Em uma semana de Jair Bolsonaro eleito, pelo menos 14 notícias de retrocesso

Todas as charges deste post são do Duke, o melhor chargista do Brasil na atualidade.

Passaram-se apenas oito dias desde que o Brasil inteiro ficou sabendo que 39% dos brasileiros aptos a votar elegeram Jair Bolsonaro (PSL) para ser o presidente da República pelos próximo 4 anos. E, apesar do curto tempo, já li tantas – mas tantas tantas tantas – notícias ruins, que não tem como eu guardar nem um pingo de otimismo com o que virá a partir da posse, em primeiro de janeiro de 2019.

Selecionei abaixo algumas. Não todas, porque não tive tempo de ficar armazenando os links nesta semana. Por isso, fique à vontade para citar outras na parte de comentários do blog. Se sobrar tempo, manterei este post atualizado.

Pode-se dizer que este post é da série “eu avisei”. Não que isso faça qualquer diferença, já que eu preferiria mil vezes não estar certa e apontar o dedo aos eleitores de Bolsonaro a ver o meu querido país regredir décadas para trás. Afinal, estamos todos na mesma canoa furada. Mas aí vai, eu avisei:

1. Gabinete de transição de Bolsonaro tem 28 membros: todos homens (um deles foi o maior fornecedor da campanha e o outro já foi foi preso após queixa de agressão à ex; a lista toda, com 4 militares, AQUI. ATUALIZAÇÃO: Depois de críticas, anunciaram que vão incluir “3 a 5 mulheres”).

2. Ministros confirmados incluem Sergio Moro, general Heleno, e o superministro Onyx Lorenzoni, que ocupará a Casa Civil. Onyx foi citado durante a Lava Jato e confessou ter recebido R$ 100 mil de caixa 2 na campanha de 2014.

3. Magno Malta pode virar “ministro da Família”.

4. Retirar ensino superior do MEC pode provocar quebra no atual sistema educacional (AQUI, mais sobre as propostas do presidente eleito para a educação, que incluem mensalidades em universidades públicas e ensino à distância desde a infância).

5. Fusão do Ministério da Agricultura e do Meio Ambiente, anunciada logo de cara, geraria imensos problemas para o país; após pressão, Bolsonaro teve que recuar da ideia.

6. Pela primeira vez na História, Congresso veta jornalistas em plenário no primeiro compromisso de Bolsonaro eleito (AQUI, Bolsonaro ameaçou a Folha de S.Paulo; AQUI, ele barrou vários jornais em sua primeira coletiva após eleito; ataques dele à imprensa chegaram a 10 por semana).

7. Bolsonaro diz que não fará mais demarcação de terra indígena.

8. Brasil pode perder investimentos árabes com embaixada em Jerusalém anunciada por Bolsonaro (e Egito cancela viagem de comitiva brasileira após declaração; lembrando que países árabes são grandes parceiros comerciais do Brasil e o Egito é o maior deles).

9. Bolsonaro não abre mão sobre flexibilização de posse de arma (e AQUI, Eduardo Bolsonaro defende ampliação do acesso a armas por decreto presidencial; lembrando que há mais mortes de crianças por arma de fogo nos EUA em Estados com legislação flexível).

10. Superministro Paulo Guedes desdenha de Mercosul e gera reação de países vizinhos.

11. Bolsonaro defende que professores sejam gravados em sala de aula (lembrando que a Justiça mandou a deputada apoiadora de Bolsonaro parar com a incitação à perseguição de professores; lembrando também que ela já foi dar aulas com camisa do político).

12. Sobre os “guardas da esquina” desde que Bolsonaro foi eleito: além da deputada que quer perseguir professores, temos o estudante que pregou “matar a negraiada“, o homem que foi espancado e morto por oito homens que gritavam o nome de Bolsonaro, os alunos da USP pregando mensagens de ódio às mulheres. Ah, e policial federal manda cinegrafista apagar imagens de Bolsonaro. Não vi nenhuma reação do presidente eleito a esses crimes praticados por apoiadores.

13. Bolsonaro demonstra desconhecimento ao falar sobre cálculo do desemprego no IBGE. (E precisamos ter muito cuidado com manipulação de dados oficiais a partir do ano que vem, hein?)

14. Bolsonaro invoca Deus em seus discursos, ignorando que Estado é laico.


Atualização a partir de 7.11.2018:

15. Bolsonaro anuncia extinção do Ministério do Trabalho, criado por Getúlio Vargas em 1930, justamente agora que o Brasil enfrenta a maior crise de desemprego da sua história. Decisão revanchista pode afetar do pagamento do FGTS ao combate ao trabalho escravo no país. (Dias depois, ele recuou da péssima ideia.)

16. Bolsonaro entrega prestação de contas final com omissão de gastos. TSE pressiona.

17. Bolsonaro diz que, em seu governo, “vai tomar conhecimento da prova antes” da realização do Enem pelos estudantes, medida que confronta critérios técnicos e de segurança do exame.

18. Parte do Ministério do Trabalho deve ir para as mãos de Paulo Guedes, que quer criar a “carteira de trabalho verde e amarela”, retirando direitos de trabalhadores. Os contratos de trabalho serão ainda mais flexibilizados. (Lembrando que a nova CLT completou 1 ano sem gerar mais empregos, como era prometido. Bolsonaro disse que o país “tem muitos direitos trabalhistas“.)

19. O superministro Paulo Guedes já gerou crise com o legislativo, o que deve comprometer a governabilidade do novo presidente. (Sem contar o tanto que demonstrou desconhecimento sobre coisas básicas, como a votação do Orçamento)

20. Bolsonaro gera crise com a China, maior parceiro comercial do Brasil.

21. Equipe de Bolsonaro pensa em fusão do Banco do Brasil com Bank of America

22. Bolsonaro diz que “muita coisa” do governo Temer vai ser mantida

23. Alberto Fraga (DEM), que tem áudio gravado pedindo propina, foi convidado (e depois desconvidado, tamanha a repercussão negativa) para fazer parte do governo.

24. Bolsonaro repetiu a mentira do “kit gay”, comprovadamente falso, em entrevistas já como presidente eleito. Ou seja, ele não se importa de mentir MESMO, nem quando a campanha eleitoral já acabou.

25. Joaquim Levy, que falhou no ajuste fiscal como ministro da Fazenda do governo Dilma, é anunciado como presidente do BNDES do novo governo.

26. Cotado para Ministério da Saúde é investigado sob suspeita de caixa 2 e fraude.

27. Bolsonaro dá declarações irresponsáveis sobre Cuba, colapsa o Mais Médicos, irrita prefeitos que dependem do programa para manter a saúde funcionando e ainda pode gerar apagão de atendimentos em pequenas cidades do país. Nada menos que 24 milhões de brasileiros foram prejudicados. (Questionado sobre repercussão, ele encerra coletiva. Fujão.)

28. Chanceler do novo governo foi indicado por Olavo de Carvalho, prega coisas impensáveis para um futuro ministro das relações exteriores e gera apreensão entre políticos e outros países. Veja as pérolas do sujeito.

29. Equipe de transição já tem racha. Imagina como será quando esse povo todo estiver efetivamente no poder, a partir de janeiro!

30. Bolsonaro critica ONGs e põe em xeque R$ 1 bi de projetos ambientais

31. Aproximação com ultradireita na Hungria, com direito a promessa de parceria com líder antissemita e xenófobo.

32. Bolsonaro discute privatização da Petrobras, nosso maior patrimônio. (Depois o futuro presidente da estatal negou privatização…)

 

 


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Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil de hoje

azuiseverdes

O penúltimo livro que li foi o excelente “Doce Quinta-feira”, de um dos meus autores favoritos do universo, o John Steinbeck. O livro é continuação de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de que já falei aqui no blog. A história se passa alguns anos depois, então alguns dos personagens já morreram ou não moram mais na Cannery Row, a rua na qual se desenrola a história, cheia de humor e drama. Mas os mais interessantes continuam lá: Mack e os rapazes e Doc, que agora se envolve em uma história de amor. Leitura recomendadíssima.

Assim como em outros livros de Steinbeck, como o clássico “As Vinhas da Ira“, o autor gosta de intercalar as histórias dos personagens principais com outras histórias paralelas, que muitas vezes vêm cheias de reflexões importantes. Uma das mais interessantes deste livro é a história dos verdes e azuis, contada no capítulo 8, “A Grande Guerra do Roque”. Acho que a alegoria pode ser transportada para este mundo de discussões polarizadas em que vivemos hoje — não só no campo político partidário, mas também em debates sobre feminismo, por exemplo.

Por isso, resolvi transcrever tudo aqui para o blog, e sugerir a leitura e a reflexão de todos nós sobre fanatismo, ódio e intolerância (não se preocupem: como todo texto do Steinbeck, este é delicioso de ler, fácil e cheio de momentos cômicos). Destaquei alguns trechos em negrito, que me lembraram o Brasil contemporâneo. Bom proveito:

“Certa vez, durante o curso de sua história, Pacific Grove passou por dificuldades, das mais graves. Olhe, quando a cidade foi fundada muitos velhos mudaram-se para lá, pessoas de quem nunca se pensou que tivessem motivos para ali se refugiarem. Esses velhos tornaram-se rabugentos após algum tempo e começaram a interferir em tudo, causando amolações, até que um filantropista chamado Deems deu à cidade duas quadras de roque.

O roque é uma espécie complicada de croquet com aros estreitos e malhos pequenos. Joga-se do lado de fora da quadra, como no jogo de bilhar. (…)

Num esporte local deve haver competições e prêmios. Em Pacific Grove, anualmente, o time vencedor das quadras de roque ganhava uma taça. Nunca se poderia imaginar que uma coisa dessas poderia dar tanta dor de cabeça, principalmente porque a maioria dos jogadores já passava dos setenta anos. Mas deu.

Um dos times tinha o nome de “Azuis” e o outro de “Verdes”. Os velhos usavam gorrinhos e blazers listrados com as cores do time.

Bem, não se transcorreram mais do que dois anos antes que se produzisse a catástrofe. Os Azuis poderiam treinar na mesma quadra junto aos Verdes, mas não trocariam com os mesmos uma simples palavra. E então o mesmo aconteceu com as famílias dos jogadores. Ou se era família Azul ou Verde. Finalmente este sentimento alastrou-se para fora do seio familiar. As pessoas eram partidárias dos Azuis ou dos Verdes. A coisa chegou a tal ponto, que os Verdes tentavam não encorajar o matrimônio com os Azuis e vice-versa. Logo, logo, este sentimento atingiu a política, e por isso um Verde nunca pensaria em votar num Azul. Isso dividiu até a Igreja em duas partes. Os Azuis e os Verdes nunca se sentariam na mesma ala. Planejaram então construir igrejas separadas.

Naturalmente, quando começou o torneio anual as coisas esquentaram. Tocando-se nas mesmas, elas estourariam. Esses velhos tinham tanta paixão por esse jogo que não se poderia acreditar. Ora, dois octogenários poderiam até dirigir-se para o meio do mato e quando fossem procurados seriam vistos empenhados em um combate mortal. Criaram até linguagens secretas para que assim uns não compreendessem o que os outros dissessem.

Bem, as coisas esquentaram tanto e todos os sentimentos ficaram tão alterados que até o condado teve que tomar conhecimento do caso. A casa de um Azul foi incendiada e logo após um Verde foi encontrado no mato com a cabeça macetada, quase morto por um malho de roque. Um malho de roque é pequeno e pesado e pode tornar-se uma arma fatal. Os velhos começaram a carregar malhos atados ao pulso por meio de correias, como se fossem machados de guerra. Não iam a lugar algum sem o levar. Não havia crime que uns não atribuíssem aos outros, incluindo-se enormidades que eles nunca poderiam realizar, mesmo se o quisessem. Os Azuis nunca compravam nos estabelecimentos comerciais dos Verdes. Toda a cidade ficou uma bagunça.

O benfeitor original, o sr. Deems, era um velho simpático e camarada. (…) Era um homem benevolente, mas era também um filósofo. Quando viu o que havia criado ao doar as quadras de roque ao retiro de Pacific Grove entristeceu-se e mais tarde ficou horrorizado. Dizia que sabia como Deus se sentiria.

O torneio [nota da Cris: troque “torneio” por “eleição” e também funciona] começaria a 30 de julho, e os ânimos estavam tão exaltados que todos carregavam pistolas. Garotos Azuis e Verdes tiveram sérios encontros. Após alguns anos, o sr. Deems imaginou finalmente que desde que ele se sentia como Deus poderia muito bem agir como Ele. Havia violências em demasia pela cidade.

Na noite de 29 de julho, o sr. Deems enviou uma escavadora ao local fatídico. Pela manhã, onde antes estavam as quadras de roque, havia apenas um buraco profundo e desigual. Se ele tivesse tido tempo teria continuado a aplicar a solução de Deus. Teria enchido o buraco de água.

Baniram o sr. Deems para fora de Pacific Grove. Tê-lo-iam alcatroado e enchido de penas se o tivessem apanhado, mas ele estava a salvo em Monterrey, cozinhando o seu yen shi [nota do tradutor do livro: ópio da melhor qualidade] num fogareiro de óleo de amendoim.

Desde então, todos os anos, no dia 30 de julho, toda a população de Pacific Grove se aglomera e queima a efígie do sr. Deems. Este é um dia de festa. Vestem um boneco do tamanho de um adulto e dependuram-no em um pinheiro. Mais tarde o queimam. Todos desfilam por debaixo do mesmo com tochas e a pobre figura indefesa do sr. Deems se esfumaça todos os anos.”

Qualquer semelhança com algumas discussões na internet e nas ruas, com alguns protestos, com justiçamentos agressivos e com pixulecos não são mera coincidência. O que me entristece, assistindo a tudo de fora, é que a História (recente, ainda por cima!) já mostrou que o fanatismo e a polarização de ideias costumam dar em merda. E é possível que eu ainda esteja viva para ver algum sr. Deems brasileiro queimando, literalmente, na fogueira.

Agora vejam o que achei no Youtube:

Sobre o livro:

Doce.Quinta-feira.John_.Steinbeck

“Doce Quinta-Feira”
John Steinbeck, com tradução de Avelino Correia
Ed. Mérito S.A. (edição de 1957)
304 páginas
Parece que a edição está esgotada no Brasil, mas é possível achá-lo usado, a partir de R$ 3,40, em sites como Estante Virtual.

 

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Os oito desconfiados

Para assistir: OS OITO ODIADOS (The Hateful Eight)
Nota 7

odiados

O enredo desse filme é do tipo que eu adoro: um grupo de personagens muito marcantes — um caçador de recompensas, um enforcador, um carrasco, uma assassina prisioneira, um xerife, um cowboy, um velho general confederado e um mexicano — se encontra preso em uma mesma casa, sem possibilidade de sair, por causa da forte nevasca. Ninguém confia em ninguém, e eles têm motivos para odiar uns aos outros e querer vê-los mortos.

Como se trata de um filme de Tarantino, podemos prever mesmo muitas mortes, com direito a bastante sangue jorrando para todos os lados. Mas o filme, que é dividido em capítulos, traz um ingrediente especial, nem sempre presente nos outros longas do diretor: suspense. Muitos personagens não são quem dizem ser e o clima de paranoia e desconfiança toma conta do espectador à medida que a história avança.

Ótimos atores foram recrutados para darem vida a esses personagens insólitos, cinco deles com indicações ao Oscar em seu currículo: Samuel L. Jackson, Tim Roth, Bruce DernDemián Bichir e a excelente Jennifer Jason Leigh, que me lembrou Janis Joplin do início ao fim. Também fazem parte do elenco os ótimos Kurt RussellWalton GogginsMichael Madsen, que já tinham trabalhado em outros filmes do diretor. Só Jennifer foi indicada ao Oscar desta vez, como melhor atriz coadjuvante. O filme também concorre a melhor fotografia e melhor trilha sonora original.

Qual é o grande problema de “Os Oito Odiados”? É que a história demora demais a engrenar. Só lá pelo terceiro ou quarto capítulos é que sentimos alguma emoção, depois de passar, penosamente, por diálogos muito compridos e sem sal. O filme, que tem quase três horas de duração, poderia bem ser reduzido para umas duas, sem problemas. Enfim, faltou edição.

Mas, uma vez que engrena, quando todos os personagens principais já estão devidamente confinados em seu purgatório, o filme rapidamente se torna o terceiro melhor da carreira de Tarantino, atrás apenas de “Bastardos Inglórios” e “Pulp Fiction”. Com todo o sangue a que o diretor tem direito.

Assista ao trailer:

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A força de Jack

Não deixe de assistir: O QUARTO DE JACK (Room)
Nota 9

jack

O filme não é baseado em fatos reais, mas poderia ser. É sobre as centenas de crianças e adolescentes que são sequestradas para virarem escravas sexuais, presas em porões sujos, onde são abusadas por anos a fio. Muito raramente, essas meninas são descobertas, ou conseguem escapar, tornando-se assunto para o noticiário mundial. No caso d'”O Quarto de Jack”, a menina em questão é Joy, ela está presa há sete anos em um barracão trancado e engravidou de seu sequestrador. Jack nasceu e, no momento em que o filme começa, ele está completando 5 anos de idade. Cinco anos trancado em um quarto, que é todo o mundo que ele conhece.

Jack não conhece as árvores. Nem os cachorrinhos. Nem milhares de comidas que outras crianças adoram. Ele não tem espaço para correr, para soltar pipa ou jogar bola. Ele não tem bola. As únicas pessoas que ele conhece — e que pensa serem as únicas reais deste planeta — são sua mãe e o “velho Nick”, apelido para o sequestrador, que aparece quase todas as noites para estuprar Joy, enquanto Jack dorme trancado no armário.

Mas ele não acha que esse mundinho é terrível, porque, afinal, é o único que ele conhece e o único que pensa existir. Não tem com o que comparar, como sua mãe.

Não se preocupem, não estou entregando o filme todo. A história de verdade acontece quando Joy traça um plano de fuga. E Jack, subitamente, descobre que o mundo é muuuuuito maior do que aquele quartinho. Que cabe mar, montanhas, florestas. Ou certamente muitas escadas, objetos e outras tantas pessoas reais.

O filme concorre ao Oscar 2016 em quatro categorias, as mais importantes da premiação: melhor roteiro (de Emma Donoghue), direção (de Lenny Abrahamson), melhor atriz principal (a excepcional Brie Larson, que interpreta Joy) e melhor filme do ano. O pequeno Jack é interpretado pelo ator Jacob Tremblay, que não foi indicado ao Oscar, mas já ganhou nada menos que 12 prêmios por sua atuação.

