Texto escrito por José de Souza Castro:
Acabei de ler “Anna e o Planeta“, do norueguês Jostein Gaarder, autor de “O Mundo de Sofia”, livro traduzido em mais de 50 idiomas e que, no Brasil, vendeu acima de 1 milhão de exemplares. O mundo de Anna precisaria de muitíssimo mais para que a humanidade, talvez, se conscientizasse da importância de agir para evitar que, em 2082, ocorresse a desertificação, a extinção de milhares de espécies animais e, por fim, dela própria, a humanidade – a grande culpada.
Lendo o livro lembrei-me de outro autor, ainda mais conhecido, Isaac Asimov, que em 1945 criou “A Mula”, um mutante que se tornou personagem relevante de sua série de ficção científica, “A Fundação“. The Mule foi um grande exterminador da vida em milhares de planetas, num futuro distante.
A Terra, até onde sabemos, é um solitário habitat da humanidade, tal como a conhecemos. Por sorte, não acredito que Donald Trump, o mais notável inimigo dos que lutam para preservar a natureza, seja tão poderoso mutante.
Mesmo assim, ele já conseguiu causar danos. Pesquisa Datafolha divulgada no primeiro dia deste mês mostra que subiu de 5% em junho de 2024 para 9% em abril deste ano o percentual dos que acreditam em Trump e Bolsonaro, nossas mais falantes mulas, e acham que as mudanças climáticas não são um risco. Por sorte, 53% dos brasileiros entrevistados ainda consideram os efeitos climáticos um risco imediato.
Em 2082, Anna – que em 1966 comemorou seus 16 anos de idade – tinha uma bisneta chamada Nova. E, na ficção de Jostein Gaarder, Nova era Anna, que na véspera de completar 16 anos escreveu uma carta para Nova, com quem vinha sonhando. Coisas da literatura – e que literatura!
- Leia também: Livros e ideias para as crianças amarem o verde
Ao contrário da natureza, a tecnologia estava em 2082 num estágio impensável hoje. Tinha avançado muito, mas nada podia fazer para deter o fim da vida na Terra. Porém, Nova podia usar um terminal de computador para se informar.
Transcrevo trecho do livro publicado em 2017 pela Editora Schwarcz, tradução de Leonardo Pinto Silva:
“O globo inteiro é vigiado por câmeras conectadas à internet, e num piscar de olhos ela [Nova] acompanha o encolhimento das geleiras nos confins do mundo. De trecho em trecho pode ver a seca gradualmente se alastrando sobre a África, a América, a Austrália e o Oriente Médio. É uma verdade quadridimensional. Ela enxerga nitidamente os detalhes de um mundo cuja natureza um dia foi exuberante e diversa, e no instante seguinte testemunha como um padrão de aniquilamento foi se tornando cada vez mais comum. Revê como os continentes, países e regiões foram perdendo a riqueza de espécies e o esplendor. A tecnologia é fácil, seus dedos vão dançando pela tela com destreza, mas é uma dança macabra.
Ela tem acesso aos noticiários transmitidos em todo o mundo, reportagens e documentários, e os aplicativos selecionam o que vai ver segundo critérios que ela mesma estipulou. Ela tem acesso a tudo. Não há limites no planeta. Na percepção. Ela está on-line. Cem por cento conectada.
Nova amplia e reduz as imagens. O terminal é uma máquina do tempo. Suas têmporas pulsam com tantas sensações. O aparelho possui bons alto-falantes e muitas dessas sensações chegam à sua alma pelos ouvidos. Ela não apenas vê como a humanidade derrubou as florestas tropicais. Ouve o ruído das motosserras. Ouve as chamas farfalhando e o crepitar das brasas. Vê as terríveis imagens de ciclones e furacões, os borrifos de água, ouve o uivo do vento e o choro e o desespero das pessoas.
Segue de perto como a população mundial vai diminuindo gradativamente, como milhões são dizimados pela fome e pelas catástrofes climáticas, como milhões morrem numa última e desesperada guerra para conquistar o que restava de recursos naturais e solo fértil. Não houve mais nenhum censo de verdade depois que os conflitos irromperam. Mas se estima que a população mundial tenha se reduzido a menos de um bilhão de pessoas.”
Pois é. Boa parte do livro cuida dos esforços da adolescente Anna e seu amigo Jonas – futuros bisavós de Nova – tentando descobrir meios de divulgar para o mundo a importância de preservar o clima e salvar a Terra.
Sem resultados, como se vê no trecho transcrito acima. Eu mesmo só tomei conhecimento do livro por causa da “melhor biblioteca de Belo Horizonte“, como definiu a Cris. Fui o primeiro a retirar o exemplar. Minha esperança é que outros Anna e Jonas leiam este post e se animem a fazer alguma coisa. Ainda há tempo.
“Anna e o Planeta”
Jostein Gaarder
Ed. Seguinte
168 páginas
R$ 46,67 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)
Você também vai gostar destes posts:
- Natal Sustentável: leve esta ideia à sua família!
- Incêndios, desmatamentos, Mariana: crime ambiental compensa no Brasil
- A Amazônia brasileira que emite gás carbônico e o futuro do aquecimento global
- Sem surpresa no ataque à Serra do Curral
- Os gigantes a serem enterrados pela Cúpula do Clima: petróleo, gás e carvão
➡ Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de José de Souza Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.
➡ Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉
Descubra mais sobre blog da kikacastro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




