#PérolasDoLuiz – A fada do bico

Tentando desapegar o Luiz da chupeta, eu disse a ele que a “fada do bico” tinha passado e levado os bicos embora, e só os traria de volta na hora de dormir.

Ele ouviu a explicação quietinho, pensativo, e por fim perguntou:

– Mamãe, você é fada?

 

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Coca-Cola experimenta o gosto amargo da greve dos caminhoneiros

Texto escrito por José de Souza Castro:

Ricardo Faria, historiador mineiro, autor de livros didáticos de História e do romance “O amor nos tempos do AI-5”, entre outros livros, é também blogueiro e vem-se destacando, em seu blog, na defesa do meio ambiente. Alguns artigos daqui foram republicados em seu blog, mas não é sobre isso que pretendo escrever e sim sobre os malefícios da Coca-Cola, inclusive para o meio ambiente na vizinhança de Belo Horizonte.

No último domingo, o blog deu com destaque reportagem da BBC News sobre o derretimento acelerado da Antártida, que está perdendo 200 bilhões de toneladas de gelo por ano. Nos últimos 25 anos, o continente perdeu 2,7 trilhões de toneladas de gelo. Não vai demorar tanto tempo para que o mundo conheça a dimensão dessa tragédia ambiental.

Até aí, porém, não se pode culpar a Coca-Cola, que não se opõe a um refrigerante bem gelado. Infelizmente, não se pode dizer o mesmo da tragédia que se está registrando em Minas, provocada por uma fábrica da Coca-Cola em Itabirito, cujo funcionamento foi autorizado no governo Antonio Anastasia, do PSDB.

Conforme a reportagem, que pode ser lida aqui, o biólogo Francisco Mourão, da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (AMDA) , afirma que, desde a instalação dos poços artesianos para abastecer a fábrica da Coca-Cola, estão secando as nascentes dos rios Paraopeba e das Velhas, responsáveis por quase toda a água consumida em Belo Horizonte.

Segundo Mourão, a fábrica põe em risco também o rico ecossistema do monumento natural da Serra da Moeda. Ao contrário do que afirma a empresa, que diz que esta é “a maior fábrica verde do sistema Coca-Cola do mundo”.

Ela foi inaugurada em junho de 2015, com incentivo do governo de Minas, representado por desconto no pagamento do ICMS. Teriam sido investidos 258 milhões de dólares. A área construída é de 65 mil metros quadrados, num terreno cinco vezes maior. E a promessa de gerar 600 empregos diretos e 3 mil indiretos e de produzir 2,1 bilhões de litros por ano, podendo duplicar a capacidade no futuro.

Claro, se houver água.

Não descobri qual o valor do incentivo oferecido pelo governo para que a Coca-Cola pudesse transferir sua velha fábrica de Belo Horizonte para Itabirito. Segredo de Estado – ou vergonha.

Em vez de reduzir impostos para fabricantes de refrigerantes, dever-se-ia (obrigado, Temer), aumentá-los. É um grupo mexicano (Femsa), maior distribuidor da Coca-Cola no Brasil, que está à frente da fábrica em Itabirito. Pois bem, desde 2014, encontra-se em vigor no México uma sobretaxa de 10% sobre bebidas açucaradas, num esforço para diminuir o problema da obesidade. Em dois anos, a venda dos refrigerantes caiu 14% no México.

O Brasil enfrenta uma epidemia de sobrepeso. Uma de cada três crianças é obesa. Entre adolescentes, um em cada quatro. E cerca de 60% dos adultos estão acima do peso. A população brasileira é mais obesa que a média mundial.

Não surpreendentemente, no Brasil são oferecidas isenções fiscais, tanto na produção como na comercialização dos refrigerantes. As empresas teriam deixado de recolher aos cofres públicos cerca de 7 bilhões de reais por ano. Valor equivale a cerca de dois Programas de Alimentação Escolar que atende anualmente 40 milhões de estudantes.

Se o governo Temer resistir às pressões, isso pode mudar. Em seguida à greve dos caminhoneiros, ele publicou no dia 30 de maio decreto que reduz incentivos fiscais para parcela da cadeia produtiva de refrigerantes. O governo concedia redução de 20% do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos concentrados produzidos na Zona Franca de Manaus. Para elevar sua arrecadação, exigida a partir da greve, o incentivo baixou para 4%. Os maiores prejudicados são a Coca-Cola e a Ambev. Mas elas continuam contando com incentivos de ICMS, PIS-Cofins e Imposto de Renda.

