Os 100 melhores livros que li nos últimos 20 anos

Depois de muito tempo sem entrar direito no GoodReads, a rede social de leitores, sobre a qual já falei aqui em 2015, resolvi atualizar a listinha que mantenho lá, minha “estante”, acrescentando os melhores livros que eu li nos últimos dois anos, quando havia ficado um vácuo.

Acabei chegando, até agora, a 100 livros, lidos entre 1997 e hoje. Só registrei ali meus favoritos, com 4 ou 5 estrelinhas.

Recomendo todos eles, mas é importante ver o campo “data em que foi lido”, já que os livros aparecem na ordem em que foram acrescentados à estante e não quando foram realmente lidos. Afinal, o gosto para literatura que eu tinha aos 12 anos de idade é um bocado diferente do que tenho hoje, aos 33…

Mas ficam como sugestão para todos que passarem aqui no blog, em várias faixas etárias 😉 Tem pra todos os gostos e gêneros! Clique na imagem para acessar os detalhes de todos os livros: Continuar lendo

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‘A Casa do Céu’: otimismo e fé são ferramentas de sobrevivência

Enquanto eu lia “A Casa do Céu”, especialmente as páginas mais finais, só me pegava pensando: “Como ela saiu dessa? Espero, de verdade, que hoje esteja bem”. Eu sabia que Amanda Lindhout, a autora, tinha sobrevivido ao sequestro na Somália — afinal, ela tinha que estar bem, inclusive psicologicamente, para conseguir escrever este livro, cinco anos depois. Quis interromper a leitura várias vezes para acessar o Google e me certificar de que hoje ela estaria saudável e feliz. Mas não fiz isso: fui me submetendo a cada uma das 445 páginas, cheias de suspense e algumas bem difíceis de suportar, com as descrições detalhadas de como Amanda foi torturada e estuprada várias e várias vezes por seus captores.

Amanda e Nigel quando eram apenas amigos aventureiros, antes de serem capturados na Somália em 2008.

Apesar desse suplício, “A Casa do Céu” não é um livro difícil de ler. Não é tampouco um livro que trata apenas de dor. Por incrível que pareça, trata também de compaixão, perdão e tolerância e resiliência. A casa do céu é o refúgio que Amanda criou em sua mente para suportar o sofrimento que viveu em várias outras casas pelo interior da Somália, para as quais ela e Nigel, seu amigo australiano raptado junto, foram levados ao longo daqueles 15 meses de cativeiro.

Amanda é mostrada como uma pessoa de espírito realmente elevado. Sua confiança e otimismo a levaram a percorrer algumas das áreas mais perigosas do mundo, como o Iraque e o Afeganistão. Sua ambição em ser alguém na carreira de jornalista que ela inventou para si a levou para o lugar mais perigoso do mundo: a Somália. E lá ela conseguiu sobreviver por tanto tempo graças a uma capacidade impressionante de não desistir da vida e inventar maneiras de enxergar possibilidades boas diante de infortúnios terríveis. Jejuar para comer mais.

Quando finalmente terminei de ler o livro, descobri que hoje Amanda é uma jovem de 36 anos que se tornou liderança, recebeu prêmios, deu discursos importantes e criou uma organização humanitária para ajudar justamente as crianças na Somália. Ela poderia ter se escondido em sua casinha, junto da família, para curar o estresse pós-traumático – e isso seria extremamente legítimo e provavelmente o que eu teria feito na mesma situação. Mas, não: ela foi curar o trauma tentando salvar, como uma gota num oceano, um dos países mais caóticos do planeta. Se isso não é ter um espírito elevado, eu não sei o que é. Ela ganhou uma fã. Bom, provavelmente, ganhou milhares de fãs, já que seu livro foi aclamado pela crítica e ficou entre os mais vendidos por um tempão.

Amanda e Nigel depois de soltos, em 2009, muito mais magros. No cativeiro eles se converteram ao islã para tentarem ser mais bem tratados pelos sequestradores.

Não se preocupem em pensar que estraguei a história: o fato de que Amanda foi sequestrada, ficou em cativeiro por 460 dias e depois foi libertada está até na orelha do livro. Continuar lendo

A hora e a vez dos estudantes na defesa da democracia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ana Rita Trajano, sogra de minha filha Cris, emprestou-me um livro escrito pelo jornalista Américo Antunes: “Nós, que amamos a revolução”. Uma viagem ao passado recente – final dos anos 1970, quando o Brasil começava a ter esperança de vencer a ditadura e retomar o árduo caminho da democracia barrado pelo golpe de 1964. Democracia que vai sendo barrada de novo, repetindo-se a história como uma farsa, com o bufão Temer disputando os holofotes da TV com um punhado de juízes muito bem pagos, sabe-se lá por quem.

