O agrônomo salvo, na ditadura, pelos censores do filme ‘Emmanuelle’

Texto escrito por José de Souza Castro:

Cena do filme “Emmanuelle”, de 1974, que salvou a vida de Wellington

Talvez o escritor mineiro que eu conheça mais bem seja Wellington Abranches de Oliveira Barros. Li todos os seus 19 livros. O último, “Brinde ao Cinquentenário de um Engenheiro Agrônomo”, li quentinho, recém-saído do forno. Ele confirma o dom de memorialista do autor, hoje com 75 anos. E de humorista.

É bem-humorado até com a burrice dos censores da ditadura militar de 1964. Sofreu na pele tal burrice ao se preparar para sua primeira viagem internacional, para fazer um curso na Espanha. Anos antes, em 1969, participara de um congresso de estudantes em Pelotas. Estava no último ano do curso de agronomia da Universidade Federal de Viçosa, cuja reitoria o liberou para apresentar lá um trabalho científico sobre a cultura da cebola. Fez a apresentação e aproveitou o resto do tempo para conhecer e se divertir naquela cidade gaúcha.

Mas, como outros estudantes considerados perigosos pelos censores, foi fichado por agentes da repressão e incluído no Livro Preto que tinha presença obrigatória nos aeroportos, para impedir embarques e evitar que o perigo vermelho brasileiro se espalhasse pelo mundo. Wellington descreve como se livrou:

“Tive que pedir socorro à Secretaria de Estado de Segurança Pública de Minas Gerais, que por sinal não impôs obstáculos, pois nessa época eu era Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura, nomeado oficialmente pelo Governador do Estado. Era, portanto, ‘ficha limpa’. Tive até que arranjar atestado com o Reitor da Universidade Federal de Viçosa, comprovando que participei do tal evento com anuência da Universidade. Viajei, voltei e todo meu arquivo foi posteriormente desfeito de maneira oficial. Afinal, eu não era nenhum ‘ficha suja’.”

Nunca mais foi incomodado. E pôde, no resto da vida, conhecer 63 países. E a censura burra acabou salvando sua vida.

Certa vez, voltando de Roma, resolveu fazer uma escala em Madrid só para assistir ao filme “Emmanuelle“, lançado em 1974 e que ficou proibido no Brasil até 1979 pelos censores da ditadura. O avião do qual saíra no meio do trajeto para o Rio de Janeiro explodiu nas Ilhas Canárias. “Emmanuele me salvou. Poderia até ser título de um filme”, brinca o autor. “Como um Agrônomo cinquentenário, não poderia deixar de contar essa!”.

São muitos casos colecionados ao longo de 50 anos na profissão da qual se orgulha, pontilhada de empregos públicos bem remunerados, dos quais pediu demissão por duas vezes. Ambas, por receber ordens dos chefes do tipo faça rapidamente o que estou mandando, “querendo impor-me algo a contragosto e legalmente duvidoso”.

Sim, esse velho agrônomo tem muito a ensinar. “Há quem diz que a renúncia é sinal de fraqueza. Seja lá o que for, não me arrependo nem um milímetro de minhas renúncias”. Não, ele não escreve para Sergio Moro, o juiz federal que renunciou para servir ao governo Bolsonaro, de olho num “honroso” cargo de ministro da Justiça e quiçá ao cobiçado posto vitalício no Supremo Tribunal Federal.

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Livro de um aposentado feliz

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Conheço um brasileiro de 73 anos de idade feliz com sua aposentadoria. Ele se chama Wellington Abranches de Oliveira Barros. A felicidade transparece em seu 17º livro, “Dúvidas e Dívidas”. Pelo menos 12 desses livros foram escritos depois que se aposentou aos 60 anos e aprendeu que “o importante é saber aproveitar bem cada etapa da vida, de preferência, sem dívidas”.

Sem dívidas, talvez, porque não se aposentou pelo INSS, e sim por algum dos empregos públicos que teve, incluindo o de professor da Universidade Federal de Viçosa, onde se formou engenheiro agrônomo.

Eu o conheci em 1975 na Secretaria de Agricultura de Minas, onde ele era chefe de gabinete e eu assessor de imprensa, por nove meses, antes de ser chamado de volta ao Jornal do Brasil. Na época, eu me deliciava com os casos contados por Wellington – um contista nato, nascido numa pequena fazenda próxima de Viçosa, na Zona da Mata mineira.

Não conhecia seu dom de escritor, que fui descobrindo na medida em que ele publicava seus livros para dar de presente aos amigos. O último, eu o recebi há alguns dias pelo correio. Em poucas horas, li suas 70 crônicas e artigos. Todos bem escritos e concisos. Quase sempre, finalizados com singela trova ou quadrinha. O autor parece ter aprendido a arte de trovador com Fernando Sabino. A última: Continuar lendo