A hora e a vez dos estudantes na defesa da democracia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ana Rita Trajano, sogra de minha filha Cris, emprestou-me um livro escrito pelo jornalista Américo Antunes: “Nós, que amamos a revolução”. Uma viagem ao passado recente – final dos anos 1970, quando o Brasil começava a ter esperança de vencer a ditadura e retomar o árduo caminho da democracia barrado pelo golpe de 1964. Democracia que vai sendo barrada de novo, repetindo-se a história como uma farsa, com o bufão Temer disputando os holofotes da TV com um punhado de juízes muito bem pagos, sabe-se lá por quem.

Escrito nos anos 80 numa máquina de escrever, o autor perdeu os originais, que só foram recuperados uma década depois. Finalmente, o romance do ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais foi publicado em 2016. Ana Rita foi ao lançamento em novembro daquele ano, no restaurante Casa dos Contos, em Belo Horizonte.

O tempo passado entre a redação do livro e sua chegada às minhas mãos foi nada mais que um átimo nos planos da História…

Quando os fatos históricos narrados por Antunes ocorreram, eu não participava do movimento estudantil, como fazia o autor. Mas me interessava muito pelo que os estudantes movidos a droga, sexo e, sobretudo, pelo ideal revolucionário vinham fazendo, pois eu era repórter do “Jornal do Brasil” (JB) que tudo fazia para furar o bloqueio da censura. Entre as coberturas memoráveis daquele tempo, destacava-se a do III Encontro Nacional dos Estudantes (III ENE), “duramente reprimido em Belo Horizonte, em junho de 1977”, lembra o autor.

Robertão, um dos personagens da ficção, afirma na página 67:

“Apesar da censura à imprensa, a repressão ao III ENE estava sendo tão brutal e escandalosa que não haveria como esconder os acontecimentos desse histórico dia quatro de junho de 1977 da sociedade brasileira. Déramos, enfim, um passo decisivo na luta pelas liberdades democráticas e ele terá profundas repercussões no país, comemorei satisfeito. Mais uma vez o ME (Movimento Estudantil) mostrava o seu papel estratégico de força auxiliar dos trabalhadores, de banda de música do movimento operário…”

No dia 4 de junho, a segunda chamada mais importante da primeira página do JB era esta: “Minas fecha Faculdade para impedir o Encontro”. O III ENE seria realizado naquele dia na Faculdade de Medicina da UFMG. Mesmo com a repressão anunciada, centenas de estudantes conseguiram furar o bloqueio policial, mas tiveram que se retirar, diante da ameaça de que o local seria invadido pelo Batalhão de Choque. Cerca de 800 estudantes foram recolhidos em ônibus na porta da Faculdade e levados para o Parque de Exposições da Gameleira, onde passaram a noite sendo ouvidos e fichados pelas polícias civil e militar.

Lembro-me que o JB deu grande espaço aos episódios daquele dia, mas infelizmente a edição do dia 5 de junho não está disponível na internet e nem em meus arquivos pessoais.

Américo Antunes, porém, fez uma extensa pesquisa, e quem se interessar por aquele momento da história vai encontrar em seu livro uma boa fonte. É uma história romanceada e, como não poderia deixar de ser, o leitor será brindado também com muito sexo e drogas que amenizavam ou intensificavam, dependendo do ponto de vista, as tensões da luta contra a ditadura.

Dois meses antes do III ENE, o general Ernesto Geisel havia baixado o Pacote de Abril, para evitar que a oposição à ditadura repetisse nas eleições de 1978 o êxito da última eleição, que pude descrever numa reportagem de duas páginas no JB com um título maroto (“Votos de 74 talvez não tenham dado eleitores ao MDB”) bolado pelo então editor de política, Elio Gaspari, para tentar sossegar os milicos linha dura. O texto ocupa 10 páginas do livro “O caçador de estrelas e outras histórias”, disponível na biblioteca deste blog, e se baseava num estudo de professores e cientistas políticos de 11 Estados publicado pela “Revista Brasileira de Estudos Políticos da Universidade Federal de Minas Gerais”. A reportagem assinada por mim foi publicada no primeiro caderno do JB no dia 5 de setembro de 1976.

Uma das queixas dos líderes estudantis, em 1977, era sobre a apatia política da classe operária. Marcos, um deles, na ficção de Antunes, diz lá na página 179, analisando os avanços obtidos desde o III ENE:

“Mas a verdade é que vivemos uma nova realidade política mesmo, e 79 será um ano de avanços maiores ainda, pode escrever Andréa! Nesse ano nós vamos reconstruir a UNE no congresso de Salvador. E Lula e os sindicalistas do ABC já viram que não dá pra conquistar melhores salários e condições de trabalho dignas sem derrubar a sociedade de exploração, imposta pelos patrões e pelo governo deles. Após as greves, eles estão defendendo a criação de um Partido dos Trabalhadores! Um puta avanço, e estamos firmes no movimento pró-PT! O AI 5 também caiu de podre e os exilados já começaram a voltar para o Brasil! Você viu os jornais da virada do ano? Um barato! Todos eles deram manchetes enormes sobre o fim do AI 5! Até guardei o JB…”

Bem, chegou o momento de remeter ao último artigo da nora da Ana Rita Trajano, que é mãe do Beto e avó do Luiz pelo lado paterno. Luiz que, aos 2 anos, tem um longo futuro pela frente, se o Brasil conseguir superar o momento desastroso de hoje, sem maiores tumultos sociais e crises econômicas.

Que o movimento estudantil, mais uma vez, seja a banda de música do movimento operário, para o bem da maioria dos brasileiros.

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Dois narradores, duas épocas, um livro poderoso e comovente

Uma narradora com 100 anos de idade, que mora em um asilo/hospício há pelo menos 70 anos. E resolve escrever secretamente sobre sua vida e sobre o que levou a esse confinamento. Apesar de tão idosa, ela é extremamente lúcida, inteligente, saudável, do tipo que não precisa nem de óculos para ler. Sua narrativa é suave, filosófica, e, como em toda memória que se preze — ainda mais de quem viveu muitas histórias –, às vezes se perde em meandros e devaneios, embora logo recupere o fio da meada.

Esta é Roseanne e passamos as 350 páginas ansiosos para conhecê-la melhor.

O segundo narrador da história é o doutor Grene, meia-idade, médico do asilo onde vive Roseanne. Ele tem a mesma necessidade de saber um pouco mais sobre a história de sua paciente, movido por uma curiosidade que, no começo, até custamos a entender, mas que aos poucos vai fazendo sentido. Ele também se perde em devaneios durante seus relatos, mesclando o que descobriu de Roseanne com seu dia a dia em casa, onde vive com a mulher, num estado de casamento-divorciado.

Mais do que isso eu não gostaria de contar, porque o mais instigante deste livro é justamente o suspense em torno da história de Roseanne, tão maravilhosamente mantido por essa estrutura de narrativa em dupla e pelo jeito que ela tem de contar as coisas de forma sempre parcelada, como quem lembra e logo se esquece, e vai lembrar de continuar o “causo” apenas dias depois.

Além de serem dois narradores muito diferentes entre si, o que leva a história a mudar de enfoque a todo momento, são também dois tempos muito distantes que se entrelaçam com frequência: o passado remotíssimo em que Roseanne viveu sua juventude (e a parte mais emocionante do livro, para mim, foi da infância dela e do carinho que tinha pelo pai) e o presente que a gente fica querendo entender, intrigados. Pra melhorar tudo, as duas versões da mesma histórias às vezes se contradizem, e ficamos em dúvida sobre no que acreditar, em quem acreditar. No fim, fiz minha escolha.

O autor deste livro, Sebastian Barry, Continuar lendo

Livro de um aposentado feliz

 

Texto escrito por José de Souza Castro:

Conheço um brasileiro de 73 anos de idade feliz com sua aposentadoria. Ele se chama Wellington Abranches de Oliveira Barros. A felicidade transparece em seu 17º livro, “Dúvidas e Dívidas”. Pelo menos 12 desses livros foram escritos depois que se aposentou aos 60 anos e aprendeu que “o importante é saber aproveitar bem cada etapa da vida, de preferência, sem dívidas”.

Sem dívidas, talvez, porque não se aposentou pelo INSS, e sim por algum dos empregos públicos que teve, incluindo o de professor da Universidade Federal de Viçosa, onde se formou engenheiro agrônomo.

Eu o conheci em 1975 na Secretaria de Agricultura de Minas, onde ele era chefe de gabinete e eu assessor de imprensa, por nove meses, antes de ser chamado de volta ao Jornal do Brasil. Na época, eu me deliciava com os casos contados por Wellington – um contista nato, nascido numa pequena fazenda próxima de Viçosa, na Zona da Mata mineira.

Não conhecia seu dom de escritor, que fui descobrindo na medida em que ele publicava seus livros para dar de presente aos amigos. O último, eu o recebi há alguns dias pelo correio. Em poucas horas, li suas 70 crônicas e artigos. Todos bem escritos e concisos. Quase sempre, finalizados com singela trova ou quadrinha. O autor parece ter aprendido a arte de trovador com Fernando Sabino. A última: Continuar lendo