Das utilidades do Big Brother Brasil (?)

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Eu nunca assisti a uma edição sequer do BBB. Acho a maior perda de tempo do mundo e não entra na minha cabeça alguém se submeter, por exemplo, a um pay-per-view para ficar 24 horas por dia de olho no que ocorre numa casa, ainda mais sem edição. Em épocas de BBB, na milésima edição que vai ao ar, que só agora percebi ser sempre em janeiro, é comum vermos as pessoas que compartilham da minha opinião falando mal do programa, nas redes sociais e nas ruas.

Mas, me corrijam se eu estiver errada, foi dali – em meio àqueles diálogos rasos e putarias e intervenções de Pedro Bial – que surgiram uma apresentadora de humorístico talentosa (Sabrina Sato), uma atriz que dizem que é esforçada (Grazi) e um político inteligente, que tem defendido bem a bandeira que o elegeu (Jean Wyllys, deputado federal pelo PSOL-RJ e ativista dos direitos LGBT). Talvez tenha havido outros; eu sou meio por fora de assuntos televisivos e sobre celebridades.

Em resumo, são pelo menos três – dentre dezenas de pessoas que passaram pelo BBB. Mas, no país da Zorra Total e do VideoShow, me parece até que estamos no lucro.

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Pinheirinhos nunca mais?

Foto: Roosevelt Cássio/Folhapress

Foto: Roosevelt Cássio/Folhapress

Texto escrito por José de Souza Castro:

Está suspensa, por enquanto, a ameaça de se repetir a partir de hoje, nos municípios paulistas de Americana e Cosmópolis, violência semelhante à ocorrida há um ano em Pinheirinhos, no município de São José dos Campos.

Nesta quarta-feira, 30 de janeiro, venceu o prazo dado pelo Tribunal Regional Federal da 3ª Região para que as 66 famílias assentadas pelo Incra, há mais de seis anos, no Sítio Boa Vista, de 104 hectares, deixassem o local voluntariamente. A partir daí, poderiam ser retiradas à força pela Polícia Militar paulista, como em Pinheirinhos.

Desde que o TRF decidiu pela retirada das famílias, no mês passado, elas deixaram de plantar. Como nos anos anteriores, havia expectativa de produzir neste ano 250 toneladas de frutas e hortaliças sem o uso de agrotóxico. Se a reintegração de posse for efetivada, no lugar das 66 famílias plantando alimentos, haverá ali canaviais da Usina Açucareira Ester S/A, que alega ter arrendado a área e que esta pertence ao Grupo Abdalla.

A ameaça do uso da força policial foi suspensa por medida cautelar assinada na noite de ontem pela juíza federal convocada Louise Filgueiras. A decisão pode ser lida aqui. Antes, outro juiz havia indeferido o pedido do INSS e mandara arquivar o processo sem julgamento do mérito.

O INSS alega ser o verdadeiro dono do terreno, que transferiu ao Incra para reforma agrária em 2005. O sítio pertencera ao Grupo Abdalla, mas na década de 1970 foi dado ao INSS para pagamento de dívidas previdenciárias. Quando esse grupo e Usina Ester entraram com ação na Justiça pedindo a reintegração de posse do terreno, o INSS foi deixado indevidamente de fora. E continuou assim quando a decisão de primeira instância favorável às duas empresas chegou ao Tribunal Regional Federal, que manteve o julgamento.

A juíza Louise Figueiras acredita, porém, que a causa deve ser novamente examinada pela 5ª Turma do Tribunal, pois há um fato novo que não foi levado em consideração quando do primeiro julgamento: a existência no local de 66 famílias assentadas e o investimento de mais de R$ 1,36 milhão feito pelo governo para promover o assentamento, hoje considerado um modelo de produção de alimentos sem agrotóxicos, além de ser um dos sítios mais produtivos de São Paulo.

É incrível que a justiça tenha julgado uma causa desse interesse social sem conhecimento desses fatos básicos, mas é isso que a própria juíza admite ter acontecido.

De fazer inveja aos homens-bomba

Todos estão tentando entender de quem foi a culpa por uma tragédia tão grande como esta de Santa Maria. Os envolvidos ficam jogando a culpa uns para os outros. O acidente/crime acendeu um debate em todo o país. Estamos todos de olho em nossas boates, de nossas cidades. Elas são seguras? Têm saída de emergência? Extintor de incêndio? E os demais locais fechados de grande aglomeração? Lembro de duas matérias que fiz em que o Ministério Público se mostrou preventivo: quando pediu o fechamento da Igreja Mundial do Poder de Deus, que chegava a atrair 15 mil fiéis mesmo tendo capacidade para 8.040, e quando mandou vistoriar todos os túneis de São Paulo. Agora a Câmara estuda uma lei nacional que obrigue as boates e terem cuidados anti-incêndio, como já se obriga todos os lugares a terem rampas e vagas para pessoas com deficiência, por exemplo. Mas isso é para o futuro. E o acidente de Santa Maria, quem responderá por ele? O Corpo de Bombeiros e a prefeitura, que permitiram seu funcionamento? O Ministério Público? Os donos da boate? Ou o cara que soltou o fogo de artifício? O texto abaixo toma uma posição.

homem bomba

Texto escrito por Beto Trajano:

Existem poucos locais tão favoráveis a um atentado terrorista quanto uma boate. Os chamados inferninhos são ótimos lugares para não ir. Muita gente concentrada em um ambiente pequeno e abafado. É um cenário perfeito para um terrorista colocar em prática seu objetivo. Como agem os homens-bomba? Eles são piromaníacos e usam o poder da pólvora para tentar matar o máximo possível de pessoas em uma explosão, e se matam também.

O homem-bomba de Santa Maria – integrante de uma banda – não tinha a intenção de matar, mas de divertir uma multidão de estudantes.

O problema é que ele se esqueceu de combinar com os deuses da explosão. Então fez uma a baita cagada e misturou dois elementos, que exterminaram um número considerável de pessoas: pólvora e fumaça tóxica. O cara fez um ataque químico com um artefato e não carbonizou ninguém, nem dilacerou nenhum corpo. Saddam Hussein o contrataria na certa.

Na calada da madrugada, o terrorista do Rio Grande provocou a morte de jovens por intoxicação e esqueceu de se suicidar. Agora deve mofar na cadeia. Para mim, o rapaz que estourou aquele rojão é o único culpado.

Quadrilha

Foto na edição de hoje da "Folha".

Foto na edição de hoje da “Folha”.

Famílias culpam prefeito,

que culpa banda,

que culpa boate,

que culpa deus*

– que, certamente, culpará o diabo.

Mas o diabo é que 231 (ou mais) morreram, sem culpa nenhuma.

 

Não há desculpa.

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* Atualização em 30/1: A boate agora também culpa os bombeiros.

Também morri

Foto na edição de hoje da "Folha".

Foto na edição de hoje da “Folha”.

Junto com o Fabrício Carpinejar e aqueles mais de 200 jovens –  e seus pais, que achavam que eles estavam só se divertindo:

Morri em Santa Maria hoje. Quem não morreu? Morri na Rua dos Andradas, 1925. Numa ladeira encrespada de fumaça.

A fumaça nunca foi tão negra no Rio Grande do Sul. Nunca uma nuvem foi tão nefasta.

Nem as tempestades mais mórbidas e elétricas desejam sua companhia. Seguirá sozinha, avulsa, página arrancada de um mapa.

A fumaça corrompeu o céu para sempre. O azul é cinza, anoitecemos em 27 de janeiro de 2013.

As chamas se acalmaram às 5h30, mas a morte nunca mais será controlada.

Morri porque tenho uma filha adolescente que demora a voltar para casa.

Morri porque já entrei em uma boate pensando como sairia dali em caso de incêndio.

Morri porque prefiro ficar perto do palco para ouvir melhor a banda.

Morri porque já confundi a porta de banheiro com a de emergência.

Morri porque jamais o fogo pede desculpas quando passa.

Morri porque já fui de algum jeito todos que morreram.

Morri sufocado de excesso de morte; como acordar de novo?

O prédio não aterrissou da manhã, como um avião desgovernado na pista.

A saída era uma só e o medo vinha de todos os lados.

Os adolescentes não vão acordar na hora do almoço. Não vão se lembrar de nada. Ou entender como se distanciaram de repente do futuro.

Mais de duzentos e quarenta jovens sem o último beijo da mãe, do pai, dos irmãos.

Os telefones ainda tocam no peito das vítimas estendidas no Ginásio Municipal.

As famílias ainda procuram suas crianças. As crianças universitárias estão eternamente no silencioso.

Ninguém tem coragem de atender e avisar o que aconteceu.

As palavras perderam o sentido.

(Texto do Carpinejar, publicado em seu blog — link acima — no dia da tragédia)