‘Sobre a tirania’, de Thimothy Snyder: uma resenha concisa

Texto escrito por Douglas Garcia, professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e colaborador frequente deste blog, sobre o livro ‘Sobre a Tirania’:

1. Quem é o autor?

É o americano Thimothy Snyder, professor de história em Yale, escritor e ensaísta. Autor de diversos livros sobre história contemporânea, incluindo “Terra negra: o Holocausto como história e advertência”, de 2015.

2. De que trata o livro?

O tema e o formato do livro são anunciados em seu subtítulo: vinte lições do século XX para o presente. São vinte capítulos curtos, que trazem em seus títulos recomendações éticas e políticas (mas não partidárias, nem sectárias) de defesa da democracia, tais como “Defenda as instituições” (capítulo 2), “Acredite na verdade” (capítulo 10), e “Preste atenção a palavras perigosas” (capítulo 17) – sempre com o comentário de acontecimentos históricos do século XX que abalaram os princípios mais básicos de convivência democrática (com destaque para o nazismo). O livro foi publicado em 2017, isto é, no início do governo Trump nos Estados Unidos, e ele faz menções ao seu estilo político (especialmente sua relação com a mídia) e ao risco que ele pode representar às instituições democráticas americanas.

3. Por que vale a pena ler?

É um livro bem escrito, com propostas claras, e que pode ser lido como uma espécie de “manual de sobrevivência” em qualquer tempo e lugar onde instituições e práticas democráticas estejam sob assalto. Além disso, ele não é redutível a uma polarização totalizante de esquerda e direita, uma vez que é crítico tanto do nazismo quanto do stalinismo, dirigindo seu foco para pensar um mínimo denominador comum de práticas e instituições que sejam defensáveis por ambos os lados do espectro político, na medida em que se mostrem interessados em evitar a implosão da política democrática por um regime que concentre todo o poder na figura de um líder e de um partido.

4. Quais são as áreas de interesse relacionadas ao livro?

Este livro tem um apelo bastante amplo para diferentes leitores, não só àqueles acostumados à leitura de obras de história, mas também a todos interessados em saber mais sobre tendências antidemocráticas na política dos séculos XX e XXI, não só nos Estados Unidos, mas em nível global.

5. É um livro de leitura acessível?

É uma obra de leitura agradável, que não requer conhecimento especializado. Por reportar acontecimentos recentes, ela oferece um pano de fundo factual acessível. E por ser muito bem escrita, apresenta de modo claro suas ideias centrais.

Sobre a tirania: vinte lições do século XX para o presente
Autor: Thimothy Snyder
Tradução: Donaldson M. Garschagen
Editora: Companhia das Letras
Ano de publicação: 2017
168 páginas
Preço: R$ 29,90

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O agrônomo salvo, na ditadura, pelos censores do filme ‘Emmanuelle’

Texto escrito por José de Souza Castro:

Cena do filme “Emmanuelle”, de 1974, que salvou a vida de Wellington

Talvez o escritor mineiro que eu conheça mais bem seja Wellington Abranches de Oliveira Barros. Li todos os seus 19 livros. O último, “Brinde ao Cinquentenário de um Engenheiro Agrônomo”, li quentinho, recém-saído do forno. Ele confirma o dom de memorialista do autor, hoje com 75 anos. E de humorista.

É bem-humorado até com a burrice dos censores da ditadura militar de 1964. Sofreu na pele tal burrice ao se preparar para sua primeira viagem internacional, para fazer um curso na Espanha. Anos antes, em 1969, participara de um congresso de estudantes em Pelotas. Estava no último ano do curso de agronomia da Universidade Federal de Viçosa, cuja reitoria o liberou para apresentar lá um trabalho científico sobre a cultura da cebola. Fez a apresentação e aproveitou o resto do tempo para conhecer e se divertir naquela cidade gaúcha.

Mas, como outros estudantes considerados perigosos pelos censores, foi fichado por agentes da repressão e incluído no Livro Preto que tinha presença obrigatória nos aeroportos, para impedir embarques e evitar que o perigo vermelho brasileiro se espalhasse pelo mundo. Wellington descreve como se livrou:

“Tive que pedir socorro à Secretaria de Estado de Segurança Pública de Minas Gerais, que por sinal não impôs obstáculos, pois nessa época eu era Chefe de Gabinete da Secretaria da Agricultura, nomeado oficialmente pelo Governador do Estado. Era, portanto, ‘ficha limpa’. Tive até que arranjar atestado com o Reitor da Universidade Federal de Viçosa, comprovando que participei do tal evento com anuência da Universidade. Viajei, voltei e todo meu arquivo foi posteriormente desfeito de maneira oficial. Afinal, eu não era nenhum ‘ficha suja’.”

Nunca mais foi incomodado. E pôde, no resto da vida, conhecer 63 países. E a censura burra acabou salvando sua vida.

Certa vez, voltando de Roma, resolveu fazer uma escala em Madrid só para assistir ao filme “Emmanuelle“, lançado em 1974 e que ficou proibido no Brasil até 1979 pelos censores da ditadura. O avião do qual saíra no meio do trajeto para o Rio de Janeiro explodiu nas Ilhas Canárias. “Emmanuele me salvou. Poderia até ser título de um filme”, brinca o autor. “Como um Agrônomo cinquentenário, não poderia deixar de contar essa!”.

São muitos casos colecionados ao longo de 50 anos na profissão da qual se orgulha, pontilhada de empregos públicos bem remunerados, dos quais pediu demissão por duas vezes. Ambas, por receber ordens dos chefes do tipo faça rapidamente o que estou mandando, “querendo impor-me algo a contragosto e legalmente duvidoso”.

Sim, esse velho agrônomo tem muito a ensinar. “Há quem diz que a renúncia é sinal de fraqueza. Seja lá o que for, não me arrependo nem um milímetro de minhas renúncias”. Não, ele não escreve para Sergio Moro, o juiz federal que renunciou para servir ao governo Bolsonaro, de olho num “honroso” cargo de ministro da Justiça e quiçá ao cobiçado posto vitalício no Supremo Tribunal Federal.

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50 poemas para Marielle Franco descobertos numa feirinha cheia de gentileza

No vídeo que fiz no post de ontem, mostrei o livro “Um girassol nos teus cabelos“, com um desenho lindo de Marielle Franco estampado na capa.

Trata-se de um livro que comprei no festival Verbo Gentileza, que aconteceu no último fim de semana, na praça Floriano Peixoto, em BH.

(Aliás, além de brinquedos, shows, yoga e mais uma porção de coisas, tinha uma feirinha lá que era simplesmente demais. Este livro estava na banca da Quintal, editora de BH que só publica autora mulheres.)

Este livro me chamou a atenção nestes tempos duros que temos vivido, com gente até comemorando a morte de uma pessoa – não uma morte qualquer, mas um extermínio, um assassinato – apenas por pensar diferente.

Trata-se de 50 poemas que foram escritos por mulheres de várias partes do Brasil e reunidos numa antologia, como forma de homenagear e relembrar Marielle Franco e sua morte estúpida.

Ainda não tive tempo de ler todos, mas coloco abaixo o que mais gostei, até agora (mas foi difícil escolher um só), como convite para que todos busquem esta obra:

“mas por que querem
justificativa
[Qual?

Os tiranos
não se contentam com os corpos.
Ademais e além da morte,
eles querem
matar os mortos.”

(Michele Santos)

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‘A Vida Invisível de Eurídice Gusmão’: um livro sobre todas nós

“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão” é sobre um Rio de Janeiro dos anos 40. É sobre o conservadorismo da sociedade brasileira naquela época. É sobre, obviamente, a submissão das mulheres (ou a opressão dos homens) dentro daquele contexto. É sobre família. É sobre casamento. É sobre mãe e filhos. Mas é, sobretudo, sobre a submissão das mulheres (ou a opressão dos homens), naturalizada, entranhada na sociedade brasileira desde os anos 40.

Porque não é só sobre os anos 40. É sobre os 50, os 60. Sobre hoje, plenos anos 20 do século 21. Quase um século passou desde o retratado neste livro de Martha Batalha. Muita coisa mudou, mas quase nada mudou.

É menos difícil de as mulheres trabalharem, como tanto queria a inteligente Eurídice. Mas é tão comum quanto antes serem julgadas por questões de costumes. “Deu antes do casamento?” “É puta.” “Não casou na igreja?” “É vadia.” “Não seguiu o que estava no script?” “É burra.” Exótica, vá lá.

Curioso que nenhum desses rótulos é aplicado quando o julgado da vez é homem.

Este livro pequeno, de apenas 188 páginas (que são plenamente possíveis de ler em um só dia, mas que eu, com minha rotina extenuante trabalho-filho-filho-trabalho, levei quase um mês pra ler, poucas páginas por noite, logo antes de dormir), traz muitas passagens preciosas, e de linguagem ágil, fluida, coesa, que nos transporta para vidas de personagens que surgem do nada, sem pedir licença. Mas uma de minhas favoritas é esta:

“Que linda”, disse um anjo que estava por perto.

“Linda, eu?”, disse Filomena, e o anjo disse “linda sim, você”, e lhe entregou um espelhinho. Filomena viu sua pele perfeita e seus dentes brancos. Ficou tão feliz que deu um beijo no primeiro que viu na frente.

“Isso são modos, Filomena?”

“São modos sim, o senhor sabe que são!”, ela disse, gargalhando.

“Tá certo, Filomena”, disse São Pedro. “Seja bem-vinda. Seus oito anjinhos estão ali na frente te esperando.”

Ele sabia que sim, aqueles eram os modos no céu. São Pedro também riu muito quando chegou e viu sua própria cara limpa. Precisava ver como eram seus dentes na Terra. Ou suas marcas de sífilis.

Tem duas coisas de que eu gosto nesta passagem, em especial. Uma, o destaque para as pessoas que gargalham, as pessoas que sabem ser felizes e fazer o bem aos outros, mesmo quando não têm nem o mínimo. De todas as personagens espetaculares deste livro, Filomena ganhou um lugar especial no meu coração. Minha favorita, por sua leveza, por sua alma de Luiza.

A outra é o tapa na cara que a autora dá nos católicos mais ensandecidos, aqueles bem fanáticos mesmo, destes da era do Bolsonaro, que não se lembram das passagens da Bíblia que mostram Jesus abraçando prostitutas e mendigos com humildade e afeto. São Pedro tinha sífilis, diz a autora do livro, o que não tem nada a ver com a bondade de seu coração. Viva santa Filomena!

E Santa Guida! E Santa Eurídice! As duas protagonistas desta história, que tem várias histórias dentro de si, são irmãs mas quase opostas em personalidade, em destino, em objetivo de vida. Mas, ao mesmo tempo, têm tanto em comum – como, de resto, quase todas as mulheres, de todas as épocas, lugares e gerações.

Cena do filme.

Leio que Martha Batalha, a tataraneta do criador da cerveja Tupã (e autora deste livro incrível), largou a vida que levava para escrever um livro. Ou alternou a rotina que tinha com os tec-tecs da máquina de escrever. Este é seu livro de estreia. E o trem é tão bom que de cara já virou filme e o filme já ganhou um prêmio importante no mais importante prêmio do cinema mundial, o Festival de Cannes. Não é pouca porcaria, não!, diria (ou talvez dirá) minha mãe.

Já a Eurídice do livro de Martha tem ideias suficientes para livros dignos do Nobel e filmes dignos do Oscar e fica sempre empacada pelo marido tacanho, pela sociedade tacanha, pelo mundo apertado para as mulheres, que vigora até hoje. Eurídice tem potencial para conquistar o mundo. Sua irmã Guida também, à sua maneira. Mulheres guerreiras, inteligentes, lindas. Mas tolhidas. Como somos tantas de nós, com nossos potenciais represados.

Quantas décadas terão que se passar para que isso mude? Desconfio que todas, todas as décadas.

(E cada vez mais todas, com este mundo em retrocesso.)

“A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”
Martha Batalha
Companhia das Letras
188 páginas
De R$ 30.65 a R$ 47,90

 

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O romance de estreia de um engenheiro mineiro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Joaquim Cardozo, nascido em Recife em 1897, foi engenheiro, poeta, contista, dramaturgo e tradutor, mas parece nunca ter escrito um romance em seus 81 anos de vida. Até recentemente, eu não conhecia nenhum engenheiro brasileiro romancista. Hoje acabei de ler “Nós nos nós – joias em jogo”, romance de estreia do engenheiro mineiro Gilberto Scheffer. Calhamaço de mais de 680 páginas, o livro foi publicado pela editora mineira Ramalhete e pago, possivelmente, pelo próprio autor.

Lançado em dezembro passado no Minas Tênis Clube, do qual Gilberto é conselheiro e cantor no coral do clube, o livro não mereceu até agora, pelo que pude verificar, nenhuma resenha. Desconfio que resenhistas não se animem a ler um livro de 687 páginas escrito por autor estreante. Eu, que não sou resenhista, li porque minha mulher leu e gostou muito.

Confesso que também tive alguma dificuldade até para sustentar nas mãos enfraquecidas o peso do livro, dificuldade que fui superando com a leitura dinâmica feita em numerosos parágrafos, técnica aprendida em muitos anos de jornalismo. Foi com essa habilidade que pude escrever duas páginas do Jornal do Brasil sobre o livro da historiadora mineira Heloísa Starling que recebi às 11 da manhã na redação mineira da sucursal. À meia-noite, o texto já estava no Rio, por telex, para ser publicado daí a três dias, num domingo, na edição especial “31 de março – A revolução dos empresários”.

É verdade que “Os Senhores das Gerais – os Novos Inconfidentes e o Golpe de 1964”, de Heloísa Starling, tem 378 páginas, pouco mais da metade do calhamaço de que estou tratando. Eu lamentava, ao longo da leitura, que Gilberto Scheffer, nesses nossos tempos apressados, tenha ultrapassado em muito esse número.

Seu romance estaria mais apropriado, pelo volume, aos romances dos séculos 18 ou 19,  quando os leitores tinham mais tempo e disposição. “Nós nos nós” se parece com esses antigos romances. Não propriamente pelo primoroso estilo, mas pelo intricado da trama – os nós –, os mistérios e o desfecho, quando, nos capítulos finais, tudo vai sendo esclarecido, como nos livros de Agata Christie do século passado.

O bom é que nesses últimos capítulos eu pude dispensar, com muito gosto, a leitura dinâmica. Mereceram atenção maior de um leitor que, a essa altura, já estava conciliado com tantas traições de casais, com descrições meticulosas de exposições de joalherias e pinturas, em Bruxelas e Hong Kong, e no cotidiano de uma grande fábrica de joias localizada nessa ilha chinesa.

Reconheço que há quem goste de ler sobre o mundo dos ricos – o que não é o meu caso. Assim, talvez de boca em boca, o romance de Gilberto (ou Otreblig) será divulgado e lido a ponto de satisfazer o autor.

Teremos então um inédito romancista mineiro reconhecido. Como reconhecido é esse engenheiro sócio principal e administrador da Alpes Engenharia Ltda, de Belo Horizonte.

É esperar também que em seu próximo romance ele esteja tão seguro que possa ambientar sua trama no Brasil, com nomes brasileiros. Como fez o médico mineiro Guimarães Rosa, que, como diplomata e escritor, foi um cidadão do mundo, sem esquecer suas raízes mineiras.

Na estreia, faltou ao autor aquela ajuda que pode proporcionar uma boa editora. Quem sabe, numa segunda edição deste livro, Gilberto Scheffer encontre alguém que não se limite a receber um bom dinheiro pela encomenda.

“Nós nos Nós – Joias em Jogo”
Gilberto Scheffer
Ramalhete
687 páginas
Por R$ 60


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