Texto escrito por José de Souza Castro:
“Memórias de oitenta outubros”. Este é o título do 24º livro do escritor mineiro Wellington Abranches de Oliveira Barros, nascido no dia 18 de outubro de 1944 no sítio dos pais em Pedra do Anta, distrito de Teixeiras, comarca de Viçosa.
Ele viveu na roça por 12 anos. Quatro mais do que eu. Apesar da distância de Laranjeiras (no município de Luz), minha terra natal, nós tivemos uma infância bem parecida. Nessas várias Minas Gerais encontram-se costumes iguais.
Não há vida fácil na roça, como descreve Wellington. Uma vida, porém, que deixou saudade. Ele escreveu sobre o dia em que, aos 12 anos, partiu para Teixeiras, onde fez o curso ginasial:
“Adeus às saborosas mangas ubá que eu chupava até babar. Adeus às minhas pernas de pau que eu usava com tanta habilidade, adeus às minhas goiabas brancas que, mesmo estando bichadas, eu retirava a larva e deliciava-me com a fruta, adeus ao meu chuveiro improvisado no meio do bananal, adeus ao incansável moinho d’água que fazia o fubá com o qual eu tratava os porcos, fazia canjiquinha que minha mãe cozinhava com costelas, e também assava uma deliciosa broa de fubá com pedaços de queijo! Enfim, adeus a um montão de coisas que, certamente, não encontraria na cidade aonde eu estudaria!”
Neste livro, Wellington escreveu muito sobre sua mãe, Maria de Barros Abranches, a Mariquinha. Ela casou duas vezes e teve dois filhos. Três meses depois de se casar, em setembro de 1933, com o fazendeiro Agripino, ele foi picado por uma cascavel e morreu, deixando a mulher grávida. O filho foi batizado como Agripino Abranches Viana, em homenagem ao pai. Em 1975, por uns 10 meses, fui assessor dele na Secretaria de Agricultura de Minas, onde conheci Wellington, então chefe de gabinete do irmão Agripino.
A ditadura não se incomodava com nepotismo. Estava mais atenta ao comunismo.
Depois de 10 anos de viuvez, Mariquinha casou-se. Seu novo marido, Maurílio Fialho de Oliveira, dez anos mais novo que ela, desfez-se de sua alfaiataria em Pedra do Anta para cuidar dos dois sítios herdados: o da esposa e o do enteado, que estava com 10 anos e o recebeu ao atingir a maioridade. Além de trabalhador, Maurílio era músico. Tocava bombardino e trombone, e chegou a reger duas bandas de Pedra do Anta.
Maurílio morreu de câncer aos 72 anos, em janeiro de 1988, a esposa em outubro seguinte, aos 82, e Agripino aos 63 anos. A história dos três toma parte do livro. O autor também casou duas vezes – com a professora Maria Cristina, em 1970, que morreu em 2007, aos 63 anos; e com Alvininha, no ano seguinte. Era divorciada e mãe de dois filhos e avó de três netos. Wellington a conhecia desde 1966. Era formada em Belas Artes pela UFMG.
Do casamento com Maria Cristina nasceram Alexandre (formado em Biologia), Frederico (advogado e desportista) e Henrique, médico. Há ainda os netos Victor, Lucas e Helena. Fontes inesgotáveis de nosso memorialista.
Ao chegar à página 63 do livro, encontrei os provérbios e ditados populares – uma seção presente em todos os livros de Wellington, um professor atento ao senso comum de um determinado meio cultural e às expressões que se mantêm imutáveis através dos anos.
Lendo um deles, atribuído a Gabriel García Márquez, eu me conformei com a perda da memória: “Lembrar é fácil para quem tem memória, esquecer é difícil para quem tem coração“. Sentimento reforçado pelo filósofo Friedrich Nietzsche: “A vantagem de ter péssima memória é divertir-se muitas vezes com as mesmas coisas boas como se fosse a primeira vez”.
Perda de memória, por outro lado, não atinge esse notável memorialista sobre o qual escrevi algumas vezes neste blog. Para ajudar, ele contou com o auxílio de velharias e documentos guardados pela mãe num antigo baú. Se prestar atenção, esse baú aparece na foto de Wellington, na capa deste livro.
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