E não para aí. Conforme denúncia publicada pelo blog do Ricardo Faria, quanto maior o valor da nota fiscal emitida, maior o crédito a que se tem direito na etapa seguinte – um incentivo ao superfaturamento. O concentrado da Coca-Cola, quando vendido ao mercado externo, custa em torno de R$ 70. Quando repassado a empresas no Brasil, chega a valer até R$ 470.

Não é a primeira vez que o governo brasileiro tenta enfrentar o setor representado pela ABIR (Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas) que se apressou a declarar-se surpresa com o decreto de Temer. Ao reagir a medida parecida no governo Lula, em 2008, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), um dos maiores engarrafadores de Coca-Cola do Brasil, conseguiu anular o decreto.

Se não conseguir agora, será graças à greve dos caminhoneiros e ao exemplo de quase 40 governos ao redor do mundo que já adotaram tributação especial sobre esses produtos, para combater a obesidade.

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Daniel Blake: o carrossel do inferno que todos nós podemos viver um dia

Para ver na Netflix: EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake)
Nota 8

Em outubro de 2012, quando eu estava recém-mudada de volta para Beagá, escrevi um longo post aqui no blog relatando minha experiência no que chamei de “carrossel do inferno”, entre SACs de empresas de telefonia: “Acho que só existe uma coisa no mundo que é tão ruim quanto a tortura, mas nem é considerada uma tortura pelas entidades de direitos humanos internacionais: o labirinto a que somos submetidos a cada vez que precisamos falar com um serviço de televendas, ou central de atendimento ao consumidor.”

O filme “Eu, Daniel Blake” se inicia com uma dessas conversas surreais entre um cidadão, Dan, e uma atendente de um serviço, no caso, representante do governo. Ao longo de quase 3 minutos iniciais de filme, sofremos com as respostas frias e automáticas que Dan ouve a cada questionamento que faz. Mais adiante no filme, outros diálogos como este se repetirão, alguns por telefone, outros pessoalmente. Todos eles têm em comum a mesma frieza, despreparo e burocracia dos atendentes diante de uma pessoa de carne e osso, com um problema real que precisa ser solucionado.

O filme inteiro é um longo carrossel do inferno, de uma hora e quarenta minutos de duração.

Não quero dizer, com isso, que seja um filme ruim, mas que seja um filme realista ao traçar o retrato de como boa parte da população é (des)tratada, especialmente a população mais necessitada. Daniel é um senhor de 59 anos, carpinteiro, que sofreu um ataque cardíaco e foi proibido pela médica de voltar ao trabalho. Tenta conseguir auxílio-doença para sobreviver, mas a pessoa que faz a perícia nele – que não é médica, diga-se de passagem – diz que ele é apto a trabalhar. E aí ele segue numa luta sem fim para contornar os meandros kafkianos do Estado, verdadeiramente cruéis, e fazer jus ao seu direito, que também é sua sobrevivência.

O filme se passa na Inglaterra, os sotaques são absolutamente britânicos, o frio é até cinza, mas certamente temos vários personagens como este vivendo a mesma luta no sistema brasileiro, nas perícias do INSS e do seguro-desemprego. E em todas as partes do mundo, porque burocracia não é privilégio nosso. O diretor Ken Loach retratou com brilhantismo – talvez apenas com uma certa falta de leveza, uma brutalidade um pouco excessiva – uma situação humana e universal, interpretada pelo ator Dave Johns com grande personalidade.

Daniel Blake é o herói suburbano, é o homem comum que quer desesperadamente voltar a trabalhar, mas não pode, que tenta sobreviver, mas sem nunca esquecer de ajudar aos outros, como a família de Katie (Hayley Squires), ela própria também responsável por muitas das lágrimas que derrubamos ao ver este filme. Dan cativa imediatamente o expectador, que se identifica nele.

Que nunca tenhamos que passar pelo que Dan passou, mas não temos garantias nenhuma disso. Salve-se quem puder!

Assista ao trailer do filme:

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