Sobre o eterno (e quase impossível) equilíbrio da vida

A gente passa a vida inteira segurando uma bandeja bem escorregadia,

cheia de taças raríssimas, do cristal mais fino e frágil,

que, a qualquer deslize, caem no chão e se espatifam.

E se quebram pra sempre, incoláveis.

(Ou que até se colam, mas nunca ficam como antes.)

 

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#Playlist: Chico Buarque e Bob Dylan, os dois mestres da palavra

Fazia tempos que eu não montava uma playlist no meu canal do Deezer.

Fui inspirada agora pela eleição por unanimidade de Chico Buarque, recentemente, para o Prêmio Camões, o maior de literatura em língua portuguesa, pelo conjunto de sua obra.

Como bem colocou Antonio Cícero em comentário para a “Folha de S.Paulo”: “Evidente que esse prêmio é um reconhecimento pela poesia dele nas letras de música, que também são literárias, não só pelos livros. São poemas. Grandes poemas. A música ‘Construção’, por exemplo, é um poema até raro de se fazer. Os primeiros poemas ocidentais conhecidos, alguns dos melhores já feitos, que são os gregos, com os épicos de Homero e os líricos como os de Safo, eram poemas musicados. A palavra lírica vem de lira. A poesia lírica era toda cantada. Seria uma tolice pretender que a letra de música [não seja vista] como grande poema.”

A mesma percepção teve a Academia Sueca, ao premiar Bob Dylan, em 2016, com o Nobel de Literatura. E acho uma bobagem essa comparação que se fez dos dois. Ambos são gênios da poesia, ambos merecem os prêmios que ganharam, e Chico, é claro, poderia e ainda pode ganhar um Nobel de Literatura a qualquer momento, com a maior justiça do mundo.

Minha playlist de hoje mescla canções desses dois grandes poetas universais, grandes letristas, grandes músicos. Viva a poesia cantada!

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Breviário dos canalhas (II)

O poema abaixo foi enviado pelo poeta Ângelo Novaes, que já tinha publicado por aqui o “Breviário dos Canalhas”, há quase dois anos. Boa leitura!

 

Num país muito distante,
De gente de olhar sombrio,
Canalhas praticam as táticas
Tão gastas, mas tão diretas
Que se diria sua canalhice honesta:

Às mulheres que desejam, apontam o dedo e gritam: “São putas!
Aos artistas que invejam, disparam: “São sujos!”
Aos que falam de ciência, que ignoram, decretam: “São fracos!”
Aos que trabalham em silêncio, assustam: “Vocês custam!”
Aos que contam o que eles fazem, ameaçam: “Não falem!”

Eles mesmos loucos, fracos, lassos e rasos.
Têm muito a ganhar ao agir assim.
Pensam que desviam os olhos
Do pouco que vai em suas entranhas.

Dizem que esse país fica em lugar
Perdido entre a China e a Romênia.
Não sei.
Só assisto à delonga
E tudo que aguarda
O destino dos canalhas.


Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉:

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Poema enviado por leitor: ‘Chega de delicadezas e dedos afundados em cálices’

O poma abaixo, sem nome, foi escrito e enviado pelo leitor José Carlos de Oliveira, ou ZéBrasil. Ele é um jornalista de 60 anos, morador daqui da terrinha, Belo Horizonte, Minas Gerais.

Se você também tem algum poema, conto, crônica, resenha de filme, análise ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

Agora, vamos ao poema do ZéBrasil:


sou ardente, isento, insensato

fora do prumo até

não finjo que vim de

dentro, posto pra fora

na hora do parto atrasado, mas

fingem que não veem

mas estou na curva do caminho

pertinho de seu ego cego

enferrujado no pingo

longo da chuva que

vai cair ainda no

longo final dos tempos

escondido nos rastros dos canalhas

que se fingem diamantes

na fresta do olhar que

olham de soslaio na direção

errada,

chega de delicadezas e

dedos afundados em cálices com a

a mesma imagem refletida em tinto sangue que

denuncia que está na

hora de voltar a ser estrela velha escondida

no fundo  da consciência plana de um imbecil  que finge ser asa

a planar indiferentes lugares, flertando com abismos

a gotejar salivas em sórdidas taças

onde a verdade sussurra frias mentiras em

pequenas fatias poupadas  no escuro do bolso,

o sol fechou a cara amarela,

a semente caiu em  solo errado

veio a chuva e brotou um oceano

onde afogou o barco talhado na rocha

do  bico de uma  gaivota

que agora voa meu caixão insepulto,

tarde demais pra voltar ao primeiro verso

não dá mais pra reescrever,

o papel partiu-se em dois rumos e cada um deixou escapar palavras

que se esconderam em bocas alheias e canalhas, amaldiçoadas pelo riso torto em caras safadas,

tarde demais pra voltar ao primeiro  verso

tarde demais

o tempo envelheceu a boca maldita, que agora cospe brutalidade intestinal acumulada em tinto sangue, taças quebradas e corpos febris trilhando o corredor da morte em busca do perdão,

tarde demais pra voltar ao primeiro  verso, o castigo agora é o senhor de tudo,

agora sim o tinto sangue corre em veias velhas: pecado caro pago!

 


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‘Paraopeba’, um poema de Carlos Seixas

Rio Paraopeba na divisa dos municípios de Betim e São Joaquim de Bicas, em Minas Gerais. Foto de 2014, anterior, portanto, à tragédia da Vale. Crédito: Wikipédia.

 

Diante de tanta tristeza e revolta causadas pelo crime da Vale em Brumadinho (isso para não falar de Mariana), muitas vezes, nos faltam palavras. Sobram informações no noticiário, e a gente vai até se perdendo, diante de tantas notícias. O jornalismo, nessas horas, sozinho, não dá conta de abarcar todo o nosso sentimento. É aí que entram os poemas, tão eloquentes, por mais curtos que sejam. Poemas nos ajudam a extravasar nossas emoções. É por isso que, pela terceira vez desde a chamada “tragédia de Brumadinho”, em menos de um mês, publico aqui um poema que diz mais do que muito textão junto. Este foi escrito e enviado para publicação no blog pelo leitor Carlos Seixas, que é um funcionário público de 58 anos, natural de Manaus e que hoje mora no Recife (PE). Boa leitura:

 

PARAOBEPA

De Carlos Seixas

 

rio, vivo da vida
hoje, vivo da lama

chamam-me
rio de lama
chama apagada
depois da enxurrada

de jeito
desceu rejeito

levando vidas
deixando lágrimas

påginas soterradas
onde havia terra e mata
não há mais nada

odor de dor
é o que há

esta dor
após a tempestade
não tem bonança
só o respiro do amor

 


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