‘Roma’: sobretudo, um filme muito bonito

Vale a pena assistir na Netflix: ROMA
Nota 9

“Roma” é, sobretudo, um filme bonito.

Bonito mesmo, no sentido amplo da palavra. Com imagens belíssimas, como estas:

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Eu ia absorvendo estas imagens e só conseguia pensar: “Nossa, este filme é muito bonito!”.

Sim, é preto e branco, e quase ninguém faz isso hoje em dia. O último louco que fez e conseguiu bombar no mainstream foi o francês Michel Hazanavicius, com seu “O Artista“, de 2011, vencedor de 5 estatuetas do Oscar, incluindo melhor filme do ano, melhor direção, melhor roteiro e melhor fotografia.

O mexicano Alfonso Cuarón, que já tem dois Oscar por “Gravidade“, tenta a mesma proeza, e volta a ser indicado nas categorias principais, incluindo melhor filme, melhor filme estrangeiro, melhor direção, melhor fotografia, melhor roteiro. Detalhe: Cuarón, além de diretor, também escreveu o roteiro do filme e assina a direção de fotografia.

Lendo mais sobre “Roma”, descobrimos que trata-se de um verdadeiro filme de memórias do diretor, por isso ele trabalhou com tanto carinho e sensibilidade nesse projeto. A história é dedicada a Libo, que foi a faz-tudo da família de Cuarón, assim como a Cléo de “Roma” (interpretada maravilhosamente pela atriz mexicana novatíssima Yalitza Aparicio, que já iniciou a carreira com uma bela indicação ao Oscar). Talvez a escolha do preto e branco tenha sido também parte desse sentimento de nostalgia do autor.

Eu só não dou nota 10 a “Roma” porque acho que ele demora um tempo longo demais para engrenar – como aqueles carros dos anos 70. Mas, uma vez dentro do filme, é difícil tirar nosso espírito de lá, e nos vemos rindo e, principalmente, chorando junto com Cléo em muitas passagens.

Os brasileiros nos identificamos muito com a sociedade mexicana, que lembrará a nossa em vários momentos. A começar pelo ofício quase de servidão que era (é?) o das domésticas que viviam nas casas dos patrões. Mas o filme não é só sobre isso. Haverá mais, muito mais, a refletir a partir dessas memórias de Cuarón. E, no meio do caminho, haverá muitas exclamações assim: “Poxa, mas que cena linda!”

(Ah sim: e com “Roma”, a Netflix faz história no cinema. Mas sobre isso você pode ler em milhões de portais por aí.)

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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Bolão do Oscar 2014: acertei 10 de 16 categorias

Selfie de atores no Twitter de Ellen DeGeneres (@TheEllenShow)

Selfie de atores no Twitter de Ellen DeGeneres (@TheEllenShow)

Mais uma vez errei em um monte de apostas, mas fiquei satisfeita por acertar mais da metade. Principalmente por ter arriscado certo nas categorias mais importantes, como melhor filme, diretor, ator e roteiro original.

Para conferir, os acertos foram:

  1. Melhor filme: 12 Anos de Escravidão
  2. Melhor diretor: Alfonso Cuarón
  3. Melhor roteiro original: Ela
  4. Melhor ator principal: Matthew McConaughey
  5. Melhor ator coadjuvante: Jared Leto
  6. Melhor atriz coadjuvante: Lupita Nyong’o
  7. Melhores efeitos visuais: Gravidade
  8. Edição de som: Gravidade (neste eu tinha dado palpite duplo; mas, como é só meu blog, tá valendo ;))
  9. Mixagem de som: Gravidade (idem)
  10. Melhor Edição: Gravidade

E os erros:

  • Escolhi duas para melhor atriz (Sandra Bullock e Meryl Streep) e nem assim consegui acertar, rs. A Cate Blanchett é excelente atriz, mas gostei tão pouco de Blue Jasmine que minha opinião ficou prejudicada. De qualquer forma, Meryl devia ser impedida de disputar Oscar, porque ela é sempre hors concours. Ela devia ganhar estatuetas pelo correio, assim que o filme em que estiver entrar em cartaz.
  • Para fotografia, ganhou Gravidade e continuo achando que Nebraska merecia mais.
  • Roteiro adaptado ganhou o ótimo 12 anos de Escravidão, e fiquei feliz com a escolha. Eu tinha votado em O Lobo de Wall Street porque não queria que ele ficasse sem prêmio nenhum, mas foi o que aconteceu. Pra mim, foi a grande surpresa negativa da noite, já que é um filmaço.
  • Em trilha ganharam os silêncios de Gravidade, e continuo preferindo a lindeza sonora de Ela.
  • Perdi no figurino  em design de produção para um filme que não assisti, então fica difícil de avaliar: O Grande Gatsby (cujo ator principal é, também, Leonardo DiCaprio)

As outras premiações (de oito categorias em que não apostei), podem ser vistas AQUI.

***

Alguns comentários:

1) Ellen DeGeneres foi excelente apresentadora. A cena dos atores comendo a pizza que ela saiu distribuindo foi impagável, quebrou aquela aura de celebridade e o formalismo da cerimônia, fez a gente imaginar o Brad Pitt tomando cerveja no quintal da nossa casa, de chinelos, enquanto o Bradley Cooper ajuda a fazer o churrasco. Não é à toa que o “selfie” que ela postou no Twitter quebrou, de longe, o recorde de retuítes. Enquanto escrevo este post, já foram mais de 2,5 milhões de retuítes (o recorde anterior, de uma foto do Obama, foi de míseros 781 mil).

bradpitt

2) Meu sonho é uma cerimônia de Oscar sem apresentações musicais. Como disse um amigo no Facebook, se Hollywood fizesse músicas, em vez de filmes, morreríamos todos de diabetes. São bombas de açúcar no tom, na letra e na voz, praticamente sufocantes!

3) Alguns discursos também enchem o saco, mas outros emocionam. É muito legal ver alguém que não é figurão, tipo os caras que fazem curtas de animação, ganhando um prêmio importante como o Oscar. Para eles, parece significar muito mais que para os bambambãs. Teve um que tremeu tanto que parecia que ia infartar no palco. Os discursos de Jared Leto e de Lupita também foram excelentes. Cate Blanchett não deixou de agradecer a Woody Allen, mesmo com os escândalos sexuais que voltaram a pairar sobre ele.

4) Pelas caras, Sandra Bullock e Leonardo DiCaprio ficaram muito decepcionados por não terem sido os escolhidos. Chiwetel Ejiofor também me pareceu puto da vida. Mas só DiCaprio virou alvo de milhares de piadas e memes na internet. Já tem até um que mostra uma cena do filme “O Lobo de Wall Street” em que o então chefe de DiCaprio é interpretado por Matthew McConaughey 😀

dicaprio_matthew

5) Gravidade merecia 7 estatuetas? Bom, como ganhou principalmente pelos prêmios técnicos e direção (e Cuarón é um diretor talentosíssimo), achei justo. Mas, é engraçado: se o filme é tão bom a ponto de ganhar em 7 categorias, mais do dobro de Clube de Compras Dallas (3) e 12 Anos de Escravidão (até então, 2), por que ele não levou logo o prêmio de melhor filme? Como achei Gravidade no máximo nota 7, fiquei feliz que a decisão não seja só aritmética ou lógica e que o prêmio mais importante da noite tenha ficado para o filme com a história mais contundente. É legal ver que boas histórias ainda superam boas tecnologias no cinema. Até quando?

Leia as resenhas dos dez filmes indicados ao Oscar 2014:

Leia também:

Quando a técnica suplanta a história

Para ver no cinema: GRAVIDADE (Gravity)

Nota 7

gravidade“Foi complicado gravar no espaço?”, perguntou um jornalista mexicano, durante a coletiva de imprensa sobre o filme “Gravidade”.

Mesmo tendo provocado risos, a pergunta mostra como o filme é perfeito, do ponto de vista de efeitos visuais. Astronautas que viram o filme ficaram encantados com a fidelidade em vários aspectos (embora tenham criticado alguns outros). As imagens do pôr do Sol e da aurora vistos do espaço foram feitas pela NASA de sua estação espacial. E todo o resto foi obtido a partir de muito esforço envolvendo luzes, cabos e coreografia da atriz principal, Sandra Bullock, como é possível ver neste ótimo making of:

O resultado é a impressão de que o filme foi gravado no espaço, de tão realista para nossos olhos leigos. Passar 90 minutos diante dessas imagens é o melhor do filme, na minha opinião. Nos faz perder o ar quando o oxigênio da astronauta está acabando, sentir o calor que ela sente em outra cena, e os trancos que ela sofre quando bate contra os objetos no espaço (ou eles batem nela). É como se estivéssemos, juntos, à deriva no espaço.

Não é à toa, portanto, que o filme concorre ao Oscar de melhores efeitos visuais. E vai ganhar, com certeza. Concorre também em outras categorias essenciais para se obter esse efeito visual desejado: fotografia, edição, design de produção, música, edição e mixagem de som e a direção de Alfonso Cuarón (conhecido por dirigir E sua Mãe também e um dos filmes de Harry Potter). Além disso, Sandra Bullock, que nunca me pareceu boa atriz, foi indicada por uma atuação convincente, trabalhada principalmente em cima de sua respiração — sem a qual o filme teria sido um fiasco, já que ela está sozinha na maior parte do tempo. Foram, principalmente, indicações pelo trabalho técnico feito no filme.

Mas reparem bem: não há qualquer indicação pelo roteiro. A academia deve ter ficado com a mesma impressão que eu: não há história, ou ela é simples demais.

Ok, é uma metáfora, correm pra dizer os fãs do filme. Não se trata apenas da astronauta tentando sobreviver no espaço e chegar sã e salva à Terra. O diretor disse que a temática principal do filme é “a possibilidade de renascer após adversidades”. Sandra Bullock também disse, naquele making of, que a história é sobre “tentar, quando não há nada mais pelo qual se tentar”. Legal, palmas para a poesia, mas ainda assim, senti falta de uma história. Talvez não fosse a principal preocupação de Alfonso Cuarón justamente porque as imagens já nos inundam o suficiente, então o melhor é que o roteiro se mantivesse bastante simples — mas simples demais. As tensões intercaladas pelas quais a personagem passa são típicas dos blockbusters, como se ela fosse a velha Sandra dirigindo um ônibus ao lado de Keanu Reeves. A diferença é que, bem, ela está no espaço sideral. E estamos lá com ela.

De qualquer forma, vale a pena assistir. Está longe de merecer o Oscar de melhor filme — e não acho que vá levar –, mas é um entretenimento de primeira, com imagens fortes, que não conseguimos ver em qualquer lugar. E, se você conseguir levantar boas reflexões a partir do que viu, elucubrando sozinho, o mérito é todo seu, caro espectador.

Leia sobre outros filmes do Oscar 2014: