Um poema para Brumadinho (ou: ‘O segundo crime da Vale’)

O rio Paraopeba enlameado, turvo. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

No dia 25 de janeiro de 2019 eu estava de folga. Minha maior preocupação na manhã daquele dia era assistir aos filmes do Oscar a tempo da cerimônia, para cumprir meu desafio anual. O único em cartaz nos cinemas que eu ainda não tinha visto era “A Favorita“. É raro eu conseguir ir ao cinema desde que meu filho nasceu, então eu estava ansiosa para ir. Deixei ele na colônia de férias e fui. Chegando lá, meu marido falou, por telefone: “Caiu uma barragem. Parece que foi grave.” Eu não fazia a menor ideia do quanto. Saí da sala de cinema às 16h e olhei para o celular. Só aí, bem devagar, fui começar a entender a dimensão do desastre. Maior que Mariana. Como pode? Como um pesadelo pode se repetir – podem deixar que se repita – em tão pouco tempo?

Eu também estava de folga naquele fim de semana que veio depois, 26 e 27 de janeiro. Escrevi pra minha chefe oferecendo ajuda, mas ela disse: “Você ainda terá muito trabalho pela frente”. Tive mesmo. A partir de segunda, dia 28, meus dias passaram a se resumir a Brumadinho. Eu acordava umas 6h e já começava a trabalhar, e a pensar em Brumadinho. Saía do jornal às 17h, e continuava trabalhando (confesso: dirigindo e mandando mensagens para os repórteres, infração de trânsito gravíssima). Qualquer outra conversa que não fosse sobre Brumadinho parecia irrelevante, até inadequada. Em casa, já com meu filho para dar comida, dar banho, pôr pra dormir, e minha cabeça seguia em Brumadinho. Até tarde da noite, quando eu finalmente apagava, para seguir sonhando com Brumadinho. Foi assim por oito dias seguidos, com plantão dobrado.

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Nesta terça, folguei de novo. Consegui me desligar um pouco de Brumadinho, daquelas histórias, mas uma água ficou pingando dentro de mim, como se eu estivesse com uma goteira. Um choro interno. Agora há pouco, Luiz já no quinto sono, eu sozinha, não aguentei: chorei, chorei. Tudo o que não chorei de verdade nos últimos dias. Chorei, chorei.

Em meio às lágrimas, escrevi os rabiscos abaixo, de uma tacada só. Provavelmente não é o poema mais bonito que você vai ler na vida, mas garanto que é um dos mais sinceros. Foi gestado na poça de lágrimas que se formou no fundo da minha barriga. Botei pra fora, pra ver se ela (a barriga, a alma) se acalma. Amanhã tem mais, afinal.

 

BRUMADINHO (OU: O SEGUNDO CRIME DA VALE)

 

Uma. Duas. Três centenas sob a lama.

E quem ama

do lado de fora, no pranto, na fé, na cama,

só quer um corpo pra enterrar.

Chama, clama

por justiça, por prisões, punições.

Três anos, dois meses e vinte dias

foram insuficientes para haver justiça,

de qualquer tipo.

O Rio Doce ficou amargo, salgado, azedou.

O Paraopeba, este da minha infância em Juatuba

agora vai pelo mesmo caminho de rejeitos

rejeitados.

Tem jeito?

Tem jeito pra algo neste Brasil?

O cara eleito, que promete agilizar a vida das mineradoras,

que dá uma banana para o meio ambiente.

No Estado, o eleito que promete autolicenciamento.

As empresas devem ter aplaudido, vibrado:

– TÁ TUDO LIBERADO!

E dá-lhe dreno estragado.

E abre a torneira máxima do lucro.

E rompe.

E mata. Uma, duas, três centenas de vidas,

que deixam viúvas, órfãos, crianças, amigos, colegas de trabalho

(que, aliás, não pararam de trabalhar nas outras minas

assassinas.

Nem por um dia.)

Fora as outras milhares de vidas, as incontáveis, as que dependem do rio.

O que era Doce, virou paisagem.

Paisagem morta.

E o que era Largo, vai se estreitar com tanta lama dura, velha, velhaca.

(Paraopeba. Do tupi: “rio largo”.

Era largo na minha infância toda.

Na ponte que corta a estrada.

Agora será barro, não largo.)

Tem jeito?, eu dizia.

Não, não tem.

Porque agora vai só piorar.

Aluno vai filmar professor. Não vai mais aprender, debater, discutir, se abrir. Vai policiar.

Aluno vai bater continência em sala de aula.

Aluno vai recitar a bíblia.

Não vai aprender sobre ambiente. Nem meio.

Da lama, não vai brotar nada.

Dos corpos, enterrados antes da hora,

sem serem velados por quem os ama,

pode brotar poema.

Pode brotar dilema.

Pode brotar até um pouco de reflexão passageira.

Mas Mariana me ensina, nos ensina,

que não brotará justiça.

O que virá daqui a três anos, dois meses, vinte dias?

Não vale esperar pra ver.

 

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Tragédia em Brumadinho: uma escolha humana

Charge do genial Duke, publicada hoje no jornal “O Tempo”

 

Sem palavras para mais um desastre ambiental em Minas Gerais, pouco mais de 3 anos desde a tragédia em Mariana, agora aqui do ladinho de Beagá, que desta vez deixou cerca de 300 pessoas desaparecidas, republico aqui o poema escrito pelo meu marido, o jornalista Beto Trajano, que participou de toda a cobertura ontem:

ESCOLHA HUMANA

Lama
Que arde
Inflama
Os olhos
As mentes
Os corações
Reclama
A vida
A natureza

Escolha
Humana

Lama
Depravada
Que rasga
Que corta
Transforma
A montanha
Em ferro
E abre
O cofre
Enche
Ganância
Rebate
Na alma
No povo
De minas gerais
Que vive
Em risco
Os rios
Os corpos
Perdidos
De gente
De bicho
De planta
De natureza
Destruída

História
Que se repete
Assassina
Escória
De empresa
Vale
Degola meu povo

Foto de Douglas Magno, repórter-fotográfico do jornal “O Tempo”, que rodou o país.

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O que Bolsonaro e seus eleitores não sabem do nosso futuro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Chineses em meio a nuvem de poluição. A China é o maior emissor de gases do efeito estufa, seguida dos Estados Unidos. O Brasil é o sétimo país da lista dos maiores poluentes. Foto: Damir Sagolj/Reuters

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um grupo de cientistas encarregado pela ONU de orientar os líderes mundiais, divulgou no último dia 8 um relatório afirmando que em 2040, antes do previsto, o mundo estará sofrendo de escassez de comida, os incêndios florestais se agravarão e recifes de corais morrerão em escala maciça.

Esse relatório é o primeiro feito a pedido de líderes mundiais que assinaram, em 2015, o Acordo de Paris, um pacto de combate ao aquecimento global. Pacto que está sendo combatido por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, um dos países signatários. O Brasil, que também assinou, só espera a eleição de Jair Bolsonaro para também se retirar do acordo.

Trump e Bolsonaro não acreditam em aquecimento global, ao contrário, entre outros, dos prêmios Nobel de Economia deste ano, William Nordhaus e Paul Romer, que dedicaram décadas ao estudo dos impactos do clima na economia e ao papel da tecnologia na sustentabilidade.

O IPCC recebeu em 2007 o prêmio Nobel da Paz, juntamente com o americano Albert Gore, como reconhecimento pelo trabalho deles na orientação de governos. Donald Trump, porém, não se orienta pelo IPCC e Bolsonaro já deu mostras de se orientar por Trump.

Com a retirada desses dois gigantes da humanidade, ficará impossível evitar a tragédia prevista para 2040. Conforme o relatório, para evitar os danos previstos com o aquecimento global, seria necessário transformar a economia mundial em velocidade e escala sem precedentes na história.

Se continuarem as emissões dos gases causadores do efeito estufa no mesmo ritmo de agora, a atmosfera da terra estará 1,5 graus centígrados acima do que se registrava no período pré-industrial. Essa elevação da temperatura causaria inundação de áreas costeiras e aumento das secas e da pobreza no mundo. Um dano estimado em US$ 54 trilhões (cerca de R$ 199 trilhões).

Para evitar isso, seria necessário transformar a economia mundial em poucos anos. O relatório supõe que, tecnicamente, é possível realizar as mudanças necessárias, mas, politicamente, parece impossível.

Quando elaboraram o relatório, os autores nem sabiam que Bolsonaro poderia ser o próximo presidente do Brasil, a reforçar a posição política e igualmente imbecil de Trump.

Ao invés de impostos pesados sobre emissões de dióxido de carbono, como já fizeram legisladores de todo o mundo, incluindo China e União Europeia, para conter o aquecimento global, Trump prometeu queima intensificada de carvão nas usinas de energia dos Estados Unidos.

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases causadores do efeito estufa e Bolsonaro já disse que também tem planos para abandonar o Acordo de Paris assinado por Dilma Rousseff. Ele sabe mais que os 91 cientistas de 40 países que analisaram mais de seis mil estudos científicos que resultaram no relatório do IPCC.

Os eleitores de Bolsonaro que se deixam guiar pelas mentiras, agora mais conhecidas como “fake-news”, que não se preocupam com o futuro da Terra – e do Brasil, em primeiro lugar –, só vão descobrir que seu ídolo não sabe tanto assim, quando, se ainda vivos, tiverem que fugir das águas do mar, dos incêndios e da extrema pobreza.

Paulo Migliacci traduziu uma reportagem do “The New York Times” sobre o relatório do IPCC. Os interessados podem ler AQUI ou no original, AQUI.

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O fim da humanidade em 12 gerações?

Reprodução / Youtube

Reprodução / Youtube

Notícia boa: existem 3 trilhões de árvores em todo o planeta, uma média de 422 por pessoa, oito vezes mais do que se supunha até a divulgação desse novo estudo publicado na “Nature” nesta semana.

Notícia ruim: a cada ano, as atividades humanas destroem 15 bilhões de árvores e só reflorestam ou recuperam 5 bilhões. Desde o início da civilização, quase metade das árvores (46%) já desapareceram e, se o ritmo se mantiver como está, todas as árvores do planeta desaparecerão em míseros 300 anos!

Li um resumo no “El País”, que você pode acessar AQUI.

Seguindo a linha do post de ontem: durma-se com um barulho desses! Valeu, jornalistas, caros divulgadores, vocês contribuem com minha insônia e com minha lucidez, simultaneamente.

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A novela das capivaras e o prefeito que não pode ser babá

capivaras

Foto: João Godinho / O Tempo

 

Já faz tempo que prometi à Dri, leitora deste blog, escrever sobre uma novela que ronda os moradores de Belo Horizonte — e os turistas que passam pela cidade — há vários meses.

Mais especificamente, há 20 meses.

Foi exatamente no dia 4 de julho de 2013 que o jornal “O Tempo” publicou a primeira reportagem sobre a morte de Alysson Ribeiro de Miranda, de 42 anos, por falência múltipla de órgãos causada pela febre maculosa. Ele contraiu a doença passeando com a família por um dos pontos turísticos mais famosos de Belo Horizonte — o Parque Ecológico da Pampulha –, onde foi picado por um carrapato-estrela contaminado com a bactéria da febre maculosa. Esse carrapato é encontrado aos montes nas capivaras que povoam a orla da Lagoa da Pampulha. E foi aí que começou a novela.

No dia 28 de junho daquele ano, a Secretaria Municipal de Saúde foi notificada sobre a suspeita. No dia 5 de julho, após a notícia exclusiva sobre a morte de Alysson, a prefeitura disse que lançaria um edital de licitação para contratar uma empresa para solucionar o avanço das capivaras na orla da lagoa. A abertura da concorrência iria começar em um mês e a empresa iria atuar a partir de setembro de 2013, segundo reportagem do dia 9 de julho daquele já longínquo ano.

Não aconteceu nada disso. Em JANEIRO de 2014 — ou seja, passados seis meses da morte de Alysson e três meses do que seria o início do remanejamento previsto pela Prefeitura de Belo Horizonte — a gestão de Marcio Lacerda decidiu contratar uma empresa sem licitação, “para agilizar” o processo (!!!!). Segundo a reportagem de 24 de janeiro de 2014, a retirada das capivaras começaria em fevereiro daquele ano e levaria só 40 dias.

Guardaram a data e os novos prazos? Beleza. Acontece que, no meio-tempo, passados sete meses da primeira morte por febre maculosa, uma outra pessoa morreu infectada pelo carrapato contaminado presente nas capivaras: o estudante de engenharia Samir Assi, de apenas 20 anos. Ele contraiu a doença com uma inocente pedalada na orla da lagoa da Pampulha — passeio favorito de centenas de belo-horizontinos que lotam as ciclofaixas nos fins de semana.

Sem solução por parte da prefeitura, os moradores e frequentadores da Pampulha passaram a andar com medo e mudar seus hábitos.

Apenas no dia 31 de março de 2014 — ou seja, quando as capivaras já teriam que ter sido remanejadas, se a prefeitura tivesse cumprido o SEGUNDO prazo fornecido à população, em janeiro — uma empresa (Equalis Ambiental) foi contratada para realizar o serviço. Valor do contrato: R$ 182 mil. Desta vez, não arriscaram informar prazo para início dos trabalhos.

Até 9 de maio, a empresa contratada continuava mapeando o grupo de animais. Paralelamente, a prefeitura instalava placas alertando a população para o risco de carrapatos. “Verifique as roupas e o corpo cuidadosamente a cada três horas”, diziam as placas. Causaram pânico? Nããão, imagina.

Em julho, o jornal noticiou que as capivaras começaram a invadir jardins de casas da Pampulha, sem ninguém para retirá-las de lá. Naquele momento, a PBH aguardava liberação do Ibama para fazer o manejo dos animais. O Ibama também “brilhou” em agilidade: só liberou o manejo no dia 3 de setembro! A captura das capivaras só começou a ser feita 26 dias depois da liberação pelo Ibama. Até o dia 4 de novembro, das 250 capivaras que vivem no local, 43 tinham sido recolhidas. Menos de um quinto do total (17%). E foi comprovado que estavam mesmo cheias de carrapatos com bactéria da febre maculosa.

Em dezembro, a PBH informou que as capivaras seriam esterilizadas. No dia 26 de janeiro, a notícia era que a esterilização estava ainda “sem data para ocorrer”, dependendo de acordo com a UFMG.

Pra piorar, diante dessa morosidade da Prefeitura e do Ibama, um terceiro caso de febre maculosa foi detectado em janeiro deste ano. Desta vez, felizmente, não levou à morte. A vítima da vez era um garoto de apenas 15 anos. A resposta da prefeitura foi a distribuição de cartilhas.

No fim de janeiro, a aposta para combater o problema era o uso de um carrapaticida. De novo, o assunto morreu. Já estamos em março e o remédio ainda não foi aplicado. Pior: a última notícia que tivemos, no domingo, foi que as capivaras estão morrendo no cativeiro!

Então vamos ver se entendi bem: toda a burocracia, envolvendo licitação, dispensa de licitação, autorização do Ibama e acordo com UFMG era para garantir que as capivaras fossem preservadas, ficassem bem, mas livres de carrapatos contaminados. Assim, elas poderiam permanecer em seu lugarzinho na natureza, mas sem causar doença às pessoas. Seriam controladas, para não se multiplicarem muito rápido, e tudo seria legal, joia, ambientalmente correto. Mas o que aconteceu de verdade? Duas pessoas morreram, uma terceira quase morreu, e, mesmo com toda a lerdeza para resolver o problema, com a bela intenção de manter as capivaras vivas e saudáveis, no final das contas, descobrimos que metade delas também estão mortas!?

Ou seja, a Prefeitura de Belo Horizonte agiu tão desastradamente nesta história que, além de não impedir novas mortes de humanos, tampouco garantiu a sobrevivência dos animais.

Realmente, não precisamos de babás assim, caro prefeito Marcio Lacerda. É melhor tomarmos nossas próprias precauções, sem contar com o poder público: trocarmos o principal cartão postal de Belo Horizonte por outro lugar qualquer. E, claro, avisarmos aos turistas que, se forem passear pela lagoa da Pampulha, correm um risco muito grande, conhecido há 20 meses e ainda não solucionado pelos gestores da cidade.


Atualização em 9/3/2015: A Secretaria Municipal de Meio Ambiente me encaminhou uma longa nota, nesta segunda-feira (9/3), para complementar as informações do post. Da nota, os dois últimos itens se destacam, porque contestam as informações das reportagens de “O Tempo”, nas quais me baseei para fazer o post acima (como vocês podem ver em todos os links), de que um adolescente de 15 anos teria sido detectado com febre maculosa e de que as outras duas vítimas fatais pegaram febre maculosa na orla da lagoa da Pampulha, como disseram seus familiares aos repórteres do jornal.

Como acho que os leitores têm o direito de conhecer todas as versões de uma história, e a liberdade de acreditarem na que acharem mais plausível, compartilho a íntegra da nota da prefeitura. CLIQUE AQUI para ler.

Atualização em 11/3/2015: o Ministério Público tampouco está muito satisfeito com o trabalho feito pela Prefeitura de Belo Horizonte e fez várias recomendações à PBH na noite de ontem. CLIQUE AQUI para ver todas.

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