Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

Hoje reproduzo mais uma valiosa contribuição do historiador e romancista Ricardo de Moura Faria, que também é nosso amigo desde os primórdios da blogosfera 😉 Ele é autor de dezenas de livros didáticos e paradidáticos e dos romances “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. Boa leitura!

Imagens: Pinterest

Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

“A partir de 1918, os europeus, ainda desnorteados pelos rumos que a guerra havia tomado, com uma mortandade incrível, destruição imensa de cidades etc., começaram a reavaliar o período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial, mais especificamente as três décadas anteriores. Cheios de nostalgia, a intitularam como “Belle Époque”.

Eles não se deram, ou não quiseram se dar conta, de que uma época realmente belle não iria produzir uma catástrofe como a de 1914, como argutamente notou a historiadora norte-americana Bárbara Tuchmann, em seu belo livro “A torre do orgulho”.

O mundo que emergiu da guerra era estranho, valores foram ignorados ou desprezados e, portanto, curtir o período anterior era o melhor a se fazer. O tempo dos avós e dos pais era diferente, era considerado melhor do que aquele que tinham de enfrentar.

Estou iniciando estas considerações com esse episódio, para tentar desenvolver uma ideia, a de que todas as épocas anteriores à nossa realmente eram diferentes e é assim em todos os tempos. Nós, historiadores, sabemos que sempre é uma palavra muito difícil para ser usada porque tudo se move, e nada permanece “para sempre”. Ou quase nada. As mudanças podem, talvez, não ser muito perceptíveis no momento em que estão ocorrendo, principalmente aquelas que estão relacionadas às mentalidades que, como já disse o historiador francês Lucien Febvre, se constituem dos comportamentos e formas de pensar. E essa concepção estava imbricada nas relações da Psicologia com a História.

Como já estou chegando aos 70 anos, começaria por dizer que os meus tempos de infância e adolescência (décadas de 1950 e 1960), com certeza, foram substancialmente diferentes do que vivem as crianças e adolescentes nessas primeiras décadas do século XXI. Morando numa cidade pequena do interior, os divertimentos eram na praça enorme que havia em frente à nossa casa. Ali se jogava futebol, ali se soltava papagaio. Nos quintais, o gostoso era subir em árvores bem altas para se avistar quase toda a cidade. Ou, na época das frutas, chupar jabuticaba, manga, goiaba. Crianças que, além da escola, brincavam com outras crianças. Não havia televisão, só o rádio. E a luz só existia em algumas poucas horas da noite. Dentro de casa, se podia jogar dama, ludo etc.

Um pouco mais velho, com 9, 10 anos, já se podia entrar na brincadeira dos adolescentes, quase sempre o “esconde-esconde”, que se chamava de “negro fugido”. Corríamos pela cidade quase toda para procurar o “negro fujão”, que tentava se esconder de um bando de crianças e adolescentes. Tudo na rua.

Eram tempos melhores ou piores do que os de hoje? As crianças, hoje, “brincam” com smartphones, com jogos eletrônicos. Não socializam como na minha época de infância. Não arrisco dizer que os tempos eram melhores ou piores. Eram diferentes, sim, bem diferentes.

Passando agora para a questão da sexualidade. Não existiam aulas de educação sexual, nem na escola, nem nas casas. Esse assunto era tabu. Claro que, na adolescência, sempre aparecia um que sabia das coisas e comentava, ao seu jeito, com os neófitos. Lembro que, cursando o Ginásio numa escola católica de Juiz de Fora, alguns padres tentavam convencer os rapazes (a escola não era mista) dos perigos da masturbação e outros – geralmente os professores de religião – faziam o maior mistério para uma “aula especial” que haveria na semana seguinte, quando iriam explicar como as crianças eram feitas. E a expectativa se frustrava quando um padre alemão, com sotaque carregadíssimo, tentava, suando, explicar como o “perrrru” entrava na mulher para produzir a nova vida. Todos os alunos vermelhos, não de vergonha, mas da tremenda vontade de rir, que só explodia mesmo na hora do recreio.

Hoje estamos vendo esse debate sem fim sobre a questão de gênero.  Já ouvi comentários que os consultórios de psicólogos e psicanalistas que atendem jovens estão repletos de casos de depressão oriundos exatamente dessa pressão para assumirem uma homossexualidade ou uma bissexualidade ou até uma transsexualidade. Pressão que, muitas vezes, surge nas escolas, e que levam garotas e garotos a terem relações homoeróticas, e que depois se acham em grande confusão mental. Acho que, inclusive, o fazem às escondidas de pais e parentes.

Ter ou não ter educação sexual nas escolas? Muitos dirão que sim, outros muitos dirão que não. E esses últimos apontam quase sempre para os tempos antigos, como se fosse possível repeti-los na atualidade. São tempos diferentes…

Pergunto: os jovens de hoje estão se reunindo para discutir política? Quando falo “os jovens”, quero saber se a maioria está fazendo isso, porque uma minoria eu sei que mantém a chama acesa. Ou hoje é mais importante ficar enviando mensagens pelas redes sociais com erros gramaticais, de concordância e de conceituação absurdos, ou ainda, se reunirem para jogar videogames? Que livros eles estão lendo? Que músicas estão ouvindo? As letras dizem algo?

Mesmo sem conhecimento de pesquisas a respeito, mas observando o que jovens escrevem no Facebook ou no Twiter, sou obrigado a reconhecer que, em termos de idéias políticas ou de politização, como dizíamos na época, no meu tempo de adolescente chegando à idade adulta, final dos anos 60 e início dos 70, o grau de conhecimento e envolvimento em questões políticas era bem mais acentuado do que hoje e envolvia a quase totalidade dos estudantes.

Creio que, se eu estivesse ainda atuando no magistério, poderia ter uma ideia melhor sobre isso, mas considero que a multidão de jovens nas ruas pedindo intervenção militar denota que eles ignoram completamente a realidade brasileira. Não por acaso – me permitam fazer essa colocação aqui – quando lancei meu livro “O Amor nos tempos do AI-5” na Bienal de São Paulo, um jovem de seus 18, 19 anos veio até mim querendo saber se o que eu escrevia era ficção científica, pois entendia que AI-5 significava Artificial Intelligence nível 5. Pode parecer engraçado, mas é trágico!

O meu ensino médio, que na época passou a se intitular Ensino de Segundo Grau, foi feito de 1966 a 1968. E nós tínhamos, no Colégio de Aplicação da UFMG, o curso Clássico e o Científico, o primeiro voltado para os estudantes que se dirigiam à área de Ciências Humanas. Foi o que cursei e tínhamos Filosofia, História, Português (com redação toda semana, temas livres), Latim, Inglês, Francês, Geografia. Lembro dos debates acerca do imperialismo americano, sobre a Primavera de Praga, sobre a Guerra do Vietnã. Três amigos e eu estudávamos antes das aulas noturnas na pensão onde um deles residia e ali tínhamos debates políticos. Também nos encontrávamos aos sábados na Camponesa, onde se comia um pão de queijo especial, tomava-se uma cerveja bem gelada e víamos que não apenas nós, mas todos os estudantes colegiais e universitários que lá frequentavam, que discutiam política o tempo todo. Recordo bem o que nós conversamos depois que aquele deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso que os militares não acharam graça nenhuma e pressionaram o Costa e Silva. Nós saímos da nossa reunião no sábado, convictos de que a situação iria engrossar nos dias seguintes. E deu no AI-5.

Nós estudávamos História, Filosofia… e tínhamos condições de analisar a conjuntura em que vivíamos… Hoje se quer reduzir a carga horária de História e eliminar a Filosofia dos currículos… Tempos diferentes, sem dúvida!

Uma questão política da mais alta relevância: a luta da mulher pela igualdade de direitos. Só quero dizer que fico pensando o que as feministas dos anos 60 que lutaram bravamente para fugir da dominação machista, e brigaram, e lutaram e conseguiram tanto, o que elas pensariam se vivas estivessem, ao saber que no Brasil mulheres se autodenominam de frutas (melancia, pera, morango, melão, jaca e sei lá mais o quê) e postam fotos seminuas ou nuas, como se estivessem se oferecendo para serem comidas por machos famintos.

Eu concluo dizendo que, realmente, no meu tempo – que é um tempo recente – as coisas eram diferentes…”

Será que eram melhores ou piores? O que você acha?

 

 


Se você também tem alguma análise, poema, conto, crônica, resenha de filme ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

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30 memórias com minha mãe (e um exercício para você fazer)

Quadro de Van Gogh.

Quadro de Van Gogh.

Dia desses minha mãe leu o livro “Quase Memória“, de Carlos Heitor Cony, que li há mais de 10 anos e do qual pouca coisa me lembro. Depois de terminar a leitura, ela escreveu para mim e meus irmãos: “Gostaria que vocês tivessem boas memórias de mim, como as que o Cony guarda do pai dele.”

Pouco depois, assisti àquele filme “Juventude”, de que falei aqui no blog. E aquela frase do protagonista do filme, também sobre a memória, me marcou tanto.

Neste domingo, 8 de maio, comemoro meu primeiro Dia das Mães de verdade (no ano passado até comemorei, já barrigudinha, mas ainda não tinha a menor ideia do que era ser mãe. Então foi uma comemoração café-com-leite). Ou seja, é o primeiro em que sou tanto filha quanto mãe. E me peguei pensando na frase do filme e na frase que minha mãe nos escreveu…

Resolvi, então, fazer um pequeno exercício de memória (com minha desmemória). Tentar lembrar de algum momento vivido com minha mãe a cada ano da minha vida. Um momento qualquer, não precisa ser nada espalhafatoso: um pequeno instante de amor ou de graça, que geralmente é contido nos gestos mais singelos mesmo. Para minha mãe perceber que, sim, ela também nos imprime diversas lembranças, assim como o pai do Cony deixou para ele. E para eu perceber que, apesar de ser verdade o que o filme me mostrou com tanto assombro — que nos esquecemos até dos momentos mais especiais e deliberados –, ainda há muitos tesouros guardados dentro da gente, daqueles que não me arrancam nem com lobotomia.

Aí vai, querida mamãe. Um presente de Dia das Mães. Pequenas memórias que guardo como tesouros (com datas aproximadas, porque meu cérebro não é muito informatizado, não). Você se lembra delas também? 😉 Continuar lendo

A montanha distante da velhice

Não deixe de assistir: A JUVENTUDE (Youth)
Nota 9

juventude

Ainda no início do filme, o apático Fred Ballinger, personagem de Michael Caine, fala para seu amigo também octogenário, Mick Boyle, interpretado por Harvey Keitel (Tradução livre; leia o diálogo original AQUI):

“Fico tentando entender o que acontece com a memória ao longo do tempo. Não consigo me lembrar da minha família. Não me lembro de seus rostos ou de como falavam.

Na noite passada, eu estava assistindo Lena enquanto ela dormia. E fiquei pensando em todas as milhares de pequenas coisas que eu fiz para ela como seu pai. E fiz essas coisas deliberadamente, para que Lena pudesse se lembrar delas quando crescesse. Mas, com o tempo, ela não se lembrará de nada!

Tremendo esforço, Mick. Tremendo esforço com um resultado modesto.”

Essa fala do protagonista do filme, dentre várias outras excelentes conversas, me marcou até vários dias depois. E provavelmente é o que vai ficar em minha memória desse filme difícil e belo. Continuar lendo

Sabedoria aos 20 anos

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Em maio de 2011 — há quase quatro anos, portanto –, escrevi um post neste blog chamado “Intelectuais X Sábios“. Eu diferenciava os dois rótulos, puxando a sardinha para os sábios e criticando a arrogância inerente aos autointitulados intelectuais. E ilustrava tudo com belas tirinhas do gênio Laerte.

O post rendeu uma porção de comentários, alguns discordando, outros concordando, normal. Mas, em meio a eles, apareceu um comentarista que chamou a atenção: um garoto de 17 anos, fã de filosofia, que veio discutir teorias da comunicação, alienação cultural, e outros temas normalmente pouco afeitos a rapazes desta idade (nossa, como estou soando velha! hehehe). Seja como for, me chamou a atenção.

Mas os anos se passaram e, claro, esqueci daquele post depois de tanto tempo e de tantos posts. Só que o Matheus Iwison, o rapaz de 17 anos, não se esqueceu.

Nesta semana, fui surpreendida com um comentário dele, hoje estudante do quarto período de Engenharia, com ainda jovens 20 anos de idade. Achei o comentário tão bacana — e tão sábio — que pedi a ele para reproduzir num post. E, com sua autorização, segue aí embaixo:

“Cada mente é um Universo. Desejos, vontades, gostos, tudo isso é apenas a expressão dos nossos sentimentos particulares. Obviamente, sofremos influência do mundo ao nosso redor, nesse sentido, mas a mente é mais complexa do que isso. O grande problema está em nós mesmos, na nossa arrogância, por acreditarmos na maior das ilusões de nosso mundo: A ilusão da grandeza.

Os “intelectuais” citados no texto são os pequenos príncipes de seus reinos particulares. Aqueles que, por serem tão pobres de alma, não veem outra opção senão apostar na “riqueza” recebida pela “grandeza”, pelo status quo. É puro e simples desespero. Desespero por algo que justifique sua existência simplória…

Os sábios não são aqueles que arrotam informações. Não são aqueles que acreditam enxergar horizontes impossíveis para outras pessoas (como um dia eu, infelizmente, já fiz). Eles reconhecem sua simplicidade, sua ignorância. Ouvem mais e falam menos. Não se orgulham apenas de aprender pequenas lições de monumentais eventos e fantásticos nomes como Nietzsche, mas sim de aprender grandes lições de pequenos eventos e nomes comuns, como o Seu Edson do táxi…

Realmente, não faltam intelectuais por aí. Não faltam aqueles que se vangloriem por ouvir Mozart, nem aqueles que intimidem os mais simples com mecânicas citações de Sartre, Heidegger entre outros. O que falta mesmo são os que se questionam sobre o porquê da necessidade de intimidar ou se vangloriar…

É isso que eu, hoje com 20 anos, penso desse texto. Acredito ter entendido melhor sua mensagem agora, Cristina. E ainda mantenho meu sonho de algum dia fazer filosofia…”

Fica sendo nossa reflexão da semana 😉

Tradução livre: “Olhe de novo para aquele ponto. É ali. Ali é nosso lar. Ali somos nós. Ali, todos aqueles que você ama, todos que conhece, todos aqueles de quem já ouviu falar, todo ser humano que já existiu viveram suas vidas. O conjunto de nossas alegrias e dores, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiáveis,  todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, todos os criadores e destruidores da civilização, todos os reis e aldeães, todos os jovens casais apaixonados, toda mãe e todo pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, todo professor de moral, todo político corrupto, toda “celebridade”, todo “líder supremo”, todo santo e pecador da história de nossas espécies viveu ali — naquele grão de poeira suspenso num raio de Sol”.

Tradução livre: “Olhe de novo para aquele ponto. É ali. Ali é nosso lar. Ali somos nós. Ali, todos aqueles que você ama, todos que conhece, todos aqueles de quem já ouviu falar, todo ser humano que já existiu viveram suas vidas. O conjunto de nossas alegrias e dores, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiáveis, todos os caçadores e saqueadores, todos os heróis e covardes, todos os criadores e destruidores da civilização, todos os reis e aldeães, todos os jovens casais apaixonados, toda mãe e todo pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, todo professor de moral, todo político corrupto, toda “celebridade”, todo “líder supremo”, todo santo e pecador da história de nossas espécies viveu ali — naquele grão de poeira suspenso num raio de Sol”.

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Segredo para recuperar a juventude perdida

wilde

 

Estou lendo o clássico “O Retrato de Dorian Gray“, de Oscar Wilde (imagem acima). Na página 74, das 298, posso dizer que, por enquanto, estou gostando mais ou menos. Mas algumas passagens são muito interessantes, principalmente as reflexões do personagem-filósofo lorde Henry.

Transcrevo abaixo minha favorita até o momento:

— A humanidade leva a si mesma muito a sério. É o pecado original do mundo. Se os homens das cavernas soubessem rir, a história seria diferente.

— (…) Ah, lorde Henry, como eu queria que o senhor me ensinasse a ser jovem novamente.

Por um momento, lorde Henry pensou. Depois, olhou para ela, do outro lado da mesa.

— A senhora, duquesa, seria capaz de se lembrar de algum grande erro que tivesse cometido em tenra idade?

— De muitos, receio.

— Então, cometa-os de novo — ensinou lorde Henry, sério. — Para se recuperar a juventude, basta fazer as mesmas loucuras. (…) É verdade, esse é um dos grandes segredos da vida. Hoje em dia, a maioria das pessoas morre de uma espécie de consenso servil e, quando já é tarde demais, descobre que as únicas coisas de que não nos arrependemos são nossos erros.

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