As barbaridades que Bolsonaro fala, seus três grupos de eleitores que aplaudem e, enquanto isso, um Brasil que afunda

A gente nem bem se recobra do trauma causado por uma barbaridade saída da boca do presidente da República, e lá vem ele e solta outra. Sua claque, ignorante até o último fio de cabelo, aplaude feliz, sem pestanejar, sem pensar, como robozinhos programados para tapar os olhos para os absurdos e sorrir felizes para tudo o que parece provocante, indecente, atrevido. “Ele fala o que pensa. Ele me representa.”

Bolsonaro está pleno. Testou o que pôde do novo cargo nos últimos sete meses e agora se sente confiante para falar as besteiras sempre falou, nos mais de 20 anos de vida pública (ao arrepio da lei, do decoro, da ética, e agora da liturgia de seu cargo no Executivo). Ele está confiante que nada nunca lhe será cobrado, que nada nunca vai lhe acontecer, que ele nunca terá que pagar. Desde o golden shower, lá atrás, no Carnaval, até a fala absurda que o coloca nos porões da ditadura militar.

Todas as charges que ilustram este post são do Duke e foram originalmente publicadas no portal O Tempo (www.otempo.com.br/charges)

E assim seguiremos – até quando? Com quais consequências? – sendo governados por um presidente que parece estar sentado numa carteira de uma turma de quinta série. Com as mesmas piadinhas e a mesmíssima mentalidade.

Gênio da comunicação – já que ele conversa com seu eleitorado (o grosso dele), que tem a mesma mentalidade. A outra parcela importante do eleitorado, de empresários riquíssimos que querem vender tudo o que for possível do Brasil, que querem aprovar todas as reformas que mais possam sacanear o povo mais calejado do país, esta tapa o ouvido e o nariz e vai sorrindo amarelo, com uma blusa da CBF mais discreta por baixo de algum paletó.

E não podemos nos esquecer de uma terceira parcela de seu eleitorado, a mais conservadora nos costumes, que se viu bombardeada nos últimos ANOS por fake news estapafúrdias envolvendo mamadeiras de piroca, masturbação de bebês por professores comunistas malucos, implantação de uma ditadura de ideologia de gênero dentro de creches, e assim por diante. Tudo vinculado ao PT, ao PT, ao PT, assim como todo e qualquer esquema de corrupção dos últimos 500 anos. Essa parcela é a preferencial de gente que segue a cartilha de Steve Bannon (inclusive os filhos de Bolsonaro) e que já está tão dopada pelas mentiras que lê há anos que ficou cega, em defesa de valores que acredita que foram afrontados pela esquerda e que só poderão ser salvos por esta direita maniqueísta que ocupa o poder.

Esses três grupos que compõem o eleitorado de Bolsonaro lhes dão força para que ele sinta toda essa confiança e continue não só falando o que fala como fazendo o que faz. Enquanto a gente, do lado de cá, só assiste, boquiabertos, incrédulos, perplexos – calados. As consequências poderão ser universidades cada vez mais enfraquecidas, assim como as escolas em geral, o que vai minar ainda mais a capacidade de as gerações futuras conseguirem se resguardar contra medidas autoritárias. As consequências também serão drásticas e irrecuperáveis para nosso já combalido meio ambiente.

Sobre isso, vale demais compartilhar por aqui o artigo “Pornô florestal“, do jornalista científico Claudio Ângelo, publicado no dia 20 de julho. Naquele dia, ele ainda estava – e todos nós, os que ainda pensam – sob o impacto das declarações de Bolsonaro, extremamente irresponsáveis, contestando o desmatamento na Amazônia e os dados do Inpe. (Depois disso já foram tantas outras declarações atrozes, que acho que muita gente já até se esqueceu dessa…)

O texto de Claudio Ângelo é genial do início do fim, por isso recomendo sua leitura na íntegra, clicando AQUI. Mas destaco alguns números como alerta geral:

  • “na manhã de quinta o Observatório do Clima havia publicado no Twitter que o desmatamento em julho estava em 981 km2. Agora, 36 horas depois, estava em 1.209 km2. (…) Os alertas de desmatamento de fato haviam subido 228 km2 em um dia e meio – dez campos de futebol tombando por minuto”.
  • “Julho de 2019 é disparado o mês com mais alertas desde que o Deter-B entrou em operação, em 2015/2016. Como sabemos, julho de 2019 ainda está a uma semana e meia do fim. No momento em que escrevo, manhã de sábado, estamos em 1.260 km2”.
  • “chegaremos à beira dos 10 mil km2 de desmatamento na Amazônia no primeiro ano da Nova Era”.
  • “Na última vez que o desmatamento na Amazônia esteve em cinco dígitos, em 2008, ainda não existia Instagram, Obama ainda não era presidente e a Alemanha era apenas o país de quem a gente tinha vencido a Copa de 2002.”

Escrevo este post na noite de terça-feira, 30 de julho, e o agendo para ser publicado na quinta, dia 1 de agosto. Provavelmente, nesse meio-tempo, já teremos sido bombardeados por mais uma dúzia de asneiras e fake news vindas direto da boca do presidente da República. Ah sim, e outros dez campos de futebol terão sido tombados por minuto, ali no Norte do nosso país. Mas, e daí, né? Ali só devem viver mesmo uns índios e uns “paraíbas” e, se bobear, eles nem têm acesso ao Twitter – o verdadeiro “país” para o qual Bolsonaro governa.

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A vitória da Avaaz sobre as fake news da extrema direita

Belo Horizonte também resiste contra as fake news e as medidas de terror implementadas por este governo de Jair Bolsonaro! No protesto de ontem contra os cortes na educação, o segundo em apenas 15 dias, a manifestação na cidade estava LOTADA! Bem maior que a anterior, que já estava cheia, e infinitamente maior que a dos bolsonaristas do último domingo. Foto: Humberto Trajano / G1

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Recebi nesta quinta-feira da Avaaz, sobre a qual já escrevi algumas vezes aqui, um e-mail em que anuncia: “Estamos tão orgulhosos de nosso movimento”. E com boa razão: é um movimento que ajudou o Parlamento Europeu a não “se afogar em fake news nas eleições do último final de semana”.

Pena que não tivemos uma Avaaz para nos defender de Bolsonaro nas eleições do ano passado. A ONG se concentrou no problema ao constatar o avanço da extrema direita, depois das vitórias de Trump, do Brexit e de Bolsonaro.

Para enfrentar essa ameaça, “a Avaaz expôs e forçou a derrubada do que, provavelmente, foram as maiores redes de desinformação da História”.

O trabalho da Avaaz foi financiado por 80 mil doadores e contou com a ajuda de outros 80 mil voluntários e quase 2 milhões de membros. A ONG montou uma “sala de guerra” em Bruxelas, onde um “time de 30 pessoas revelou o que 30.000 monitores do Facebook deixaram passar – uma imensa teia de redes de desinformação despejando mentiras tóxicas no coração da Europa. Nós entregamos ao Facebook 700 páginas com os resultados de uma investigação detalhada, mostrando como essas redes operam, coordenam e usam contas falsas para enganar as pessoas”, informou a Avaaz.

Acrescentou:

“E nós não só expusemos essas redes. Nós as derrubamos! Na Espanha, Itália, Polônia, Holanda, Reino Unido, França e Alemanha. Para qualquer lugar que olharmos, nós tivemos um impacto. O Facebook removeu redes que alcançaram um total estimado de 3 bilhões (!!!) de visualizações em apenas um ano!!! É o suficiente para alcançar cada um dos eleitores da Europa mais de vinte vezes!”

Em todos os lugares onde a extrema direita havia ganhado as eleições, como no Brasil, ela inundou as redes sociais com fake news e mentiras tóxicas. “A única maneira de realmente acabar com isso é pressionar governos poderosos para regulamentar o Facebook e o YouTube, limpando assim esse veneno”, sustenta a Avaaz.

Além disso, “já que extremistas cheios de ódio também apostam no não comparecimento dos eleitores às urnas, nós lançamos campanhas inspiradoras de defesa da democracia para incentivar as pessoas a votarem”. Essa campanha “foi vista por mais de 100 milhões de vezes em toda Europa dias antes da eleição! O resultado: a maior participação de eleitores em 25 anos!”

A Europa já resiste contra as fake news propagadas pela extrema-direita, usando principalmente Facebook e WhatsApp para isso. Foto: Avaaz/Divulgação

Aquilo que poderia ter sido a onda de extrema-direita minguou e virou marola. “Os sociais democratas defensores da justiça e a centro-direita pró-Europa seguem sendo os maiores partidos”. Aconteceu, na opinião da Avaaz, verdadeiro tsunami democrático “com os Partidos Verdes, heróis do clima, e os Liberais Democratas, defensores apaixonados da União Europeia, que agora manterão o equilíbrio do poder na nova Europa!”

Tantos sinais de exclamação no texto da Avaaz se explicam pelo entusiasmo com sua vitória sem precedentes contra a desinformação. Uma vitória “que saiu nas capas dos jornais de todo o mundo”.

No Brasil não, até onde sei. Apesar do reconhecimento do diretor-geral do Parlamento Europeu, Jaume Duch Guillot, segundo o qual “a Avaaz tem sido uma força poderosa que ajuda o Parlamento Europeu a engajar as pessoas a votarem nessa eleição de 2019”.

Não basta, porém, se orgulhar do trabalho feito. É preciso continuar, pois, como diz a Avaaz, “a desinformação é uma assassina de democracias e virou a arma secreta da extrema-direita”.

Diante disso, é melhor se informar. Pois, como li em algum lugar, pior do que estar lascado é estar lascado sem o saber.


Nota da Cris:

Olha a que ponto chegamos! Olha o que os jornalistas estão sendo obrigados a checar e noticiar, diante da avalanche de fake news que esse governo de extrema-direita do Jair Bolsonaro, e seus seguidores mais fanáticos, propaga por aí. Percebendo que os protestos de ontem seriam bem mais abarrotados que os de domingo último, os caras inventaram que as pessoas saíram às ruas para protestar contra um decreto fictício de Bolsonaro que proíbe drogas nas universidades. Sinceramente, quem acredita numa paspalhice dessas não merece nem comentários. Mas os jornalistas vão lá e fazem seu trabalho, checam, verificam, publicam, desmentem. O problema é que as fake news se espalham como fogo em palha, enquanto o desmentido com a verdade atinge 4.000 pessoas… Avaaz e os outros temos um longo e árduo trabalho pela frente – contra os mal-intencionados e contra os burros que acreditam neles.


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O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança

 

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Reproduzo aqui um texto que postei no meu Facebook pessoal no dia 27 de setembro. Meu desânimo daquele dia não arrefeceu nadica desde então, mesmo vendo as pessoas maravilhosas que participaram dos protestos no dia 29:

 

Tem tanto material bom sendo apurado, escrito e publicado nos veículos demonstrando os absurdos que essa turma do fascismo prega ou tenta resgatar que às vezes volto a ter otimismo e penso: “Poxa, alguém deve se dar ao trabalho de ler pelo menos um desses textos, não?” Ler, não só o título, até o fim, e interpretar direito e parar e pensar. E discernir um trem que teve apuração real, baseada em fatos, de um youtube fake, de um discurso gritado pra disfarçar o tanto que é vazio.

Será? O que mais me desanima nestas eleições não é nem um fascista ganhando as graças do povo, inclusive de gente que admiro, mas o tanto que ficou escancarado que parcela importante do brasileiro não se dá mais ao trabalho nem de fazer o mínimo antes de sair passando vergonha batendo boca sobre nazismo com a embaixada alemã etc. O estrago de décadas sem investir em educação tá feito. E ainda tem a pós-verdade blabla. E ainda tem estas redes sociais dos infernos, que ajudaram imensamente a radicalizar os discursos, a criar bolhas, a simplificar os debates.

Tou aqui escrevendo este textão-desabafo, num dia difícil, que deve ser lido por 5 pessoas que pensam exatamente como eu. Ou seja: e daí? Fico curtindo tudo o que vejo pela frente porque, volto a dizer, é muito material bom sendo produzido e com competência. The Intercept e DW, por exemplo, estão se fortalecendo no Brasil nestas eleições graças a materiais que vêm publicando. Mas é tudo gente que pensa como eu, na minha bolha, postando textos pra quem já está com a missa decorada. Não convertem ninguém da seita oposta.

Me dá uma desesperança, uma sensação de inutilidade… Acho que a única coisa que iluminaria meus dias nestas pré-eleições seria ver um eleitor convicto do fascista se tocando que autogolpe não é legal, ameaçar a mulher de morte é crime, mandar as minorias se curvarem às maiorias é coisa do Hitler, se tocando que, além do discurso hidrófobo que casou com o emputecimento geral da nação, sobra um sujeito patético, que nada entende de economia, de educação, de saúde – de nada, a bem da verdade. E que também é corrupto.

Meus amigos inteligentes eu já sei que sabem interpretação de texto, mas e os que estão na bolha ao lado? Cadê? Não resta mesmo nenhuma esperança? E não estou nem falando de vitória nas eleições, mas de falência da sociedade brasileira, independente do resultado final.

É isso. Bom dia de voto para vocês e boa sorte para todos nós nos próximos anos.

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