O leite derramou, a memória limpou

leitederramado

Imagine uma história contada por homem de mais de 100 anos, sofrendo de demência, no leito de um hospital.

Essa história vai depender única e exclusivamente da instável memória deste senhor, que eu apresento desde já como um dos vários Eulálio dentro de uma linhagem familiar que remonta à nobreza européia, passa pelo Senado na Velha República e chega até o tráfico nos dias mais recentes.

Imagine como é frágil a memória de Eulálio, formada por caquinhos amontoados, quanto mais antigos, mais nítidos. Há dias em que ele consegue lembrar até dos fios de cabelo do coque de sua mãe. Noutros, confunde sonho e realidade e pensa ainda estar na primeira infância.

É assim o “Leite Derramado” de Chico Buarque, genial desde a sacada que ele teve sobre como contar a história, sobre seu formato em caquinhos titubeantes, em caquinhos de realidade mesclados a ficção, que caberá a nós, leitores construir minimamente.

Assim como Eulálio tem grandes lapsos de lembranças concretas, ele de repente cai em desvarios. Por isso, o próprio formato do livro é cheio de suspense, da primeira à última linha. Ficamos nos perguntado o tempo todo: será verdade? Foi assim mesmo? Ou foi como ele lembrou da outra vez? O que vai acontecer? O que aconteceu DE VERDADE?

E é nesse emaranhado de fios de memória soltos que Eulálio nos apresenta o amor juvenil de sua vida, sua mulher, Matilde. Ela será a verdadeira protagonista da história. Tentaremos entender, durante todas aquelas 195 páginas, o que aconteceu com Matilde, segundo lembra Eulálio, décadas depois. O que, naquelas lembranças vagas de um Eulálio senil, é verdadeiro. Ou o que ele queria que fosse verdade. Ou como ele recontou a história para si mesmo, para suportar a dor. Como todos nós fazemos, com nossas próprias memórias: reconstruímos a todo momento, inventando a verdade que mais nos convém, para tornar a vida menos dolorosa. Até que essa verdade acaba se tornando verdade mesmo — porque, se lembro, eu vivi aquilo (como diz a frase deste blog).

Eulálio lembra, lembra muito. De muita coisa. E muitas outras permanecerão um mistério para nós, meros ouvintes, pacientes de expectativa de que ele retome a lucidez para voltar àquele caso do ponto onde parou.

Nunca imaginei que eu fosse gostar de um romance de Chico Buarque. Este foi o primeiro que li, e, na verdade, adorei. Ele constrói um Eulálio tão verossímil que parece que estamos vislumbrando nossos futuros — ou os passados de nossos antepassados. Sofremos com a ingenuidade dele, com a tristeza dele, com o que ele sofre. E penso: terá sido ele esta pessoa tão boa de coração, tão pura em seu amor, ou este é só o retrato que sua memória construiu para mantê-lo vivo por mais de 100 anos? Terá a verdade de Matilde sido muito mais cruel?

Jamais saberemos.

“Leite Derramado”
Chico Buarque
Companhia das Letras
195 páginas
De R$ 23 a R$ 39

Anúncios

O novo Evangelho dos bancos centrais

Texto escrito por José de Souza Castro:

Espero que a “Folha de S. Paulo” traduza e publique, como fez com outros textos do mesmo autor, o artigo de Binyamin Appelbaum publicado no dia 25 deste mês de agosto na página B1 do “New York Times” com o título “Central Bankers’ New Gospel: Spur Jobs, Wages and Inflation”. Pode ser lido AQUI.

O repórter do NYT cobriu a conferência sobre política econômica realizada em agosto em Jackson Hole, no Estado norte-americano de Wyoming. Segundo ele, pela primeira vez desde 1994, a agenda focalizou os mercados de trabalho. Naquele ano, Alan Blinder, vice-presidente do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, escandalizou a audiência ao advertir que os bancos centrais vinham se preocupando muito com reduzir a inflação e não o suficiente com o desemprego.

