O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas

– Filho do céu, por que está todo cheio de sangue assim? O que aconteceu? A cara toda inchada, meu filho!

– Foram aqueles caras do grupo de extermínio de novo, mãe.

– Mas o que houve? Você estava com aquele seu amigo gay?

– Não, tenho evitado andar junto com ele, porque, da última vez, eles deixaram meu amigo sem conseguir andar, e pode acabar sobrando pra mim. Prefiro perder um amigo, mas ficar vivo. Ainda mais com todo mundo armado nas ruas o tempo todo. Desta vez foi uma discussão idiota. Você sabe, mãe, não engulo isso de falarem que a Terra é plana. Agora até livro da gente eles estão vasculhando. Eu tava contando a uma amiga o que você me falou sobre conhecimentos científicos, que a gente está aprendendo tudo errado na escola, mostrei seu livro a ela, e os caras viram e partiram pra cima.

– Já falei que não é pra andar com esses livros por aí, filho. Você não levou para o trabalho, né? Já está impossível conseguir um lugar pra trabalhar, se te pegam com um desses, você está fora.

– Uma merda de trabalho daquelas? Se me mandarem embora, já fui tarde!

– Não fale assim, filho. Você sabe que esse trocado que você ganha vai ajudar a pagar sua faculdade. Infelizmente não existe mais faculdade pública no Brasil. Você precisa ver como eram bons os tempos de UFMG, de USP… Mas os caras venderam tudo, as faculdades estão caríssimas, a gente mal consegue ficar empregado, está difícil. Mas faço questão que você estude. Dá sorte de ser homem. Se fosse mulher, tinha aquele tanto de restrição, de curso que não pode fazer, que é só pra homem. Não reclame: nasceu homem, branco e hétero, foi quase como ganhar na loteria.

– Que loteria o quê, mãe. Loteria… E aquilo não é trabalho. Não aguento mais ralar de segunda a segunda, sem folga, sem nada. Como era aquilo que você disse que tinha na sua época?

– (sussurrando) Férias.

– Quê? Férias?

– Férias… Aiai… Vou te explicar de novo, prest’atenção. Tinha um documento chamado carteira de trabalho. Tinha um negócio chamado CLT. Consolidação das Leis de Trabalho. A gente tinha uma porção de direitos… Descanso remunerado todo domingo. Férias remuneradas de 30 dias ao ano.

– Quê?!

– Era tipo uma folga, você ficava 30 dias sem trabalhar nada e ainda ganhava pra isso… Foram acabando com esses direitos um a um, primeiro nas reformas trabalhistas, depois naquela da liberdade econômica, depois numa que chamava MP da desburocratização pelo povo de bem, uma merda qualquer assim. Já foi tanta coisa batizada com cada nome esdrúxulo, que não consigo nem guardar mais. O fato é que foi tudo indo por água abaixo. Hoje você nem sabe o que é carteira de trabalho, né? Nem aprende nada disso na escola! Nem tem jornal pra se informar mais! Não vou nem te falar de novo sobre o que era aposentadoria, porque capaz de você não aguentar, hahahahahahah…

– Do que está rindo? Que droga, mãe, isso é muita injustiça! Eu queria ter nascido na sua época!

– Tou rindo de desespero. Sei lá de quê. Rindo porque eu conheci muita coisa boa, conquistada com suor de décadas, e vi tudo desmoronar, e uma sociedade apática, assistindo a tudo calada, mesmo com os caras falando e fazendo um absurdo atrás do outro, dia após dia.

– Por que não evitaram que isso acontecesse?

– Ah, eu perguntava a mesma coisa sobre o golpe de 1964, filho. Já te contei sobre isso. Você aprende tudo louco na escola, que foi um período áureo do Brasil. Não sei nem pra que existe escola hoje. Mas foi uma ditadura sangrenta e corrupta. E eu ficava me perguntando como deixaram as coisas acontecerem naquela época. Mas é difícil explicar. É muita lavagem cerebral, é muita mentira sendo repetida à exaustão como verdade, é muita ignorância, muito fanatismo, muita manipulação. E assim vai indo, até que uma hora a gente não tem mais qualquer controle sobre nada. Tipo no livro “1984”, que já te dei pra ler. De repente o cara vira o Grande Irmão e você se vê indo pra casa mais cedo, porque tem hora de recolher, e já não tem mais força pra reagir.

– E esses grupos de extermínio? Já existiam na sua época?

– Ah, o Brasil sempre foi muito violento, mas na hora em que você coloca um presidente dizendo que todo mundo que concorda com ele pode atacar livremente os que discordam, que pode fuzilar os que pensam diferente, a coisa muda de figura. Você passa a ter medo do vizinho, do aluno, do guarda da esquina. Todo mundo foi conseguindo mais acesso a armas de fogo, e esses grupos foram se fortalecendo, até hoje virar isso aí que você conhece bem.

– Bom, vou ter que encarar esses caras do bairro de novo, porque já tá na hora da segunda jornada.

– Já?! Nem consegui acabar de limpar suas feridas.

– Não tem jeito, você sabe como é longe, e tenho que fazer tudo a pé…

– Hahahah, você nem sabe o que é ter carro próprio, né, filho! Depois que venderam a Petrobras, babau gasolina acessível. De qualquer forma, o trânsito hoje virou um caos, acabaram com os radares, até com a cadeirinha, as mortes no trânsito explodiram… melhor ficar a pé mesmo.

– Cadeirinha? Do que você tá falando, mãe?

– Nem os bebês se salvaram desses loucos. Bah, deixa pra lá. Mas, filho, ó: cuidado! Não fique batendo boca por causa de ciência. Não vale a pena discutir com esse povo. Se quiser trocar ideia com o pessoal mais cabeça aberta, faça num lugar seguro, não no meio da rua, dando bandeira.

– Eu sei, eu sei, desculpa, mãe. Não tem como ficar vigiando ao redor o tempo todo, tem hora que escapa.

– Ai, se cuida então. Bom trabalho… Ah, FILHO!

– Quê?

– Não se esqueça da máscara. Hoje o ar tá irrespirável lá fora.

– O Brasil tá irrespirável, mãe.

– Sim, você tem razão. O Brasil tá irrespirável há 15 anos. Com máscara ou sem. Vai com Deus, meu filho.

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P.S. Neste domingo (25) vai haver protesto aqui em Belo Horizonte contra o governo Bolsonaro e as queimadas desenfreadas na Amazônia, assim como já ocorreram em várias cidades do Brasil e do mundo. Vai ser às 10h, na Praça do Papa. Nos veremos lá!

Conto atualizado no dia 7.9.2019

Leia também:

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  3. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
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  10. Qual é a sua opinião, cidadão?
  11. Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil contemporâneo
  12. Mais posts sobre fanatismo
  13. Mais posts sobre as eleições
  14. Fanatismo é burro, mas perigoso
  15. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  16. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

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Um crime, um acidente e a mesma causa em comum: arma de fogo em mãos erradas

1) No auge dos 32 graus do calorão de Beagá, um pai foi a uma sorveteria com o filho de 10 anos para comemorar o aniversário do garoto, que faria 11 no dia seguinte. Lá dentro, ouve outro cliente chamando seu filho de “gordo” e bate boca com ele, dizendo que aquilo era bullying. A discussão se estende até a rua, e o outro cliente saca uma arma menor que a palma de uma mão e atira no olho do pai da criança, na frente do filho. Depois de disparar, vira-se e sai caminhando tranquilamente, até ser detido por uma testemunha, que chama a polícia. Enquanto isso, a criança chora, tentando reanimar o pai, já morto. [Leia a reportagem de Aline Diniz e Letícia Fontes]

2) Um adolescente de 17 anos, seu priminho, de 10, e outras crianças, estavam em um culto da igreja, no interior de Minas, e, em seguida, foram ter uma aula de música. Chegando à casa, o adolescente encontrou uma espingarda em cima de uma mesa de sinuca e, por curiosidade, pegou a arma. Apontou para uma lavoura de café em frente, atirou – puf! –, mas não saiu nada. Achando que a arma estava descarregada, apontou para o primo mais novo, atirou – bum! – e, desta vez, saiu um projétil que foi parar bem no peito da criança. Pouco depois, o garoto morreu. O outro, que atirou acidentalmente, foi apreendido. O filho do dono da espingarda ficou tão transtornado que quebrou a arma. [Leia a reportagem de Natália Oliveira]

O que esses dois casos têm em comum?

Sim, ela: a arma de fogo. No primeiro caso, foi usada em uma briga por motivo banal, fútil, que poderia ter sido facilmente resolvido entre os dois desconhecidos se tivessem conseguido terminar a discussão com serenidade. Mas, no calor do bate-boca, um deles estava armado. Mirou: bum! E ao menos três vidas foram destruídas graças a esse gesto. O pai era um bandido? Não, de jeito nenhum, estava só tentando proteger o filho do que considerou uma ofensa verbal. O “cidadão de bem” que atirou era um bandido? Não sei dizer, mas agora tornou-se um assassino.

No segundo caso, a arma de fogo foi usada por acidente, ou por ingenuidade. Não existisse arma ali, e as crianças teriam voltado para casa naquele fim de tarde, depois de uma tarde normal com orações e aula de música. Mas a espingarda estava à mão, atraiu a curiosidade da criança mais velha e, bum!, ao menos três vidas foram destruídas graças a essa curiosidade.

Armas de fogo devem ser restritas ao máximo. Quanto mais estiverem disponíveis, à mão de pessoas inabilitadas para manuseá-las (como aquelas sem controle, muito esquentadas ou as crianças), mais frequentes serão os casos de mortes por motivos fúteis (brigas de trânsito são um prato cheio para isso), acidentes com crianças e suicídios.

No entanto, nosso digníssimo presidente e sua equipe planejam, em vez de restringir mais, ampliar o acesso à posse de armas. Mesmo antes de a legislação ter efetivamente mudado, só pelo fato de o país estar vivendo esta atmosfera bélica dos seguidores de Bolsonaro, a venda de armas já disparou (literalmente) no mercado.

Eu chorei lendo estas duas notícias acima, imaginando a dor desses parentes que perderam seus entes queridos para o acaso, facilitado pela presença de uma arma de fogo. Chorarei muito mais, nos próximos anos, com os vários outros crimes ou acidentes evitáveis que certamente vão pipocar por todo o Brasil. Na torcida para que ninguém que eu amo também vire manchete de jornal.

Leia também:

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Em uma semana de Jair Bolsonaro eleito, pelo menos 14 notícias de retrocesso

Todas as charges deste post são do Duke, o melhor chargista do Brasil na atualidade.

Passaram-se apenas oito dias desde que o Brasil inteiro ficou sabendo que 39% dos brasileiros aptos a votar elegeram Jair Bolsonaro (PSL) para ser o presidente da República pelos próximo 4 anos. E, apesar do curto tempo, já li tantas – mas tantas tantas tantas – notícias ruins, que não tem como eu guardar nem um pingo de otimismo com o que virá a partir da posse, em primeiro de janeiro de 2019.

Selecionei abaixo algumas. Não todas, porque não tive tempo de ficar armazenando os links nesta semana. Por isso, fique à vontade para citar outras na parte de comentários do blog. Se sobrar tempo, manterei este post atualizado.

Pode-se dizer que este post é da série “eu avisei”. Não que isso faça qualquer diferença, já que eu preferiria mil vezes não estar certa e apontar o dedo aos eleitores de Bolsonaro a ver o meu querido país regredir décadas para trás. Afinal, estamos todos na mesma canoa furada. Mas aí vai, eu avisei:

1. Gabinete de transição de Bolsonaro tem 28 membros: todos homens (um deles foi o maior fornecedor da campanha e o outro já foi foi preso após queixa de agressão à ex; a lista toda, com 4 militares, AQUI. ATUALIZAÇÃO: Depois de críticas, anunciaram que vão incluir “3 a 5 mulheres”).

2. Ministros confirmados incluem Sergio Moro, general Heleno, e o superministro Onyx Lorenzoni, que ocupará a Casa Civil. Onyx foi citado durante a Lava Jato e confessou ter recebido R$ 100 mil de caixa 2 na campanha de 2014.

3. Magno Malta pode virar “ministro da Família”.

4. Retirar ensino superior do MEC pode provocar quebra no atual sistema educacional (AQUI, mais sobre as propostas do presidente eleito para a educação, que incluem mensalidades em universidades públicas e ensino à distância desde a infância).

5. Fusão do Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente, anunciada logo de cara, geraria imensos problemas para o país; após pressão, Bolsonaro teve que recuar da ideia.

6. Pela primeira vez na História, Congresso veta jornalistas em plenário no primeiro compromisso de Bolsonaro eleito (AQUI, Bolsonaro ameaçou a Folha de S.Paulo; AQUI, ele barrou vários jornais em sua primeira coletiva após eleito; ataques dele à imprensa chegaram a 10 por semana).

7. Bolsonaro diz que não fará mais demarcação de terra indígena.

8. Brasil pode perder investimentos árabes com embaixada em Jerusalém anunciada por Bolsonaro (e Egito cancela viagem de comitiva brasileira após declaração; lembrando que países árabes são grandes parceiros comerciais do Brasil e o Egito é o maior deles). Eduardo Bolsonaro confirmou que mudança de embaixada vai ser feita. (O que o Brasil ganha em mexer com esse vespeiro?!)

9. Bolsonaro não abre mão sobre flexibilização de posse de arma (e AQUI, Eduardo Bolsonaro defende ampliação do acesso a armas por decreto presidencial; lembrando que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível).

10. Superministro Paulo Guedes desdenha de Mercosul e gera reação de países vizinhos.

11. Bolsonaro defende que professores sejam gravados em sala de aula (lembrando que a Justiça mandou a deputada apoiadora de Bolsonaro parar com a incitação à perseguição de professores; lembrando também que ela já foi dar aulas com camisa do político).

12. Sobre os “guardas da esquina” desde que Bolsonaro foi eleito: além da deputada que quer perseguir professores, temos o estudante que pregou “matar a negraiada“, o homem que foi espancado e morto por oito homens que gritavam o nome de Bolsonaro, os alunos da USP pregando mensagens de ódio às mulheres. Ah, e policial federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro. Não vi nenhuma reação do presidente eleito a esses crimes praticados por apoiadores.

13. Bolsonaro demonstra desconhecimento ao falar sobre cálculo do desemprego no IBGE. (E precisamos ter muito cuidado com manipulação de dados oficiais a partir do ano que vem, hein?)

14. Bolsonaro invoca Deus em seus discursos, ignorando que Estado é laico.


Atualização a partir de 7.11.2018:

15. Bolsonaro anuncia extinção do Ministério do Trabalho, criado por Getúlio Vargas em 1930, justamente agora que o Brasil enfrenta a maior crise de desemprego da sua história. Decisão revanchista pode afetar do pagamento do FGTS ao combate ao trabalho escravo no país. (Dias depois, ele recuou da péssima ideia.)

16. Bolsonaro entrega prestação de contas final com omissão de gastos. TSE pressiona.

17. Bolsonaro diz que, em seu governo, “vai tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem pelos estudantes, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame.

18. Parte do Ministério do Trabalho deve ir para as mãos de Paulo Guedes, que quer criar a “carteira de trabalho verde e amarela”, retirando direitos de trabalhadores. Os contratos de trabalho serão ainda mais flexibilizados. (Lembrando que a nova CLT completou 1 ano sem gerar mais empregos, como era prometido. Bolsonaro disse que o país “tem muitos direitos trabalhistas“.)

19. O superministro Paulo Guedes já gerou crise com o legislativo, o que deve comprometer a governabilidade do novo presidente. (Sem contar o tanto que demonstrou desconhecimento sobre coisas básicas, como a votação do Orçamento)

20. Bolsonaro gera crise com a China, maior parceiro comercial do Brasil.

21. Equipe de Bolsonaro pensa em fusão do Banco do Brasil com Bank of America

22. Bolsonaro diz que “muita coisa” do governo Temer vai ser mantida

23. Alberto Fraga (DEM), que tem áudio gravado pedindo propina, foi convidado (e depois desconvidado, tamanha a repercussão negativa) para fazer parte do governo.

24. Bolsonaro repetiu a mentira do “kit gay”, comprovadamente falso, em entrevistas já como presidente eleito. Ou seja, ele não se importa de mentir MESMO, nem quando a campanha eleitoral já acabou.

25. Joaquim Levy, que falhou no ajuste fiscal como ministro da Fazenda do governo Dilma, é anunciado como presidente do BNDES do novo governo.

26. Cotado para Ministério da Saúde é investigado sob suspeita de caixa 2 e fraude.

27. Bolsonaro dá declarações irresponsáveis sobre Cuba, colapsa o Mais Médicos, irrita prefeitos que dependem do programa para manter a saúde funcionando e ainda pode gerar apagão de atendimentos em pequenas cidades do país. Nada menos que 24 milhões de brasileiros foram prejudicados. (Questionado sobre repercussão, ele encerra coletiva. Fujão.)

28. Chanceler do novo governo foi indicado por Olavo de Carvalho, prega coisas impensáveis para um futuro ministro das relações exteriores e gera apreensão entre políticos e outros países. Veja as pérolas do sujeito.

29. Equipe de transição já tem racha. Imagina como será quando esse povo todo estiver efetivamente no poder, a partir de janeiro!

30. Bolsonaro critica ONGs e põe em xeque R$ 1 bi de projetos ambientais

31. Aproximação com ultradireita na Hungria, com direito a promessa de parceria com líder antissemita e xenófobo.

32. Bolsonaro discute privatização da Petrobras, nosso maior patrimônio. (Depois o futuro presidente da estatal negou privatização… Mas daí Paulo Guedes diz que vai criar Secretaria de Privatizações. E Futuro chefe da Petrobras já disse que privatização da empresa é “urgente”).

33. Ainda na série “adeus, patrimônio brasileiro”: Paulo Guedes escolhe especialista em privatizações para o comando da Caixa

34. Da mesma série: novo presidente do BB afirmou que privatização será prioridade em sua gestão.

35. Equipe de transição discute retirar Funai do Ministério da Justiça; temor é que vá parar nas mãos do agronegócio, colocando em risco pelo menos 130 demarcações que ainda dependerão do novo governo.

36. Começou o cabide de emprego, que você também pode chamar de nepotismo: Boslonaro vai voltar Comunicação Social ao status de ministério e quer nomear o filhote que é apenas vereador para o cargo de ministro. Motivo: “ele é fera em redes sociais”. (Depois… adivinha? Ele recuou da ideia)

37. General que comandará Segurança Pública defende uso da força para promover a paz.

38. Bolsonaro não decepciona em sua ruindade: depois de quase anunciar Mozart Ramos, diretor do Instituto Ayrton Senna e que parecia bastante qualificado para o cargo de ministro da Educação, e depois de o nome de Mozart ter sido vetado pela bancada evangélica (!) por ser, aparentemente, neutro em relação ao Escola Sem Partido, Bolsonaro elege o colombiano Ricardo Vélez Rodríguez para o cargo. Ah sim: Rodríguez foi indicado por Olavo de Carvalho, que já tinha emplacado o chanceler. Impressionante como esse astrólogo e pseudofilósofo tem influência sobre o futuro presidente do país, que horror! O novo ministro da Educação é contra o Enem!!! Ah, e disse que o golpe de 64 tem que ser comemorado!!!

39. Bolsonaro se oferece a Trump como aliado-chave e relança cúpula conservadora latina. Sem comentários. Leiam a reportagem de Afonso Benites no El País e pensem no estrago que isso pode causar ao Brasil.

40. Novo ministro da Educação diz que Bolsonaro poderá ver a prova do Enem antes (o que confronta critérios técnicos e de segurança do exame) e diz ainda que democratização da universidade “é bobagem”. Adeus, alunos mais pobres com ensino superior! Adeus, cotas!

(to be continued… pelos próximos quatro anos!)


Leia também:

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Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil de hoje

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O penúltimo livro que li foi o excelente “Doce Quinta-feira”, de um dos meus autores favoritos do universo, o John Steinbeck. O livro é continuação de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de que já falei aqui no blog. A história se passa alguns anos depois, então alguns dos personagens já morreram ou não moram mais na Cannery Row, a rua na qual se desenrola a história, cheia de humor e drama. Mas os mais interessantes continuam lá: Mack e os rapazes e Doc, que agora se envolve em uma história de amor. Leitura recomendadíssima.

Assim como em outros livros de Steinbeck, como o clássico “As Vinhas da Ira“, o autor gosta de intercalar as histórias dos personagens principais com outras histórias paralelas, que muitas vezes vêm cheias de reflexões importantes. Uma das mais interessantes deste livro é a história dos verdes e azuis, contada no capítulo 8, “A Grande Guerra do Roque”. Acho que a alegoria pode ser transportada para este mundo de discussões polarizadas em que vivemos hoje — não só no campo político partidário, mas também em debates sobre feminismo, por exemplo.

Por isso, resolvi transcrever tudo aqui para o blog, e sugerir a leitura e a reflexão de todos nós sobre fanatismo, ódio e intolerância (não se preocupem: como todo texto do Steinbeck, este é delicioso de ler, fácil e cheio de momentos cômicos). Destaquei alguns trechos em negrito, que me lembraram o Brasil contemporâneo. Bom proveito:

“Certa vez, durante o curso de sua história, Pacific Grove passou por dificuldades, das mais graves. Olhe, quando a cidade foi fundada muitos velhos mudaram-se para lá, pessoas de quem nunca se pensou que tivessem motivos para ali se refugiarem. Esses velhos tornaram-se rabugentos após algum tempo e começaram a interferir em tudo, causando amolações, até que um filantropista chamado Deems deu à cidade duas quadras de roque.

O roque é uma espécie complicada de croquet com aros estreitos e malhos pequenos. Joga-se do lado de fora da quadra, como no jogo de bilhar. (…)

Num esporte local deve haver competições e prêmios. Em Pacific Grove, anualmente, o time vencedor das quadras de roque ganhava uma taça. Nunca se poderia imaginar que uma coisa dessas poderia dar tanta dor de cabeça, principalmente porque a maioria dos jogadores já passava dos setenta anos. Mas deu.

Um dos times tinha o nome de “Azuis” e o outro de “Verdes”. Os velhos usavam gorrinhos e blazers listrados com as cores do time.

Bem, não se transcorreram mais do que dois anos antes que se produzisse a catástrofe. Os Azuis poderiam treinar na mesma quadra junto aos Verdes, mas não trocariam com os mesmos uma simples palavra. E então o mesmo aconteceu com as famílias dos jogadores. Ou se era família Azul ou Verde. Finalmente este sentimento alastrou-se para fora do seio familiar. As pessoas eram partidárias dos Azuis ou dos Verdes. A coisa chegou a tal ponto, que os Verdes tentavam não encorajar o matrimônio com os Azuis e vice-versa. Logo, logo, este sentimento atingiu a política, e por isso um Verde nunca pensaria em votar num Azul. Isso dividiu até a Igreja em duas partes. Os Azuis e os Verdes nunca se sentariam na mesma ala. Planejaram então construir igrejas separadas.

Naturalmente, quando começou o torneio anual as coisas esquentaram. Tocando-se nas mesmas, elas estourariam. Esses velhos tinham tanta paixão por esse jogo que não se poderia acreditar. Ora, dois octogenários poderiam até dirigir-se para o meio do mato e quando fossem procurados seriam vistos empenhados em um combate mortal. Criaram até linguagens secretas para que assim uns não compreendessem o que os outros dissessem.

Bem, as coisas esquentaram tanto e todos os sentimentos ficaram tão alterados que até o condado teve que tomar conhecimento do caso. A casa de um Azul foi incendiada e logo após um Verde foi encontrado no mato com a cabeça macetada, quase morto por um malho de roque. Um malho de roque é pequeno e pesado e pode tornar-se uma arma fatal. Os velhos começaram a carregar malhos atados ao pulso por meio de correias, como se fossem machados de guerra. Não iam a lugar algum sem o levar. Não havia crime que uns não atribuíssem aos outros, incluindo-se enormidades que eles nunca poderiam realizar, mesmo se o quisessem. Os Azuis nunca compravam nos estabelecimentos comerciais dos Verdes. Toda a cidade ficou uma bagunça.

O benfeitor original, o sr. Deems, era um velho simpático e camarada. (…) Era um homem benevolente, mas era também um filósofo. Quando viu o que havia criado ao doar as quadras de roque ao retiro de Pacific Grove entristeceu-se e mais tarde ficou horrorizado. Dizia que sabia como Deus se sentiria.

O torneio [nota da Cris: troque “torneio” por “eleição” e também funciona] começaria a 30 de julho, e os ânimos estavam tão exaltados que todos carregavam pistolas. Garotos Azuis e Verdes tiveram sérios encontros. Após alguns anos, o sr. Deems imaginou finalmente que desde que ele se sentia como Deus poderia muito bem agir como Ele. Havia violências em demasia pela cidade.

Na noite de 29 de julho, o sr. Deems enviou uma escavadora ao local fatídico. Pela manhã, onde antes estavam as quadras de roque, havia apenas um buraco profundo e desigual. Se ele tivesse tido tempo teria continuado a aplicar a solução de Deus. Teria enchido o buraco de água.

Baniram o sr. Deems para fora de Pacific Grove. Tê-lo-iam alcatroado e enchido de penas se o tivessem apanhado, mas ele estava a salvo em Monterrey, cozinhando o seu yen shi [nota do tradutor do livro: ópio da melhor qualidade] num fogareiro de óleo de amendoim.

Desde então, todos os anos, no dia 30 de julho, toda a população de Pacific Grove se aglomera e queima a efígie do sr. Deems. Este é um dia de festa. Vestem um boneco do tamanho de um adulto e dependuram-no em um pinheiro. Mais tarde o queimam. Todos desfilam por debaixo do mesmo com tochas e a pobre figura indefesa do sr. Deems se esfumaça todos os anos.”

Qualquer semelhança com algumas discussões na internet e nas ruas, com alguns protestos, com justiçamentos agressivos e com pixulecos não são mera coincidência. O que me entristece, assistindo a tudo de fora, é que a História (recente, ainda por cima!) já mostrou que o fanatismo e a polarização de ideias costumam dar em merda. E é possível que eu ainda esteja viva para ver algum sr. Deems brasileiro queimando, literalmente, na fogueira.

Agora vejam o que achei no Youtube:

Sobre o livro:

Doce.Quinta-feira.John_.Steinbeck

“Doce Quinta-Feira”
John Steinbeck, com tradução de Avelino Correia
Ed. Mérito S.A. (edição de 1957)
304 páginas
Parece que a edição está esgotada no Brasil, mas é possível achá-lo usado, a partir de R$ 3,40, em sites como Estante Virtual.

 

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Os oito desconfiados

Para assistir: OS OITO ODIADOS (The Hateful Eight)
Nota 7

odiados

O enredo desse filme é do tipo que eu adoro: um grupo de personagens muito marcantes — um caçador de recompensas, um enforcador, um carrasco, uma assassina prisioneira, um xerife, um cowboy, um velho general confederado e um mexicano — se encontra preso em uma mesma casa, sem possibilidade de sair, por causa da forte nevasca. Ninguém confia em ninguém, e eles têm motivos para odiar uns aos outros e querer vê-los mortos.

Como se trata de um filme de Tarantino, podemos prever mesmo muitas mortes, com direito a bastante sangue jorrando para todos os lados. Mas o filme, que é dividido em capítulos, traz um ingrediente especial, nem sempre presente nos outros longas do diretor: suspense. Muitos personagens não são quem dizem ser e o clima de paranoia e desconfiança toma conta do espectador à medida que a história avança.

Ótimos atores foram recrutados para darem vida a esses personagens insólitos, cinco deles com indicações ao Oscar em seu currículo: Samuel L. Jackson, Tim Roth, Bruce DernDemián Bichir e a excelente Jennifer Jason Leigh, que me lembrou Janis Joplin do início ao fim. Também fazem parte do elenco os ótimos Kurt RussellWalton GogginsMichael Madsen, que já tinham trabalhado em outros filmes do diretor. Só Jennifer foi indicada ao Oscar desta vez, como melhor atriz coadjuvante. O filme também concorre a melhor fotografia e melhor trilha sonora original.

Qual é o grande problema de “Os Oito Odiados”? É que a história demora demais a engrenar. Só lá pelo terceiro ou quarto capítulos é que sentimos alguma emoção, depois de passar, penosamente, por diálogos muito compridos e sem sal. O filme, que tem quase três horas de duração, poderia bem ser reduzido para umas duas, sem problemas. Enfim, faltou edição.

Mas, uma vez que engrena, quando todos os personagens principais já estão devidamente confinados em seu purgatório, o filme rapidamente se torna o terceiro melhor da carreira de Tarantino, atrás apenas de “Bastardos Inglórios” e “Pulp Fiction”. Com todo o sangue a que o diretor tem direito.

Assista ao trailer:

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