Tuiuti, a campeã moral do Carnaval carioca

Texto escrito por José de Souza Castro:

Na tarde desta quarta-feira de cinzas, a leitura de artigo de Kiko Nogueira, diretor do Diário do Centro do Mundo, antes de conhecidos os vencedores do Carnaval carioca, lembrou-me uma passagem de meus tempos de repórter de “O Globo”, meses antes das eleições municipais de 1992.

Soube por um jornalista nascido em São Lourenço, Manoel Marcos Guimarães, que um neto do famoso bicheiro carioca Tenório Cavalcanti, o “Homem da Capa Preta”, filme de 1986 estrelado por José Wilker no papel do bicheiro, era candidato a prefeito. Natalício Tenório Cavalcanti Freitas Lima, o neto, tinha grandes chances de ganhar, pois estava gastando muito dinheiro na campanha. Newton Cardoso, quando governador de Minas, entre 1987 e 1991, havia facilitado a penetração dos bicheiros cariocas em São Lourenço e outras estâncias do Sul de Minas.

Depois de entrevistar moradores, cheguei ao neto de Tenório. Natalício relutou em me dar entrevista, e, depois de ouvir minhas perguntas, avisou: “Você está perdendo seu tempo: vou telefonar para meu tio, que é amigo do Dr. Roberto Marinho, e a reportagem não será publicada”.

Caprichei, mesmo assim. Na noite de sábado, a TV Globo anunciou a minha, entre as principais reportagens do jornal de domingo. Soube depois que ela seria publicada na página 3. Mas, no lugar dela, saiu um calhau de página inteira. Calhau é um anúncio frio, do próprio jornal, que fica na gaveta para ser publicado no lugar de uma reportagem retirada na última hora. Liguei para o editor, e ele me disse: foi ordem do próprio Roberto Marinho. Ele viu a chamada na tevê, ligou para o jornal e mandou tirar.

Mas por que me lembrei disso? Porque Kiko Nogueira contava “como eram os réveillons no triplex de Roberto Marinho em Copa, vendido ao bicheiro Aniz Abraão, patrono da Beija Flor”. Começa assim:

“A Globo curtiu a Beija Flor e seu enredo lavajateiro do Carnaval. A relação da emissora com a escola é muito antiga. São instituições cariocas. Em 2014, Boni foi tema. Ficou em sétimo lugar.

O bicheiro Aniz (Anísio) Abraão David, patrono da agremiação, comprou uma cobertura de 2 mil metros quadrados em Copacabana, na Avenida Atlântica, que era de Roberto Marinho. Em 2011, ela foi invadida por policiais civis na Operação Dedo de Deus.

Estadão aproveitou a ocasião para contar como eram os réveillons mais chiques do Rio de Janeiro no tempo em que o doutor Roberto era dono do imóvel”.

E mais não digo, porque o texto merece ser lido na íntegra AQUI.

Depois de anunciado que a Beija Flor havia sido eleita campeã, Kiko Nogueira escreveu  outro artigo, sustentando que a verdadeira campeã é a Tuiuti, que ficou em segundo lugar.

Não acompanhei os desfiles, não entendo de Carnaval e não tenho como opinar. Mas, julgando pelos enredos das duas escolas, tendo a concordar com Kiko Nogueira. Eu não saberia escrever tão bem assim, como ele: Continuar lendo

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Lenda eleitoral no interior de Minas

Foto: Wikimedia Commons

Câmara Municipal de Bom Despacho. Foto: Wikimedia Commons

Texto escrito por José de Souza Castro:

Confesso: nestas eleições, quase fiz parte dos mais de 40% dos eleitores de Belo Horizonte que não votaram em ninguém, ou porque se ausentaram ou porque preferiram anular o voto ou votar em branco. Na última hora, resolvi votar, sabendo que para o segundo turno seriam eleitos, não com o meu voto, os candidatos João Leite, do PSDB, e Alexandre Kalil, do PHS.

Depois li que boa parte dos 144 milhões de eleitores não se animou a sair de casa no domingo para votar. Coitados dos quase 500 mil candidatos espalhados pelos municípios brasileiros… Analisando o fenômeno, o professor Wanderley Guilherme dos Santos concluiu: “Ninguém, rigorosamente ninguém, tem a confiança sólida de eleitor”.

Pensei: se eu residisse em Bom Despacho, como moraram meus avós maternos e ainda moram inúmeros tios, primos, sobrinhos, cunhados e uma irmã – a outra, que criou sua família ali, já morreu –, não teria dúvida: eu votaria em Fernando Cabral, e não só por ser meu primo. É um dos 12 filhos do tio Totonho, o contador de histórias. Continuar lendo

O triste fim de Hélio Garcia e seu fiel escudeiro

Foto: Isa Nigri / O Tempo

O ex-governador Hélio Garcia. Foto: Isa Nigri / O Tempo

Texto escrito por José de Souza Castro:

Interditado pela família em 2006 por incapacidade de gerir seus bens em razão do mal de Alzheimer, entre outras doenças, Hélio Garcia viveu 10 anos em quase total esquecimento, até morrer aos 85 anos, na manhã da última segunda-feira (6), e receber as homenagens de praxe devidas àquele que, em seu auge, quando governador, chegou a ser chamado de “Imperador das Gerais” numa reportagem laudatória do “Jornal do Brasil”.

Desde a morte, muito se disse de Hélio Garcia. Vou dar minha contribuição, procurando fugir um pouco das lembranças de políticos que se manifestam nessas horas. Lembranças que, em geral, não prestam homenagem à realidade. Para as minhas, me vali em parte do livro “Sucursal das Incertezas”, disponível para leitura e download gratuito na biblioteca deste blog. Continuar lendo

A história de uma dívida impagável

Texto escrito por José de Souza Castro:

O Portal da Transparência do Estado de Minas Gerais não informa o total da dívida do Estado com a União, mas revela que o governo Antonio Anastasia (PSDB) gastou nos primeiros nove meses deste ano R$ 1,59 bilhão com a amortização da dívida e mais R$ 1,70 bilhão com o pagamento de juros e encargos dessa dívida. Isso dá, em média, R$ 366,56 milhões por mês.

A primeira questão: por que o governo tucano mineiro esconde do público o valor atual da dívida contraída quando o governador Eduardo Azeredo se curvou às exigências do governo federal, que tinha à frente o também tucano Fernando Henrique Cardoso, para renegociar as dívidas do Estado que eram roladas diariamente no mercado financeiro?

A segunda questão: por que uma dívida que somava R$ 18,6 bilhões em 31 de dezembro de 1998, quando Azeredo deixou o governo porque não conseguiu se reeleger, mesmo usando recursos públicos na campanha eleitoral, chegou a um patamar tão alto que o atual governador julga prudente não revelar?

Quem quiser conhecer a história desse endividamento pode ler o livro de Durval Ângelo “O voo do tucano”, publicado em 1999 pela editora O Lutador, de Belo Horizonte. Está disponível em PDF na Internet, nos seguintes endereços:

Quando o então deputado petista Durval Ângelo fazia na Assembleia Legislativa oposição ao governo estadual, o presidente da Casa era Anderson Adauto (PMDB), que acaba de ser inocentado pelo Supremo no julgamento do chamado mensalão petista, enquanto o hoje deputado Eduardo Azeredo espera a vez de ser julgado pelo mensalão tucano. Adauto foi o autor do prefácio do livro, e escreveu, em 1999:

“No caso de Minas Gerais, o dispêndio com a administração da dívida era, em média, de R$ 8 milhões por mês. Hoje a amortização e os juros consomem mais de R$ 80 milhões mensalmente”.

Hoje, como vimos, ultrapassam os R$ 366,56 milhões por mês. E o governo garante que tem feito as amortizações rigorosamente em dia. É o milagre brasileiro da multiplicação dos pães.

Já que entramos nessa área milagrosa, outro trecho do livro escrito há 13 anos e que tem tudo para ter um interesse renovado: “O governo Azeredo encontrou uma dívida flutuante de R$ 903 milhões. Em dezembro de 1988, ela já era três vezes maior: R$ 3,3 bilhões”.

Terceira questão: como pode isso acontecer, se nesses quatro anos de governo Azeredo fez tudo que seu mestre mandava? Por exemplo, vendeu 33% das ações da Cemig a empresas estrangeiras que passaram, apesar de minoritárias, a comandar a estatal; e embolsou R$ 713 milhões com a venda do Bemge e do Credireal.

