O abuso sexual contra crianças e a importância de conversarmos com nossos filhos

Todas as imagens deste post são ilustrativas. Crédito: Pixabay

No último sábado, ficamos todos chocados com a notícia de que um garotinho de apenas 3 anos pode ter sido estuprado dentro de uma escola tradicional de Beagá, o colégio Magnum. Pelos detalhes da reportagem assinada por Pedro Ferreira no portal “O Tempo”, percebemos ser bem plausível que o estupro tenha realmente ocorrido. Se não pelo suspeito inicialmente apontado, que veio a público se defender, talvez por outra pessoa.

Ontem, descobrimos que pode ter havido pelo menos dois casos de estupro na mesma escola.

Se o sujeito cometeu estupro mesmo ou não, caberá à polícia investigar e, mais tarde, à Justiça punir. Mas uma coisa já podemos dizer: essas duas mães de meninos de 3 anos foram muito perspicazes ao perceberem que algo não ia bem com seus pequenos e muito corajosas, agindo certo ao denunciar formalmente suas suspeitas. E, embora tenha muita gente parecendo mais preocupada com a imagem do colégio do que com o que as crianças podem ter passado lá dentro, eu acho que foi muito importante também a divulgação das reportagens.

Foi muito provavelmente graças à publicidade dessas graves suspeitas que o colégio tomou medidas drásticas, como colocar monitoras dentro de cada banheiro. Foi muito provavelmente graças à reportagem de sábado que a segunda mãe se sentiu estimulada a registrar a denúncia no domingo à noite. E é graças à formalização de denúncias, como estas, que criminosos são efetivamente postos atrás das grades.

Eu me lembro de ter lido, alguns anos atrás, dentro de um grupo fechado de Facebook, o relato de uma mãe de que seu filho tinha sofrido abuso sexual dentro de uma van escolar em outro colégio tradicional de Belo Horizonte. Várias mães a incentivaram a formalizar denúncia, mas ela escreveu lá que preferia não mexer com isso, para não traumatizar seu filho. A única coisa que ela fez foi comunicar à escola, que proibiu a van de continuar atuando lá. É difícil julgar sua decisão naquele momento, mas uma coisa é certa: aquele predador sexual saiu impune e pode ter continuado a atacar em outras escolas. Ao não formalizar a denúncia, esta mãe – e aquele colégio – passaram pano no crime, e outras mães e pais de outras possíveis vítimas nem ficaram sabendo o que aconteceu. A imprensa também não noticiou e, com isso, perdeu-se a oportunidade de pressionar a polícia judiciária a agir contra o malfeitor. A reputação do colégio está incólume, enquanto mais um pedófilo ficou livre, leve e solto nas ruas da cidade.

O que é mais importante? A reputação de um colégio ou a punição de um estuprador de crianças?

Felizmente, no caso do colégio Magnum, a situação foi diferente. Hoje, centenas de pais e mães podem ter levado um banho de água fria, podem estar com um gosto amargo na boca, mas podem ter tido a oportunidade de averiguar se está tudo realmente bem com seus filhos.

(E é possível que um grave criminoso venha a ser punido, se a veracidade dos relatos se confirmar.)

Não só os pais e mães de filhos matriculados no Magnum, mas todos os pais e mães. Inclusive de crianças pequenas, que talvez pensassem ainda não ser hora de abordar assuntos tão árduos com seus filhos. Sim, é hora. Sempre.

É importante adaptar a linguagem para que seu filho compreenda bem o que está sendo dito, e falar de acordo com suas convicções próprias de educação. Mas é preciso falar. Inclusive porque os abusadores de criancinhas buscam empregos onde possam ter mais oportunidades sozinhos com elas: em escolas, vans de transporte escolar, cursos extraclasse, catequese etc. Isso em falar que a maior parte dos abusadores são membros da própria família, ou amigos e vizinhos.

Meu filho tem 3 anos e 10 meses e já faz algum tempo que falei com ele que ninguém pode “mexer no bililiu” dele. Depois do divulgado no sábado, decidi reforçar a conversa com ele. Falei mais longamente, criei até uma musiquinha, inventada na hora, para tornar o papo mais didático. Hoje ele sabe que, além de não poder deixar ninguém mexer em suas partes íntimas, se alguém mostrar as próprias partes íntimas para ele, estará errado, e será preciso pedir socorro e me avisar no mesmo dia.

Pode ser que meu filho não esteja imune aos predadores sexuais que existem em todo canto, mas acredito que, se um dia ele for vítima de algo tão cruel, ele saberá pelo menos sobre a importância de nos avisar imediatamente, para que não ocorra de novo. (Suspeita-se que o caso do Magnum pode ter ocorrido por meses a fio).

Assim como os pais e mães devem ter essa conversa com as crianças, é fundamental que as escolas também mantenham em seus programas a famosa educação sexual, que os puritanos do governo Bolsonaro ainda querem derrubar. A educação sexual ajuda a evitar gravidez precoce, DSTs na adolescência e mais uma porção de coisas, mas também é fundamental para ensinar às crianças sobre como se protegerem de predadores sexuais. É uma arma a mais, que não pode ser tirada delas, porque, se tiradas, as tornam ainda mais vulneráveis.

Aqui em casa já compramos o clássico “De Onde Vêm os Bebês” para o Luiz ler, quando estiver na idade. Até lá, fazemos nossa parte, na esperança de proteger nosso pequeno deste mundo cheio de perversão.

Você sempre poderá contar conosco, meu filho!

Leia também:

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25 charges sobre o discurso vergonhoso de Bolsonaro na ONU

Tudo já foi falado sobre esse discurso ideológico, ultrapassado, atrasado, gritado, deselegante, cheio de ódio e de fake news que o presidente da República nos envergonhou ao fazer diante dos líderes de todo o planeta, na Assembleia Geral da ONU. Para não ter que escrever mais, recomendo a leitura do que o editor de Política do jornal “O Tempo”, Ricardo Corrêa, escreveu em seu artigo “Era melhor não ter ido“. Normalmente concordo com o que o Ricardo escreve, ele é bastante lúcido e vale acompanhar a coluna diária dele no jornal mineiro.

Para não passar batido este vexame aqui no blog, que é absolutamente crítico a Bolsonaro desde os tempos de inúteis mandatos na Câmara dos Deputados, fiz esta galeria com algumas boas charges que foram produzidas a respeito, em todo o país.

Bom proveito:

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E pra não nos aproximarmos do fim da semana tão azedos, vale ler esta utopia escrita pelo José Eduardo Agualusa na revista “Visão”, de Portugal, e reproduzida pelo Juca Kfouri em seu blog há cinco dias. Ao contrário da distopia que publiquei aqui no blog há algumas semanas, esta nos faz sentir um alívio incrível! CLIQUE AQUI e boa leitura 😉

Veja também:

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A vã espera dos defensores de Luiz Inácio Lula da Silva

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ministro Edson Fachin durante sessão plenária. Foto: Rosinei Coutinho/SCO/STF (25/09/2019)

Depois que o relator da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal), ministro Edson Fachin, votou na tarde desta quarta-feira (25) “contra o recurso que pode anular uma das sentenças do ex-presidente Lula e provocar uma reviravolta nos casos da operação”, a sessão foi suspensa. Os 10 ministros que votarão na tarde desta quinta (26) vão poder digerir, por algumas horas, o longo voto do relator. Quem votará contra ele?

O trecho entre aspas acima é da “Folha”, que deu a notícia com o título “STF adia julgamento de ação que pode afetar Lula e Lava Jato”, enquanto o G1, do Grupo Globo, escolheu este: “Relator no STF vota contra tese que pode levar à anulação de sentenças da Lava Jato”.

Se um e outro desses gigantes do jornalismo pátrio acreditasse que sentenças da Lava Jato seriam anuladas por causa desse julgamento no Supremo, nenhum teria escolhido títulos tão coincidentes.
Escolheram, porque não acreditam. Escolheram porque, ao não acreditar, não deixariam passar ao largo a oportunidade de reforçar as sentenças de Sergio Moro na Lava Jato, que tão bem fizeram ao atual estado de coisas no Brasil com a prisão de Lula, tão desejada por eles.

Foi também por não acreditar que o presidente do Supremo, Dias Toffoli, marcou para esta semana o tal julgamento. No qual Edson Fachin, que fora derrotado na segunda turma no julgamento do ex-presidente do Banco do Brasil Aldemir Bendine, pôde nadar de braçada ao abraçar a tese da Procuradoria Geral da República, apresentada nesta quarta-feira pelo procurador geral interino, Alcides Martins.

Em julgamento não estava Lula, como a imprensa, espertamente, se esforçou por dar a entender ao público, nos últimos dias. O que os 11 ministros julgavam era um habeas corpus apresentado pelos advogados de um ex-gerente da Petrobras, Márcio de Almeida Ferreira, condenado na Lava Jato em Curitiba a 10 anos e três meses de prisão e cujo recurso no Tribunal Regional Federal, em Porto Alegre, ainda não foi julgado.

Como no caso de Bendine, a defesa argumenta que réus delatados deveriam apresentar alegações finais no processo após os réus delatores, o que não foi feito neste e em todos os outros casos julgados por Sergio Moro.

A diferença, que facilitou a vida de Edson Fachin, é que, ao contrário do processo contra Bendine, a defesa não apresentou o argumento ao juiz de primeira instância, Sergio Moro, mas só ao Supremo, depois da vitória do ex-presidente do BB na segunda turma do STF. Outra facilidade, segundo o próprio Fachin: a defesa de Ferreira sequer argumentou que a ordem das alegações finais teria causado prejuízo “efetivo, concreto e específico” ao cliente.

Claro, Fachin gastou páginas e mais páginas do seu tedioso voto para afirmar, com base em entendimentos anteriores de ministros do Supremo, que não importa a ordem em que as alegações finais são apresentadas ao juiz, sejam elas da defesa ou da acusação, e que o mais importante é se houve ou não prejuízos à defesa do réu.

É esperar os votos de mais 10 ministros do Supremo. Alguém duvida do resultado do julgamento? Se o resultado for o esperado pelo presidente do Supremo, pela imprensa, pelo ministro da Justiça e, vá lá, por Deus e o Diabo, coitado do Lula.

Leia também:

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‘O alvo somos todos nós’: leia o manifesto contra a censura na Bienal do Livro e veja o vídeo de escritores lendo ‘Apesar de você’

Clique na imagem para ver o vídeo.

 

“A Bienal Internacional do Livro Rio é a oportunidade que temos, a cada dois anos,
de nos reunirmos, encontrar nossos públicos, nos inspirar e debater livremente
sobre todo e qualquer tema, sem restrições e com empatia. Um evento de conteúdo
qualificado e diverso, reconhecido nacional e internacionalmente como o maior
festival cultural do Brasil.

Nos últimos dias, a Bienal se tornou um abrigo democrático, ao lado de 600 mil
pessoas que prestigiaram o evento, contra as insistentes tentativas de censura.
Se engana quem pensa que o alvo é a Bienal Internacional do Livro. O alvo somos
todos nós, cidadãos brasileiros, pois não precisamos ter quem determine o que
podemos ler, pensar, escrever, falar ou como devemos nos relacionar. O brasileiro
não precisa de tutor. Precisa de educação para que cada um possa fazer suas
escolhas com consciência e liberdade.

Foi com alívio e muito orgulho que recebemos as duas decisões de ministros do
Supremo Tribunal Federal (STF) neste domingo (8/9), impedindo que a Bienal
Internacional do Livro continuasse sofrendo assédio à literatura e aos seus leitores.
Do contrário, se criaria uma jurisprudência que colocaria todos os eventos
culturais, autores, editoras e livrarias do Brasil à mercê do entendimento do que é
próprio ou impróprio a partir da ótica de cada um dos 5.470 prefeitos do país.

Encerramos essa edição histórica da Bienal Internacional do Livro Rio com o
coração cheio de orgulho e determinação. A Bienal não acaba hoje. Ela seguirá em
cada um de nós todos os dias. O festival foi memorável. Deu voz e ouvidos a todos
os públicos. Reuniu e celebrou a cultura junto com autores, artistas, pensadores,
líderes sociais, religiosos, jornalistas, acadêmicos, ativistas, e muitos outros.
Viva a Bienal do Livro Rio! Viva a cultura! Viva a liberdade e a democracia!!

 

Assino embaixo! (Grifos meus).

 

 

Leia também:

  1. A censura ao beijo gay dos quadrinhos e o fundamentalismo religioso no Brasil
  2. Brasil, o ex-país do Carnaval
  3. O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas
  4. O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança
  5. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  6. Fanatismo é burro, mas perigoso
  7. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  8. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

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A censura ao beijo gay dos quadrinhos e o fundamentalismo religioso no Brasil

Esta foi a capa da “Folha de S.Paulo” de hoje:

Me deu um quentinho no peito saber que ainda existe jornal corajoso desse jeito, ainda mais pela história que vivi lá dentro.

Estamos, neste 7 de setembro, nos oito meses de governo Bolsonaro, e parece que ele decidiu de vez se voltar apenas para a ala mais radical e brutamontes do país.

E daí? Você, que não acompanha muito o noticiário político e segue com sua vidinha de sempre, deve estar se perguntando.

E daí que estamos diante de um fundamentalismo religioso crescente, de um fanatismo burro levando a censuras das artes, do ensino e de várias outras áreas caras ao desenvolvimento de uma sociedade.

Vocês sabem como a luta contra a censura sempre foi minha principal bandeira, né? Sempre falo disso por aqui.

Então é de revirar meu estômago ver “fiscais da prefeitura” invadindo uma Bienal do Livro para censurar uma HQ que não tem nenhum conteúdo pornográfico ou mesmo erótico e que não desrespeita o ECA, nem nada disso.

É fundamentalismo puro e simples. É uma violação ao Estado de Direito. É um estupro da nossa Constituição de 1988.

Para quem acompanhou a história recente do Irã e do Afeganistão, dentre outros países, sabe que é fácil e rápido instaurar um regime fundamentalista num país. Em coisa de um ano, tudo pode mudar. Em 15 anos, se nada for feito, a distopia que eu criei pode se aproximar de uma cruel realidade. E aí, pra reverter a coisa toda, será um trabalho realmente árduo.

Inclusive porque muitos estragos que estão sendo feitos em apenas oito meses de governo já serão bem difíceis de recuperar. Na educação e no meio ambiente, por exemplo.

O Brasil é, cada vez mais, o ex-país do Carnaval.

É isso que queremos pra ele?

Charge do Duke publicada no jornal O Tempo de 7 de setembro.

Leia também:

  1. Brasil, o ex-país do Carnaval
  2. O futuro distópico de um Brasil governado por bolsonaristas e olavistas
  3. O fanatismo, o fascista corrupto, as fake news e minha desesperança
  4. O fanatismo e o ódio de um país que está doente
  5. Fanatismo é burro, mas perigoso
  6. O que acontece quando os fanáticos saem da internet para as ruas
  7. Há um Jair Bolsonaro entre meus vizinhos?

 

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