Escrito nos anos 80 numa máquina de escrever, o autor perdeu os originais, que só foram recuperados uma década depois. Finalmente, o romance do ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais foi publicado em 2016. Ana Rita foi ao lançamento em novembro daquele ano, no restaurante Casa dos Contos, em Belo Horizonte.

O tempo passado entre a redação do livro e sua chegada às minhas mãos foi nada mais que um átimo nos planos da História…

Quando os fatos históricos narrados por Antunes ocorreram, eu não participava do movimento estudantil, como fazia o autor. Mas me interessava muito pelo que os estudantes movidos a droga, sexo e, sobretudo, pelo ideal revolucionário vinham fazendo, pois eu era repórter do “Jornal do Brasil” (JB) que tudo fazia para furar o bloqueio da censura. Entre as coberturas memoráveis daquele tempo, destacava-se a do III Encontro Nacional dos Estudantes (III ENE), “duramente reprimido em Belo Horizonte, em junho de 1977”, lembra o autor.

Robertão, um dos personagens da ficção, afirma na página 67:

“Apesar da censura à imprensa, a repressão ao III ENE estava sendo tão brutal e escandalosa que não haveria como esconder os acontecimentos desse histórico dia quatro de junho de 1977 da sociedade brasileira. Déramos, enfim, um passo decisivo na luta pelas liberdades democráticas e ele terá profundas repercussões no país, comemorei satisfeito. Mais uma vez o ME (Movimento Estudantil) mostrava o seu papel estratégico de força auxiliar dos trabalhadores, de banda de música do movimento operário…”

No dia 4 de junho, a segunda chamada mais importante da primeira página do JB era esta: “Minas fecha Faculdade para impedir o Encontro”. O III ENE seria realizado naquele dia na Faculdade de Medicina da UFMG. Mesmo com a repressão anunciada, centenas de estudantes conseguiram furar o bloqueio policial, mas tiveram que se retirar, diante da ameaça de que o local seria invadido pelo Batalhão de Choque. Cerca de 800 estudantes foram recolhidos em ônibus na porta da Faculdade e levados para o Parque de Exposições da Gameleira, onde passaram a noite sendo ouvidos e fichados pelas polícias civil e militar.

Lembro-me que o JB deu grande espaço aos episódios daquele dia, mas infelizmente a edição do dia 5 de junho não está disponível na internet e nem em meus arquivos pessoais.

Américo Antunes, porém, fez uma extensa pesquisa, e quem se interessar por aquele momento da história vai encontrar em seu livro uma boa fonte. É uma história romanceada e, como não poderia deixar de ser, o leitor será brindado também com muito sexo e drogas que amenizavam ou intensificavam, dependendo do ponto de vista, as tensões da luta contra a ditadura.

Dois meses antes do III ENE, o general Ernesto Geisel havia baixado o Pacote de Abril, para evitar que a oposição à ditadura repetisse nas eleições de 1978 o êxito da última eleição, que pude descrever numa reportagem de duas páginas no JB com um título maroto (“Votos de 74 talvez não tenham dado eleitores ao MDB”) bolado pelo então editor de política, Elio Gaspari, para tentar sossegar os milicos linha dura. O texto ocupa 10 páginas do livro “O caçador de estrelas e outras histórias”, disponível na biblioteca deste blog, e se baseava num estudo de professores e cientistas políticos de 11 Estados publicado pela “Revista Brasileira de Estudos Políticos da Universidade Federal de Minas Gerais”. A reportagem assinada por mim foi publicada no primeiro caderno do JB no dia 5 de setembro de 1976.

Uma das queixas dos líderes estudantis, em 1977, era sobre a apatia política da classe operária. Marcos, um deles, na ficção de Antunes, diz lá na página 179, analisando os avanços obtidos desde o III ENE:

“Mas a verdade é que vivemos uma nova realidade política mesmo, e 79 será um ano de avanços maiores ainda, pode escrever Andréa! Nesse ano nós vamos reconstruir a UNE no congresso de Salvador. E Lula e os sindicalistas do ABC já viram que não dá pra conquistar melhores salários e condições de trabalho dignas sem derrubar a sociedade de exploração, imposta pelos patrões e pelo governo deles. Após as greves, eles estão defendendo a criação de um Partido dos Trabalhadores! Um puta avanço, e estamos firmes no movimento pró-PT! O AI 5 também caiu de podre e os exilados já começaram a voltar para o Brasil! Você viu os jornais da virada do ano? Um barato! Todos eles deram manchetes enormes sobre o fim do AI 5! Até guardei o JB…”

Bem, chegou o momento de remeter ao último artigo da nora da Ana Rita Trajano, que é mãe do Beto e avó do Luiz pelo lado paterno. Luiz que, aos 2 anos, tem um longo futuro pela frente, se o Brasil conseguir superar o momento desastroso de hoje, sem maiores tumultos sociais e crises econômicas.

Que o movimento estudantil, mais uma vez, seja a banda de música do movimento operário, para o bem da maioria dos brasileiros.

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