Breviário dos canalhas (II)

O poema abaixo foi enviado pelo poeta Ângelo Novaes, que já tinha publicado por aqui o “Breviário dos Canalhas”, há quase dois anos. Boa leitura!

 

Num país muito distante,
De gente de olhar sombrio,
Canalhas praticam as táticas
Tão gastas, mas tão diretas
Que se diria sua canalhice honesta:

Às mulheres que desejam, apontam o dedo e gritam: “São putas!
Aos artistas que invejam, disparam: “São sujos!”
Aos que falam de ciência, que ignoram, decretam: “São fracos!”
Aos que trabalham em silêncio, assustam: “Vocês custam!”
Aos que contam o que eles fazem, ameaçam: “Não falem!”

Eles mesmos loucos, fracos, lassos e rasos.
Têm muito a ganhar ao agir assim.
Pensam que desviam os olhos
Do pouco que vai em suas entranhas.

Dizem que esse país fica em lugar
Perdido entre a China e a Romênia.
Não sei.
Só assisto à delonga
E tudo que aguarda
O destino dos canalhas.


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Poema enviado por leitor: ‘Chega de delicadezas e dedos afundados em cálices’

O poma abaixo, sem nome, foi escrito e enviado pelo leitor José Carlos de Oliveira, ou ZéBrasil. Ele é um jornalista de 60 anos, morador daqui da terrinha, Belo Horizonte, Minas Gerais.

Se você também tem algum poema, conto, crônica, resenha de filme, análise ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

Agora, vamos ao poema do ZéBrasil:


sou ardente, isento, insensato

fora do prumo até

não finjo que vim de

dentro, posto pra fora

na hora do parto atrasado, mas

fingem que não veem

mas estou na curva do caminho

pertinho de seu ego cego

enferrujado no pingo

longo da chuva que

vai cair ainda no

longo final dos tempos

escondido nos rastros dos canalhas

que se fingem diamantes

na fresta do olhar que

olham de soslaio na direção

errada,

chega de delicadezas e

dedos afundados em cálices com a

a mesma imagem refletida em tinto sangue que

denuncia que está na

hora de voltar a ser estrela velha escondida

no fundo  da consciência plana de um imbecil  que finge ser asa

a planar indiferentes lugares, flertando com abismos

a gotejar salivas em sórdidas taças

onde a verdade sussurra frias mentiras em

pequenas fatias poupadas  no escuro do bolso,

o sol fechou a cara amarela,

a semente caiu em  solo errado

veio a chuva e brotou um oceano

onde afogou o barco talhado na rocha

do  bico de uma  gaivota

que agora voa meu caixão insepulto,

tarde demais pra voltar ao primeiro verso

não dá mais pra reescrever,

o papel partiu-se em dois rumos e cada um deixou escapar palavras

que se esconderam em bocas alheias e canalhas, amaldiçoadas pelo riso torto em caras safadas,

tarde demais pra voltar ao primeiro  verso

tarde demais

o tempo envelheceu a boca maldita, que agora cospe brutalidade intestinal acumulada em tinto sangue, taças quebradas e corpos febris trilhando o corredor da morte em busca do perdão,

tarde demais pra voltar ao primeiro  verso, o castigo agora é o senhor de tudo,

agora sim o tinto sangue corre em veias velhas: pecado caro pago!

 


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‘Paraopeba’, um poema de Carlos Seixas

Rio Paraopeba na divisa dos municípios de Betim e São Joaquim de Bicas, em Minas Gerais. Foto de 2014, anterior, portanto, à tragédia da Vale. Crédito: Wikipédia.

 

Diante de tanta tristeza e revolta causadas pelo crime da Vale em Brumadinho (isso para não falar de Mariana), muitas vezes, nos faltam palavras. Sobram informações no noticiário, e a gente vai até se perdendo, diante de tantas notícias. O jornalismo, nessas horas, sozinho, não dá conta de abarcar todo o nosso sentimento. É aí que entram os poemas, tão eloquentes, por mais curtos que sejam. Poemas nos ajudam a extravasar nossas emoções. É por isso que, pela terceira vez desde a chamada “tragédia de Brumadinho”, em menos de um mês, publico aqui um poema que diz mais do que muito textão junto. Este foi escrito e enviado para publicação no blog pelo leitor Carlos Seixas, que é um funcionário público de 58 anos, natural de Manaus e que hoje mora no Recife (PE). Boa leitura:

 

PARAOBEPA

De Carlos Seixas

 

rio, vivo da vida
hoje, vivo da lama

chamam-me
rio de lama
chama apagada
depois da enxurrada

de jeito
desceu rejeito

levando vidas
deixando lágrimas

påginas soterradas
onde havia terra e mata
não há mais nada

odor de dor
é o que há

esta dor
após a tempestade
não tem bonança
só o respiro do amor

 


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Um poema para Brumadinho (ou: ‘O segundo crime da Vale’)

O rio Paraopeba enlameado, turvo. Foto: Uarlen Valério / O Tempo

No dia 25 de janeiro de 2019 eu estava de folga. Minha maior preocupação na manhã daquele dia era assistir aos filmes do Oscar a tempo da cerimônia, para cumprir meu desafio anual. O único em cartaz nos cinemas que eu ainda não tinha visto era “A Favorita“. É raro eu conseguir ir ao cinema desde que meu filho nasceu, então eu estava ansiosa para ir. Deixei ele na colônia de férias e fui. Chegando lá, meu marido falou, por telefone: “Caiu uma barragem. Parece que foi grave.” Eu não fazia a menor ideia do quanto. Saí da sala de cinema às 16h e olhei para o celular. Só aí, bem devagar, fui começar a entender a dimensão do desastre. Maior que Mariana. Como pode? Como um pesadelo pode se repetir – podem deixar que se repita – em tão pouco tempo?

Eu também estava de folga naquele fim de semana que veio depois, 26 e 27 de janeiro. Escrevi pra minha chefe oferecendo ajuda, mas ela disse: “Você ainda terá muito trabalho pela frente”. Tive mesmo. A partir de segunda, dia 28, meus dias passaram a se resumir a Brumadinho. Eu acordava umas 6h e já começava a trabalhar, e a pensar em Brumadinho. Saía do jornal às 17h, e continuava trabalhando (confesso: dirigindo e mandando mensagens para os repórteres, infração de trânsito gravíssima). Qualquer outra conversa que não fosse sobre Brumadinho parecia irrelevante, até inadequada. Em casa, já com meu filho para dar comida, dar banho, pôr pra dormir, e minha cabeça seguia em Brumadinho. Até tarde da noite, quando eu finalmente apagava, para seguir sonhando com Brumadinho. Foi assim por oito dias seguidos, com plantão dobrado.

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Nesta terça, folguei de novo. Consegui me desligar um pouco de Brumadinho, daquelas histórias, mas uma água ficou pingando dentro de mim, como se eu estivesse com uma goteira. Um choro interno. Agora há pouco, Luiz já no quinto sono, eu sozinha, não aguentei: chorei, chorei. Tudo o que não chorei de verdade nos últimos dias. Chorei, chorei.

Em meio às lágrimas, escrevi os rabiscos abaixo, de uma tacada só. Provavelmente não é o poema mais bonito que você vai ler na vida, mas garanto que é um dos mais sinceros. Foi gestado na poça de lágrimas que se formou no fundo da minha barriga. Botei pra fora, pra ver se ela (a barriga, a alma) se acalma. Amanhã tem mais, afinal.

 

BRUMADINHO (OU: O SEGUNDO CRIME DA VALE)

 

Uma. Duas. Três centenas sob a lama.

E quem ama

do lado de fora, no pranto, na fé, na cama,

só quer um corpo pra enterrar.

Chama, clama

por justiça, por prisões, punições.

Três anos, dois meses e vinte dias

foram insuficientes para haver justiça,

de qualquer tipo.

O Rio Doce ficou amargo, salgado, azedou.

O Paraopeba, este da minha infância em Juatuba

agora vai pelo mesmo caminho de rejeitos

rejeitados.

Tem jeito?

Tem jeito pra algo neste Brasil?

O cara eleito, que promete agilizar a vida das mineradoras,

que dá uma banana para o meio ambiente.

No Estado, o eleito que promete autolicenciamento.

As empresas devem ter aplaudido, vibrado:

– TÁ TUDO LIBERADO!

E dá-lhe dreno estragado.

E abre a torneira máxima do lucro.

E rompe.

E mata. Uma, duas, três centenas de vidas,

que deixam viúvas, órfãos, crianças, amigos, colegas de trabalho

(que, aliás, não pararam de trabalhar nas outras minas

assassinas.

Nem por um dia.)

Fora as outras milhares de vidas, as incontáveis, as que dependem do rio.

O que era Doce, virou paisagem.

Paisagem morta.

E o que era Largo, vai se estreitar com tanta lama dura, velha, velhaca.

(Paraopeba. Do tupi: “rio largo”.

Era largo na minha infância toda.

Na ponte que corta a estrada.

Agora será barro, não largo.)

Tem jeito?, eu dizia.

Não, não tem.

Porque agora vai só piorar.

Aluno vai filmar professor. Não vai mais aprender, debater, discutir, se abrir. Vai policiar.

Aluno vai bater continência em sala de aula.

Aluno vai recitar a bíblia.

Não vai aprender sobre ambiente. Nem meio.

Da lama, não vai brotar nada.

Dos corpos, enterrados antes da hora,

sem serem velados por quem os ama,

pode brotar poema.

Pode brotar dilema.

Pode brotar até um pouco de reflexão passageira.

Mas Mariana me ensina, nos ensina,

que não brotará justiça.

O que virá daqui a três anos, dois meses, vinte dias?

Não vale esperar pra ver.

 

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Tragédia em Brumadinho: uma escolha humana

Charge do genial Duke, publicada hoje no jornal “O Tempo”

 

Sem palavras para mais um desastre ambiental em Minas Gerais, pouco mais de 3 anos desde a tragédia em Mariana, agora aqui do ladinho de Beagá, que desta vez deixou cerca de 300 pessoas desaparecidas, republico aqui o poema escrito pelo meu marido, o jornalista Beto Trajano, que participou de toda a cobertura ontem:

ESCOLHA HUMANA

Lama
Que arde
Inflama
Os olhos
As mentes
Os corações
Reclama
A vida
A natureza

Escolha
Humana

Lama
Depravada
Que rasga
Que corta
Transforma
A montanha
Em ferro
E abre
O cofre
Enche
Ganância
Rebate
Na alma
No povo
De minas gerais
Que vive
Em risco
Os rios
Os corpos
Perdidos
De gente
De bicho
De planta
De natureza
Destruída

História
Que se repete
Assassina
Escória
De empresa
Vale
Degola meu povo

Foto de Douglas Magno, repórter-fotográfico do jornal “O Tempo”, que rodou o país.

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