O grande mérito deste filme comovente, que nos faz chorar do início ao fim, é contar o horror dessa história de sequestro (que bem poderia ser o enredo de um episódio de Law & Order) do ponto de vista do garotinho de 5 anos. A câmera acompanha de perto seu olhar, seus toques, suas primeiras descobertas tardias. A primeira vez que ele pisa num chão frio. A primeira vez que ele come cereais. E assim por diante. Ou seja, o horror é filtrado pela inocência infantil, tornando o filme, que é absurdamente triste, ao mesmo tempo encantador. Me lembrou o ótimo livro “Festa no Covil“, que é narrado por um garotinho de 7 anos, testemunha ocular do mundo cruel do tráfico de drogas. “O Quarto de Jack” nos ensina que as crianças, talvez justamente por serem tão inocentes, são muito mais capazes de superar as grandes tragédias humanas.

São, portanto, muito mais fortes que os adultos, em vários sentidos.

Veja o trailer do filme:

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Dois finais para uma briga de trânsito

Estamos no carro, descendo uma rua qualquer da Savassi. Logo ouvimos uma freada e uma buzinada agressiva, dois carros atrás. A caminhonetona de luxo emparelha com o carrão preto, não menos caro. Motoristas começam a bater boca. Passageiro da caminhonetona desce do carro e parte pra cima do motorista do carrão preto. Gesticula, agressivo, palavrões ao vento. Volta pra caminhonetona, mas os dois carros seguem emparelhados, tensos, com mais gritos e xingamentos sendo trocados pelas janelas abertas. Começa a se formar uma fila de carros atrás da caminhonetona, que não arreda o pé da briga de trânsito. Sinal não abre nunca. Passageiro da caminhonetona desce mais uma vez, agora disposto a esmurrar o motorista do carrão preto. Este saca uma arma, que estava debaixo do banco. “Vamos embora daqui!!!!”, eu falo, assustada. Por fim, o passageiro cede ao medo do revólver, volta a se sentar na caminhonetona, o sinal fica verde e todos seguem seus rumos.

***

Imagino um segundo fim pra história: motorista do carrão preto tira a arma e atira contra o passageiro da caminhonetona, e foge pelo vácuo de carros à frente dela. Possivelmente acaba reconhecido e preso. Ele, que já beira os 60, pode bem acabar morrendo antes de se ver totalmente livre da punição da lei. O outro, morto. O terceiro, que dirigia a caminhonetona, arrasado. Três vidas destroçadas por causa de uma briga de trânsito. De uma fechada. De alguma barbeiragem estúpida qualquer.

***

Terá valido a pena? Nem sempre o ditado que diz que não devemos levar desaforo pra casa faz sentido. Às vezes, é preferível engolir os sapos e deixar as consequências só com a pressão arterial e as noites de insônia. É o caso das brigas de trânsito.

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No trânsito, muitos viram animais. As ruas são o melhor laboratório para se observar a natureza humana. É onde surgem os psicopatas, os inconvenientes e os reclamões, dentre outros. Nunca se sabe qual arma cada um deles pode estar carregando: um possante, um muque, uma câmera, um distintivo, uma faca, um revólver. Existem regras — até demais –, existem leis, com punições previstas em caso de descumprimento. A fiscalização delas, no entanto, é ineficiente. Por isso, contamos apenas com a educação e a civilidade do desconhecido, do rosto estranho. Como muitos são mal-educados, e ainda querem tirar vantagem a qualquer custo, usam a lei da selva: tentam ganhar no grito. Ou na buzina estridente e desnecessária.

Quando você estiver dirigindo e levar uma fechada, ou algo do gênero, sem consequências mais graves (tipo uma batida), não parta pra briga. Não perca seu tempo abaixando o vidro para xingar o roda-dura. Não desça do carro — sob hipótese alguma! Você não sabe com quem está lidando, literalmente. O melhor é reagir com esperteza (como NESTE EXEMPLO) ou respirar fundo e ir em frente. Trânsito não é lugar de mostrar que você tem razão.

E o mundo anda perigoso lá fora, nestes tempos estranhos.

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