‘O Retorno de Mary Poppins’: uma homenagem aos fãs

Vale a pena assistir: O RETORNO DE MARY POPPINS (Mary Poppins Returns)
Nota 8

Aviso logo de cara: sou fã de carteirinha de “Mary Poppins“, o filme original de 1964. Já escrevi sobre ele aqui no blog. Assisti a esse clássico provavelmente umas dez vezes já, sendo que boa parte delas foi na companhia do meu filho de 3 anos e meio, que também é fã.

O quê?! Um menino de 3 anos, acostumado a animações supercomputadorizadas, é fã de um filme da década de 60, com efeitos especiais antiquados e com duas horas e vinte minutos de duração?! É isso mesmo que vocês leram. O que justifica o fato de “Mary Poppins” ter se tornado um clássico. Sua magia agrada a todas as gerações – e também agradará às vindouras, por muitas e muitas décadas, enquanto sua mensagem, seu manifesto contra a chatice do mundo adulto, se fizer necessária.

Desconfio que para sempre.

Dito isso tudo, fui ver “O Retorno de Mary Poppins” desconfiadíssima. É óbvio, inevitável, inescapável comparar Emily Blunt com Julie Andrews. Em formosura, em talento, em olhadela no espelho. E, por melhor que Emily seja, não tem jeito: Julie Andrews É Mary Poppins. Não tem como ninguém chegar aos pés dela. Até o olhar e os momentos de seriedade de Mary, interpretada por Julie, são muito peculiares. A Emily resta, apenas, fazer sombra à atriz veterana – ainda que tenha ganhado sua gentil aprovação.

E o que dizer de Dick Van Dyke? Seu Bert é o mais charmoso e carismático do planeta. Por mais que o Jack de Lin-Manuel Miranda também seja simpático, a gente fica com saudades do outro companheiro de aventuras de Mary e das crianças. Pelo menos são personagens diferentes, de todo modo. Não é aquela comparação batendo à nossa cara a cada cena. (Ah, e Dick faz uma pontinha no filme, aos 93 anos de idade, só para nos alegrar!)

Os minutos iniciais do longa foram essa comparação a cada instante. Com o “retorno” perdendo para o original o tempo todo. Mas, aos poucos, a mensagem de Mary Poppins vai se fazendo mais forte e nos conecta com o essencial: a importância da imaginação, da fantasia, do faz de conta, da alegria, do bom humor, da brincadeira – enfim, de tudo o que pertence à alma das crianças – para nos mantermos vivos (de verdade) até a velhice. A importância de não esquecermos nossa criança interior, porque é só com ela que podemos superar os piores problemas da chatíssima vida adulta.

Aos poucos, a comparação deixou de se fazer relevante, porque finalmente entendi que este “retorno”, 55 anos depois, nada mais é que uma bela homenagem à Mary Poppins de sempre, e à sua mensagem para as crianças da década de 60 e para as de hoje, para os adultos daquela época retratada no filme (fim dos anos 30) e para os de hoje. Eterna, perene. São várias as referências do filme ao anterior, que a gente, que é fã, vai vendo e se deliciando. Os pinguins, a pipa, a alameda, a piada fatal, os quadros, o sapateado dos trabalhadores, até a paleta de cores usada. Só senti falta demais do “supercalifragilisticaexpialidoce”.

É, acima de tudo, um filme nostálgico principalmente para os fãs de Mary Poppins. Com direito a animações feitas a mão, sem ajuda de computadores, como antigamente. Um filme que também nos homenageia, porque nos cerca de memórias, assim como faz com a Jane e o Michael Banks trintões. É como um Peter Pan batendo à janela de Wendy anos mais tarde, para levá-la ao universo mágico da Terra do Nunca.

Merecemos esse resgate de vez em quando.

Se não fosse uma sequência de um clássico de tamanha envergadura, este filme mereceria muitos aplausos? Sim, mas vou deixar uma breve ilustração, para arrematar o post: “O Retorno de Mary Poppins”, ao qual dei nota 8, foi indicado a quatro categorias do Oscar 2019 – melhor trilha sonora, melhor canção, melhor figurino e melhor direção de arte. Não levou nenhuma. Já “Mary Poppins”, nota 10, foi indicado a 13 categorias do Oscar 1965, e ganhou em cinco (inclusive a de melhor atriz para Julie Andrews). Eis a diferença entre homenagem e homenageado.

Assista ao trailer do filme:

Ouça a canção que concorreu ao Oscar:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

Bolão do Oscar 2019: acertei 13 de 18 categorias (72% de aproveitamento!)

Como podem ver no mosaico acima, que criei para o post de anteontem, meu filme favorito deste ano foi “Green Book”, um dos três filmes que mereceram minha nota 10. “Roma”, ao qual dei nota 9, achei belíssimo e achei que levaria o prêmio principal da noite, mas fiquei felicíssima que “Green Book” tenha passado na frente neste quesito.

Por isso, no geral, acho que fui bem em minhas apostas. Além de errar esta, errei na melhor fotografia, no melhor figurino e direção de arte (ambos para “Pantera Negra”, filme que ainda não consegui ver) e na melhor animação (isso que dá resolver dar pitaco em uma categoria sem ter visto nenhum dos concorrentes nela). Por outro lado, estou muito feliz que acertei os quatro prêmios de melhores atores e atrizes (inclusive apostando na Olivia Colman) e os dois prêmios de melhores roteiros, além de melhor diretor e uma penca de prêmios técnicos.

Para conferir, os acertos foram:

  1. Melhor ator coadjuvante: Mahershala Ali, de Green Book
  2. Melhor maquiagem: Vice
  3. Melhor edição de som: Bohemian Rhapsody
  4. Melhor mixagem de som: Bohemian Rhapsody
  5. Melhor filme de língua estrangeira: “Roma
  6. Melhor atriz coadjuvante: Regina King, de “Se a rua Beale falasse”.
  7. Melhor edição: Bohemian Rhapsody
  8. Melhor roteiro adaptado: Infiltrado na Klan“!
  9. Melhor roteiro original: Green Book“!
  10. Melhor canção original: “Shallow”, de Nasce uma Estrela.
  11. Melhor diretor: Alfonso Cuarón, de “Roma
  12. Melhor ator: Rami Malek, de Bohemian Rhapsody
  13. Melhor atriz: Olivia Colman, de A Favorita

No geral, achei o Oscar deste ano muito justo. “Nasce Uma Estrela”, por exemplo, não merecia levar nada mais que a melhor canção. Infiltrado e Bohemian, que foram os outros dois filmes que mereceram minha nota 10, foram bem contemplados. “Roma”, que é um filme lindíssimo, levou em categorias importantes, como “melhor filme de língua estrangeira”, “melhor direção” e “melhor fotografia”. “Vice” talvez merecesse ter seus atores premiados, mas o roteiro e a direção não me entusiasmaram nem um pouco, então a “melhor maquiagem” cumpriu o papel de não deixar passar batido. O mesmo com os efeitos especiais para “O Primeiro Homem”. E, como escrevi na resenha, o fato de “A Favorita” ter liderado em indicações não quer dizer absolutamente nada. Levou o prêmio de melhor atriz, como imaginei, e está de bom tamanho.

No mais, achei bom ver o Oscar mais curto e sem apresentador principal. Estão se empenhando para tornar a cerimônia mais palatável para o público em geral, que bom! Que o cinema chegue a mais casas e corações ao redor do planeta.

CLIQUE AQUI para ler todas as resenhas dos filmes do Oscar que vi até agora! Vou continuar assistindo aos outros e atualizando esta lista, combinado?

Leia também:

 

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Minhas apostas para o Oscar 2019

Neste ano, consegui assistir a apenas 11 filmes indicados ao Oscar 2018 (embora minha meta fosse ver os 20 principais), nas categorias mais importantes da maior premiação do cinema (melhor filme, direção, atuações e roteiros, dentre outras). Até comecei bem, em janeiro, mas a barragem da Vale em Brumadinho se rompeu, matando mais de 300 pessoas, e isso me desnorteou. De lá pra cá, vi bem poucos filmes, e sempre de forma muito corrida e intermitente.

Dentre os realmente mais importantes, faltou ver “Pantera Negra”, com 7 indicações, que fui deixando para o fim por ter um pouco de preguiça de filme de super-herói (até hoje não vi “Logan”, que estava na minha lista do ano passado).

Apesar desses buracos, mantenho a tradição do blog, e vou fazer minhas apostas para meu bolão do Oscar — que não levam em conta o meu gosto pessoal, traduzido nas notas que dei para cada filme, mas o que considero que a academia vai preferir. No ano passado, acertei 15 de 16 categorias (93% de aproveitamento). Quanto será que vou acertar neste ano, em que estou com zero clima tanto para Oscar quanto para Carnaval (e para quase qualquer coisa leve da vida)?

Aí estão minhas fichinhas:

  1. Melhor ator coadjuvante: Mahershala Ali, de Green Book
  2. Melhor maquiagem: Vice
  3. Melhor figurino: A Favorita
  4. Melhor edição de som: Bohemian Rhapsody
  5. Melhor mixagem de som: Bohemian Rhapsody
  6. Melhor direção de arte: A Favorita
  7. Melhor filme de língua estrangeira:Roma
  8. Melhor atriz coadjuvante: Neste o páreo está duríssimo e, pra piorar, não vi a atuação de Regina King, que é uma das grandes favoritas ao prêmio. Mas vi as atuações de Emma Stone e Rachel Weisz e, como frisei na resenha, não acho que elas vão levar o prêmio. Amy Adams, que está em sua sexta indicação ao Oscar, não me pareceu excepcional em “Vice”, como em filmes anteriores. E Marina de Tavira não tem a menor chance. Por isso, vou votar na única atriz à qual não assisti, por eliminação: arrisco em Regina King, de “Se a rua Beale falasse”.
  9. Melhor animação: Os Incríveis 2
  10. Melhor edição: Bohemian Rhapsody
  11. Melhor roteiro adaptado: Vou apostar no meu favorito dentre os indicados, porque o páreo está duro e não consegui assistir a dois dos concorrentes: dá-lhe “Infiltrado na Klan“!
  12. Melhor roteiro original: Mesma coisa do que disse acima: vou no meu favoritíssimo dentre os roteiros, “Green Book“!
  13. Melhor fotografia: Guerra Fria
  14. Melhor canção original: Minha favorita é “When A Cowboy Trades His Spurs for Wings”, de Buster Scruggs, mas acho que a pop-chiclete “Shallow”, de Nasce uma Estrela, vai levar.
  15. Melhor diretor: Alfonso Cuarón, de “Roma
  16. Melhor ator: Rami Malek, de Bohemian Rhapsody
  17. Melhor atriz: Uma pena eu não ter visto a atuação de Glenn Close ainda, o que prejudica meu julgamento. Mas vou de Olivia Colman, de A Favorita
  18. Melhor filme: Neste ano, três filmes mexeram muito comigo, a ponto de eu dar nota 10 a eles: Green Book, Infiltrado na Klan e Bohemian Rhapsody. Apesar disso, acho que o filme que vai levar o prêmio principal da noite será “Roma“. Veremos!

E você? Concorda com minhas notas para cada um dos 11 filmes? E com minhas apostas nestas 18 categorias acima? Participe do bolão aí na parte de “Comentários” do blog! Depois da cerimônia vou publicar aqui o resultado da premiação e meu desempenho neste ano de tantas dúvidas 😀

Na noite do Oscar, se eu conseguir me manter de pé, vou comentar freneticamente, durante toda a cerimônia, lá no Twitter! Comentem comigo 😉

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

‘O Primeiro Homem’: um herói americano, ou não

Vale a pena assistir: O PRIMEIRO HOMEM (First Man)
Nota 7

Não foi à toa que deixei para ver este filme quase por último. É que não sou lá muito fã de histórias de astronautas, esta é a verdade. Sempre gostei muito mais da “Viagem ao Centro da Terra”, ou da “Volta ao Mundo em 80 Dias” do que do clássico “Da Terra à Lua”, de Julio Verne. É por uma questão meramente de gosto, portanto, que não consigo dar muito mais do que uma nota 7 a “First Man”, mesmo ele tendo cumprido todos os requisitos para um bom filme de biografia.

A direção do prodígio Damien Chazelle (La La Land e Whiplash) é impecável. O roteiro, baseado na obra do biógrafo de Neil Armstrong, James R. Hansen, segundo consta, é o mais acurado possível. A atuação de Ryan Gosling é, como sempre, perfeita. Claire Foy, que interpreta sua mulher, também está ótima – ela é responsável por gerar o contraste entre o que a corrida espacial estava tentando fazer e o que a vidinha terrestre exigia naquele momento. Apesar disso tudo, “O Primeiro Homem” só concorre a prêmios técnicos no Oscar: efeitos visuais, edição de som, design de produção e mixagem de som.

Mas, para mim, o maior mérito deste filme é a honestidade na construção da imagem de um dos grandes heróis norte-americanos, ao nos fazer conhecer um Armstrong que nada tem de heróico realmente – que era bastante obstinado, severo, às vezes perturbado, humilde e esforçado. São alguns adjetivos que, embora não representem tampouco um anti-herói, não costumam ser atribuídos aos heróis de cinema, convenhamos. Passamos estas mais de duas horas de sessão experimentando o medo que aqueles astronautas sentiam em missões que resultavam muitas vezes em mortes prematuras. A ida à lua, naquele 1969, era praticamente um suicídio. Tudo dentro de um programa que era muito mais político do que realmente científico. Contestadíssimo nas ruas dos Estados Unidos. Mas que resultou – e todo mundo sabe o final – em um passo histórico.

Aqui cabe destacar um spoiler que você pode ficar à vontade para saltar, indo direto ao próximo parágrafo. Mas é que os produtores do filme optaram por não colocar aquela cena de Neil e Buzz fincando a bandeira dos Estados Unidos no solo lunar. E a explicação que Ryan Gosling deu para isso diz muito da intenção do filme, que elogiei há pouco: “O feito transcendeu países e fronteiras… Eu acho que isso foi amplamente considerado no final como uma conquista humana [e] foi assim que escolhemos vê-lo. Eu também acho que Neil foi extremamente humilde, assim como muitos desses astronautas, e muitas vezes ele retirou o foco de si mesmo para voltá-lo às 400.000 pessoas que tornaram a missão possível. Eu não acho que Neil se via como um herói americano. De minhas entrevistas com sua família e pessoas que o conhecia, era exatamente o oposto. E queríamos que o filme refletisse Neil.”

Penso que, no final, algumas cenas se delongaram demais, alguns diálogos foram técnicos demais, alguns silêncios foram incômodos demais. Mas essa narrativa foi construída para nos permitir entender um pouco dessa personalidade sisuda e obstinada que pode ter sido decisiva para o sucesso de Apollo 11, contra todas as expectativas da própria Nasa. Confesso que terminei o filme ainda sem entender muito bem quem foi e o que queria Neil Armstrong. Ou mesmo Janet, sua mulher. Terá alguém conseguido algum dia?

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

‘Guerra Fria’: a história de amor é metonímia

Vale a pena assistir: GUERRA FRIA (Zimna wojna)
Nota 8

Coincidência ou não, os dois filmes mais bonitos do Oscar deste ano foram filmados em preto e branco: este “Guerra Fria” e “Roma“, que, penso eu, é o favorito a levar o prêmio principal da noite.

Esta beleza foi devidamente reconhecida pela Academia, com a indicação de melhor fotografia – e há chances reais de Lukasz Zal (de “Com Amor, Van Gogh”) ganhar. Ele já levou, afinal, o prêmio da sociedade americana de diretores de fotografia. “Guerra Fria” também concorre a melhor filme estrangeiro e melhor diretor – prêmio que Pawel Pawlikowski ganhou no prestigiado festival de Cannes.

Não se trata de um filme sobre política, apesar de o nome sugerir isso. Nem é um super relato histórico da guerra fria. É, sim, uma história de amor. Um amor que tenta sobreviver naqueles anos difíceis das décadas de 50 e 60, entre um país e outro. Por meio do amor, Pawel conta um pouco sobre a história. Mas ela é a coadjuvante do filme.

Isso talvez se deva à memória afetiva do diretor, que dedica o filme aos seus pais. A história dos protagonistas Zula e Wiktor, brilhantemente interpretados pelos experientes atores poloneses Joanna KuligTomasz Kot, é inspirada na história dos pais do diretor polonês. É como contar sobre o holocausto por meio do pianista Wladyslaw Szpilman, no filme do também polonês Roman Polanski. Ambos os filmes são metonímias – em que as partes, esses recortes poéticos, estão ali para representar o todo (a guerra fria, ou o holocausto).

Li uma sinopse do filme que diz que ele retrata uma história de amor impossível “em tempos impossíveis”. É isso: a guerra fria é um pano de fundo, mas é também personagem eloquente do filme, sempre interrompendo, ou se intrometendo, nessa história de amor – e não precisa nem de outro rival.

Com apenas uma hora e meia de duração (palmas para os filmes objetivos!), “Guerra Fria” é cheio de história, com vaivéns admiráveis, que fazem lembrar narrativas do estilo de “Travessuras da Menina Má”, com todas aquelas passagens por países diferentes, encontros e desencontros e reencontros. O filme voa. E eu nunca imaginaria isso de um longa que é baseado na história de um grupo de música folclórica polonesa. Mérito total do diretor, que arrancou 18 minutos de aplausos em Cannes.

Se vai levar as três estatuetas do Oscar para casa? Acho que não, talvez só a de melhor fotografia. Porque o páreo está duro com o outro p&b da lista. Aliás, “Roma” e “Guerra Fria” não têm só os tons de cinza em comum: ambos são filmes de memórias afetivas dos diretores, ambos são homenagens. Talvez daí venha toda a carga emocional, singela e sincera, que possuem.

Assista ao trailer do filme:

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog