por países ricos da Europa e até mesmo pobres de outras partes do mundo. Mas faz parte do “alinhamento estúpido do Brasil com interesses estrangeiros”, como bem definiu Ciro Gomes.

Um alinhamento que não vem de agora. Quando ministro do Planejamento no governo do general Castelo Banco, entre 1964 e 1967, Roberto Campos ganhou o merecido apelido de “Bob Fields”, tal o seu alinhamento com Tio Sam.

Ele é avô do presidente do BC, Roberto Campos Neto, economista formado pela Universidade Califórnia, em Los Angeles, onde fez especialização em Finanças. Antes de ser nomeado por Bolsonaro, foi executivo do mercado financeiro, durante 18 anos, no Banco Santander – um banco espanhol que arranca do Brasil a maior parte de seus lucros.

Antes desse mais novo “Bob Fields”, o BC era presidido por Ilan Goldfajn, nascido em Haifa (Israel) em 1966. Ao ser nomeado por Michel Temer, ele era economista-chefe e sócio do Itaú Unibanco.

O fato é que, na sua gestão no BC, os bancos brasileiros lucraram muito. O último relatório do Banco Central afirma que, no ano passado, apesar do fraco crescimento da economia, as instituições financeiras tiveram os maiores lucros. Foi a melhor rentabilidade registrada em dezembro desde 2011.

O Itaú Unibanco, em 2017, primeiro da gestão de Goldfajn, registrou lucro líquido de R$ 23,965 bilhões, o maior já registrado por um banco com ações no Bovespa. Em 2018, quebrou o próprio recorde, com lucro líquido de R$ 24.977.

Antes de assumir a presidência do BC, Goldfajn anunciou que vendera suas ações do Itaú Unibanco e que se desligara desse banco, o maior do Brasil. Ah, bom…

Concluo dizendo que só não concordo inteiramente com Ciro Gomes porque acho que, se Bolsonaro tivesse o controle do Banco Central, o que era ruim podia piorar ainda mais. Aliás, uma hipótese improvável, pois nunca os donos dos grandes bancos no Brasil que mandam no governo dariam a ele esse poder.

Por fim, tornado legalmente independente, o Banco Central do Brasil se vê inteiramente responsável pelo que disse seu presidente em entrevista em Washington, nos Estados Unidos):

“Existe um prêmio de risco na parte longa da curva de juros, na incerteza da política monetária ter influência do ciclo político e, quando você faz isso [autonomia], desfaz o vínculo do ciclo político com o ciclo de política monetária e isso reduz esse prêmio e permite ter uma taxa de juros estrutural mais baixa que beneficia todo mundo”.

Entendeu? “Bob Fields” Neto prometeu taxas de juros mais baixas no Brasil. O mesmo que Dilma Rousseff, quando ela pensava mandar no BC.

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‘The Economist’ prevê mandato curto de Jair Bolsonaro, o aprendiz de presidente

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ilustração que estava no artigo da “The Economist”

Tida como uma espécie de bíblia dos grandes banqueiros internacionais, a revista inglesa “The Economist” avisa em sua última edição que, a menos que pare de provocar e aprenda a governar, o mandato de Jair Bolsonaro poderá ser curto.

O artigo intitulado “Jair Bolsonaro, Brazil’s apprentice president”, foi publicado na coluna Bello, que trata de questões da América Latina. Bello foi um pseudônimo escolhido na década de 1980. O pseudônimo na “The Economist” serve ao propósito, segundo a revista, de tornar mais consistente a qualidade do texto, bem como uma cultura mais colegial, seja lá o que isso signifique.

Essa prática era corriqueira na imprensa brasileira. Millôr Fernandes foi Emanuel Vão Gogo e Carlos Drummond de Andrade variava no começo da carreira assinando como Antônio Crispim, Mickey ou Gato Félix. Talvez a moda devesse voltar nos tempos atuais, para tentar proteger repórteres e articulistas do furor de políticos e juízes.

Para Bello, uma das principais razões de Jair Bolsonaro ter sido eleito presidente da República foi a promessa de que a economia voltaria a se mover depois de quatro anos parada. Ao nomear Paulo Guedes como seu superministro da Economia, o presidente conquistou o apoio do grande negócio e das finanças. Muitos acreditaram que a chegada de Bolsonaro ao governo reanimaria a economia, mas passados três meses ela permanece moribunda como sempre. Investidores começam a perceber que Guedes enfrenta tarefa íngreme para que o Congresso aprove a reforma da Previdência, que “é crucial para a saúde fiscal do Brasil”, segundo a revista “The Economist”.

A publicação atribui ao déficit fiscal elevado o fato de os juros para os tomadores privados serem mais altos do que deveriam ser. Ou seja, a culpa não é da ganância dos banqueiros, mas dos pobres pensionistas do INSS. De qualquer maneira, reconhece Bello, a reforma da Previdência não é suficiente para que o Brasil volte a ter um crescimento econômico robusto. Isso requer reforma tributária e outras medidas para elevar a competitividade.

O grande problema, constata o autor, é que Bolsonaro precisa ainda mostrar que entende o seu novo trabalho. Ele tem dissipado capital político por seus preconceitos. Por exemplo, convocando as forças armadas a comemorar o aniversário, dia 31 de março, do golpe militar de 1964.

Por mais que tenham horror a Bolsonaro, conclui a revista inglesa, democratas não deveriam desejar que ele caísse antes de completar seu mandato. Pouco tempo se passou, mas sua presidência já encara um teste crucial. “Nós temos duas alternativas”, seu porta-voz disse nesta semana. “Aprovar a reforma da Previdência ou cair num poço sem fundo”.

O porta-voz, como se sabe, é um general da reserva. Ele e seus colegas nada têm a temer dessa reforma da Previdência

E nem os bancos da futura reforma fiscal, a depender do ministro da Economia e do que se passou durante os longos anos do governo petista.

Se alguém quiser saber mais a respeito dessa última frase, deve ler a entrevista de Ciro Gomes ao jornal português “Diário de Notícias“. Trecho:

“O Brasil fechou 13 mil indústrias nos últimos três anos. O Brasil fechou 12 mil casas de comércio nos últimos três anos. Nós estamos com 14 milhões de desempregados, 63 milhões de brasileiros com nome sujo no sistema de controlo de crédito, e os bancos tendo lucros exorbitantes, recordistas, basicamente estipendiados pelo Estado brasileiro, que patrocina uma taxa de juros absolutamente criminosa durante todo o período assim referido de esquerda.”

Sim, Bolsonaro também prometeu acabar com a corrupção e nomeou o deus da Lava Jato como ministro da Justiça. Nenhum deles vai atacar a maior corrupção que suga o sangue dos brasileiros: os juros bancários. Se atacarem, o mandato vai encurtar ainda mais.

Remember Dilma Rousseff.

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A burrice no poder está acabando com o Brasil

Todas as charges que ilustram este post são do Duke, o melhor chargista do Brasil.

Texto escrito por José de Souza Castro:

A burrice no poder tende não só a se perpetuar, como a nela se afundar. O acúmulo de bobagens ou de tragédias, a partir de um certo ponto, exigiria tamanha confissão de incompetência, que os donos de poder continuam até a ruptura total. Reconhecer a burrice torna-se demasiado penoso.

É com essa constatação que o economista Ladislau Dowbor, professor titular de pós-graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, inicia um artigo publicado no site Outras Palavras, que li com grande interesse e que recomendo aos leitores deste blog.

Considerando, porém, que alguns não terão tempo para ler suas 13 páginas (6.571 palavras), me animo a resumi-lo, em parte:

FORÇA DA INÉRCIA

A burrice política obedece a uma impressionante força de inércia. Isso levou, por exemplo, cinco presidentes norte-americanos sucessivos a se afundarem na guerra do Vietnã, apesar da convicção íntima, hoje conhecida, de que era uma causa perdida.

Qualquer semelhança com o golpismo no Brasil insistir numa política que empurra o país para trás, mesmo depois de quatro anos de desastre, não é evidentemente uma coincidência, é a regra. No túnel da burrice, os que a perpetram sempre imaginam que logo adiante surgirá a proverbial luzinha. Se a política sacrifica em vez de ajudar, dirão que o sacrifício não foi suficiente, é só aprofundar um pouco mais. Com gigantesco esforço de mídia, de fake-news e de dinheiro, elegeu-se um presidente cujo rumo é simplesmente acelerar a Marcha. Com Deus e a Família rumo ao absurdo.

NÃO HÁ FALTA DE RECURSOS

A austeridade nunca funcionou, porque o capitalismo, para se expandir, precisa de produtores, mas também de consumidores. No centro do raciocínio, está a ilusão de que não temos recursos suficientes para incluir os pobres. As políticas sociais e um salário mínimo decente não caberiam na economia, no orçamento, ou na Constituição, segundo os políticos.

Nosso problema não é falta de recursos, e sim a burrice na sua distribuição.  O Brasil produz 6,3 trilhões de reais de bens e serviços; divididos por 208 milhões de habitantes nos dá um per capita de 30 mil reais ao ano.

