Minhas apostas para o Oscar 2014

oscar2014

Neste ano consegui assistir a dez dos filmes indicados ao Oscar. Dentre os nove indicados ao prêmio principal, vi oito (ficou faltando “Philomena”). Então vai ser o ano em que terei mais segurança para fazer minhas tradicionais apostas para o Oscar, o tipo de bolão que mais adoro no mundo, apesar de nunca acertar muito 😉

Vou mesclar minha torcida pessoal com o que acho que a academia vai escolher. Vamos lá:

  • Melhor ator: o páreo está duríssimo, o mais duro de todos, mas fico com Matthew McConaughey (não me surpreenderei, no entanto, se escolherem Leonardo DiCaprio ou o Chiwetel Ejiofor, também grandes merecedores)
  • Melhor atriz: Sandra Bullock (como não vi nem Álbum de Família nem Philomena, minha avaliação fica meio prejudicada, mas vou arriscar. ATUALIZAÇÃO EM 2.3, ÀS 20H: acabo de ver a atuação de Meryl Streep e não tem jeito: ela sempre me surpreende e embasbaca. Se colocar o frame dela ao lado do da Sandra, esta fica no chão, de tanto apanhar. No entanto, como a Sandra é a mais nova queridinha da América, ainda pode levar. Vou pôr duas fichinhas na mesa nesta categoria, pode?)
  • Melhor ator coadjuvante: Jared Leto (Barkhad Abi e Jonah Hill também estiveram perfeitos, mas fico com Jared Leto, maravilhoso no papel do trans de Clube de Compras Dallas)
  • Melhor atriz coadjuvante: Lupita Nyong’o (se não for ela, não há justiça neste mundo)
  • Melhor diretor: Alfonso Cuarón (esta foi o maior dos chutes. Acho dificílimo acertar esse prêmio, o mais político de todos. Se for Scorsese, McQueen ou Russell, não me surpreendo)
  • Melhor roteiro original: Ela
  • Melhor roteiro adaptado: O Lobo de Wall Street
  • Trilha sonora: Ela
  • Figurino: Trapaça
  • Melhor edição: Gravidade (de Capitão Phillips também é ótima)
  • Efeitos visuais: Gravidade
  • Fotografia: Nebraska
  • Desenho de produção: 12 anos de escravidão
  • Edição e mixagem de som: Capitão Phillips (ou Gravidade? Oh, dúvida cruel!)
  • Melhor filme: 12 anos de escravidão (acho que é o que vai levar o prêmio, mas não foi meu favorito. Aliás, acho difícil escolher um favorito: dei nota 9 para seis dos nove que concorrem nesta categoria, rs!)

Me abstenho de apostar nas categorias de animação, filme estrangeiro, curtas, documentários, canção original e maquiagem por ter visto pouco ou nenhum filme nessas categorias, prejudicando totalmente o julgamento.

Até domingo ainda devo assistir a “Philomena” e “Álbum de Família”, mas vou manter o bolão incompleto mesmo assim. Enquanto a noite de domingo não chega, depositem suas fichinhas aí nos comentários! Concordam com minha avaliação? Como votariam? 😀

Leia as resenhas dos dez filmes indicados ao Oscar 2014:

Leia também:

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Descoberta musical do dia

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Foto: reprodução/Facebook

A mineira de Belo Horizonte Jabu Morales, que vive há anos em Barcelona, na Espanha, chegou aos meus ouvidos por meio do ótimo programa do Tutti Maravilha, ontem.

Já gostei de cara da letra e da voz na primeira música que tocou, “Mãe Sereia”. Dizem os primeiros versos: “Fui pentear meus cabelos nas ondas do mar. Sua benção, Iemanjá, peço licença pra entrar”. Bela voz, letra simpática.

Eu sei, sou meio atrasada pra conhecer músicos novos de vez em quando. Sou mesmo, fico muito presa a músicos das antigas, aos blueseiros dos anos 1930, roqueiros dos anos 1960 e sambistas de pouco depois. Mas, quando gosto mesmo de alguém novo, vou a fundo para descobrir mais sobre o trabalho da pessoa. (Até hoje o CD da Denise Reis está no som do meu carro). E Jabu (de jabuticaba, será?) é a mais nova vítima!

Coloco abaixo algumas músicas para que vocês também a descubram:

E parece que ela acaba de lançar um CD, viu? 😉 Ouçam mais AQUI.

Outras descobertas musicais:

Pele, osso e uma missão

Para ver no cinema: CLUBE DE COMPRAS DALLAS (Dallas Buyers Club)

Nota 9

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Mesmo hoje, se alguém pega o vírus da aids, a vida não é nada fácil pela frente, certo?

Pois imagine o cenário dos portadores de HIV há trinta anos: o desconhecimento e ignorância acerca da doença eram astronomicamente maiores — logo, o preconceito contra os doentes também era muito maior. E estamos falando de um período em que o coquetel para amenizar os sintomas era apenas experimental. Pacientes eram cobaias vivas de drogas muito mais tóxicas que as atuais –e estavam dispostos a sê-lo, em nome da sobrevivência.

Pra piorar o cenário vivido por Ron Woodroof, nosso herói no filme, ele não estava numa Nova York da vida, mas na conservadora Dallas, no Texas. Lá, e naquela época, era comum a aids ser chamada de “doença de viado” (com essa expressão mesmo). E, a propósito, a homofobia e o machismo estavam tinindo. As agressões e constrangimentos que os homossexuais sofrem hoje não chegam nem aos pés das que existiam naquele tempo.

O próprio Ron, vivido na pele (e no osso) de Matthew McConaughey, era um caubói beberrão e mulherengo, extremamente machista e homofóbico, que quase bate no médico que lhe dá a notícia de que havia contraído o “vírus das bichas”.

Ao longo do filme, vemos uma transformação acontecer em Ron, em todos os sentidos, movida pela vontade de sobreviver. A ponto de ele se associar — depois de todos os seus amigos machões lhe darem as costas — a um transsexual, que acaba virando grande amigo e parceiro de negócios. O negócio em questão é a venda de drogas alternativas para a cura da aids, numa briga que envolveria desde a Receita Federal até a FDA (que é a Anvisa dos Estados Unidos), passando pelo judiciário. No pano de fundo, uma questão que bate na nossa porta todos os dias: o governo tem o direito de determinar que tipo de droga alguém coloca no próprio corpo, mesmo quando essa droga pode trazer mais saúde? A questão é delicada, porque envolve o tráfico, mas também a poderosa indústria farmacêutica, geralmente mais preocupada com o lucro das vendas do que com o conforto real dos pacientes.

Bom, por aí vocês veem que o que faltou a Gravidade tem de sobra neste filme: história. São histórias pessoais de um homem que se transforma, são histórias de pessoas doentes lutando pela sobrevivência, é a história real do surgimento da aids no mundo, é a história dos conflitos éticos vividos por uma médica inserida naquele sistema poderoso e ambíguo das indústrias farmacêuticas. Mas não pensem que o filme corre na onda do melodrama, que vamos ficar chorando sem parar e assustados com tanta gente em dor. O filme é leve, inteligente, passa rápido. O personagem de Ron, à medida que corre sua vida pós-aids, se torna cada vez mais cativante. Até a venda das drogas deixa de ser uma ambição para ganhar ares de missão. Logo nos acostumamos até mesmo com sua aparência subsaariana.

Para fazer esse papel — que é o papel de sua vida — o ex-galã de comédia romântica Matthew McConaughey perdeu 21 quilos. Sobraram, basicamente, sorriso, bigode, chapéu, pele e osso. Sua perna ficou da espessura do meu braço. Se isso não é abraçar um personagem, não sei o que é. E ele não foi o único. Jared Leto, que faz o trans Rayon, parceiro de Ron, perdeu 13 quilos. E está brilhante, talvez até o melhor do filme. Os dois concorrem ao Oscar por suas atuações. O filme também foi indicado pelo roteiro original, edição, maquiagem e melhor filme.

Uma coisa curiosa deste Oscar, que já apontei aqui em outros posts, é como estamos diante de uma safra de filmes sobre personagens reais. Ron Woodroof, que lutou pela sobrevivência de pessoas com aids, se junta a Solomon Northup (o negro que nasceu livre e foi tornado escravo), ao capitão Richard Phillips (que foi feito refém por piratas da Somália), a Jordan Belfort (que fez dinheiro com fraudes em Wall Street), a Philomena Lee (que foi obrigada por freiras a dar o filho para a adoção) e ao pessoal que participou do escândalo Abscam, retratado em “Trapaça“. É um sinal de que a realidade e as pessoas reais — matéria-prima do jornalismo — ainda são mais incríveis do que nossa vã imaginação pode conceber. Sorte nossa.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014:

Quando a técnica suplanta a história

Para ver no cinema: GRAVIDADE (Gravity)

Nota 7

gravidade“Foi complicado gravar no espaço?”, perguntou um jornalista mexicano, durante a coletiva de imprensa sobre o filme “Gravidade”.

Mesmo tendo provocado risos, a pergunta mostra como o filme é perfeito, do ponto de vista de efeitos visuais. Astronautas que viram o filme ficaram encantados com a fidelidade em vários aspectos (embora tenham criticado alguns outros). As imagens do pôr do Sol e da aurora vistos do espaço foram feitas pela NASA de sua estação espacial. E todo o resto foi obtido a partir de muito esforço envolvendo luzes, cabos e coreografia da atriz principal, Sandra Bullock, como é possível ver neste ótimo making of:

O resultado é a impressão de que o filme foi gravado no espaço, de tão realista para nossos olhos leigos. Passar 90 minutos diante dessas imagens é o melhor do filme, na minha opinião. Nos faz perder o ar quando o oxigênio da astronauta está acabando, sentir o calor que ela sente em outra cena, e os trancos que ela sofre quando bate contra os objetos no espaço (ou eles batem nela). É como se estivéssemos, juntos, à deriva no espaço.

Não é à toa, portanto, que o filme concorre ao Oscar de melhores efeitos visuais. E vai ganhar, com certeza. Concorre também em outras categorias essenciais para se obter esse efeito visual desejado: fotografia, edição, design de produção, música, edição e mixagem de som e a direção de Alfonso Cuarón (conhecido por dirigir E sua Mãe também e um dos filmes de Harry Potter). Além disso, Sandra Bullock, que nunca me pareceu boa atriz, foi indicada por uma atuação convincente, trabalhada principalmente em cima de sua respiração — sem a qual o filme teria sido um fiasco, já que ela está sozinha na maior parte do tempo. Foram, principalmente, indicações pelo trabalho técnico feito no filme.

Mas reparem bem: não há qualquer indicação pelo roteiro. A academia deve ter ficado com a mesma impressão que eu: não há história, ou ela é simples demais.

Ok, é uma metáfora, correm pra dizer os fãs do filme. Não se trata apenas da astronauta tentando sobreviver no espaço e chegar sã e salva à Terra. O diretor disse que a temática principal do filme é “a possibilidade de renascer após adversidades”. Sandra Bullock também disse, naquele making of, que a história é sobre “tentar, quando não há nada mais pelo qual se tentar”. Legal, palmas para a poesia, mas ainda assim, senti falta de uma história. Talvez não fosse a principal preocupação de Alfonso Cuarón justamente porque as imagens já nos inundam o suficiente, então o melhor é que o roteiro se mantivesse bastante simples — mas simples demais. As tensões intercaladas pelas quais a personagem passa são típicas dos blockbusters, como se ela fosse a velha Sandra dirigindo um ônibus ao lado de Keanu Reeves. A diferença é que, bem, ela está no espaço sideral. E estamos lá com ela.

De qualquer forma, vale a pena assistir. Está longe de merecer o Oscar de melhor filme — e não acho que vá levar –, mas é um entretenimento de primeira, com imagens fortes, que não conseguimos ver em qualquer lugar. E, se você conseguir levantar boas reflexões a partir do que viu, elucubrando sozinho, o mérito é todo seu, caro espectador.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014:

 

O homem que acredita no que lhe contam

Para ver no cinema: NEBRASKA

Nota 9

nebraska

“O que você vai fazer com seu US$ 1 milhão?”

Quem nunca se perguntou isso? Ao preencher os seis números da Mega Sena ou entrar em um bolão de um prêmio qualquer, todo mundo se pega sonhando com o momento em que a conta bancária, subitamente e sem esforços, amanheceria com mais zeros do que tinha na véspera. E o que você faria se, de repente, tivesse acesso a esse dinheiro com o qual, até então, nunca pudera sonhar?

Woody Grant tem dois sonhos bem baratos perto dessa fortuna: comprar uma caminhonete (se for uma de luxo, sai a meros US$ 29.500) e um compressor de ar (a partir de US$ 49).

Com ralos cabelos brancos, memória rasa como um minuto e problemas de alcoolismo, é difícil saber qual é a idade do ranzinza Grant. Pode bem ter passado dos 85 e parece viver no vazio de uma rotina acomodada, agravado pelo esquecimento constante. Até ser sacudido pela promessa (real?) de ganhar US$ 1 milhão.

O que vemos nas quase duas horas seguintes é um filme de pé na estrada, o road movie, que geralmente traz consigo várias histórias de descobertas, aprendizado etc. Mas este filme não tem a pretensão de ser superprofundo ou triste. É uma comédia dramática e provoca boas risadas em alguns momentos. É bonito de se ver, tocante. Trata das relações entre pai e filho, de amizades e falsas amizades, de família e, por fim, de fé. Grant é o homem que acredita no que lhe contam. Bom seria se todos tivessem essa inocência.

Os atores do filme — em sua maioria velhinhos, como Grant — são um espetáculo à parte. O protagonista é interpretado por Bruce Dern, que concorre ao Oscar de melhor ator. Sua mulher, a desbocada Kate, é June Squibb (também indicada à estatueta de melhor atriz coadjuvante). O filho que aposta no sonho de Grant é vivido por Will Forte. O filme também concorre ao Oscar de melhor filme, melhor direção (de Alexander Payne, que dirigiu o excelente Sideways), melhor roteiro original (de Bob Nelson) e melhor fotografia (do experiente Phedon Papamichael, responsável pela câmera de mais de 50 filmes, como À Procura da Felicidade, W., Patch Adams e Sideways).

Aqui, cabe um aplauso especial à fotografia. A opção pelo filme em preto e branco, tão em desuso, não poderia ter sido mais acertada. Os contrastes de luz — que começam nas rugas da pele dos principais personagens (como se vê na foto acima) e terminam nas montanhas distantes, na estrada a perder de vista e nas muitas nuvens da paisagem — são explorados de uma forma mágica. Em vários momentos eu me pegava exclamando: “Que fotografia bonita!” Tudo parecia um álbum de família antigo, contribuindo para a ideia geral do filme: os vários irmãos reunidos na sala, estáticos, prestando atenção ao jogo na TV; o cemitério; o jornal; a casa de infância cheia de poeira e cadeiras quebradas. Espero que ganhe o Oscar ao menos nessa categoria.

Já o roteiro, simples e leve, sobre a história do filho que vai levar o pai de Montana até o Nebraska para buscar o tal prêmio, esconde várias reflexões que vão se abrindo como as montanhas do centro norte-americano. A que me penetrou com mais afinco foi a seguinte: se a vida é tão curta — como é — devemos correr para realizar nossos sonhos enquanto é tempo. E, se pudermos, realizar também os sonhos daqueles que amamos, como nossos pais. Além do mais, após realizado, devemos ter novos sonhos — porque eles alimentam nossa alma, rejuvenescem, e dão sentido ao doloroso trabalho de viver.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014: