O triste fim de Hélio Garcia e seu fiel escudeiro

Foto: Isa Nigri / O Tempo

O ex-governador Hélio Garcia. Foto: Isa Nigri / O Tempo

Texto escrito por José de Souza Castro:

Interditado pela família em 2006 por incapacidade de gerir seus bens em razão do mal de Alzheimer, entre outras doenças, Hélio Garcia viveu 10 anos em quase total esquecimento, até morrer aos 85 anos, na manhã da última segunda-feira (6), e receber as homenagens de praxe devidas àquele que, em seu auge, quando governador, chegou a ser chamado de “Imperador das Gerais” numa reportagem laudatória do “Jornal do Brasil”.

Desde a morte, muito se disse de Hélio Garcia. Vou dar minha contribuição, procurando fugir um pouco das lembranças de políticos que se manifestam nessas horas. Lembranças que, em geral, não prestam homenagem à realidade. Para as minhas, me vali em parte do livro “Sucursal das Incertezas”, disponível para leitura e download gratuito na biblioteca deste blog.

Em 1976, a fábrica de automóveis da Fiat em Betim, a primeira fora do eixo Rio-São Paulo, começou a produzir o Fiat 147. Pouco mais de 200 veículos por dia, de um só modelo. O governo de Minas se associara à montadora italiana, por obra e graça de Rondon Pacheco, e o Estado só registrava prejuízo nessa sociedade. Hélio Garcia não teve dúvidas: vendeu as ações aos italianos, na bacia das almas. Só assim, eles investiram para valer e passaram a produzir muito, com enormes lucros – e pagando impostos.

CAIXAS DE UÍSQUE

Garcia havia assumido o cargo no dia 14 de agosto de 1984, quando o governador Tancredo Neves se afastou para disputar a presidência da República. Naquele dia, Hélio Garcia estava exultante. Em conversa com dois repórteres (do JB e do Estadão), o agora governador confidenciou que um sobrinho de Tancredo, Francisco Dornelles, que tinha sido secretário da Receita Federal no governo Figueiredo, havia ajudado nas articulações políticas feitas pelo vice e pelo governador para a disputa presidencial em eleições indiretas. “Ele tanto ajudou”, disse, “que às vezes saía do gabinete dele e ia a um telefone público na rua, para podermos conversar”.

No dia seguinte, os dois jornais deram manchete com essa revelação, e Millôr Fernandes publicou uma charge no JB. Dornelles ligava para Hélio Garcia de um orelhão, cercado de caixas de uísque, e anunciava: “Alô, Maverick. Estou com a mercadoria”. Não era preciso explicar a charge: Hélio Garcia gozava de uma invejável fama de bebedor de uísque escocês, que, naqueles tempos pré-Collor, costumava chegar por contrabando às melhores mesas.

NEWTON CARDOSO

Newton Cardoso no velório de Hélio Garcia, em 6.62016. Foto: Douglas Magno / O Tempo

Newton Cardoso no velório de Hélio Garcia, em 6.6.2016. Foto: Douglas Magno / O Tempo

Não sei se o uísque teve algo a ver, mas o fato é que Hélio Garcia fez um bom governo, ajudado por José Sarney, que havia sido colega dele na Câmara dos Deputados quando ambos eram filiados ao partido da ditadura, a Arena, e agora reinavam no PMDB, no governo. Esse partido, quando chegou ao governo, arrebanhou arrivistas em todo o país e fez bonito nas eleições de 1986: elegeu 22 governadores, contra apenas um do PFL, o sucessor da desacreditada Arena. Em Minas, venceu Newton Cardoso, com apoio de Hélio Garcia.

Enquanto o país mergulhava na recessão, em 1987, Garcia voltou às suas fazendas. Queria distância da política e de Newton Cardoso, que premiou Minas com um governo desastrado. Os mineiros ficaram saudosistas, e o ex-governador não teve dificuldades em se eleger de novo em 1990.

ELEITO DESAPARECE

Depois da vitória, Hélio Garcia desapareceu. Os assessores diziam que ele só daria entrevista na véspera da posse. Estava a descansar em lugar incerto e não sabido. Alguns diziam que andava deprimido, por causa das informações que lhe chegavam da equipe de transição. A dívida do Estado, em quatro anos, dobrara para US$ 4 bilhões. (Bons tempos aqueles.) No dia 10 de janeiro de 1991, eu viajava ao Sul de Minas, para entrevistar para “O Globo” o historiador Hélio Silva num convento beneditino em Delfim Moreira. No caminho, em Santo Antônio do Amparo, resolvi chegar à fazenda do governador eleito, apostando na sorte. E consegui falar com ele, quebrando um silêncio de 59 dias na imprensa*.

Tempo até curto, se comparado aos mais de 3.600 dias em que Hélio Garcia foi deixado em silêncio, esquecido pela imprensa e pelos políticos. Ninguém escrevia ao coronel – para lembrar Gabriel García Márquez.

TRAÍDO POR PARENTES E AMIGO

Mas houve duas interrupções nesse esquecimento.

Em março de 2010, noticiou-se que as três filhas de Hélio Garcia estavam brigando na Justiça por causa da fortuna do pai interditado. E cinco anos depois o Tribunal  de Justiça condenou o advogado Evandro de Pádua Abreu, que havia sido nomeado por um juiz, em 2009, curador dos bens do ex-governador, no lugar da filha mais velha, a pedido da caçula.

Evandro de Pádua Abreu era amigo de Hélio Garcia. Foto: Reprodução / Youtube

Evandro de Pádua Abreu era amigo de Hélio Garcia. Foto: Reprodução / Youtube

Evandro era amigo de Hélio Garcia, que o nomeara secretário na Prefeitura de Belo Horizonte (ele tinha sido nomeado prefeito por Tancredo Neves, acumulando com o cargo de vice-governador, em 1983). Quando Hélio se tornou governador em 1984, levou Evandro para o governo, durante seis anos. Ao pedir a remoção da irmã, a caçula Daniela alegou que Adriana, a curadora, teria vendido bens da fazenda sem autorização judicial.

E a condenação de Evandro, em 2015, teria sido porque o curador desviou rendimentos de Hélio Garcia, entre 2009 e 2012, deixando de efetuar pagamentos do plano de saúde do ex-governador, além de contas de água, luz, TV por assinatura, telefone fixo, celular, condomínio, entre outras. Por causa disso, Hélio Garcia foi incluído no cadastro de pessoas inadimplentes. Evandro foi condenado a um ano e oito meses de reclusão em regime aberto. Mas o processo prescreveu e ele não cumpriu a pena.

Um triste fim para o “Imperador das Gerais” e seu (in)fiel escudeiro.


* Nota da Cris: este episódio é relatado de forma muito saborosa nas páginas 197 a 201 do livro “Sucursal das Incertezas”, escrito pelo meu pai. CLIQUE AQUI para ler e, se preferir, fazer o download gratuito para ler mais tarde.

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