A construção civil e a demência coletiva

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App com medidor de decibéis, posicionado na janela de casa, às 8h16 da manhã. Se alguém quiser baixar este app, chama-se Sound Meter e é gratuito.

Leio que, a cada dez decibéis perdidos de audição, os riscos de demência aumentam 27%. E que o excesso de ruído é uma das causas para a surdez — pior ainda por ser uma surdez irreversível, que só piora com o tempo. Ou seja, estamos caminhando para uma sociedade de dementes!

Falo por mim. Acordar todos os dias, às 7h30 em ponto, com o som de uma bate-estaca a 30 metros de distância (ou seria dentro do meu cérebro?), tendo ido dormir tarde da noite por causa do horário que chego do trabalho, não tem feito bem para minha saúde. Pra piorar, fico preocupada com o fator segurança: o prédio todo treme quando essa fundação trabalha ao lado, os vidros das janelas vibram, e a cratera que fizeram é gigantesca. Já acordo com medo de virar personagem de noticiário, aquelas que perderam tudo, ou pior. Fico irritadiça, impaciente e mal-humorada em todo o período em que fico em casa, que deveria ser meu momento de descanso. E sonolenta quando estou no trabalho.

Hoje, passados vários dias de tortura, inclusive em feriados, perdi a paciência. Liguei para a fiscalização da prefeitura. Antes, me certifiquei do que diz a lei do silêncio em Belo Horizonte. É a lei 9.505/2008, assinada pelo então prefeito Fernando Pimentel, e pode ser lida AQUI.

Ela é clara:

Diz, primeiro, que é proibida a emissão de ruídos que ultrapasse os níveis fixados na lei (art. 2). São eles: até 70 decibéis, de 7h às 19h (art 4), e ainda menos de 19h às 7h. Serviços de construção civil podem extrapolar esse limite de 70 decibéis, chegando até a 80 dB, exclusivamente no período de 10h às 17h (art 10). Quem descumprir essa lei está sujeito a multa e até interdição.

Sabem o que é 70 dB? O equivalente a um carro (um!) passando perto. Uma única furadeira já ultrapassa os 100 dB. Imagine uma fundação inteira! (Detalhe: os operários dessa obra, que cheira a totalmente irregular, não usam nenhum equipamento de proteção pessoal. Nem mesmo auricular! Quando os vejo da janela, estão tapando as mãos com os ouvidos, com cara de dor… Liguei para o sindicato Marreta, e me disseram apenas que não podem fazer nada a respeito.) CLIQUE AQUI para ver a tabela de decibéis.

Enfim, ciente do que diz a legislação do meu município, telefonei para o 156 da prefeitura. Digitei 9 e, depois, 3. Registrei um pedido de fiscalização. Reza a lenda que ela vai acontecer em até dez dias úteis e, se eu não estiver demente até lá, prometo retomar o assunto aqui no blog, contando o que foi feito pelos fiscais.

Você também sofre com o desrespeito da construção civil? Em um bairro residencial? Você também sente que está ficando demente, com tanto barulho ao seu redor? Procure saber qual é a legislação do seu município e faça sua parte, registrando a denúncia. Quem sabe assim as construtoras pensem minimamente no dano que estão causando ao redor de uma obra e administrem melhor o período do dia em que ela deve ser executada.

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Você ainda se lembra de como sonhar?

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Desde pequena, eu sonho muito. E não é raro eu me lembrar de vários detalhes dos meus sonhos. Eles às vezes são pesadelos cruéis, às vezes são repetições ansiosas de preocupações com coisas do dia (como um trabalho pendente), às vezes  se concretizam em gestos do lado de cá da consciência (o sonambulismo) e, noutras tantas, são belas aventuras, que fogem completamente da minha vida atual, inclusive com personagens malucos, situações inusitadas, muita emoção digna de filme.

Exceto nos dois primeiros casos, e quando tenho algum dos quatro tipos de insônia, de um modo geral, eu adoro sonhar. E tenho grande curiosidade sobre como funcionam nossos sonhos, para que servem, quanto tempo duram, que função têm. Assim como o tempo, o sonho é uma das coisas mais fascinantes do universo, para mim.

Por isso sempre me assombro quando escuto as pessoas dizerem que nunca sonham, ou que não conseguem se lembrar do que sonham.

Ontem encontrei uma explicação para essa amnésia noturna, vinda do maior especialista que o Brasil possui na área, o pesquisador Sidarta Ribeiro, que chefia o Instituto do Cérebro da UFRN. Em entrevista à “Folha”, ele diz o seguinte:

“A nossa civilização esqueceu como se sonha. As pessoas precisam reaprender a sonhar.”

E explica:

“Se a pessoa vai para a cama e adormece vendo TV, não está se preparando para a experiência importante, transcendental mesmo, que é sonhar. E, se ela se levanta da cama pulando e vai fazer outra coisa, não tem como se lembrar do que sonhou. A pessoa tem que treinar essa lembrança.

É preciso também perceber como o cinema e a TV tomaram o lugar de nossos sonhos. As pessoas sonham acordadas sonhos que são feitos por outras pessoas, com conteúdos prontos.”

Ele também conta outras coisas maravilhosas, como a duração do sonho humano, que é de 40 minutos (eu sempre achei que fossem segundos!). E também:

“Quando sonhamos, todas as criaturas da mente estão acordadas. É um zoológico: abre a porta e sai tudinho. O nosso “self” [consciência de si] é só um dos bichos, para onde ele for será o sonho que estaremos vendo. E são camadas e camadas interpenetráveis de coisas rolando. Por isso é tão comum você sonhar que entra em um lugar e, de repente, está em outro. (…)

Inconsciente é a soma de todas as memórias que a gente tem e todas as combinações possíveis. Por isso é tão grande. Consciente é a mínima fração disso que está ativa no momento.”

Se você é do tipo que se esqueceu como sonha, vale muito a pena CLICAR AQUI e ver como eles são importantes e como você pode resgatar esse aprendizado. E se, como eu, adora sonhar, também vale a pena ler para se deliciar com as explicações 😉

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Madrugada inteira dentro de um porão

3h48 – Insônia é um porão de pensamentos que se repetem infindavelmente, fedorento, claro demais, infestado de ratazanas gordas e peludas que não param de algazarrar, e de fantasmas obscuros dos passados e dos futuros. Um porão cheio de espelhos distorcidos, alto-falantes histéricos, fumaças e cores e brilhos. Tudo orquestrado para a finalidade de confundir e exaurir, até que a casa inteira desabe, porão adentro, poeira afora.

Em outras palavras, insônia sucks.

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3h53 – Apelo para um Dramin, porque amanhã tenho coisa demais pra fazer (= causa da insônia?) e não posso me dar ao luxo de não dormir. Oh, wait: amanhã tenho coisa demais pra fazer e o Dramin vai me tornar um zumbi semi-inútil. Aiai.

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4h07 – Passarinhos? Já?!

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4h58 – Desisto. Dramin vagabundo. Luzes. Computador. Derramo um texto inteiro da xícara cerebral como última tentativa de desligar o interruptor da minha massa cinzenta.

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5h09 – Do que as pessoas reclamam, com tanto ônibus em circulação a esta hora? Cidade de primeiríssimo mundo, isto sim. Vrrrruuuuuuumm…!

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To be continued… Prevendo o início da obra do prédio de trás (britadeiras) e da frente (marretadas) a partir das 6h. (Mas vou dar um último voto de confiança pra minha cama.)

Os 33 cúmulos

O cúmulo do BARULHO: pensamentos gritando na cabeça durante uma noite de insônia.

O cúmulo do SILÊNCIO: barulho de geladeira, eletricidade e zumbido nos ouvidos.

O cúmulo do MALA: vizinho reclamando por um barulho que você não fez.

O cúmulo da INTOLERÂNCIA: vizinho reclamando porque deixou um copo cair ou por estar andando na própria casa.

O cúmulo da TOLERÂNCIA: namorar alguém que atende ao celular durante a sessão de cinema.

O cúmulo do AMOR: o perdão.

O cúmulo da VIDA: taquicardia.

O cúmulo da MORTE: amnésia.

O cúmulo da GRAVIDADE: o envelhecimento.

O cúmulo da JUVENTUDE: a plástica.

O cúmulo da PLÁSTICA: Michael Jackson.

O cúmulo da BELEZA: a visão do bêbado.

O cúmulo do BÊBADO: este cara AQUI.

O cúmulo do APERTOshow grátis dos Rolling Stones em Copacabana, sem banheiro químico.

O cúmulo da FELICIDADE: fazer xixi depois de 7 horas segurando.

O cúmulo do SONO: dormir na mesa da balada.

O cúmulo do TRABALHO: sonhar que está trabalhando ou trabalhar dormindo. A escravidão.

O cúmulo da ESCRAVIDÃO: o vício.

O cúmulo da PREGUIÇA: pegar elevador para descer um andar.

O cúmulo do HÁBITO: o TOC.

O cúmulo da FORÇA: as formigas.

O cúmulo da FRAQUEZA: a fossa.

O cúmulo da DOR: pedra nos rins, que sai “naturalmente”.

O cúmulo da ALERGIA: casa de amiga com três gatos peludos.

O cúmulo da PEDÂNCIA: assinar email com as iniciais do nome.

O cúmulo da CHATURA: o cúmulo da simpatia.

O cúmulo do AZAResses dois caras.

O cúmulo da SORTE: conviver com alguém sempre de bom humor.

O cúmulo da : o casamento.

O cúmulo do OTIMISMO: procurar terapeuta.

O cúmulo do PESSIMISMO: procurar de cara um psiquiatra.

O cúmulo do REALISMO: pôr despertador todo dia.

Essas e outras ficaram passeando pela minha insônia desta noite, tornando a noite cada vez mais insone, até o cúmulo da EXAUSTÃO (o buraco-negro em que caímos quando não dá mais pra ficar acordado).

E vocês, querem brincar de pensar também em outros cúmulos? Coloquem aí nos comentários! O importante é serem sacadinhas engraçadas ou lógicas — ou não 😉

Os quatro tipos de insônia

Sou expert em insônias. Ultimamente elas têm sido raras, porque tenho apagado nove, dez horas de sono por noite, de tão cansada. Mas às vezes me pegam, principalmente esta do terceiro tipo. Vejam se conhecem todas:

Tem aquela insônia em que você fica três horas sem conseguir dormir e, de repente, por pura exaustão, seu interruptor desliga e você desmaia num buraco negro. Apaga mesmo, até o despertador te acordar no susto. É a mais corriqueira e qualquer preocupaçãozinha fajuta da véspera pode causá-la.

Tem a outra insônia, uma danada de ruim, em que você dorme numa boa, como se nada estivesse acontecendo, e, lá pelas 4h, acorda do nada e nunca mais fecha os olhos. Costuma vir seguindo pesadelos escabrosos.

Uma terceira modalidade é aquela em que você parece que está dormindo, mas, na verdade, está trabalhando intensamente. Seu cérebro não desliga, você acorda de dois em dois minutos — às vezes nem percebe que acorda, mas acorda. Quando finalmente tem que levantar, está exausta, corpo moído, como se tivesse corrido uma maratona. Geralmente é acompanhada de ataques de sonambulismo e tem relação com alguma ansiedade — por exemplo, quando ocupamos uma nova função ou mudamos de emprego.

Por fim, existe a pior de todas. Sim, aquela mesma. Você deita a cabeça no travesseiro, fecha os olhos, mas parece impossível mantê-los fechados. O travesseiro começa, de repente, a pesar como um tijolo e incomodar horrores. Não há posição que te deixe confortável, a coluna não se ajusta, não dá aquele estalo gostoso de quem encontrou o túnel pro descanso. Pelo contrário, você vira, gira, fica de bruços, e está sempre incômodo. Todas as luzes estão apagadas e janelas fechadas e cortinas cerradas, mas tudo parece claro demais. E barulhento. Você ouve os longínquos sons da madrugada. Percebe quando os ônibus voltam a circular. As portas que batem. Uma obra de um prédio vizinho, madrugando às 6h. Nesse meio tempo, sua cabeça é um turbilhão de coisas, parece prestes a fundir. Você pensa, repensa, imagina, planeja, espera, decide, escolhe, analisa, viaja, pondera, divaga, torce, retorce, rememora, relembra, sofre, reconstrói, inventa, define, retoma, repete, revive, reaviva, estabelece, trabalha e, não, nunca finaliza. Seu cérebro fervilha, pulsa, borbulha. Cada letra da carta que pensa em escrever é escrita e reescrita, mentalmente, centenas de vezes. Cada letra da frase que pretende dizer é dita em modelos mil, sempre reaperfeiçoados. Às 7h (se for persistente ou tiver plantão no dia, se não, bem antes), desiste de tentar dormir, levanta, calça as pantufas, acende a luz, pega um livro. Ou liga o computador e vai vomitar logo de uma vez tudo o que foi trabalhado na madrugada. Tão mais simples, quando acordada! Faz um capuccino, lê o jornal. Percebe que está zonza de sono, já são 9h, o plantão é às 11h, vale dormir uma horinha. Deita com o livro mais sonolento, mas, no meio das frases, relembra os motivos de preocupação da madrugada. Sono some. Desiste mesmo. E passa o resto do dia como um zumbi.

Essa cabra da peste costuma estar associada a grandes mudanças. O término de um grande amor. O fim de um casamento. A decisão de mudar de país, de profissão. A decisão de ter um filho. A descoberta de ter uma doença muito grave, fatal. Mas nem sempre: às vezes é só o cérebro nos atazanando mesmo.

Enfim, são esses os quatro tipos de insônia já catalogados no mundo. Já os tipos de sono são só dois: o bom e o ruim. Desejo a vocês bons sonos e, em caso de insônias, que desistam (bem) antes e tornem a madrugada mais produtiva e o dia mais longo 😉