Na fase do lulismo, a economia cresceu, sendo que a renda dos mais pobres e das regiões mais pobres cresceu mais do que a renda dos mais ricos: todos ganharam, os pobres de maneira mais acelerada, reduzindo a desigualdade. A ascensão dos pobres gerou nos ricos a reação esperada: a mesma que tiveram com Getúlio e com Jango, agora repetida com Dilma e com Lula. Reconhecer que funciona o que sempre denunciaram seria penoso demais. A burrice é muito teimosa.

O Banco Mundial qualificou os anos 2003 a 2013 de The Golden Decade¸ a década dourada da economia brasileira. É preciso ser muito ideologicamente cego para ignorar o imenso avanço que representaram a queda do desemprego de 12% em 2002 para 4,8% em 2013, a abertura de 18 milhões de empregos formais, a retirada de 38 milhões de pessoas da pobreza, a redução do desmatamento da Amazônia de 28 para 4 mil quilômetros quadrados, o acesso à luz elétrica para 15 milhões de pessoas e assim por diante.

A NARRATIVA DA ENGANAÇÃO

A opacidade mental dificulta naturalmente a aceitação dos números por quem quer se convencer do contrário. Então se gera uma forma sofisticada de bobagem chamada hoje de “narrativa”: fazer política para o povo é populismo, o populismo quebrou as contas do Estado e o caminho certo é o da boa dona de casa que só gasta o que tem. Portanto, a dona de casa Dilma tem de ir para casa.

Mas os números são simples: o que gerou o déficit não foram as políticas econômicas e sociais do governo, e sim os juros escorchantes sobre a dívida pública e a dívida privada, a chamada financeirização. Já pararam para pensar o que significa o Brasil ter, em 2018, 64 milhões de adultos endividados até o ponto de não poderem mais pagar suas dívidas?

CORTE DE POLÍTICAS SOCIAIS

Quando a Dilma tenta, entre 2012 e 2013, reduzir as taxas de juros, começa a guerra política, com manifestações, boicote e denúncias. A partir de meados de 2013 não há mais governo. Dilma ainda ganha a eleição, mas, como foi anunciado pelos adversários, não governaria. A burrice atinge o seu ápice quando se cortam as políticas sociais com a lei do teto de gastos, mas se mantêm as taxas de juros. Os bancos agradeceram, a classe rentista também. Jogaram a economia na recessão.

Em termos políticos, tiraram Dilma sem crime, prenderam Lula sem comprovação de culpa, elegeram um presidente absurdo por meio da prisão de quem ia ganhar a eleição, e quem prendeu Lula ganhou o posto de ministro.

Sim, de 2014 para cá, são muitos anos em que estão “consertando” a economia, que continua parada. O presidente eleito vai reduzir ainda mais os rendimentos da massa da população. Só para lembrar, no Bolsa Família são 30 bilhões de reais ao ano, que geram demanda e dinamizam a economia. Só os juros sobre a dívida pública, na faixa de 320 bilhões de reais, representam dez vezes mais, alimentando rentistas. E como as finanças deformadas quebraram a economia, o déficit aumentou. É um círculo vicioso.

No entanto, persiste a narrativa simplória: Dilma quebrou a economia. Para a maioria das pessoas, em particular quando não entendem os processos, política se resume a eleger o culpado. O sistema financeiro travou a economia, mas vendeu ao povo uma culpada, aliás, mulher e teimosa, vítima ideal.

CAPITALISMO DÁ TIRO NO PRÓPRIO PÉ

O lucro sobre investimento é legítimo: gera empregos, produtos, e paga impostos. Os banqueiros chamam os diversos papéis que rendem dividendos de “produtos”, o que constitui um disfarce simpático. Dinheiro ganho com aplicações financeiras não coloca um par de sapatos no mercado de bens realmente existentes. Diferenciar investimento produtivo e aplicação financeira é básico.

Papéis financeiros renderam nas últimas décadas entre 7% e 9% ao ano. Só para lembrar, a produção efetiva de bens e serviços aumenta no mundo num ritmo incomparavelmente menor, da ordem de 2% a 2,5%. Os afortunados, logicamente, irão optar pelas aplicações financeiras. A cada dia a maior parte deste dinheiro é reaplicada, gerando um enriquecimento improdutivo que gradualmente multiplica bilionários e trava a economia. É o capitalismo dando o tiro no próprio pé, ao perder a sua principal justificativa, a produtividade. De crise em crise, no cassino financeiro mundial, vimos o 1% dos mais ricos do planeta se apropriar de mais riqueza do que os 99% seguintes. É sistemicamente disfuncional.

A economia de mercado supunha trocas entre produtores e consumidores, com geração de emprego e renda. Hoje os “mercados”, grupo limitado de especuladores, apresentam um surto de otimismo a cada redução dos direitos da população. É a lógica da insensatez.

Um exemplo prático ajuda: há alguns anos a Coréia do Sul desbloqueou recursos públicos pesados para financiar sistemas de transporte público não poluente. O investimento gerou evidentemente um conjunto de atividades de pesquisa e de produção, e portanto emprego. Como utilizar transporte coletivo é muito mais barato do que cada pessoa pegar o seu carro, foram geradas economias que mais que compensam o investimento. Como investiram em transporte menos poluente, melhoraram as emissões tanto pela tecnologia desenvolvida como pela redução do uso de automóveis. Menos poluição nas cidades significa menos doenças de diversos tipos, e economias na área da saúde. A redução do tempo perdido nos engarrafamentos permite menor desgaste da população, mais tempo com lazer, melhor produtividade no trabalho. O exemplo tende a ilustrar apenas o óbvio: os recursos têm de ser investidos em projetos e programas que geram efeitos multiplicadores em termos de dinamização econômica, de proteção do meio ambiente e de melhoria do bem-estar das famílias. Tanta inteligência que se gasta para encontrar a aplicação financeira que mais rende, poderia ser utilizada para elaborar os projetos mais úteis. E enriquecer a sociedade.

No Brasil, a economia não funciona, porque não se coloca o dinheiro onde vai ter efeitos multiplicadores.

BANCOS EXTORQUEM AS FAMÍLIAS

No Brasil, as famílias e as empresas pagam anualmente, só em juros, sem reduzir a dívida, 1 trilhão de reais. Ou 16% do PIB. Em fevereiro de 2018, por exemplo, os juros bancários para pessoa física estavam na faixa de 137% ao ano, quando na França são inferiores a 5%. Assim o sistema financeiro drenou a capacidade de compra das famílias e a capacidade de investimento das empresas.

O dinheiro dos nossos depósitos e o fluxo de juros que os bancos extorquem das famílias e das empresas são em grande parte aplicados em títulos da dívida pública. O governo pagou aos bancos e aos ricos que têm aplicações deste tipo 341 bilhões de reais em 2017, cerca de 6% do PIB. Nossos impostos, em vez de financiarem políticas sociais e infraestruturas, vão parar nos bolsos dos especuladores financeiros, de gente que não produz nada.

Isso é agravado pelo sistema tributário. Enquanto na Europa se corrige em boa parte a deformação taxando o capital financeiro, as grandes fortunas, as heranças, e as rendas mais elevadas, no Brasil os ricos pagam proporcionalmente menos que os pobres, e desde 1995 os lucros e dividendos distribuídos são isentos de impostos. Além disso, cerca de um terço do nosso PIB se encontra em paraísos fiscais. Parte dos imensos drenos que sangram a nossa economia, que vaza por todo lado.

A nossa Constituição é clara: “O sistema financeiro nacional [será] estruturado de forma a promover o desenvolvimento equilibrado do País e a servir aos interesses da coletividade.” Hoje, serve essencialmente para alimentar improdutivos, sejam eles banqueiros, grupos nacionais ou internacionais, e em particular a classe média alta que com tanto entusiasmo ocupa a avenida Paulista. A realidade é que os bancos criaram um sistema em que os nossos impostos são desviados em grande parte para os seus cofres e para os rentistas que participam da festa, essencialmente os mais afortunados. Os banqueiros manejam o Estado, drenam os seus recursos, e explicam que a culpa é do Estado, dos impostos elevados, e dos “gastos” com os mais pobres.

Seria incomparavelmente mais produtivo para todos, inclusive para os bancos, fomentarem a economia em vez de drená-la. A China tem esse ritmo de desenvolvimento porque canaliza os recursos financeiros “de forma a promover o desenvolvimento”.

MANUTENÇÃO DA DESIGUALDADE É BURRA

Manter a desigualdade é particularmente absurdo, mas está no centro das propostas do poder. Afinal, os ricos que nos regem defendem os seus próprios interesses, e é raríssimo ter alguém no poder que não seja rico, branco, homem, e centrado em aumentar as suas próprias vantagens.

O sistema se torna disfuncional, inclusive para os donos do poder. Jogaram a economia na recessão, no desemprego, e no caos político. Esse sistema nem para os ricos funciona.

Todos esses ricaços irresponsáveis que esbanjam os seus recursos com consumo espalhafatoso ou especulação financeira, em vez de ajudar na implementação de políticas que funcionam para o conjunto da sociedade, todas essas corporações que geram tragédias sociais e ambientais, navegam em valores de primatas, na ética de que o sucesso consiste em arrancar o pedaço maior, que se dane o sofrimento, que se dane o planeta. Aqui temos inteligência impressionante para gerar novos meios, mas uma burrice impressionante em termos de definir os fins. Vamos construir mais muros, abrir mais condomínios, mais casulos de riqueza, sistemas de repressão mais violentos?

Essa desigualdade é evidentemente disfuncional também em termos sociais e políticos. E a desigualdade constitui em particular uma burrice no plano econômico. Porque funcionaram o New Deal de Roosevelt, o Welfare State dos países hoje desenvolvidos, o milagre da Coréia do Sul, o impressionante ritmo de desenvolvimento da China, a “década dourada” do Brasil? Todos tiveram em comum a expansão da capacidade de compra da base da população, e o acesso a políticas sociais públicas e universais, que permitiram ampliar a escala de produção e o emprego.

O consumo das famílias e a produção empresarial geram por sua vez impostos que aumentam as receitas do Estado, permitindo o financiamento das políticas sociais: uma população com mais saúde e educação é mais produtiva. Aqui não são necessários ideologias e ódios, e sim um simples olhar para o que funciona. E o que funciona é quando a economia é orientada segundo as prioridades e o bem-estar das famílias. A desigualdade, em termos econômicos, apenas mantém uma atividade de base estreita e de baixa produtividade.

O leitor interessado pode acessar o texto completo AQUI.

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Em uma semana de Jair Bolsonaro eleito, pelo menos 14 notícias de retrocesso

Todas as charges deste post são do Duke, o melhor chargista do Brasil na atualidade.

Passaram-se apenas oito dias desde que o Brasil inteiro ficou sabendo que 39% dos brasileiros aptos a votar elegeram Jair Bolsonaro (PSL) para ser o presidente da República pelos próximo 4 anos. E, apesar do curto tempo, já li tantas – mas tantas tantas tantas – notícias ruins, que não tem como eu guardar nem um pingo de otimismo com o que virá a partir da posse, em primeiro de janeiro de 2019.

Selecionei abaixo algumas. Não todas, porque não tive tempo de ficar armazenando os links nesta semana. Por isso, fique à vontade para citar outras na parte de comentários do blog. Se sobrar tempo, manterei este post atualizado.

Pode-se dizer que este post é da série “eu avisei”. Não que isso faça qualquer diferença, já que eu preferiria mil vezes não estar certa e apontar o dedo aos eleitores de Bolsonaro a ver o meu querido país regredir décadas para trás. Afinal, estamos todos na mesma canoa furada. Mas aí vai, eu avisei:

1. Gabinete de transição de Bolsonaro tem 28 membros: todos homens (um deles foi o maior fornecedor da campanha e o outro já foi foi preso após queixa de agressão à ex; a lista toda, com 4 militares, AQUI. ATUALIZAÇÃO: Depois de críticas, anunciaram que vão incluir “3 a 5 mulheres”).

2. Ministros confirmados incluem Sergio Moro, general Heleno, e o superministro Onyx Lorenzoni, que ocupará a Casa Civil. Onyx foi citado durante a Lava Jato e confessou ter recebido R$ 100 mil de caixa 2 na campanha de 2014.

3. Magno Malta pode virar “ministro da Família”.

4. Retirar ensino superior do MEC pode provocar quebra no atual sistema educacional (AQUI, mais sobre as propostas do presidente eleito para a educação, que incluem mensalidades em universidades públicas e ensino à distância desde a infância).

5. Fusão do Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente, anunciada logo de cara, geraria imensos problemas para o país; após pressão, Bolsonaro teve que recuar da ideia.

6. Pela primeira vez na História, Congresso veta jornalistas em plenário no primeiro compromisso de Bolsonaro eleito (AQUI, Bolsonaro ameaçou a Folha de S.Paulo; AQUI, ele barrou vários jornais em sua primeira coletiva após eleito; ataques dele à imprensa chegaram a 10 por semana).

7. Bolsonaro diz que não fará mais demarcação de terra indígena.

8. Brasil pode perder investimentos árabes com embaixada em Jerusalém anunciada por Bolsonaro (e Egito cancela viagem de comitiva brasileira após declaração; lembrando que países árabes são grandes parceiros comerciais do Brasil e o Egito é o maior deles). Eduardo Bolsonaro confirmou que mudança de embaixada vai ser feita. (O que o Brasil ganha em mexer com esse vespeiro?!)

9. Bolsonaro não abre mão sobre flexibilização de posse de arma (e AQUI, Eduardo Bolsonaro defende ampliação do acesso a armas por decreto presidencial; lembrando que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível).

10. Superministro Paulo Guedes desdenha de Mercosul e gera reação de países vizinhos.

11. Bolsonaro defende que professores sejam gravados em sala de aula (lembrando que a Justiça mandou a deputada apoiadora de Bolsonaro parar com a incitação à perseguição de professores; lembrando também que ela já foi dar aulas com camisa do político).

12. Sobre os “guardas da esquina” desde que Bolsonaro foi eleito: além da deputada que quer perseguir professores, temos o estudante que pregou “matar a negraiada“, o homem que foi espancado e morto por oito homens que gritavam o nome de Bolsonaro, os alunos da USP pregando mensagens de ódio às mulheres. Ah, e policial federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro. Não vi nenhuma reação do presidente eleito a esses crimes praticados por apoiadores.

13. Bolsonaro demonstra desconhecimento ao falar sobre cálculo do desemprego no IBGE. (E precisamos ter muito cuidado com manipulação de dados oficiais a partir do ano que vem, hein?)

14. Bolsonaro invoca Deus em seus discursos, ignorando que Estado é laico.


Atualização a partir de 7.11.2018:

15. Bolsonaro anuncia extinção do Ministério do Trabalho, criado por Getúlio Vargas em 1930, justamente agora que o Brasil enfrenta a maior crise de desemprego da sua história. Decisão revanchista pode afetar do pagamento do FGTS ao combate ao trabalho escravo no país. (Dias depois, ele recuou da péssima ideia.)

16. Bolsonaro entrega prestação de contas final com omissão de gastos. TSE pressiona.

17. Bolsonaro diz que, em seu governo, “vai tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem pelos estudantes, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame.

18. Parte do Ministério do Trabalho deve ir para as mãos de Paulo Guedes, que quer criar a “carteira de trabalho verde e amarela”, retirando direitos de trabalhadores. Os contratos de trabalho serão ainda mais flexibilizados. (Lembrando que a nova CLT completou 1 ano sem gerar mais empregos, como era prometido. Bolsonaro disse que o país “tem muitos direitos trabalhistas“.)

19. O superministro Paulo Guedes já gerou crise com o legislativo, o que deve comprometer a governabilidade do novo presidente. (Sem contar o tanto que demonstrou desconhecimento sobre coisas básicas, como a votação do Orçamento)

20. Bolsonaro gera crise com a China, maior parceiro comercial do Brasil.

21. Equipe de Bolsonaro pensa em fusão do Banco do Brasil com Bank of America

22. Bolsonaro diz que “muita coisa” do governo Temer vai ser mantida

23. Alberto Fraga (DEM), que tem áudio gravado pedindo propina, foi convidado (e depois desconvidado, tamanha a repercussão negativa) para fazer parte do governo.

24. Bolsonaro repetiu a mentira do “kit gay”, comprovadamente falso, em entrevistas já como presidente eleito. Ou seja, ele não se importa de mentir MESMO, nem quando a campanha eleitoral já acabou.

25. Joaquim Levy, que falhou no ajuste fiscal como ministro da Fazenda do governo Dilma, é anunciado como presidente do BNDES do novo governo.

26. Cotado para Ministério da Saúde é investigado sob suspeita de caixa 2 e fraude.

27. Bolsonaro dá declarações irresponsáveis sobre Cuba, colapsa o Mais Médicos, irrita prefeitos que dependem do programa para manter a saúde funcionando e ainda pode gerar apagão de atendimentos em pequenas cidades do país. Nada menos que 24 milhões de brasileiros foram prejudicados. (Questionado sobre repercussão, ele encerra coletiva. Fujão.)

28. Chanceler do novo governo foi indicado por Olavo de Carvalho, prega coisas impensáveis para um futuro ministro das relações exteriores e gera apreensão entre políticos e outros países. Veja as pérolas do sujeito.

29. Equipe de transição já tem racha. Imagina como será quando esse povo todo estiver efetivamente no poder, a partir de janeiro!

30. Bolsonaro critica ONGs e põe em xeque R$ 1 bi de projetos ambientais

31. Aproximação com ultradireita na Hungria, com direito a promessa de parceria com líder antissemita e xenófobo.

32. Bolsonaro discute privatização da Petrobras, nosso maior patrimônio. (Depois o futuro presidente da estatal negou privatização… Mas daí Paulo Guedes diz que vai criar Secretaria de Privatizações. E Futuro chefe da Petrobras já disse que privatização da empresa é “urgente”).

33. Ainda na série “adeus, patrimônio brasileiro”: Paulo Guedes escolhe especialista em privatizações para o comando da Caixa

34. Da mesma série: novo presidente do BB afirmou que privatização será prioridade em sua gestão.

35. Equipe de transição discute retirar Funai do Ministério da Justiça; temor é que vá parar nas mãos do agronegócio, colocando em risco pelo menos 130 demarcações que ainda dependerão do novo governo.

36. Começou o cabide de emprego, que você também pode chamar de nepotismo: Boslonaro vai voltar Comunicação Social ao status de ministério e quer nomear o filhote que é apenas vereador para o cargo de ministro. Motivo: “ele é fera em redes sociais”. (Depois… adivinha? Ele recuou da ideia)

37. General que comandará Segurança Pública defende uso da força para promover a paz.

38. Bolsonaro não decepciona em sua ruindade: depois de quase anunciar Mozart Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e que parecia bastante qualificado para o cargo de ministro da Educação, e depois de o nome de Mozart ter sido vetado pela bancada evangélica (!) por ser, aparentemente, neutro em relação ao Escola Sem Partido, Bolsonaro elege o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo. Ah sim: Rodríguez foi indicado por Olavo de Carvalho, que já tinha emplacado o chanceler. Impressionante como esse astrólogo e pseudofilósofo tem influência sobre o futuro presidente do país, que horror! O novo ministro da Educação é contra o Enem!!! Ah, e disse que o golpe de 64 tem que ser comemorado!!!

39. Bolsonaro se oferece a Trump como aliado-chave e relança cúpula conservadora latina. Sem comentários. Leiam a reportagem de Afonso Benites no El País e pensem no estrago que isso pode causar ao Brasil.

40. Novo ministro da Educação diz que Bolsonaro poderá ver a prova do Enem antes (o que confronta critérios técnicos e de segurança do exame) e diz ainda que democratização da universidade “é bobagem”. Adeus, alunos mais pobres com ensino superior! Adeus, cotas!

(to be continued… pelos próximos quatro anos!)


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Juros altos e o caos na economia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Só assisto ao “Bom Dia Brasil” da TV Globo enquanto tomo o café da manhã. Nesta terça-feira, surpresa!, a Miriam Leitão saiu-se com uma crítica aos altos juros cobrados pelos bancos, algo impensável quando Roberto Marinho era o dono do Banco Roma nos maus dias da ditadura. E bem depois disso, é verdade. Não sei se me senti bem ou mal acompanhado. Durante anos, desde os tempo em que dirigi o jornalismo da Rádio Alvorada em Belo Horizonte, sentia-me isolado ao criticar bancos.

Naquele tempo, cheguei a ser proibido de dar notícias ou fazer comentários sobre bancos brasileiros. Afinal, o dono da rádio era o proprietário do Banco Bandeirantes. Se Gilberto Faria houvesse me escutado, talvez seu banco não precisasse ter sido vendido quase às vésperas da bancarrota (ainda existe essa palavra que aprendi na adolescência lendo “O Homem da Máscara de Ferro” de Alexandre Dumas?). Hoje banco em dificuldade não vai à bancarrota, pois recebe uma mãozinha do governo e é comprado por outro banco na bacia das almas. O Bandeirantes, comprado por um banco português em 1998, acabou no ano 2000 caindo nas mãos do Unibanco e, em seguida, do Itaú.

Só não tive impedimentos aqui, no blog, e no “Hoje em Dia”, quando eu escrevia os editoriais do então jornal do bispo Edir Macedo que, tenho certeza, não precisava pagar juros a bancos, dono de uma igreja talvez mais rendosa do que muitos deles.

Eu me pergunto: o que terá levado Miriam Leitão a cair na real? Será que clientes de sua carteira de bem remuneradas palestras já não aguentam mais os juros? Mas, e os bancos que, se não me engano, também contratam seus serviços? Com extrema boa vontade, diria que se deve à real preocupação dela com o estado atual da economia brasileira, que se encontra num caos, como bem descreveu, domingo passado, em editorial, o novo “Jornal do Brasil”, que pode ser lido aqui e que chegou a propor a estatização do sistema bancário, “Porque somente sem eles nossa economia poderá voltar a crescer”.

Trabalhei no JB por 16 anos e, por um tempo bem mais curto, a Miriam Leitão foi sua editora de economia e o Paulo Henrique Amorim, o chefe da redação. Agora, diz o novo “Jornal do Brasil”, a taxa Selic caiu para 6,5%, a mais baixa de toda a história, mas o “oligopólio que forma o sistema bancário brasileiro, composto por quatro famílias que administram 60% da base monetária, não se sensibiliza diante do caos instalado na economia, cujo principal motivo são as taxas de juros que cobram, não só de quem cria riquezas e gera empregos, mas também de 62 milhões de trabalhadores que se encontram inadimplentes junto aos bancos e financeiras”.

Os bancos fazem isso sob o “olhar complacente da Justiça, pois, na maioria das ações contra as empresas e trabalhadores, dá-se ganho de causa aos bancos, jogando o devedor no precipício da desesperança, diante dessa injustiça ‘legalizada’”, diz o JB, acrescentando que ocorre o mesmo quando os bancos são perdoados de dívidas, “como foi o caso do Itaú, que teve perdoada, no CARF, dívida fiscal de R$ 25 bilhões.”

O jornal aponta os quatro bancos privados que fazem o oligopólio do sistema financeiro no Brasil: Itaú, Santander, Bradesco e Safra. Os três últimos também estão sendo processados por suposta compra de votos no CARF para anular multas bilionárias.

O JB mencionou ainda que “a causa do endividamento público nos últimos 20 anos deveu-se, sobretudo, às taxas de juros que o Estado brasileiro pagou aos bancos e, na última linha, aos rentistas que, sem nada produzir, vivem do suor alheio”.

Renascido em papel, o jornal carioca demonstra aqui a velha têmpera do JB no qual trabalhei. Por exemplo, não vê justificativa “para que as quatro famílias continuem cobrando, das empresas e dos trabalhadores deste país, juros acima do que cobra qualquer agiota que atua na clandestinidade. E ainda gozam do privilégio de não pagar imposto sobre os generosos dividendos. Não é possível – e já provamos neste jornal – que à revelia de qualquer fundamento macroeconômico e/ou político, as taxas praticadas possam continuar sendo de 400% ao ano!”

Pois é, eu dizia algo assim, sem a mesma contundência, nos artigos que tenho escrito. Em 10 editoriais do “Hoje em Dia”, em 2014, tratei do problema trazido à economia pelos bancos. Naquele ano, Dilma Rousseff disputaria a reeleição e não conseguira segurar a Taxa Selic. Ela começou com 7,25% em janeiro de 2013 e chegou a 10% ao fim desse ano. No dia 31 de janeiro, escrevi: “Se a política econômica do governo tem sido boa para os trabalhadores, que vêm obtendo salários melhores e enfrentando menos dificuldade para pagar suas dívidas, ela tem sido ótima para os bancos, que lucram com maiores taxas de juros e inadimplência menor”.

Não vale a pena transcrever outros trechos, pois, como eu previa, já que não sou de todo tapado, os editoriais não mudaram em nada a política econômica. Até mesmo porque, como observa o JB, os presidentes do Banco Central “são sempre funcionários dos bancos que formam o oligopólio”. Um escárnio.

Tão grande a aberração, que até a “Folha de S.Paulo” descobriu, em reportagem de Mariana Carneiro, na última segunda-feira, que “um ano e quatro meses depois do início do corte dos juros pelo governo, a taxa cobrada pelos bancos no cheque especial praticamente não saiu do lugar”.

Só lembrando que a formação do oligopólio começou na década de 1990, no governo Fernando Henrique Cardoso, o feliz comprador do apartamento de 450 m² no rico bairro paulistano de Higienópolis, logo depois de deixar a presidência da República. O apartamento pertencia a Edmundo Safdié, dono do Banco Cidade, vendido no último ano de seu governo (2002) ao Bradesco.

Bradesco, Itaú e o espanhol Santander foram grandes beneficiários do programa de privatização dos bancos estaduais levada a efeito pelo governo FHC. Foram parar nas mãos do Itaú: Banerj, Bemge, BEG e Banestado. Com o lucro do primeiro ano de funcionamento do Bemge privatizado, o Itaú recuperou os R$ 583 milhões que pagara ao governo de Minas, governado por Eduardo Azeredo, do PSDB. Que, não por isso, foi condenado em segunda e terceira instância, mas continua em casa.

Foi depois de Azeredo que seu amigo Aécio Neves se tornou presidente nacional do PSDB. E que ontem se tornou réu, por decisão do Supremo Tribunal Federal. Quando e se será condenado, Deus sabe.

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