Cenas do busão em Beagá

“Só” três baratas no chão do busão… Dentre várias que passaram por ali. (Foto: CMC / reprodução do G1 Minas, publicação de 30.10.2012)

Fazia muito tempo que eu não tinha necessidade de usar ônibus diariamente, de casa pro trabalho. Em São Paulo, morava a dez minutos a pé do jornal. Antes de ir pra lá, tinha um carro em Beagá, que era obrigada a usar pra conciliar meus horários malucos de trabalho, faculdade e estágio simultâneos. Talvez por isso eu esteja estranhando várias coisas na rotina de pegar ônibus e talvez por isso me impressione com situações que, aos olhos dos outros passageiros, são absolutamente banais.

Mas nem por isso, por serem banais, tornam-se menos graves.

Acrobacia no busão
Dia desses o ônibus atrasou. Geralmente passa às 7h15, e chego numa boa no serviço às 8h. Mas, naquele dia, só chegou às 7h40. Estava, obviamente, lotado. Transbordando. Os passageiros já se esmagavam contra a porta do motorista e olharam pra mim como quem diz: “Minha filha, nem tenta. Não te cabe.” Mas não quis nem saber. Eu já ia chegar atrasada, queria atrasar o mínimo possível. Murchando a barriga, dando braçadas no ar como se estivesse mergulhando, consegui enfim entrar. Pus a bolsa sobre a caixa de marcha do motorista, dobrei as costas em L, numa posição que não deve existir nem no yoga, fiz um contorcionismo com o braço e as mãos e fui. Nem me preocupei em ter um lugar para segurar, porque eu não estava conseguindo me mexer mesmo. Aliás, queria ter conseguido fazer uma foto da cena, mas tirar a câmera ali seria missão impossível. Mas foram só 3km e uma dezena de pontos até que metade do ônibus fosse desovada no centro da cidade e eu pudesse respirar normalmente de novo até a outra ponta da cidade.

Esses atrasos já aconteceram algumas vezes, duas delas com essa quantidade de minutos e de pessoas abarrotando-se para compensar a demora na chegada ao trabalho.

Hoje, o ônibus que peguei para voltar quebrou. Nem bem entrei e já tive que sair, para esperar um seguinte. Equivaleu ao atraso de uns 20 minutos, sob um sol de no mínimo 89ºC, mas acontece.

Um funk muito louco
Outro dia, um sujeito mal-encaradíssimo ligou um funk no talo dentro do busão. A letra da “música” falava alguma coisa sobre iogurte, com conotação sexual. O cara era tão estranho, cheio das imagens de caveiras e com um bico mal-humorado do tamanho do de um tucano, que ninguém teve coragem de mexer com ele, pedir para abaixar o volume, muito menos olhar feio para ver se ele tinha algum desconfiômetro. Claro que não tinha. Lasquei um “Luísa”, versão do Chico Buarque, no máximo do volume do meu fone de ouvido, pra ver se a lua boiando no céu, imensa e amarela, conseguia superar a gritaria ao lado e acalmar meu cérebro. Antes de descer em seu ponto, para alívio de todos, o sujeito ainda fez umas duas flexões verticais na “barra” no teto do ônibus. Tipo assim: não-tou-nem-aí-sou-mau-mesmo. Afe.

Cola de sapateiro
No dia seguinte àquele, um homem completamente bêbado entrou pela porta do meio do ônibus, sem pagar na catraca, e se sentou ao meu lado, de frente para a trocadora. Ficou gritando “Voxxxê é gentchi finaa!” e pegando nela toda hora e gritando no meu ouvido algumas palavras incompreensíveis. Mudei de lugar. A trocadora gritou, impaciente: “Não vou te aguentar aqui não! Você tá puro solvente! Tá me matando de dor de cabeça!” Ele não estava só bêbado, então. Depois que a trocadora disse isso duas vezes, ele gritou mais algumas coisas e desceu pela porta em que entrou. Ela respirou aliviada e bufou algo contra a profissão.

Multidão de passageirinhas
Tudo já me parecia suficientemente surreal, muito diferente do que eu me lembrava dos tempos em que pegava busão diariamente de casa até a faculdade, mas ficou pior ainda no último domingo.

Eu estava distraída, feliz por estar num ônibus vazio, na volta do plantão, quando senti uma cosquinha na minha perna. Olhei pra baixo e vi que o chão do ônibus estava lotado de baratas e uma delas já estava na altura da minha coxa. Minha primeira reação foi saltar do banco, aos pulos. Depois, olhei ao redor, pra ver se ninguém mais tinha notado, mas os homens, de calça jeans e tênis, aparentemente não ligavam muito para aqueles insetos subindo nas pernas deles. O banal virou cômodo? Achei um jeito de sentar sem encostar os pés no chão e fiquei observando freneticamente e paranoicamente ao meu redor. Uma, duas, três… A cada parada do ônibus, dezenas de baratinhas saíam das frestas e corriam de um lado para o outro, subiam pelos bancos, impassíveis. Tirei a câmera que sempre está comigo e comecei a fotografar.

