Meus 21 poemas favoritos de Cecília Meireles: uma antologia

Cecília Meireles em foto de domínio público.

Cecília Meireles em foto de domínio público.

Cecília Meireles foi, provavelmente, a primeira poeta que conheci. Pioneira que era na poesia infanto-juvenil, ela deixou vários versos voltados para crianças. Foi ainda criança que li o excelente “Ou Isto Ou Aquilo” e descobri textos cheios de rimas, aliterações e imagens delicadas da natureza, de cores, de coisas alegres. Por isso, sempre imaginei uma Cecília alegre, saltitante, quase uma eterna criança de olhos brilhantes.

Só agora fui ler sua poesia adulta, e me surpreendi ao encontrar uma Cecília melancólica, que fala muito sobre a morte, por exemplo. Mas ainda mestre na construção de rimas e no brincar com as palavras e com as imagens. A gente lê seus poemas como se estivesse assistindo a um filme, cena a cena, delicadamente tecidas em palavras muito cuidadosas.

Nesta “Antologia Poética” estão reunidos 168 poemas, de 13 livros, inclusive do clássico “Romanceiro da Inconfidência”. Escolhidos a dedo pela própria Cecília. Na nota à primeira edição, que a poeta escreveu em 1963 (quando já era uma senhorinha de 62 anos, em seu penúltimo ano de vida), ela diz [grifo meu]:

“Há muita maneira de fazer-se uma antologia e não se sabe qual seja a melhor. (…) Para o leitor, a melhor antologia é a que ele mesmo organiza, ao eleger, na obra completa de um escritor, aquilo que mais lhe agrada, embora, com o passar do tempo, se possa ver como o gosto pessoal varia, e o que nos agrada numa época já não nos agrada igualmente noutra, tão volúveis somos em nossas preferências e tão diferentes são as perspectivas, no caminho da nossa evolução.”

Pois bem. Li a antologia com os 168 poemas que Cecília considerava seus melhores. Destes, escolhi meus 21 favoritos, fazendo assim, como a poeta mesmo sugeriu, minha própria antologia. Espero que agrade aos leitores deste blog: Continuar lendo

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A vida amarga e o amor doente

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O livro tem 533 páginas e 100 contos. Cada um, portanto, com uma média de pouco mais de 5 páginas. E ainda divididos em outros tantos microcapítulos. Recheados de diálogos. Por isso é incrível que, sendo tão pequeninhos, esses contos, ou crônicas, de Nelson Rodrigues, consigam se fechar num começo-meio-e-fim perfeito, com direito a personagens e tramas complexos, como se fossem romances.

É uma habilidade muito grande de criar histórias, personagens e conflitos, com direito a clímax inusitados, a reveses surpreendentes, que fogem totalmente ao esperado pelo leitor.

A crítica fica por conta da temática, extremamente repetitiva. É impossível pensar que, ao longo de dez anos publicando essas crônicas na seção “A Vida como Ela É…” do “Última Hora”, completando cem delas, alguém, por mais talentoso que fosse, seria capaz de não repetir os temas, assuntos e abordagens. É claro que há repetição, por isso vale o conselho de ler este livro de forma esparsa, com calma, ao longo de vários meses, para não enjoar.

E também para não se saturar do clima pesado dessas histórias. Embora tenham um pouco de graça em alguns trechos, elas sempre terminam com um monte de pessimismo, tragédia, com crimes ou hipocrisias. Em praticamente todos os textos, há os seguintes ingredientes: casamento (com ou sem amor), traição, ódio, vingança e, não raro, morte. A visão que o autor tem dos relacionamentos amorosos é soturna, doída e cínica. Nada a ver com o clima que vivemos de “semana dos namorados”. Como eu disse, chega a saturar.

Outra coisa que irrita no texto são alguns de seus erros de português, dos mais diversos, principalmente as sobras de vírgulas. Mas, tudo bem, nada diferente do que a gente encontra nos jornais de hoje e de sempre.

De qualquer forma, vale a leitura. Ali, naqueles cem contos, há o retrato da sociedade carioca dos anos de 1950, com seus costumes e hábitos, com os preconceitos, com as gírias e expressões (“espeto!”, “é batata!” e outros tantos, tão simpáticos, que dá vontade de ficar usando), e os estereótipos do patriarca bravo, da mocinha “pra casar”, da outra que é uma vadia, do canalha, do malandro. Curioso que, por mais que tenhamos progredido, muitos desses retratos propositalmente estereotipados ainda existam em várias pessoas da sociedade atual, desta década de 2010, sessenta anos depois.

Dá uma curiosidade danada sobre o que causou tamanha amargura no autor. Muito se fala do Nelson Rodrigues doente, do culpado pela morte do irmão. Mas acho que agora vou ter que ler “O Anjo Pornográfico“, de Ruy Castro, pra tentar entender o Nelson Rodrigues sem nenhuma fé no amor e na humanidade.

“A vida como ela é…”
Nelson Rodrigues
Nova Fronteira/Saraiva de bolso
533 páginas
De R$ 23,67 a R$ 23,94