Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

Hoje reproduzo mais uma valiosa contribuição do historiador e romancista Ricardo de Moura Faria, que também é nosso amigo desde os primórdios da blogosfera 😉 Ele é autor de dezenas de livros didáticos e paradidáticos e dos romances “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. Boa leitura!

Imagens: Pinterest

Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

“A partir de 1918, os europeus, ainda desnorteados pelos rumos que a guerra havia tomado, com uma mortandade incrível, destruição imensa de cidades etc., começaram a reavaliar o período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial, mais especificamente as três décadas anteriores. Cheios de nostalgia, a intitularam como “Belle Époque”.

Eles não se deram, ou não quiseram se dar conta, de que uma época realmente belle não iria produzir uma catástrofe como a de 1914, como argutamente notou a historiadora norte-americana Bárbara Tuchmann, em seu belo livro “A torre do orgulho”.

O mundo que emergiu da guerra era estranho, valores foram ignorados ou desprezados e, portanto, curtir o período anterior era o melhor a se fazer. O tempo dos avós e dos pais era diferente, era considerado melhor do que aquele que tinham de enfrentar.

Estou iniciando estas considerações com esse episódio, para tentar desenvolver uma ideia, a de que todas as épocas anteriores à nossa realmente eram diferentes e é assim em todos os tempos. Nós, historiadores, sabemos que sempre é uma palavra muito difícil para ser usada porque tudo se move, e nada permanece “para sempre”. Ou quase nada. As mudanças podem, talvez, não ser muito perceptíveis no momento em que estão ocorrendo, principalmente aquelas que estão relacionadas às mentalidades que, como já disse o historiador francês Lucien Febvre, se constituem dos comportamentos e formas de pensar. E essa concepção estava imbricada nas relações da Psicologia com a História.

Como já estou chegando aos 70 anos, começaria por dizer que os meus tempos de infância e adolescência (décadas de 1950 e 1960), com certeza, foram substancialmente diferentes do que vivem as crianças e adolescentes nessas primeiras décadas do século XXI. Morando numa cidade pequena do interior, os divertimentos eram na praça enorme que havia em frente à nossa casa. Ali se jogava futebol, ali se soltava papagaio. Nos quintais, o gostoso era subir em árvores bem altas para se avistar quase toda a cidade. Ou, na época das frutas, chupar jabuticaba, manga, goiaba. Crianças que, além da escola, brincavam com outras crianças. Não havia televisão, só o rádio. E a luz só existia em algumas poucas horas da noite. Dentro de casa, se podia jogar dama, ludo etc.

Um pouco mais velho, com 9, 10 anos, já se podia entrar na brincadeira dos adolescentes, quase sempre o “esconde-esconde”, que se chamava de “negro fugido”. Corríamos pela cidade quase toda para procurar o “negro fujão”, que tentava se esconder de um bando de crianças e adolescentes. Tudo na rua.

Eram tempos melhores ou piores do que os de hoje? As crianças, hoje, “brincam” com smartphones, com jogos eletrônicos. Não socializam como na minha época de infância. Não arrisco dizer que os tempos eram melhores ou piores. Eram diferentes, sim, bem diferentes.

Passando agora para a questão da sexualidade. Não existiam aulas de educação sexual, nem na escola, nem nas casas. Esse assunto era tabu. Claro que, na adolescência, sempre aparecia um que sabia das coisas e comentava, ao seu jeito, com os neófitos. Lembro que, cursando o Ginásio numa escola católica de Juiz de Fora, alguns padres tentavam convencer os rapazes (a escola não era mista) dos perigos da masturbação e outros – geralmente os professores de religião – faziam o maior mistério para uma “aula especial” que haveria na semana seguinte, quando iriam explicar como as crianças eram feitas. E a expectativa se frustrava quando um padre alemão, com sotaque carregadíssimo, tentava, suando, explicar como o “perrrru” entrava na mulher para produzir a nova vida. Todos os alunos vermelhos, não de vergonha, mas da tremenda vontade de rir, que só explodia mesmo na hora do recreio.

Hoje estamos vendo esse debate sem fim sobre a questão de gênero.  Já ouvi comentários que os consultórios de psicólogos e psicanalistas que atendem jovens estão repletos de casos de depressão oriundos exatamente dessa pressão para assumirem uma homossexualidade ou uma bissexualidade ou até uma transsexualidade. Pressão que, muitas vezes, surge nas escolas, e que levam garotas e garotos a terem relações homoeróticas, e que depois se acham em grande confusão mental. Acho que, inclusive, o fazem às escondidas de pais e parentes.

Ter ou não ter educação sexual nas escolas? Muitos dirão que sim, outros muitos dirão que não. E esses últimos apontam quase sempre para os tempos antigos, como se fosse possível repeti-los na atualidade. São tempos diferentes…

Pergunto: os jovens de hoje estão se reunindo para discutir política? Quando falo “os jovens”, quero saber se a maioria está fazendo isso, porque uma minoria eu sei que mantém a chama acesa. Ou hoje é mais importante ficar enviando mensagens pelas redes sociais com erros gramaticais, de concordância e de conceituação absurdos, ou ainda, se reunirem para jogar videogames? Que livros eles estão lendo? Que músicas estão ouvindo? As letras dizem algo?

Mesmo sem conhecimento de pesquisas a respeito, mas observando o que jovens escrevem no Facebook ou no Twiter, sou obrigado a reconhecer que, em termos de idéias políticas ou de politização, como dizíamos na época, no meu tempo de adolescente chegando à idade adulta, final dos anos 60 e início dos 70, o grau de conhecimento e envolvimento em questões políticas era bem mais acentuado do que hoje e envolvia a quase totalidade dos estudantes.

Creio que, se eu estivesse ainda atuando no magistério, poderia ter uma ideia melhor sobre isso, mas considero que a multidão de jovens nas ruas pedindo intervenção militar denota que eles ignoram completamente a realidade brasileira. Não por acaso – me permitam fazer essa colocação aqui – quando lancei meu livro “O Amor nos tempos do AI-5” na Bienal de São Paulo, um jovem de seus 18, 19 anos veio até mim querendo saber se o que eu escrevia era ficção científica, pois entendia que AI-5 significava Artificial Intelligence nível 5. Pode parecer engraçado, mas é trágico!

O meu ensino médio, que na época passou a se intitular Ensino de Segundo Grau, foi feito de 1966 a 1968. E nós tínhamos, no Colégio de Aplicação da UFMG, o curso Clássico e o Científico, o primeiro voltado para os estudantes que se dirigiam à área de Ciências Humanas. Foi o que cursei e tínhamos Filosofia, História, Português (com redação toda semana, temas livres), Latim, Inglês, Francês, Geografia. Lembro dos debates acerca do imperialismo americano, sobre a Primavera de Praga, sobre a Guerra do Vietnã. Três amigos e eu estudávamos antes das aulas noturnas na pensão onde um deles residia e ali tínhamos debates políticos. Também nos encontrávamos aos sábados na Camponesa, onde se comia um pão de queijo especial, tomava-se uma cerveja bem gelada e víamos que não apenas nós, mas todos os estudantes colegiais e universitários que lá frequentavam, que discutiam política o tempo todo. Recordo bem o que nós conversamos depois que aquele deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso que os militares não acharam graça nenhuma e pressionaram o Costa e Silva. Nós saímos da nossa reunião no sábado, convictos de que a situação iria engrossar nos dias seguintes. E deu no AI-5.

Nós estudávamos História, Filosofia… e tínhamos condições de analisar a conjuntura em que vivíamos… Hoje se quer reduzir a carga horária de História e eliminar a Filosofia dos currículos… Tempos diferentes, sem dúvida!

Uma questão política da mais alta relevância: a luta da mulher pela igualdade de direitos. Só quero dizer que fico pensando o que as feministas dos anos 60 que lutaram bravamente para fugir da dominação machista, e brigaram, e lutaram e conseguiram tanto, o que elas pensariam se vivas estivessem, ao saber que no Brasil mulheres se autodenominam de frutas (melancia, pera, morango, melão, jaca e sei lá mais o quê) e postam fotos seminuas ou nuas, como se estivessem se oferecendo para serem comidas por machos famintos.

Eu concluo dizendo que, realmente, no meu tempo – que é um tempo recente – as coisas eram diferentes…”

Será que eram melhores ou piores? O que você acha?

 

 


Se você também tem alguma análise, poema, conto, crônica, resenha de filme ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

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18 charges sobre o retrocesso da redução da maioridade penal

contei aqui no blog sobre como mudei de ideia a respeito da redução da maioridade penal. Também já compartilhei algumas estatísticas importantes sobre o assunto, e até um filme para ajudar na reflexão.

Mas não adianta muito: diz que 87% dos brasileiros são a favor da redução da maioridade penal, e o Congresso de Eduardo Cunha é um Congresso eleitoreiro, demagogo e simplista (pra não falar que é altamente antidemocrático, colocando em votação o mesmo assunto todas as vezes que forem necessárias, até que a vontade do presidente da Casa se faça cumprir por meio de manobras sem fim).

Imagino que todos os grandes colunistas de todos os jornais do país já estejam comentando esse “tapetão” de Cunha e a enésima vez em que esta Câmara muda de ideia sobre uma decisão tomada 24 horas antes. Alguns talvez já estejam analisando as chances de essa emenda passar agora pelos senadores (eu vou colocar minhas fichinhas otimistas na aposta de que o Senado vai barrar o projeto). Deixo vocês com a indignação do colega Murilo Rocha em sua coluna de hoje e com a leitura de seus próprios analistas favoritos.

Eu só tenho um comentário a fazer: as pessoas querem a redução da maioridade penal porque consideram que, assim, a criminalidade vai diminuir. Eu acho que vai acontecer justamente o contrário, tendo em vista as estatísticas já compartilhadas no outro post. Estamos caminhando para uma sociedade piorada, se é que isso é possível.

Enfim, estou desanimada. Às vezes acho que me faltam palavras para comentar alguns assuntos. Felizmente, posso contar com as imagens dos nossos grandes chargistas, os melhores do país, para dizer aquilo que eu penso. Desenhando a barbárie, muitas vezes ela se torna mais fácil de se fazer entender.

Garimpei as charges abaixo em vários veículos do país. Começo a galeria com meus maiores ídolos: Angeli, Laerte e Duke. Ela segue com nomes como Benett, João Montanaro, Latuff, André Dahmer, Clayton e outros. Boa “diversão”:

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Se até as vacas fazem rolezinhos…

vaquinhas

 

Depois que li ESTE TEXTO me dei conta de que não há nada mais antigo e defasado do que os rolezinhos. Na verdade, desde que há jovens no mundo (ou desde que o mundo é mundo), eles provavelmente existem. No tempo dos meus pais, eles diziam que estavam fazendo “footing” na pracinha da cidade do interior — aquela onde fica a igreja. Na verdade, os jovens ficavam dando voltas e mais voltas — rolezinhos — enquanto se observavam, paqueravam e iniciavam namoros. Nos anos 1990 — há mais de 20 anos, portanto! — os grandes centros de lazer já começaram a substituir as pracinhas nas capitais. Ou seja, os rolezinhos passaram a acontecer nos shoppings. Os Mamonas Asssassinas, banda ícone daquela época, até registraram isso em música. A diferença para o que acontece hoje é só uma: a quantidade. Por causa das redes sociais, muito mais jovens passaram a combinar os rolezinhos, ao mesmo tempo, ainda com o mesmo objetivo de se divertirem. Aí o pessoal prestou atenção, esqueceu a própria juventude — e assustou.

Dito tudo isso, passo a sentir um quê de ridículo por ter filosofado tanto a respeito das causas e consequências sociais dos rolezinhos. E acho ainda maior a sensação de ridículo ao ver que eles mobilizam secretários de segurança pública e até a presidente da República do meu país — na mesma época em que o Maranhão vive uma verdadeira guerra em seus presídios. É patético e escabroso ver toda aquela força ser empregada pela polícia contra aqueles jovens. Chega a ser cômico ver a palavra “rolezinho” estampada na manchete dos maiores jornais do país. Provavelmente, um estrangeiro que lesse isso pensaria se tratar de um fenômeno impressionante, algo absolutamente incomum — e ficaria chocado ao constatar se tratar apenas de jovens da periferia indo ouvir um funk e dar uns beijos em shoppings de algumas capitais.

Por isso, decidi que não mais vou abordar o assunto por aqui. Acabou. A menos que o evento, que é mais velho que a serra, realmente se transforme em algo absolutamente novo, vou ignorá-lo. Vou continuar protestando contra os abusos da polícia, mas não por ocorrerem num rolezinho, e sim por serem desferidos contra os mesmos jovens que já apanham diariamente em seus bairros. E que os rolezinhos continuem livremente, que sejam felizes, de preferência com menos sociólogos, filósofos e colunistas desocupados (eu me enquadrando nisso tudo) discorrendo sobre o evento, como se fosse coisa de E.T.s.

Para coroar minha decisão, deixo aqui um vídeo bem-humorado de uma cena que só poderia ter acontecido em nossa querida roça-grande de belo horizonte, que tanto amamos. Em 2011, uma dezena de vaquinhas resolveu fazer um “rolezinho” em um shopping da cidade. Aderiram a uma não-causa dos humanos, que, naquela época, já era mais do que corriqueira:

E bora todo mundo rolezar — mas com um pouco menos de política, de vez em quando, minha gente 😉

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Tentando entender os protestos, nesta barafunda de interpretações

São Paulo protesta. (Foto: Miguel Schincariol/AFP)

São Paulo protesta. (Foto: Miguel Schincariol/AFP)

Aparecem vários sociólogos, cientistas políticos, políticos e jornalistas para oferecer sua versão do que é essa massa de mais de 200 mil brasileiros, em dezenas de cidades, protestando há vários dias por um Brasil melhor.

Difícil, já que estudaram a vida inteira, desde a escola, que manifestação tem que ter liderança, bandeira, causa e objetivo. Esta que vivenciamos agora é fluida, diluída, horizontal e, embora não tenha objetivos muito claros, tem uma porção deles.

Brasília protesta. (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)

Brasília protesta. (Ronaldo de Oliveira/CB/D.A Press)

Foto: Mídia NINJA, retratando o fato mais emblemático do dia!

Foto: Mídia NINJA, retratando o fato mais emblemático do dia!

Duas circunstâncias agilizaram o movimento, na minha interpretação:

1- A força das redes sociais, que já tinham propiciado várias mobilizações, por causas das menos nobres, com sucesso. O Facebook, especificamente, que propicia a criação de eventos, onde qualquer um pode “confirmar presença”, onde se pode criar enquetes para definir os melhores dias, horários, hinos, cores de roupas, dentre várias coisas, para um protesto. Quer ferramenta mais maravilhosa que esta para um movimento democrático? Sem censura, sem moderação.

2- Um evento internacional, que está em todas as mídias do planeta, comandado por uma instituição velha e corrupta, que é a Fifa, caindo no colo do Brasil. Lentes de aumento, luzes, câmera e ação voltados diretamente para o país, proporcionando o que todo movimento que já tinha como começar e já tinha pessoas com presença confirmada quer: divulgação, para atrair mais pessoas e fazer com que as pessoas tomem uma posição, seja ela qual for.

Ignorar é que não dá, quando se vê que até um jornal da Irlanda estampa em sua primeira página o que ocorre aqui na esquina. Até os mais alienados se vêem forçados a pensar a respeito e decidir de que lado sambam.

E esse lado não estava bem definido quando o protesto começou com um enfoque maior para a “gota d’água” das insatisfações, que foi o aumento das tarifas de ônibus para um transporte público tão precário, e a pauta da tarifa zero. TVs e jornais deram destaque maior ao vandalismo cometido por uma minoria. Ainda estavam longe de entender as reivindicações da massa.

Eis que o governo paulista de Geraldo Alckmin e sua polícia militar deram um empurrãozinho na noite de quinta, aos extrapolarem na repressão, em plena época de Comissão da Verdade e afins: o lado da opinião pública foi tomado de vez. Os indecisos resolveram pular suas cercas e agir, e participar. O movimento, que ainda não era nacional, explodiu de vez.

Salvador protesta. (Nelson Barros Neto/Folhapress)

Salvador protesta. (Nelson Barros Neto/Folhapress)

Esses manifestantes podem ser, sim, em sua maioria jovens (como, aliás, desde a tomada da Bastilha e a queda do czar), de classe média, bem escolarizados etc. Por isso, há os que os tacham de elite, de jovens ignorantes e revoltados sem causa, como se os jovens fossem menos espertos que os adultos que temos por aí. Mas ocorre que também há velhos, há trabalhadores de todas as camadas sociais, aposentados, grevistas, há pessoas que já estavam acostumadas a lutar pelos direitos dos negros, dos gays, das mulheres, dos ciclistas e vários outros, há diretores de grêmios e de DCEs, além de pessoas que nunca tinham protestado contra nada nesta vida e se consideravam conservadoras e passivas. Uma confluência de movimentos e causas de uma multidão de cidadãos – enfim, cidadãos – que têm em comum principalmente sua visão de que vivem numa democracia que lhes dá direito de se expressarem livremente.

Expressar… Eis aí outro ponto forte que move esses protestos: a comunicação. Os dois itens que listei acima passam diretamente pela comunicação. E a repercussão dos movimentos pela internet, que não dependem só dos grandes veículos para se fazerem ouvir, também se trata disso.

O Rio protesta. (Foto: AP/Felipe Dana)

O Rio protesta. (Foto: AP/Felipe Dana)

Vai dar em algo? A galera pergunta. Os sociólogos dão seus palpites. Eu dou o meu também, como sempre fiz:

o Ocupy Wall Street, que era bem parecido em vários sentidos (mas num país com mais tradição em megaprotestos), durou mais de dois meses e acabou não mudando nada muito profundo. Mas só de os jovens brasileiros adotarem os megaprotestos em suas agendas de conscientização política – negando a nojeira que é o fla-flu do PT X PSDB, que já CANSOU, sendo usada desde a chegada do PT à presidência, geralmente orquestrada por pessoas muito bem pagas pra isso, de ambos os “times” –, já é um avanço e tanto! Esse grupo que vai às ruas faz questão de se posicionar acima de qualquer partido ou instituição, o que já me parece maravilhoso – certamente, muito mais democrático.

Como vários cartazes dizem por aí, “o gigante acordou”. Se nada mais mudar, só essa sacudida já terá valido muito. Mas algo me diz que muito mais vem por aí. Nossos netos vão estudar a “revolta do vinagre”, como nós estudamos a da vacina, a dos emboabas e a dos mascates. Como já constam nos livros também a dos caras-pintadas do “Fora Collor”. Sem se limitarem às inocentes hashtags do #forasarney.

E Beagá protesta. (Foto: Mariela Guimarães/O tempo)

E Beagá protesta. (Foto: Mariela Guimarães/O Tempo) – Vídeo AQUI.

PS. Sugiro aos que realmente querem entender o movimento que participem dele. Que vão também às ruas, acompanhem as redes sociais e conversem com os demais manifestantes, para entender e perceber como são heterogêneos. E os que são alienados a ponto de só reclamarem de engarrafamentos e transtornos, com o pau quebrando ao redor, boa sorte nesta nova era da Comunicação que se abre.

PS.S. A polícia não parou sua repressão! Em BH houve bombas de gás e, no Rio, até tiros com fuzis e pistolas, com balas de verdade!

Atualização na terça-feira: Perfil dos manifestantes em SP, segundo o Datafolha:

  • 84% não têm preferência por algum partido
  • 77% têm nível superior
  • 22% são estudantes (pra quem diz que só tem estudante protestando)
  • 53% têm menos de 25 anos (então a maioria é de trabalhador recém-formado)

O que mais me alegrou foi o primeiro número. Rumo ao fim do fla-flu insuportável entre petistas e tucanos! Por uma consciência política apartidária, horizontal, democrática e diluída!

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Cenas do protesto com milhares de pessoas em Belo Horizonte

Fazia uma linda tarde de sol, com céu azul e jogo do Brasil inaugurando a Copa das Confederações. Aquelas pessoas poderiam estar na piscina, no buteco, ou simplesmente estiradas no sofá de casa, com uma latinha de cerveja na mão, de frente pra TV. Ah sim: também poderiam estar no Facebook.

Mas preferiram sair de casa, empunhando cartazes, faixas, bandeiras, apitos e narizes de palhaço, para protestar por uma causa que é ampla o suficiente para comportar dezenas de grupos diferentes, muitos dos quais apartidários. E, embora estivessem acompanhados de perto por policiais militares, na cavalaria, no choque, a pé, em motos e carros, tudo o que testemunhei desse protesto coletivo foi pacífico, do início ao fim.

Diz a polícia que havia 8.000 pessoas. No Facebook, 21 mil confirmaram. O fato é que havia muita gente, gente que nunca vi reunida, em tamanha quantidade e disposição, nos meus 28 anos de Beagá.  Milhares de pessoas que percorreram juntas, ao menos das 14h às 16h30 (tempo em que acompanhei), um trajeto de 3 km.

Abaixo, algumas (mais de cem!) cenas dessas duas horas e meia de protesto (que talvez tenha continuado, mas não acompanhei tudo), sem detidos, sem brigas e sem confusão em todo esse tempo.

***

Quando cheguei, às 14h, havia um pouco de gente ainda na praça da Savassi, onde tinham começado a se reunir às 13h, mas o grosso já se encaminhava para a Praça da Liberdade, fechando todo um sentido da avenida Cristóvão Colombo:

Todas as fotos: CMC. Clique sobre elas para vê-las em tamanho real.

Todas as fotos: CMC. Clique sobre elas para vê-las em tamanho real.

O trânsito ficou uma droga para os desavisados que resolveram ir até a Savassi de carro:

IMGP3062Mas não é que muito motorista, ao longo de todo o percurso, buzinou e fez joinhas em apoio aos manifestantes? Muito mesmo, foi surpreendente:

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IMGP3300Teve até motorista de ônibus (vários, aliás) sorrindo para o pessoal e concordando com seus apelos (“Motorista, trocador, quero ver se seu salário aumentou!”). Este aí fez o sinal do quanto ganha sua categoria:

IMGP3246Também teve muito apoio entre passageiros de ônibus, nos prédios, e entre outros pedestres que estavam na rua só observando a carreata:

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E, afinal, o que queria toda essa gente? Seus cartazes improvisados trazem muita coisa. São várias as mensagens, reclamações, reivindicações e contestações. Por exemplo:

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IMGP3164Além de cartazes, os manifestantes também levaram outros itens para agitar o protesto:

Nariz de palhaço...

Nariz de palhaço…

Máscaras...

Máscaras…

Apitos...

Apitos…

A Constituição de 1988.

A Constituição de 1988…

Flores...

Flores…

Panelas...

Panelas…

Instrumentos musicais...

Instrumentos musicais…

Megafone...

Megafone…

Tinta...

Tinta…

Um jipe vermelho (!)...

Um jipe vermelho (!)…

E até quadro e boina!

E até quadro e boina!

A propósito, esta não foi a única criança que vi, teve mais duas:

Esta ficou até o fim!

Esta ficou até o fim!

Esta também aguentou firme!

Esta também aguentou firme!

E tinha outros cabeças-brancas:

IMGP3197 IMGP3203E cabeças verdes…

IMGP3304E uma porção de cabeças cobertas:

IMGP3114 IMGP3118 IMGP3131 IMGP3275 IMGP3318 IMGP3337 IMGP3341 IMGP3349Aliás, tinha de tudo, minha gente:

Nacionalistas,

Nacionalistas,

punks,

punks,

rivais em campo,

rivais em campo,

rastafáris,

rastafáris,

casais de namorados,

casais de namorados,

vários casais, aliás,

vários casais, aliás,

tatuados,

tatuados…

pessoas com muletas!

até pessoas com muletas!

Também tinham muitas bandeiras, mas só de um partido político, o PSTU. As pessoas, em vários momentos, gritaram pedindo que abaixassem essa bandeira e que fossem embora, por aquele pretender ser um movimento apartidário. Também foi comum ouvir gritos de “Aqui não tem partido!” e outros criticando o Marcio Lacerda, o Aécio Neves, a Dilma Rousseff e outros políticos. Isso foi bem legal. Mas eis algumas bandeiras que apareceram por lá:

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IMGP3097Também havia várias pessoas da imprensa:

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Que estavam preocupadas em flagrar possíveis tumultos causados pela polícia, como ocorreram em São Paulo. No entanto, em Beagá, embora estivessem em todos os lugares, os policiais mantiveram uma distância saudável dos manifestantes (e vice-versa):

IMGP3057 IMGP3090 IMGP3117 IMGP3347 IMGP3366Também não presenciei nenhuma “depredação ao patrimônio público”. No máximo uns balõezinhos da Fifa estourados:

IMGP3353A única infração que presenciei foi cometida por motoristas afobados que estavam na avenida Afonso Pena e resolveram passar por cima do canteiro central para retornarem. Alguns foram multados, mas ofereço as placas para o caso de a BHTrans ainda se interessar em correr atrás de alguma multa perdida:

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Até tu, táxi!

IMGP3216 IMGP3217 IMGP3218Uma garota ficou extremamente feliz por ter se posicionado no canteiro, bloqueando a passagem de um dos carros, até que um PM se aproximasse para multá-lo. Outra que ficou feliz foi esta aí embaixo, porque deu uma flor a um guarda municipal e ainda fez o dia dele, com um abração público:

IMGP3303Por fim, encerro com algumas cenas gerais, para verem como esteve realmente cheio:

Na praça da Liberdade.

Na praça da Liberdade.

Idem.

Idem.

Praça tomada!

Praça tomada!

Descendo a Cristóvão Colombo.

Descendo a João Pinheiro.

Idem.

Idem.

Na praça Afonso Arinos.

Na praça Afonso Arinos.

Na Afonso Pena.

Na Afonso Pena.

Entre os carros.

Entre os carros.

Ainda Afonso Pena.

Ainda Afonso Pena.

IMGP3250 IMGP3270

Praça Sete.

Praça Sete.

Existe amor em BH.

Existe amor em BH.

Amazonas.

Amazonas.

E o fim, em frente à praça da Estação, que estava fechada para algumas pessoas verem o jogo do Brasil e Japão.

E o fim, em frente à praça da Estação, que estava fechada para algumas pessoas verem o jogo do Brasil e Japão.

Vejam quanta gente!

Vejam quanta gente!

No meio do caminho, marcaram outro protesto para segunda-feira, às 13h, na Praça Sete. Se, por um lado, haverá muito mais pessoas trabalhando, o que deve esvaziar o movimento, por outro, o trânsito da cidade, já caótico, deve parar. Por isso, fica minha recomendação: #vádebusão ou #vádebike ou #váapé, já que #irdemetrô, em Beagá, é quase não querer chegar.

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