Vinte anos depois, Alan Blinder participou da conferência como um economista da Princeton University. Considerada uma heresia sua advertência de 1994, ele viu que a heresia havia se transformado no novo Evangelho dos dirigentes dos maiores bancos centrais do mundo.

Blinder ouviu durante essa conferência, encerrada no último sábado, serem ditas coisas que os responsáveis por tais bancos nunca disseram antes. No Fed, disse o ex-vice-presidente, não há mais ninguém que afirme que não se deve prestar atenção no desemprego. Sumiu de lá o hawkish, defensor de juros mais altos e de uma política de austeridade mais forte.

Os bancos centrais se acham agora focados em elevar o nível de emprego e os salários dos trabalhadores. A busca por uma inflação menor foi substituída pela convicção de que a inflação está atualmente muito baixa para o bem da economia.

Algo bem diferente do que prega um ex-presidente do Banco Central brasileiro no governo Fernando Henrique Cardoso, Armínio Fraga, que será ministro da Fazenda se Aécio Neves vencer as eleições. Ou do que defendem assessores econômicos de Marina Silva, candidata do PSB. Se não mudarem de posição, correm o risco de serem os últimos de uma espécie ora em extinção, o hawkish.

Seria bom se prestassem atenção ao discurso de Janet L. Yellen, a presidente do Fed, na abertura da conferência. Ela fez uma explanação paciente sobre a necessidade de manter baixas as taxas de juros para apoiar o crescimento do emprego. Ou à fala de Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu. Ele disse que está expandindo os estímulos à criação de empregos e convocou os governos europeus a fazerem o mesmo. O Banco do Japão já segue esse novo Evangelho, segundo seu presidente, Haruhiko Kuroda.

O mais curioso é que, embora o emprego tenha aumentado nos Estados Unidos, neste ano, os salários continuam baixos. E isso tem preocupado o Fed. Seus economistas estão debruçados sobre essa questão. Os do lado de cá, sobretudo os que assessoram os candidatos Aécio Neves e Marina Silva, certamente vão esperar por suas conclusões. Espero que eles tenham, pelo menos, tomado conhecimento dessa conferência e do novo Evangelho dos bancos centrais dos países mais desenvolvidos. Para que não sejamos arrastados de volta ao atraso, caso Dilma Rousseff seja derrotada.

Leia também:

A construção civil e a demência coletiva

sound_20140901_081635

App com medidor de decibéis, posicionado na janela de casa, às 8h16 da manhã. Se alguém quiser baixar este app, chama-se Sound Meter e é gratuito.

Leio que, a cada dez decibéis perdidos de audição, os riscos de demência aumentam 27%. E que o excesso de ruído é uma das causas para a surdez — pior ainda por ser uma surdez irreversível, que só piora com o tempo. Ou seja, estamos caminhando para uma sociedade de dementes!

Falo por mim. Acordar todos os dias, às 7h30 em ponto, com o som de uma bate-estaca a 30 metros de distância (ou seria dentro do meu cérebro?), tendo ido dormir tarde da noite por causa do horário que chego do trabalho, não tem feito bem para minha saúde. Pra piorar, fico preocupada com o fator segurança: o prédio todo treme quando essa fundação trabalha ao lado, os vidros das janelas vibram, e a cratera que fizeram é gigantesca. Já acordo com medo de virar personagem de noticiário, aquelas que perderam tudo, ou pior. Fico irritadiça, impaciente e mal-humorada em todo o período em que fico em casa, que deveria ser meu momento de descanso. E sonolenta quando estou no trabalho.

Hoje, passados vários dias de tortura, inclusive em feriados, perdi a paciência. Liguei para a fiscalização da prefeitura. Antes, me certifiquei do que diz a lei do silêncio em Belo Horizonte. É a lei 9.505/2008, assinada pelo então prefeito Fernando Pimentel, e pode ser lida AQUI.

