(sem assunto)

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Os rituais

Já falei aqui algumas vezes que eu adoro criar pequenos rituais, “tradições” para serem cumpridas em determinadas ocasiões, às vezes com determinados amigos. É algo que ajuda a criar cumplicidade ou, quando faço sozinha, ajuda a dar sentido a alguma data (por exemplo, o natal).

Fiquei tentando lembrar de alguns desses rituais e cheguei à seguinte lista:

– Quando vou com a família a Mucuri, temos que ir para a churrascaria ao chegar à cidade, à noite.

– No natal, é tradição eu ler “Milagre na rua 34”, para relembrar do que se trata o espírito natalino.

– Se vou à Serra do Cipó, a primeira parada tem que ser na Padaria Cipó. Uma das tradições era jantar na Santa Pizza e observar as estrelas depois, mas dizem que a pizzaria fechou 😦

– Quando estou indo embora de Beagá para a Terra Cinza, depois de uma visita, é tradição eu mandar mensagens de celular para as pessoas, despedindo e marcando a “próxima aventura”.

– Desde que me mudei pra São Paulo, a tradição é enviar um email semanal aos amigos e parentes mais próximos, com as novidades e reflexões dos últimos dias.

– Uma tradição com a minha avó Rosa era jogar baralho ouvindo “Eu Sei que Vou te Amar”, versão do Milton Nascimento, que ela colocava no repeat. Até hoje essa música me lembra dela.

– Uma tradição que eu tinha com minha turma de amigos do colégio era o encontro no Café 3 Corações (que hoje é uma telefônica), na praça da Savassi. Até hoje chamo eles de “turma do Café”, apelido dado pelo meu primeiro namorado.

– Adoro listas! Faço listas dos livros que li no ano (cada ano menores 😦 ) e dos filmes que vi no cinema. No fim do ano, as listas de presentes (cada vez maiores 🙂 ).

– Eu sempre dava cartões nos aniversários, porque é o que mais gosto de receber e acho que meus amigos também gostavam. Mas minha inspiração foi diminuindo e hoje em dia faço isso raramente. Mas ainda gosto de sempre dar uma lembrancinha de presente pro aniversariante.

– Tinha uma época que eu ia sempre ao Mezanino da Travessa com um amigo e a tradição era pedir cerveja de trigo e gritar para que a banda Free as a Beatle tocasse “Paperback Writer” (E, quando incorporaram ao repertório por nossa causa, “Rocky Racoon”). Essa virou uma das tradições mais divertidas, porque até hoje a turma sempre pede Paperback nos shows de cover dos Beatles por causa daquela época (imagina a alegria quando o Paul, em pessoa, “atendeu” ao nosso pedido no show do Morumbi! :D).

Toda hora lembro de um ritual novo e sempre invento mais alguns, quando as circunstâncias me obrigam a me desfazer de outros. Quem me conhece bem e lê este blog pode se lembrar também e pôr aí nos comentários 😉

E vocês? Quais são seus rituais favoritos?

Alvoroço no ninho tucano: Minas e São Paulo no topo do ranking de risco de corrupção

Texto de José de Souza Castro:

Estou surpreso. No portal do jornal “O Tempo” lê-se que “Minas está no topo do ranking de risco de corrupção”. A surpresa, claro, não é pela posição do Estado no ranking, mas pelo título escolhido pelo portal pertencente ao ex-deputado federal tucano Vittorio Medioli para uma notícia não publicada, salvo engano, pelos concorrentes “Hoje em Dia” e “Estado de Minas”.

A notícia informa, no primeiro parágrafo: “São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Pará são os líderes do ranking de risco de corrupção, segundo estudo feito pelo Centro de Estudos da Opinião Pública, da Unicamp, a pedido do Instituto Ethos. Os três Estados tiveram registro de “alto risco” em quatro dos oito indicadores sobre sistemas de controle da corrupção avaliados pelos cientistas políticos Bruno Speck e Valeriano Mendes Ferreira, autores do estudo. Os dados são relativos ao ano de 2009.”

Não sei de onde foi tirada a última informação. Ao ler a íntegra do sumário executivo apresentado no dia 4 deste mês em Brasília, durante o Seminário Fundamentos para a Prevenção e Controle da Corrupção, a informação é que o estudo foi feito por aqueles dois pesquisadores da Unicamp entre janeiro e agosto de 2011, com o objetivo de comparar determinados mecanismos considerados relevantes para a prevenção e o controle da corrupção institucional nos 26 estados e no Distrito Federal do Brasil.

Mas não quero supor que, ao destacar o ano em que os dados foram coletados, o corajoso jornal de Medioli quisesse livrar a cara de Antonio Anastasia, que não era governador em 2009.

Posso supor, porém, que o portal quisesse não se expor ainda mais, publicando a informação do estudo de que “a mídia nos estados apresenta resultados medíocres para o nível de independência de redes de comunicação (televisão e jornais) em relação a grupos políticos regionais.” E que em apenas em cerca de 30% dos estados – e Minas Gerais não se encontra entre eles – a “mídia cobre de forma equilibrada as denúncias de corrupção contra os governadores dos estados”.

Leio aqui, ainda sobre aquele estudo, que, em Minas, apenas 40% dos jornais e televisões apresentam independência em relação ao governo estadual (bem mais do que eu imaginava, diga-se), contra 50% em São Paulo e no Rio de Janeiro.

Mesmo se omitindo nessa questão, o portal de “O Tempo” não censurou comentários que reclamavam do comportamento da imprensa mineira. Um comentarista identificado como Felipero27, de Itabira, escreveu: “Já era de se esperar! Um estado em que grande parte da imprensa está subjugada à vontade de um governador durante todo esse tempo não poderia apresentar dados diferentes.” E Joaquim, de Sete Lagoas, completou: “Se Minas tivesse um legislativo, judiciário e mídia independentes, a coisa estaria feia por aqui. Espero que esta notícia seja o início de uma postura ética dos nossos jornais.”

Também espero, pelo menos em relação a “O Tempo” (e que o responsável pelo portal não seja demitido).

É preciso mais do que apenas uma imprensa independente para combater a corrupção velha como a serra. Segundo o estudo, em Minas Gerais, nenhum órgão estadual de controle interno disponibiliza relatório de atividades, contra 75% em São Paulo e 40% no Rio de Janeiro. Minas também não cumpre integralmente a legislação que manda preencher duas das sete vagas no Tribunal de Contas com conselheiros provenientes dos quadros técnicos do tribunal. Assim, o TC acaba dominado pelos políticos que indicam os conselheiros responsáveis por apurar a corrupção.

Para tornar ainda mais confortável o senhor Anastasia, apenas 38% dos deputados na Assembleia Legislativa, segundo o estudo, estão nas bancadas oposicionistas, contra 50% em São Paulo e no Rio de Janeiro.

A menos que alguma coisa mude, contra todas as expectativas, nosso ilustre governador – para quem ainda não sabe, Anastasia é professor (licenciado, talvez) de Direito Constitucional na Faculdade de Direito da UFMG e um dos responsáveis pelo Choque de Gestão no governo Aécio Neves – pode contemplar com tranquilidade, do topo do ranking, o panorama que se descortina à sua frente.

Ou não – depende de nós!

Gentileza urbana e conversa de elevador

Cheguei ao prédio e a vizinha, que não conheço, segurava o portão aberto para eu passar. “Gentileza urbana”, como gostavam de dizer as campanhas publicitárias da prefeitura de Beagá (será que ainda dizem?).

Cruzamos o hall e, do elevador, ouvimos que vinha outra vizinha, conversando com alguém. Portanto, seguramos a porta do elevador para ela também.

Surpresa ao nos ver segurando a porta, ela primeiro agradeceu, depois se lembrou que estivera falando sozinha e, sem graça, disse, rindo:

“Nossa, vocês devem ter achado que sou doida, falando sozinha assim!”

Ao que a primeira vizinha respondeu:

“Eu também vivo falando sozinha. É até bom, porque as pessoas podem achar que somos meio bobas e não mexem com a gente.”

A segunda vizinha pareceu não ter gostado do “boba” e emendei o raciocínio:

“Na verdade, é uma ótima tática pra se usar na rua quando ver alguém na pilha pra nos assaltar. Disparamos a conversar com o vento e a pessoa se assusta, achando que somos doidas, e muda de ideia.”

Elas riram.

A primeira vizinha ainda se lembrou:

“Engraçado foi hoje, que vi um senhor velhinho, na estação do metrô, dando instruções de localização para NINGUÉM ao lado dele!”

Rimos mais.

Elas chegaram ao andar de destino e prossegui na subida para o meu andar.

Pensando:

  1. Que raros são vizinhos que conversam essas pequenas prosinhas de elevador hoje em dia, pelo menos nos prédios de muitos apartamentos como o meu.
  2. Que rara é a gentileza urbana de segurar a porta do elevador para o outro que nem cruzou a curva e que milagres isso provoca no humor das pessoas.
  3. Por que diabos tanta gente fala sozinho (e me incluo no grupo louquinho). Terá a ver com morar sozinho? Com morar nas ruas? Com estar idoso? Será que é porque temos tanto pensamento incontido que ele transborda pra boca e quer invadir as ruas, para dar mais vazão aos outros pensamentos que se atropelam por trás?

O que me fez lembrar um livro que li e que mexeu comigo e do qual já falei de leve aqui no blog e um monte para um email a uma amiga, mas um dia vai virar post também. Por hoje, termino aqui, neste sem-fim.

Ocupe Wall Street ou a mulher na medicina

Texto de José de Souza Castro:

“Toda grande ideia apareceu, aos que temem o futuro, como loucura. Por isso, deixemos os jovens pensarem. Eles sabem o que fazem”. Desse modo conclui o filósofo Vladimir Safatle o seu artigo desta terça-feira na Folha de S. Paulo, em que comenta movimentos como o Ocupe Wall Street que se espalham pelo mundo.

Pouco antes de ler isso, eu havia tomado conhecimento, lendo um número de fevereiro de 1949 da revista “Coronet”, da história de Elizabeth Blackwell, uma inglesa que vivia desde os 11 anos de idade nos Estados Unidos. Ela trabalhava como professora do ensino fundamental e estava muito insatisfeita com a profissão.

Não é uma história recente, mas é uma história de jovens. Elizabeth tinha 26 anos quando resolveu que queria ser médica. Escreveu para 12 conhecidas escolas de medicina dos Estados Unidos. Todas se recusaram a aceitar uma mulher como aluna. Não havia precedentes. Em 1847, medicina era coisa de homem.

Porém, provavelmente para fazer hora com a cara de Elizabeth, a direção do obscuro Geneva Medical College, localizada perto da fronteira com o Canadá, aceitou conversar. E ela foi lá. Primeiro, tentou dissuadi-la daquela maluquice. Como ela insistisse, encontrou uma saída inteligente: seria aceita, desde que todos os alunos aprovassem. Na história da escola, nunca houvera unanimidade numa votação de estudantes.

Mas, desta vez a aprovação foi unânime, e Elizabeth pôde realizar seu sonho, tornando-se a primeira médica nos Estados Unidos.

Uma loucura, como deixou bem claro o Boston Medical and Surgical Journal, ao comentar o caso, na data de formatura. Escreveu que a nova médica fora induzida a sair da esfera apropriada para seu sexo e levada a “aspirar às honras e aos deveres que, pela ordem natural e pelo consenso mundial, eram exclusivamente dos homens”.

Um século depois, quando “Coronet” publicou a história dessa pioneira, havia oito mil mulheres praticando a medicina nos Estados Unidos.

Não fossem os jovens…