No dia seguinte, comecei a apurar a matéria que saiu publicada ontem. Eu já tinha feito matéria sobre ônibus com baratas, com idade ultrapassada e demais problemas, quando eu estava em São Paulo. Para aquela apuração, peguei o busão que era apontado como o pior pelos usuários e acompanhei a rotina de uma pessoa que sai da zona leste paulistana, todos os dias, em direção ao centro. No dia daquela pauta, demos a sorte (ou azar, talvez) de não vermos nem atraso, nem sujeira, nem baratas, nem superlotação.

Mas em Beagá, as histórias saltam aos meus olhos, dia após dia. E ainda vão render muitos posts por aqui, como os ônibus interestaduais já rendiam. Vejam bem: são só três semanas e já enchi este post com situações bizarras. Podem aguardar pelo manual de guerra dos passageiros de ônibus, em elaboração 😉

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A história de uma dívida impagável

Texto escrito por José de Souza Castro:

O Portal da Transparência do Estado de Minas Gerais não informa o total da dívida do Estado com a União, mas revela que o governo Antonio Anastasia (PSDB) gastou nos primeiros nove meses deste ano R$ 1,59 bilhão com a amortização da dívida e mais R$ 1,70 bilhão com o pagamento de juros e encargos dessa dívida. Isso dá, em média, R$ 366,56 milhões por mês.

A primeira questão: por que o governo tucano mineiro esconde do público o valor atual da dívida contraída quando o governador Eduardo Azeredo se curvou às exigências do governo federal, que tinha à frente o também tucano Fernando Henrique Cardoso, para renegociar as dívidas do Estado que eram roladas diariamente no mercado financeiro?

A segunda questão: por que uma dívida que somava R$ 18,6 bilhões em 31 de dezembro de 1998, quando Azeredo deixou o governo porque não conseguiu se reeleger, mesmo usando recursos públicos na campanha eleitoral, chegou a um patamar tão alto que o atual governador julga prudente não revelar?

Quem quiser conhecer a história desse endividamento pode ler o livro de Durval Ângelo “O voo do tucano”, publicado em 1999 pela editora O Lutador, de Belo Horizonte. Está disponível em PDF na Internet, nos seguintes endereços:

Quando o então deputado petista Durval Ângelo fazia na Assembleia Legislativa oposição ao governo estadual, o presidente da Casa era Anderson Adauto (PMDB), que acaba de ser inocentado pelo Supremo no julgamento do chamado mensalão petista, enquanto o hoje deputado Eduardo Azeredo espera a vez de ser julgado pelo mensalão tucano. Adauto foi o autor do prefácio do livro, e escreveu, em 1999:

“No caso de Minas Gerais, o dispêndio com a administração da dívida era, em média, de R$ 8 milhões por mês. Hoje a amortização e os juros consomem mais de R$ 80 milhões mensalmente”.

Hoje, como vimos, ultrapassam os R$ 366,56 milhões por mês. E o governo garante que tem feito as amortizações rigorosamente em dia. É o milagre brasileiro da multiplicação dos pães.

Já que entramos nessa área milagrosa, outro trecho do livro escrito há 13 anos e que tem tudo para ter um interesse renovado: “O governo Azeredo encontrou uma dívida flutuante de R$ 903 milhões. Em dezembro de 1988, ela já era três vezes maior: R$ 3,3 bilhões”.

Terceira questão: como pode isso acontecer, se nesses quatro anos de governo Azeredo fez tudo que seu mestre mandava? Por exemplo, vendeu 33% das ações da Cemig a empresas estrangeiras que passaram, apesar de minoritárias, a comandar a estatal; e embolsou R$ 713 milhões com a venda do Bemge e do Credireal.

A resposta para isso se encontra no livro de Durval Ângelo. Sim, Durval – o candidato petista a prefeito de Contagem derrotado no último domingo por Carlin Moura, do PCdoB, apoiado pelo ex-prefeito e ex-governador Newton Cardoso (que se tornou nacionalmente famoso por sua honestidade em cargos públicos). E Anderson Adauto, atual prefeito de Uberaba, viu seu candidato à sucessão pelo PMDB, deputado federal Paulo Piau, vencer o candidato apoiado pelo senador tucano Aécio Neves, Antônio Lerin, do PSB. O derrotado Lerin disse que o adversário Piau comprou votos e vai entrar na Justiça para anular o resultado das eleições na cidade.

São as voltas que a história dá.

São Paulo em chamas

São Paulo vive uma explosão de homicídios. Uma guerra civil entre policiais e membros do PCC toma conta das ruas da cidade, com mortes a cada dia. 12 mortos em uma só madrugada. 22 baleados no fim de semana. E segurança é da alçada do governo estadual, não do prefeito. Mas imagino como está o clima entre os paulistanos e quase desejo os pêsames ao petista Fernando Haddad.

O clima, aliás, foi bem retratado em duas charges do gênio Angeli, publicadas com um intervalo de apenas cinco dias na “Folha de S.Paulo”:

Enquanto isso, quem faz o serviço de informar aos leitores quem são os bandidos e quem são os mocinhos, separando nominalmente cada um, tem que se esconder fora do país para proteger a própria vida.

Já falei do Caramante duas vezes neste blog: aqui e aqui. Mas ainda não tinha indicado a leitura da entrevista que a repórter Eliane Brum fez com ele. Leiam AQUI, sem falta.

Quando a divulguei em meu Facebook, fiz o seguinte comentário: “Apesar de eu ter certeza de que o admirável André Caramante e sua família seguirão firmes e fortes na luta/serviço que prestam à sociedade, não posso deixar de ter vontade de chorar quando leio um relato como este, organizado pela Eliane Brum. Caramante escondido, para preservar sua família, e Telhada eleito em São Paulo, e o delegado Edson Moreira, do caso do José Cleves, eleito em Belo Horizonte. É uma inversão de valores, uma regressão absurda, e um risco à democracia e ao direito de informar. Choro pelo Caramante, por imaginar o quanto ele deve estar sofrendo por trabalhar de forma mais limitada, o quanto deve estar preocupado e tenso por sua família. Mas também choro por vivermos num Brasil com esses valores e por ver pessoas das mais esclarecidas, de todos os matizes ideológicos, pregando o fim e o cerceamento da imprensa, atirando palavras ignorantes contra o trabalho de jornalistas honestos, prejudicando tantas pessoas com essa atitude. Registro aqui meu imenso desprezo por esses “ativistas de sofá”, que atacam com um ódio burro e fanático, protegidos por um suposto anonimato, e, com isso, incitam reais criminosos com acesso ao poder. Toda força ao Caramante e aos seus queridos. Esperemos que as coisas melhorem algum dia, para o bem da nossa sociedade.”

A volta da Barbearia de Blues

Depois de cinco anos interrompida, Barbearia de Blues volta a funcionar em Beagá 🙂

Já falei aqui sobre as barbearias de blues, que frequentei em 2007 e me inspiraram a criar um programa de rádio na época. Aconteciam todos os sábados, a partir das 17h, e ali fiz alguns dos meus grandes amigos de hoje.

Quando me mudei para São Paulo, coincidiu de todos os frequentadores mais assíduos da barbearia também começarem projetos pessoais que tomavam todo o tempo e, além do mais, de o bar onde nos encontrávamos ter fechado as portas. Assim, a barbearia ficou interrompida por quase cinco anos.

Com muita alegria, recebi o convite para a reinauguração da ideia, neste sábado, 27 de outubro. E lá fui eu, às 17h. Contei vinte pessoas alegrando a oficina de luthieria do Henrique, dois com violão e guitarra, uns quatro munidos de gaitas e pelo menos um vozeirão maravilhoso de uma Etta James mineira.

Foi, como sempre, excelente. Alguns tocando na jam, todos ouvindo e sugerindo músicas, amizades novas se formando, gente arriscando gaitear pela primeira vez e muito papo furado depois até umas 22h.

Nunca tivemos uma boa estrutura para as barbearias, mas, pela primeira vez, temos um lugar ótimo, com direito a ar condicionado (BH está parecendo um forno), geladeira, sofazinho e banquetas e um quintal ao ar livre. Virou um espaço agradável pra todo mundo, inclusive pros papais que tiveram que levar seus bebês.

Não perdi a oportunidade e defini com o pessoal que, agora, retomaremos a barbearia todo último sábado de cada mês, sempre ali, sempre às 17h. E o bom é que ela é de graça, aberta para qualquer um que goste de boa música e mais aberta ainda para os que sabem tocar ou querem aprender melhor algum instrumento musical. Não é nenhum compromisso obrigatório e haverá os dias com cinco pessoas e os outros com 35, como era antes. Mas o importante é que estará ali, à disposição de quem quiser aparecer.

De qualquer forma, vale entrar na página do Facebook e acompanhá-la, porque qualquer imprevisto ou mudança de data será informada por ela: https://www.facebook.com/BarbeariaDeBlues.

Apareçam! 😀

O peixe é meu e o prefeito é de vocês

Como eu já vinha dizendo desde muito tempo atrás, Serra atingiu um teto e dele não passa nem pra eleição de síndico.

Se Haddad será bom ou ruim para São Paulo, só o tempo dirá. Mas que será o prefeito, disso não tenho a menor dúvida há meses.

Um dia volto a criar um blog de análise política, porque acho que levo jeito pra coisa 😉