‘The Ballad of Buster Scruggs’: seis contos de aventura, como nos melhores clássicos

Vale a pena ver na Netflix: THE BALLAD OF BUSTER SCRUGGS
Nota 8

Meu sonho é que todos os filmes do Oscar estivessem disponíveis na Netflix. Desde que virei mãe, tem se tornado bem difícil ir ao cinema, então tenho que fazer malabarismos para ver os concorrentes da maior premiação do cinema mundial.  Mas que bom que, neste ano, já tivemos dois filmes no páreo e disponíveis na rede de streaming, pra quem quiser ver.

Sobre “Roma” já falei. Belíssimo. Já “The Ballad of Buster Scruggs” é um filme mais para divertir que para refletir, embora também seja muito bonito, com paisagens maravilhosas do Nebraska, Novo México e Colorado, para absorvermos com os olhos na fotografia de Bruno Delbonnel (já indicado cinco vezes ao Oscar, desde 2002, quando fez “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”).

Desta vez, estamos diante de um filme de contos, aos moldes de “Relatos Selvagens“. São seis histórias, todas de velho Oeste, com direito a caubóis, índios, caravanas, carruagens e corrida pelo ouro. Dos seis contos, tenho três favoritos: “Vale Refeição”, “Cânion do Ouro” e “A Garota Nervosa”, que são, consecutivamente, o terceiro, o quarto e o quinto contos. Eles trazem menos sangue e faroeste e mais narrativas ao estilo de Jack London e outros autores americanos que não encontramos mais por aí. O conto de abertura, que dá nome ao filme, é, curiosamente, o que achei menos bom, quase ridículo. É também o mais cômico, com Tim Blake Nelson cantarolando pra lá e pra cá, sorrisão na cara, disfarçando seu feitio assassino. Tirei dois pontos da nota final por ter começado o filme com o pior conto. Mas, diga-se de passagem, foi o meu filme preferido, até hoje, dos irmãos Coen, que não fazem muito meu estilo.

Cena do conto “Cânion do Ouro”

Mais adiante, vemos contos protagonizados pelos atores James FrancoHarry MellingTom WaitsZoe KazanLiam Neeson. Apesar de ter alguns veteranos no elenco, nenhum deles fica mais que 20 minutos na tela, e a maioria nem sequer tem um nome para o personagem que interpreta. Apesar de todos os contos se passarem num mesmo período e região dos Estados, eles têm pouco em comum no enredo. Mas alguns elementos são frequentes: personagens solitários, poucos diálogos. Ainda assim, as poucas falas são bastante interessantes. Como esta, do conto “A Garota Nervosa”:

Billy Knapp: A incerteza… Ela é adequada aos problemas deste mundo. Somente referindo-nos ao próximo podemos ter certeza. 

Alice Longabaugh: Sim.

Billy Knapp: Acredito que a certeza naquilo que podemos ver e tocar raramente é justificável, ou nunca. De todas as eras, desde nosso mais remoto passado, que certezas sobreviveram? E, no entanto, nos apressamos para fabricar novas certezas. Em busca do conforto.  A certeza… é o caminho mais fácil.

Goste ou não de histórias do faroeste, você vai gostar deste filme, se valorizar boas narrativas. Não é à toa que ele foi indicado por melhor roteiro adaptado (além de canção e figurino). Tem história ali, e da boa. Daquelas que a gente não encontra mais em autores contemporâneos, mas sim naqueles livros empoeirados na biblioteca da tia que mora no interior. Aqueles que seu pai recomendou leitura, porque fez a alegria dele quando era criança. É um roteiro com cheiro de clássico, com todas aquelas aventuras tipo “Chamado Selvagem”, “A Ilha do Tesouro” e tantos outros. Isso: um verdadeiro filme de aventura.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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‘Artista do Desastre’: o personagem mais bizarro de todos

Vale a pena assistir: ARTISTA DO DESASTRE (The Disaster Artist)
Nota 8

Já começo dizendo, alegremente, que não sou cult, e nunca tinha nem ouvido falar no filme “The Room”, que é a lenda na qual se baseia toda a história deste divertidíssimo filme “Artista do Desastre”.

Mesmo sem conhecer previamente o filme, deu para captar sua essência e perceber por que ficou conhecido, entre os cinéfilos cults, como o “melhor pior filme já feito”. O roteiro, que concorreu ao Oscar, é baseado no livro de Greg Sestero que se chama justamente, em tradução livre: “O Artista do Desastre: Minha Vida dentro de The Room, o Melhor Pior Filme Jamais Feito”.

Greg Sestero é um dos protagonistas dos dois filmes, de “Artista do Desastre” e de “The Room”, interpretado por Dave Franco. E coube ao irmão James Franco, esse ator super fera, interpretar o esquisitíssimo Tommy Wiseau, uma figura única, um dos personagens mais insólitos do cinema e, provavelmente, do planeta. Ele é tão cercado de mistério que ficamos sem saber até mesmo sua nacionalidade, idade e de onde vem toda a sua grana, que banca seu sonho de tornar-se um astro de Hollywood.

A história do filme é sobre essa saga dos dois improváveis amigos – o jovem, bonitão e carismático Greg e o sinistro Tommy, um “vilão nato” – na tentativa de perseguirem a carreira de ator, em plena Los Angeles. E sobre como resolvem a questão tocando o próprio filme, após terem sido dispensados de vários testes. “The Room” é esse filme, e ele é tão impecavelmente refilmado para “Artista do Desastre” que, nas cenas finais, quando os dois filmes são montadas lado a lado, é difícil até saber quem é quem. Quem é o Tommy de verdade e quem é o James Franco, quem é o Greg de verdade e quem é o Dave Franco etc.

Certamente esse filme é simplesmente imperdível para os fãs de “The Room”. Para os demais mortais, como eu, ainda assim é um roteiro incrível, cheio de situações improváveis e inusitadas, que mereceu plenamente sua indicação ao Oscar. Só é inexplicável James Franco, que também dirige o filme, também não ter sido indicado a melhor ator (acho que muito por conta da onda de denúncias contra atores-assediadores, que arrastou ele junto), prêmio que levou no Globo de Ouro, com louvor.

P.S. Não deixe de ver as cenas depois dos créditos finais 😉

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

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Você pode ser um solitário, mas avise para onde vai

Para ver no cinema: 127 HORAS (127 Hours)

Nota 9

Quando a sessão terminou, não se ouvia um pio. Nenhuma daquelas conversinhas pós-filme de sempre, aquele burburinho na sala do cinema. O silêncio do estarrecimento coletivo é algo que poucos filmes conseguem atingir (de cabeça, me lembro de apenas outros dois que presenciei: “O Pianista” e “Dogville“). É sinal de que ali se passou algo marcante, quase pungente, que atingiu a todos da mesma forma.

127 Horas é o filme de um homem só. De um personagem estupendo, interpretado por um ator, James Franco, que merecia ter ganhado o Oscar, independente de ter tido como concorrente um sujeito como Colin Firth. Não é para qualquer um carregar 94 minutos num mesmo cenário, com personagem (praticamente) único.

Todo mundo já entra na sala do cinema sabendo que se trata de uma história real de um sujeito que ficou preso em uma pedra, pelo braço, e que conseguiu, depois de mais de cinco dias, sair dali. Todo mundo sabe que, para a libertação, seriam necessárias altas doses de masoquismo por parte do protagonista (e sadismo, da nossa parte, como espectadores daquilo). O que nos prende tão atentamente à tela, então?

As minúcias. Elas carregam o filme de belíssimas fotografia e edição o tempo todo. E quanto menos se souber sobre elas, melhor o filme vai ficar. Por isso, vou parar por aqui.

Apenas destaco que, de todos os excelentes filmes que concorreram ao Oscar e a que assisti até agora, 127 Horas foi, de longe, o que mais me tocou. Nesses 94 minutos, qual 127 horas, prendi minha respiração várias vezes, virei o rosto da tela, retorci as mãos, fiquei angustiada, ansiosa, em prantos, com medo, chocada, aliviada, pesarosa — e sorri, e ri. É raro um filme despertar tantos sentimentos com um enredo tão simples. Isso só é possível porque temos, diante de nós, um desses raríssimos homens que levam a vida ao extremo e a vivem até as últimas conseqüências. Saber que ele é real torna tudo muito mais valioso.