‘Artista do Desastre’: o personagem mais bizarro de todos

Vale a pena assistir: ARTISTA DO DESASTRE (The Disaster Artist)
Nota 8

Já começo dizendo, alegremente, que não sou cult, e nunca tinha nem ouvido falar no filme “The Room”, que é a lenda na qual se baseia toda a história deste divertidíssimo filme “Artista do Desastre”.

Mesmo sem conhecer previamente o filme, deu para captar sua essência e perceber por que ficou conhecido, entre os cinéfilos cults, como o “melhor pior filme já feito”. O roteiro, que concorreu ao Oscar, é baseado no livro de Greg Sestero que se chama justamente, em tradução livre: “O Artista do Desastre: Minha Vida dentro de The Room, o Melhor Pior Filme Jamais Feito”.

Greg Sestero é um dos protagonistas dos dois filmes, de “Artista do Desastre” e de “The Room”, interpretado por Dave Franco. E coube ao irmão James Franco, esse ator super fera, interpretar o esquisitíssimo Tommy Wiseau, uma figura única, um dos personagens mais insólitos do cinema e, provavelmente, do planeta. Ele é tão cercado de mistério que ficamos sem saber até mesmo sua nacionalidade, idade e de onde vem toda a sua grana, que banca seu sonho de tornar-se um astro de Hollywood.

A história do filme é sobre essa saga dos dois improváveis amigos – o jovem, bonitão e carismático Greg e o sinistro Tommy, um “vilão nato” – na tentativa de perseguirem a carreira de ator, em plena Los Angeles. E sobre como resolvem a questão tocando o próprio filme, após terem sido dispensados de vários testes. “The Room” é esse filme, e ele é tão impecavelmente refilmado para “Artista do Desastre” que, nas cenas finais, quando os dois filmes são montadas lado a lado, é difícil até saber quem é quem. Quem é o Tommy de verdade e quem é o James Franco, quem é o Greg de verdade e quem é o Dave Franco etc.

Certamente esse filme é simplesmente imperdível para os fãs de “The Room”. Para os demais mortais, como eu, ainda assim é um roteiro incrível, cheio de situações improváveis e inusitadas, que mereceu plenamente sua indicação ao Oscar. Só é inexplicável James Franco, que também dirige o filme, também não ter sido indicado a melhor ator (acho que muito por conta da onda de denúncias contra atores-assediadores, que arrastou ele junto), prêmio que levou no Globo de Ouro, com louvor.

P.S. Não deixe de ver as cenas depois dos créditos finais 😉

Assista ao trailer do filme:

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Sobre orelhas e contracapas de livros

Tirinha do Liniers

Tirinha do Liniers

 

Qual é a graça de ler uma novela da Agatha Christie já sabendo quem é o assassino? Pois foi o que me aconteceu certa vez. A culpa não foi de nenhum amigo linguarudo, mas do resumo minúsculo que estava na contracapa do livro, e dava uma pista substancial sobre quem estava por trás de todos aqueles crimes.

Fiquei tão revoltada com isso que, desde aquele livro — e já faz um bocado de tempo –, parei de ler até as contracapas dos livros, mesmo com os menores resumos. As orelhas, então, nem se fala. É muito raro eu permitir que elas estraguem meu prazer.

Mas acabei me esquecendo dessa regrinha de ouro na semana passada. Eu estava começando o clássico “O Fio da Navalha”, de Somerset Maugham, quando me perguntei se o romance seria meio autobiográfico, como era “Servidão Humana” (que adorei!). Pensei: deixa eu ler na orelha, para ver se eles falam disso. Qual não foi minha surpresa — e ódio — ao constatar que a orelha contava TODO o enredo do livro? Parei a tempo de ver o final, mas, antes disso, já tinha percorrido o que ainda ia ser lido centenas de páginas adiante.

QUAL É O PROBLEMA DESSES EDITORES?!

Acho que um dos maiores prazeres da leitura é se entregar à narrativa totalmente às cegas quanto ao seu conteúdo. Tudo bem, o conteúdo não é tudo: a forma como o autor descreve a história, seu estilo, também são essenciais. Mas acho que perde metade da graça quando eu sei demais sobre o que vai acontecer. Suspense não é pré-requisito apenas de romances policiais, afinal.

Por isso, toda vez que faço uma resenha, de livro ou filme, aqui no blog, sempre tenho o cuidado de não me aprofundar demais na história, abordando apenas os motivos mais periféricos que me levaram a gostar tanto dela. E acho O FIM DO MUNDO quando uma editora consegue, em cinco linhas, revelar o assassino de um livro de detetive ou descrever tudo o que vai acontecer com o protagonista de um livro de personagem.

Como não dá para confiar nas editoras, deixo aqui a dica aos leitores: se você, assim como eu, também detesta spoilers, evite ler orelhas e contracapas dos livros. É melhor prevenir, porque não há remédio — só, talvez, uma máquina que apaga seletivamente a memória da gente, ainda não disponível no mercado.

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Quando a técnica suplanta a história

Para ver no cinema: GRAVIDADE (Gravity)

Nota 7

gravidade“Foi complicado gravar no espaço?”, perguntou um jornalista mexicano, durante a coletiva de imprensa sobre o filme “Gravidade”.

Mesmo tendo provocado risos, a pergunta mostra como o filme é perfeito, do ponto de vista de efeitos visuais. Astronautas que viram o filme ficaram encantados com a fidelidade em vários aspectos (embora tenham criticado alguns outros). As imagens do pôr do Sol e da aurora vistos do espaço foram feitas pela NASA de sua estação espacial. E todo o resto foi obtido a partir de muito esforço envolvendo luzes, cabos e coreografia da atriz principal, Sandra Bullock, como é possível ver neste ótimo making of:

O resultado é a impressão de que o filme foi gravado no espaço, de tão realista para nossos olhos leigos. Passar 90 minutos diante dessas imagens é o melhor do filme, na minha opinião. Nos faz perder o ar quando o oxigênio da astronauta está acabando, sentir o calor que ela sente em outra cena, e os trancos que ela sofre quando bate contra os objetos no espaço (ou eles batem nela). É como se estivéssemos, juntos, à deriva no espaço.

Não é à toa, portanto, que o filme concorre ao Oscar de melhores efeitos visuais. E vai ganhar, com certeza. Concorre também em outras categorias essenciais para se obter esse efeito visual desejado: fotografia, edição, design de produção, música, edição e mixagem de som e a direção de Alfonso Cuarón (conhecido por dirigir E sua Mãe também e um dos filmes de Harry Potter). Além disso, Sandra Bullock, que nunca me pareceu boa atriz, foi indicada por uma atuação convincente, trabalhada principalmente em cima de sua respiração — sem a qual o filme teria sido um fiasco, já que ela está sozinha na maior parte do tempo. Foram, principalmente, indicações pelo trabalho técnico feito no filme.

Mas reparem bem: não há qualquer indicação pelo roteiro. A academia deve ter ficado com a mesma impressão que eu: não há história, ou ela é simples demais.

Ok, é uma metáfora, correm pra dizer os fãs do filme. Não se trata apenas da astronauta tentando sobreviver no espaço e chegar sã e salva à Terra. O diretor disse que a temática principal do filme é “a possibilidade de renascer após adversidades”. Sandra Bullock também disse, naquele making of, que a história é sobre “tentar, quando não há nada mais pelo qual se tentar”. Legal, palmas para a poesia, mas ainda assim, senti falta de uma história. Talvez não fosse a principal preocupação de Alfonso Cuarón justamente porque as imagens já nos inundam o suficiente, então o melhor é que o roteiro se mantivesse bastante simples — mas simples demais. As tensões intercaladas pelas quais a personagem passa são típicas dos blockbusters, como se ela fosse a velha Sandra dirigindo um ônibus ao lado de Keanu Reeves. A diferença é que, bem, ela está no espaço sideral. E estamos lá com ela.

De qualquer forma, vale a pena assistir. Está longe de merecer o Oscar de melhor filme — e não acho que vá levar –, mas é um entretenimento de primeira, com imagens fortes, que não conseguimos ver em qualquer lugar. E, se você conseguir levantar boas reflexões a partir do que viu, elucubrando sozinho, o mérito é todo seu, caro espectador.

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