Ela é clara:

Diz, primeiro, que é proibida a emissão de ruídos que ultrapasse os níveis fixados na lei (art. 2). São eles: até 70 decibéis, de 7h às 19h (art 4), e ainda menos de 19h às 7h. Serviços de construção civil podem extrapolar esse limite de 70 decibéis, chegando até a 80 dB, exclusivamente no período de 10h às 17h (art 10). Quem descumprir essa lei está sujeito a multa e até interdição.

Sabem o que é 70 dB? O equivalente a um carro (um!) passando perto. Uma única furadeira já ultrapassa os 100 dB. Imagine uma fundação inteira! (Detalhe: os operários dessa obra, que cheira a totalmente irregular, não usam nenhum equipamento de proteção pessoal. Nem mesmo auricular! Quando os vejo da janela, estão tapando as mãos com os ouvidos, com cara de dor… Liguei para o sindicato Marreta, e me disseram apenas que não podem fazer nada a respeito.) CLIQUE AQUI para ver a tabela de decibéis.

Enfim, ciente do que diz a legislação do meu município, telefonei para o 156 da prefeitura. Digitei 9 e, depois, 3. Registrei um pedido de fiscalização. Reza a lenda que ela vai acontecer em até dez dias úteis e, se eu não estiver demente até lá, prometo retomar o assunto aqui no blog, contando o que foi feito pelos fiscais.

Você também sofre com o desrespeito da construção civil? Em um bairro residencial? Você também sente que está ficando demente, com tanto barulho ao seu redor? Procure saber qual é a legislação do seu município e faça sua parte, registrando a denúncia. Quem sabe assim as construtoras pensem minimamente no dano que estão causando ao redor de uma obra e administrem melhor o período do dia em que ela deve ser executada.

Leia também:

Debate eleitoral só serve para desiludir o eleitor

debate2608

Ontem assisti ao debate eleitoral até o penúltimo bloco, quando desliguei a TV, irritada com mais uma mentira, desta vez sobre liberdade de imprensa. As mentiras são contadas de forma tão deslavada que, se a pessoa não é atenta ao noticiário, cai como um patinho. Ou se a pessoa é fanática por algum partido (ou seja, cega e burra).

Desse jeito fica difícil levantar a bandeira para qualquer candidato. O que posso fazer, por enquanto, é levantar a bandeira contra candidatos, vários deles.

Também foi o excesso de mentiras deslavadas que desiludiram meu pai, coautor deste blog. Ele me enviou o desabafo abaixo e eu o “roubei” para a reflexão dos leitores do nosso blog:

“Vi todo o debate da Band, num ataque de loucura cívica. E nunca ouvi tanta mentira em três horas.

Aécio teve o descaramento de dizer que as professoras do Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha recebem 14º salário e que a violência em Minas, durante seu governo, diminuiu muito. Parece que não leu a reportagem da “Folha” sobre o programa Poupança Jovem em Minas — e nenhum outro candidato, pois esta sua mentira também passou batida.

Teve candidato prometendo vender a Petrobras e todas as outras estatais e candidato dizendo que no dia primeiro de janeiro, logo depois da sua posse, extinguirá o Imposto de Renda pago por todo trabalhador que ganha até R$ 5.000 por mês (ele acha que a eleição é para escolher o próximo ditador), e isso também passou batido.

Se eu tivesse que votar, votaria na Luciana Genro. Um voto de protesto, só porque é a mais inteligente entre os candidatos, embora uma sonhadora de sonhos como a possibilidade política de combater o sistema financeiro e as 500 famílias que de fato mandam no Brasil aliadas ao grande capital estrangeiro.

Saí do programa desiludido com o futuro do Brasil e cada vez menos disposto a perder meu tempo escrevendo. Prefiro gastá-lo lendo.”

Só discordo quando ele diz que escrever é perda de tempo. Acho que nossas linhas ainda chegam aos olhos e ouvidos das cabeças pensantes da web, aquelas que não têm opinião pré-formada sobre tudo. E essa troca de ideias é útil, nem que seja para unir os desiludidos e desalentados deste Brasilzão.

Leia também: