#VazaJato: O furo do ‘Intercept’ sobre Moro e Dallagnol e as repercussões nos portais de notícias

O site “Intercept Brasil” comprovou o que todos nós, pessoas pensantes, já sabíamos. Ou ao menos deduzíamos, diante das evidências: Sergio Moro e Deltan Dallagnol atuaram em conluio para impossibilitar Lula de concorrer nas eleições presidenciais de 2018 – mesmo sem terem provas fortes contra o ex-presidente, segundo a reportagem. A Lava Jato atuou até mesmo para barrar entrevista do Lula no ano passado, evitando ajudar Fernando Haddad, o eventual candidato petista, também de acordo com a denúncia. O resto da história nós acompanhamos nos últimos meses: Jair Bolsonaro acabou eleito (favorecido pela facada que o retirou de todos os debates e evitou que suas asneiras fossem conhecidas pelo eleitorado em geral). E Sergio Moro, u-la-lá, virou ministro da Justiça de Bolsonaro, ainda com a promessa de em breve tornar-se ministro do Supremo Tribunal Federal. (Este deve ser o sonho de consumo de qualquer juiz de primeira instância, não?)

Sobre as reportagens do “Intercept”, deixo aos leitores que tomem seu tempo e leiam com atenção, com direito ao contraditório do MPF, para que cheguem a suas próprias conclusões:

Pois bem. Se você for o tipo de pessoa que sabe juntar A + B, provavelmente vai chegar à mesma conclusão a que cheguei meses atrás, e que está expressa no parágrafo inicial deste post. Depois me conta, tá?

O que me interessa, como jornalista, é a repercussão diante desse furaço do “Intercept”. As reportagens foram publicadas entre 17h57 e 17h58 deste domingo. Às 21h58, entrei nos cinco maiores portais de notícias do Brasil: Folha e UOL manchetaram o furo do Intercept, que é certamente a notícia da semana e, dependendo das repercussões judiciais e políticas, pode mesmo vir a ser a notícia do ano. Já O Globo, G1 e Estadão ignoraram solenemente a notícia em suas home pages.

Se fosse bombástica acusação contra, digamos, o Lula, não só estaria na manchete de todos os portais (como quando vazaram a conversa da Dilma), como o Fantástico daria um jeito de repercutir longamente.

E, olha, não foi por falta de tempo, viu? Quatro horas, em webjornalismo, é o equivalente quase a um século. Deu tempo de os chefes pensarem, repensarem, tomarem um cafezinho, e baterem o martelo. Foi uma escolha editorial e ponto.

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Até quando poderão ignorar a notícia do “Intercept”, descobriremos em breve. Vai depender da resposta que, por exemplo, o STF vai dar ao que é agora denunciado.

O fato é que o “Intercept” promete não parar por aí. Avisa que possui “arquivos enormes e inéditos – incluindo mensagens privadas, gravações em áudio, vídeos, fotos, documentos judiciais e outros itens”. E que “esse é apenas o começo do que pretendemos tornar uma investigação jornalística contínua das ações de Moro, do procurador Deltan Dallagnol e da força-tarefa da Lava Jato – além da conduta de inúmeros indivíduos que ainda detêm um enorme poder político e econômico dentro e fora do Brasil.”

E eles foram precavidos: “Nós tomamos medidas para garantir a segurança deste acervo fora do Brasil, para que vários jornalistas possam acessá-lo, assegurando que nenhuma autoridade de qualquer país tenha a capacidade de impedir a publicação dessas informações.”

Agora nos resta aguardar as cenas dos próximos capítulos. Em qualquer país sério, Sergio Moro pediria para sair amanhã mesmo. E até mesmo o TSE poderia ser acionado para rever as eleições. Em se tratando de Brasil, no entanto, qualquer coisa pode acontecer. Inclusive nada.

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Lula é o bode no desfile do Paraíso do Tuiuti

Texto escrito por José de Souza Castro:

É querer muito, mesmo baixando entre nós o espírito carnavalesco, que os que elegeram o atual presidente do Brasil descubram no desfile na Sapucaí, na madrugada desta terça-feira gorda, o verdadeiro mito, o Salvador da Pátria.

Não é o capitão Jair Bolsonaro. Quem virou mito, de fato, conforme Paraíso do Tuiuti, é o Bode Ioiô, que em 1922, numa eleição dominada pelo coronelismo, se tornou o símbolo do voto de protesto.

O bode foi eleito vereador de Fortaleza. Não tomou posse, mas virou mito. Ioiô morreu em 1931, “mas sua carcaça e seu legado estão preservados no Museu do Ceará e no coração do cearense”, diz o carnavalesco Jack Vasconcelos, ao justificar a escolha da história de Ioiô para o desfile deste ano.

No ano passado, com o Vampirão, Paraíso do Tuiuti se tornou vice-campeã no Carnaval carioca. Todos sabiam quem era o Vampirão, menos a TV Globo, que transmitia o desfile, incapaz de associá-lo com Michel Temer, o usurpador da faixa presidencial que pertencera a Dilma Rousseff.

O vampirão da Tuiuti

 

Como se sairá desta vez Chico Pinheiro? Quem será o bode Ioiô?

Não há como deixar de identificar o mito do Tuiuti. “Vocês que fazem parte dessa massa irão conhecer um mito de verdade: nordestino, barbudo, baixinho, de origem pobre, amado pelos humildes e por intelectuais, incomodou a elite e foi condenado a virar símbolo da identidade de seu povo. Um herói da resistência”.

No “Histórico do Enredo”, o nome de Lula não é mencionado. É preciso? Jack Vasconcelos dá uma dica: “Ioiô é a imagem da resiliência de um povo que, inigualável, nos revela o genuíno salvador da nossa pátria: o bom humor”.

Que mais podemos querer, nesses tempos de ódio? Se não podemos esperar que uma dia Lula seja livre e que o bom humor volte a imperar, teremos nesse desfile do Paraíso do Tuiuti um bode Ioiô como símbolo “de um país que, apesar de insistir em velhas práticas políticas, sempre saberá rir de si mesmo”

Obrigado, Jack Vasconcelos. Nesse desfile, diz o carnavalesco, Ioiô é uma espécie de Davi em luta contra o gigante Golias. “Um legítimo Salvador da Pátria capaz de nos reconectar com a alegria e com a esperança”.

Mais informações AQUI.

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Os tempos difíceis de Dickens não voltam mais com Bolsonaro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Era comum ver crianças trabalhando nas fábricas inglesas do século 19. [Não sei autoria da foto]

Vinte anos depois de comprar “Hard Times”, edição da Oxford University Press, estou relendo o livro escrito em 1854 por Charles Dickens, em plena revolução industrial inglesa. Por mais desastroso que seja o governo almejado pelo ex-capitão Bolsonaro, com telescópio invertido para 1964, a situação dos trabalhadores brasileiros dificilmente regressará às condições de 164 anos atrás. Mas, de toda forma, eles viverão “Tempos Difíceis”.

No começo de 1999, enquanto eu lia “Hard Times”, o tucano Fernando Henrique Cardoso iniciava sua nova gestão de quatro anos, sob o signo da crise do real. Em janeiro, depois da posse, a moeda se desvalorizou bruscamente e os juros pagos pelo governo chegaram a 45% ao ano. Aos trancos e barrancos, a economia foi se recuperando, mas não o suficiente para manter em mãos tucanas o comando do país.

Em 2002, Lula se elegeu. Só então a situação dos trabalhadores melhorou.

Já então, poucos se lembravam dos conceitos de utilitarismo e de economia política, concebidos pelos economistas ingleses Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823), criticados por Dickens. Esses economistas defendiam que a distribuição da riqueza era governada por leis imutáveis da natureza, que a prosperidade nacional dependia do lucro dos empresários, e os salários dos trabalhadores não podiam aumentar sem pôr em risco a harmonia econômica e dar prejuízo, tanto para os trabalhadores quanto para os industriais.

Afinal, nada havia posto mais em risco a indústria brasileira como a implementação, no governo FHC, de políticas econômicas deflacionistas (juros elevados e baixo investimento estatal), associadas a um câmbio semifixo sobrevalorizado e à abertura indiscriminada da economia, com consequente aumento dos déficits comerciais e enfraquecimento da indústria nacional.

Não por acaso, um personagem relevante de Tempos Difíceis é o banqueiro Bounderby, que se orgulhava das condições de vida em Coketown, cidade fictícia criada por Dickens, inspirado em outras cidades industriais inglesas, onde os trabalhadores – homens, mulheres e crianças – eram mantidos trabalhando nas usinas entre 14 e 16 horas por dia, com folga só aos domingos.

Segundo o banqueiro, na cidade enfumaçada pelas chaminés das fábricas movidas a carvão e vapor, não existia em Coketown nenhum operário – homem, mulher e criança, aos quais chamava indistintamente de Hands (Mãos) – que não sonhasse em comer tartaruga e carne de veado com uma colher de ouro.

A poluição faz um bem danado aos pulmões. Não é?!

Não vão comer com uma colher de ouro, avisava o banqueiro, que tinha sua própria definição para o trabalho feito pelos Hands: “É o mais agradável trabalho que existe, o mais leve trabalho que existe e o mais bem pago trabalho que existe”.

Não havia motivo, também, para reclamar da poluição em que todos viviam e trabalhavam, pois fumaça “é a coisa mais saudável no mundo em todos os aspectos, particularmente para os pulmões”.

Bolsonaro e seus generais iam se divertir, se lessem “Hard Times”.

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Candidatura de Haddad e prisão de Richa em Curitiba. Meras coincidências…

Lançamento oficial de Fernando Haddad à presidência pelo PT. Foto: Ricardo Stuckert

Texto escrito por José de Souza Castro:

Horas antes de o PT lançar nesta terça-feira (11) a candidatura de Fernando Haddad à presidência da República, em substituição a Luiz Inácio Lula da Silva, preso em Curitiba há mais de 150 dias, a Polícia Estadual e a Polícia Federal, esta subordinada ao juiz Sérgio Moro, da Lava-Jato, desfecharam duas operações, ambas visando a um dos mais destacados políticos tucanos do Paraná, o ex-governador Beto Richa, que disputa uma vaga no Senado pelo PSDB.

Brilhante, não? Enfraquece o discurso petista de que Lula e o PT foram vítimas da politização da Justiça em desfavor do partido que venceu as três últimas eleições presidenciais. Afinal, pau que bate em Chico bate em Francisco…

Será? Quem bateu, porém, não foi o implacável Sérgio Moro, mas um desconhecido juiz estadual de Curitiba. O GGN, do jornalista Luís Nassif, fornece outro motivo para a prisão do primeiro político tucano feita pela Lava-Jato e por ele ter sido preso exatamente no momento em que Richa aparece nas pesquisas em segundo lugar, na disputa por duas vagas, ameaçando a candidatura de Flávio Arns, pela Rede, em terceiro lugar nas pesquisas. O mais bem colocado é Roberto Requião, do PMDB, que faz oposição a Michel Temer.

A prisão de Richa favoreceria Flávio Arns. Este foi presidente da Federação Nacional das APAEs, que tem como procuradora jurídica a mulher de Sérgio Moro, advogada Rosângela Moro. Escreve o GGN:

“A relação de Rosângela, que ainda hoje é a procuradora jurídica da Federação das APAEs, com a família Arns não para por aí. Ela também integrou equipe do advogado Marlus Arns, sobrinho de Flávio. Marlus foi advogado de delatores na Lava Jato, que foram homologados por Sergio Moro, a despeito da relação com a esposa”.

Interessante, não? Mas o que interessa mesmo é o lançamento da candidatura de Haddad, apesar de não ter merecido cobertura ao vivo da GloboNews.

Foi confirmada mais cedo pela direção nacional do PT reunida em Curitiba e tornada pública aos petistas reunidos diante da Polícia Federal por uma carta de Lula, lida a eles pelo advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, e que pode ser lida na íntegra em diversos sites, como AQUI, AQUI e AQUI. Trechos:

Há mais de cinco meses estou preso injustamente. Não cometi nenhum crime e fui condenado pela imprensa muito antes de ser julgado. Continuo desafiando os procuradores da Lava Jato, o juiz Sérgio Moro e o TRF-4 a apresentarem uma única prova contra mim, pois não se pode condenar ninguém por crimes que não praticou, por dinheiro que não desviou, por atos indeterminados. (…)

Minha condenação é uma farsa judicial, uma vingança política, sempre usando medidas de exceção contra mim. Eles não querem prender e interditar apenas o cidadão Luiz Inácio Lula da Silva. Querem prender e interditar o projeto de Brasil que a maioria aprovou em quatro eleições consecutivas, e que só foi interrompido por um golpe contra uma presidenta legitimamente eleita, que não cometeu crime de responsabilidade, jogando o país no caos. (…)

Denunciei as mentiras e os abusos de autoridade em todos os tribunais, inclusive no Comitê de Direitos Humanos da ONU, que reconheceu meu direito de ser candidato. (…)

A comunidade jurídica, dentro e fora do país, indignou-se com as aberrações cometidas por Sergio Moro e pelo Tribunal de Porto Alegre. Lideranças de todo o mundo denunciaram o atentado à democracia em que meu processo se transformou. A imprensa internacional mostrou ao mundo o que a Globo tentou esconder. (…)

É diante dessas circunstâncias que tenho de tomar uma decisão, no prazo que foi imposto de forma arbitrária. Estou indicando ao PT e à Coligação “O Povo Feliz de Novo” a substituição da minha candidatura pela do companheiro Fernando Haddad, que até este momento desempenhou com extrema lealdade a posição de candidato a vice-presidente. (…)

Se querem calar nossa voz e derrotar nosso projeto para o País, estão muito enganados. Nós continuamos vivos, no coração e na memória do povo. E o nosso nome agora é Haddad.

Haddad discursou de improviso [a partir dos 30 minutos, no vídeo]. Bem emocionado, no começo. Mas acabou firmando a voz e se entusiasmando. E aos seus ouvintes, filiados ao PT, PCdoB e PROS, partidos de sua coligação, ao conclamar: “Não é hora de voltar pra casa de cabeça baixa. É hora de sair na rua de cabeça erguida e ganhar a eleição”.

O tempo dirá.

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Datafolha: facada não se converteu em votos, rejeição do milico do PSL só cresce – mas tudo ainda pode acontecer

Após facada, vice de Bolsonaro disse: “Os profissionais da violência somos nós“. Laerte fez charge sobre a fala emblemática do general Mourão. Na Folha de S.Paulo (11/9/2018).

Na última sexta-feira, tentei fazer uma reflexão sobre o impacto que o ataque sofrido por Jair Bolsonaro poderia ter neste último mês de eleições. Vale ler AQUI, caso ainda não tenha lido.

Pois bem, a Folha acaba de divulgar a pesquisa Datafolha, realizada nesta segunda-feira (10), a primeira de peso feita após o fatídico 6 de setembro. Conclusões da pesquisa:

  • Bolsonaro apenas oscilou dois pontos, dentro da margem de erro. Não bastasse isso, sua rejeição (quando o eleitor diz que “não votaria de jeito nenhum no candidato”) subiu de 39% para 43%.
  • Nas simulações de um eventual segundo turno, ele perde para todos os demais candidatos principais, ficando empatado apenas com Haddad, do PT, surfando na onda do antipetismo e na lerdeza do Lula para passar o bastão.
  • Por falar em Haddad, mesmo sem aparecer em nenhum debate, mesmo estando numa campanha ambígua, que mostra o Lula mais como candidato do que ele, mesmo sendo publicizado como “vice” até hoje, numa estratégia que vem exasperando parte do eleitorado petista, mesmo assim ele cresceu, passando de 4% para 9%, tecnicamente empatado em segundo lugar, junto com Ciro, Marina e Alckmin.

Como eu disse na sexta, tudo pode acontecer nesses poucos dias para as eleições. O que, aliás, é bastante preocupante, porque denota o “vale-tudo” político em que o Brasil está mergulhado. Mas já me pareceu animador ver que Bolsonaro não conseguiu capitalizar a facada como muitos acharam que conseguiria (eu me incluindo nesses muitos). Talvez atitudes como esta tenham contribuído para o retrato flagrado hoje pelo Datafolha:

O extremismo e o autoritarismo que marcam essa chapa de Bolsonaro, cujo vice foi em plena Globonews dizer que pode haver um “autogolpe“, permaneceram. Mesmo depois que o presidenciável foi vítima da violência que ele sempre pregou. E, como bem disse Celso Rocha de Barros, “o eleitor é racional“.

É bem possível que, justamente por ser racional, o eleitor continue rejeitando Bolsonaro nos próximos dias, e ele nem mesmo chegue ao segundo turno. (Amém).

Enquanto isso, Lula segue tolhido pelo Judiciário, mesmo após reiterada decisão da ONU a favor de sua candidatura, e tende a sumir do noticiário depois que decidir finalmente passar o bastão para Haddad. Amanhã é o Dia D para o PT e seu maior líder deve estar na maior apreensão, porque, seja qual for sua decisão a partir de agora, ele vai ser ofuscado por ela. Depois das eleições, quando não tiver mais nenhum risco de ele apelar a qualquer Corte, nacional ou internacional, é bem capaz de o soltarem, como fizeram com o inimigo de Aécio que ficou preso ao longo de todo o ano de 2014, e só foi solto quando não tinha mais jeito de o tucano vencer, logo após o segundo turno…

Quem quer que vença nestas eleições, terá um homérico trabalho para juntar os caquinhos do Brasil e tentar reconstruir alguma coisa que se sustente minimamente de pé. Boa sorte para nós em outubro! E principalmente depois de outubro!

Leia também:

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