A resposta para isso se encontra no livro de Durval Ângelo. Sim, Durval – o candidato petista a prefeito de Contagem derrotado no último domingo por Carlin Moura, do PCdoB, apoiado pelo ex-prefeito e ex-governador Newton Cardoso (que se tornou nacionalmente famoso por sua honestidade em cargos públicos). E Anderson Adauto, atual prefeito de Uberaba, viu seu candidato à sucessão pelo PMDB, deputado federal Paulo Piau, vencer o candidato apoiado pelo senador tucano Aécio Neves, Antônio Lerin, do PSB. O derrotado Lerin disse que o adversário Piau comprou votos e vai entrar na Justiça para anular o resultado das eleições na cidade.

São as voltas que a história dá.

Uma boa pergunta (e algumas respostas)

Texto de José de Souza Castro:

“O que é barraginha?”, perguntou-me a dona deste blog, quando comuniquei a ela, na manhã de hoje, que escreveria um artigo sobre as quinhentas mil barraginhas construídas no Brasil nos últimos 19 anos. Se a Cris nunca ouviu falar sobre esse projeto nascido em Minas quando ela era ainda menina, algo está errado, pensei com meus botões.

Mas, que saberia eu sobre o tema, não tivesse lido pouco antes a reportagem de José Silvestre Gorgulho na “Folha do Meio Ambiente”? Nada, certamente. O que sei agora, informado por meu colega no curso de jornalismo da UFMG e fundador, há 23 anos, daquele importante jornal, é o seguinte, em resumo:

1. O projeto Barraginhas nasceu de uma ideia do engenheiro agrônomo Luciano Cordobal de Barros, na Embrapa de Sete Lagoas, na boca do sertão mineiro.

2. Ele propôs a construção de mini barragens nas propriedades rurais situadas nas regiões de cerrado, para conter as enxurradas e os processos erosivos.

3. As águas das chuvas ali empoçadas se infiltram lentamente no solo, caem no lençol freático e revitalizam as nascentes dos córregos e abastecem cisternas e cacimbas que matam a sede de homens e outros animais, e reduzem os prejuízos com as devastadoras enchentes.

4. Hoje as barraginhas se espalham por vários estados.

Os que puseram em prática essa ideia simples parecem concordar com tais benefícios, entre outros. Milhares de pequenos agricultores, segundo Barros, não foram engrossar o número de favelados nas grandes cidades, permanecendo em suas terras, porque a partir das barraginhas tiveram condições de sobreviver ali.

Só em Minas, foram construídas trezentas mil barraginhas. As outras duzentas mil se espalham pelo Piauí, Ceará, Tocantins, Mato Grosso e Alto Pantanal.

Por que, então, não tínhamos ouvido falar desse projeto? Acho que é porque as barraginhas não proporcionaram votos a governadores, senadores e deputados e nem milhões de reais a grandes empreiteiras. É obra isolada de pequenos agricultores ou de associações deles, que tomam conhecimento da tecnologia em “dias de campo” promovidos pela Embrapa, não por dispendiosos anúncios na imprensa. E provavelmente, não foi pauta para nenhum grande jornal ou revista. Não sei dizer se o Globo Rural já tratou disso.

A gente costuma se interessar por projetos mais vistosos. Como a barragem do Açu, construída durante a ditadura militar (ela foi inaugurada em 1983) pelo Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS), com 2.553 metros de comprimento e 41 de altura, para armazenar 2,4 bilhões de metros cúbicos de água.

Ou pelas barragens construídas pela Cemig durante o governo Newton Cardoso para “mudar a vida do Vale do Jequitinhonha”, como fartamente anunciado naquela época. E nada mudou, pois as barragens não serviam nem para gerar eletricidade, nem para irrigar terras. Mas que custaram 158 milhões de dólares, conforme reportagem que escrevi em agosto de 1991, publicada pela “Veja Minas Gerais”, revista da Abril, então editada por Carlos Alberto Cândido, meu ex-colega no JB.

As barraginhas, que podem ser construídas com apenas três horas de trabalho de uma retroescavadeira ou por uma hora e meia de pá carregadeira, mudaram a vida de milhares de pessoas. E fizeram um bem danado ao meio ambiente. Mas não se transformaram em anúncios e nem deram lucro à imprensa. Portanto…