Empresário Stefan Salej denuncia especulação na Petrobras

Texto escrito por José de Souza Castro:

O presidente Jair Bolsonaro convocou para esta terça-feira reunião para tentar entender como os valores são calculados pela Petrobras e por que o diesel subiu mais do que a inflação esperada para este ano no Brasil.

Vai ser uma enrolação e, no final, a população – e os caminhoneiros, em particular – vão pagar mais caro nas bombas. Não se espere que ele vá se preparar para enfrentar, nessa reunião, os representantes dos especuladores, lendo quem entende do assunto. Como a ex-ministra de Minas e Energia do governo Lula, Dilma Rousseff, que no último domingo escreveu em seu blog artigo bem esclarecedor.

Quem se interessar pela defesa que a ex-presidente petista fez da Petrobras e do consumidor, pode ler no blog de Dilma Rousseff.

Vou me ater aqui ao que escreveu Stefan Salej, que conheço bem, pois sou autor de um livro sobre sua atuação como presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais, a Fiemg. Atualmente, ele é vice-presidente do Conselho do Comércio Exterior da Federação das Indústrias de São Paulo e coordenador-adjunto do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP (Gacint).

Não é um petista. Se eu tivesse que definir esse empresário e cientista político, diria que Salej é um liberal. Nunca um ultraliberal como o ministro da Fazenda, o “Posto Ipiranga” Paulo Guedes.

Na opinião de Salej, a campanha O Petróleo é Nosso, durante o governo Getúlio Vargas, exigiu que a exploração petrolífera no Brasil fosse de competência nacional. A campanha ecoou por todo o país e resultou na criação, por Getúlio, de “uma empresa estatal, eficaz, monstruosa, eficiente e inovadora, monopolista, manipulada pelos políticos e técnicos, campeã mundial mais recente em exploração de petróleo em águas profundas e maior escândalo de corrupção que o país conseguiu descobrir, a Lava Jato. Um orgulho e uma vergonha nacional. Uma empresa para ser elogiada e ser xingada, executora da política energética nacional”, descreve Salej.

E prossegue:

“Essa empresa não é a única estatal na área de energia no mundo. Não é nem pior e nem melhor do que as sete irmãs que dominam o mundo de energia, provocam guerras, persistem em explorar petróleo independentemente dos problemas de clima e de meio ambiente. É o setor que, com seu produto, move o mundo dentro de sua visão geopolítica, estratégica e, principalmente, do lucro, (…) acaba com economias e países ou, com sua pujança, traz também benefícios para alguns. E muito poder para poucos, sejam políticos, sejam reis, sejam investidores.”

Tudo isso já é sabido. As sete irmãs, diga-se, são empresas privadas internacionais. E, no momento em que nossa estatal do setor se acha sob forte pressão para desfazer-se em favor delas de ativos valiosos, alerta Salej: com petróleo não se brinca.

“Petróleo é uma questão de Estado e não de um governo. E o Brasil, com todos os percalços, não pode dizer que tem solucionado suas crises energéticas pior do que o mundo. Até nos Estados Unidos já houve falta de gasolina nos postos. Os governos, mesmo quando as empresas são totalmente privadas, defendem interesses delas na área internacional, como se fossem parte do estado. Veja os conflitos no Oriente Médio e na África.”

Salej, que certamente domina bem sua língua nativa, o esloveno, pode não ser hábil ao escrever em português e em mais meia dúzia de línguas com que se vira em suas leituras e viagens internacionais. Mas, nos parágrafos acima, me pareceu bem claro. E inusitado para um empresário brasileiro ligado à Fiesp.

Vamos em frente, portanto:

Neste momento, diz ele, os preços de derivados de petróleo estão aumentando em todos os países. “Mesmo aqueles que são autossuficientes em produção e refino têm aderido a esta onda de aumentos. E aumentos têm, sim, provocado reações antieconômicas de custos de produção e transporte, como protestos das populações. O Brasil não escapa a isso. Agora, como cada governo administra isso, eis a questão.”

Independentemente de a Petrobras ser ou não estatal, afirma o autor, a política energética é do governo. “A política monetária, ou seja, a preocupação com a inflação, também é do governo. Então, o governo ou, neste caso, o presidente da República, querer questionar vários atores econômicos sobre qual é a política que estão adotando, para que resultados, não é só legítimo, mas é a sua obrigação. Liberal ou não, ou qualquer outra etiqueta que se dê ao presidente Bolsonaro, não justifica que ele, como mandatário da nação, não se preocupe com a questão de preços de insumos de petróleo. Inclusive porque recentemente tivemos um caos nesta questão que prejudicou o país”.

É triste reconhecer, digo eu, mas nesse caso Bolsonaro acertou. Alvíssaras! E as equipes técnicas do governo, cheias de doutores, “poderiam ter prevenido o susto e evitado o raio que caiu”, suspeita Salej. Os doutores falharam.

“E a queda de valor das ações da Petrobrás foi parte de uma reação e avaliação do mercado, puramente especulativa e exagerada”, acrescenta o empresário. “Como aconteceu no ano passado, nesse jogo da política de preços da Petrobrás, muita, mas muita gente, ganhou muito, mas muito dinheiro. E não vai ser diferente agora: os abutres do mercado já estão felizes”.

Salej não deixa por menos:

“Mas o problema continua, não pela ótica imposta pelos eméritos especuladores do mercado, mas de como vamos conciliar as nossas políticas energéticas e de transporte versus pressões internacionais de aumento de preços de petróleo. E nisso se inclui a pressão social representada pelos caminhoneiros, entre outros, que são incontroláveis, e uma força social capaz de subverter o país. E aí, gostem ou não, o papel é do governo e também é a sua responsabilidade. Agora, os tecnocratas liberais deixarem o governo na estrada cuidando só do lucro, e o ônus ficar com o governo, não funciona. Porque o ônus fica por conta de todos e o lucro só para alguns.”

Não poderia ser mais claro, caro Salej.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

‘Uma Noite de 12 Anos’: filme obrigatório para estes tempos sombrios

Vale ver na Netflix: UMA NOITE DE 12 ANOS (La noche de 12 años)
Nota 8

É ditadura militar. Não existe Estado Democrático de Direito. Grupos de esquerda são presos e assim ficam, por anos, sem nunca passarem por qualquer julgamento legítimo. Prisioneiros tornam-se verdadeiros reféns dos militares. Eles não ficam em presídios normais, com um mínimo de dignidade. Eles ficam em masmorras sujas, sem poder ver a luz do sol, as estrelas, sem nenhuma latrina para fazerem suas necessidades, sem qualquer banho ou atendimento médico. São torturados, rotineiramente. São proibidos de falar. De caminhar – inclusive dentro de suas minúsculas celas. O que se quer é que atrofiem mesmo, que endoidem, que não passem um único dia sem querer morrer.

E isso por 12 longos anos, como somos avisados desde o título do filme.

Proibido passar da linha branca.

Assim é a história relatada em “Uma Noite de 12 Anos”, de Álvaro Brechner, diretor nascido em Montevidéu. Assim foi durante a ditadura sangrenta no Uruguai. E assim também foi em tantas outras ditaduras militares sangrentas em toda a América Latina, inclusive no Brasil.

Este filme, disponível na Netflix, deveria ser obrigatório para estes tempos sombrios que vivemos hoje, com brasileiros pedindo a volta da ditadura militar, elegendo a presidente da República um cara que elogia publicamente um torturador contumaz, com esse mesmo sujeito celebrando o golpe militar de 1964 como se fosse um momento cívico, e não um período de atrocidades na história do nosso país.

Como escrevi há anos, estamos precisando de mais aulas de história no Brasil. Felizmente, existem filmes, como este, que contribuem para mostrar do que o ser humano é capaz. Para algumas pessoas, não basta prender, tem que destruir. O problema disso é que, muitos anos depois, quando a ditadura já acabou, ainda não conseguimos encontrar culpados, porque os soldados sempre podem dizer que “só estavam cumprindo ordens”. Como aconteceu na Alemanha nazista.

Neste filme, conhecemos mais de perto três figuras políticas importantes no Uruguai: Mauricio Rosencof (na pele de Chino Darín, filho do Ricardo Darín), Eleuterio Fernández Huidobro, o Ñato (vivido por Alfonso Tort) e José Pepe Mujica (Antonio de la Torre). Mujica, como sabemos, foi presidente do Uruguai entre 2010 e 2015 e é um dos sujeitos mais admiráveis do planeta.

Estes sobreviveram. Quantos não?

Resposta: 174 ficaram desaparecidos e 100 morreram dentro das prisões na ditadura uruguaia. Den-tro-das-pri-sões.

A propósito: no Brasil foram 434 mortos e desaparecidos durante os 21 anos da ditadura militar. A lista com nomes foi divulgada em várias reportagens, como AQUI.

Justamente porque precisamos conhecer e reconhecer nossa história, porque precisamos relembrar nosso passado e precisamos nos chocar com os absurdos cometidos à época é que filmes históricos como este deveriam ser obrigatórios nas escolas e lares. Porque é o conhecimento do passado que nos previne contra um futuro pior. Mais urgentemente ainda quando esse futuro já começou.

Assista ao trailer oficial legendado do filme:

De brinde, ouça uma belíssima versão de “Sound of Silence” (Paul Simon) que aparece em uma das cenas do filme, arranjada e interpretada pela cantora espanhola Sílvia Pérez Cruz:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

64 nunca mais!

É tão surreal, mas tão surreal que o presidente da República determine a CELEBRAÇÃO de um golpe militar que torturou pessoas e cerceou a liberdade de imprensa, de expressão e de manifestação no país, que me faltam palavras para comentar.

Ainda bem que existem os chargistas, que sempre falam o que estou sentindo e pensando:

Este slideshow necessita de JavaScript.

Espero que o STF proíba esse descalabro a tempo.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Massacre de Suzano: 13 capas de jornais para registrar esse dia triste

Ontem foi mais um daqueles dias que a gente preferia que não tivessem acontecido. Mas não só aconteceu como entrou para a história do país. E, como em outros casos similares, registrei a história por meio das capas dos principais jornais. Ficam abaixo, para relembrarmos o quanto nosso país está doente, o quanto o acesso fácil às armas faz mal e o quanto a internet, por melhor que possa ser, também possibilita que pessoas profundamente doentes possam se conhecer, se unir e se organizar, a ponto de se tornarem perigosas (para saber mais sobre esse submundo sujo da web, que era frequentado pelos atiradores de Suzano, clique AQUI e AQUI). Precisamos, com mais urgência que nunca, cuidar da nossa educação pública e da saúde mental dos nossos adolescentes. E não é com um governo que idolatra a posse de armas, que homenageia torturadores e que vangloria discursos de ódio que vamos conseguir isso, obviamente. Se 2019 mal começou e já está esse caos, temo muito mais pelos anos vindouros.

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

Veja mais capas de jornais em dias históricos:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

 

A pergunta ainda continua a mesma:

– Quem MANDOU MATAR Marielle?

Esta ainda não foi esclarecida, mesmo 1 ano depois.

 

Este slideshow necessita de JavaScript.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog