O que Bolsonaro e seus eleitores não sabem do nosso futuro

Texto escrito por José de Souza Castro:

Chineses em meio a nuvem de poluição. A China é o maior emissor de gases do efeito estufa, seguida dos Estados Unidos. O Brasil é o sétimo país da lista dos maiores poluentes. Foto: Damir Sagolj/Reuters

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), um grupo de cientistas encarregado pela ONU de orientar os líderes mundiais, divulgou no último dia 8 um relatório afirmando que em 2040, antes do previsto, o mundo estará sofrendo de escassez de comida, os incêndios florestais se agravarão e recifes de corais morrerão em escala maciça.

Esse relatório é o primeiro feito a pedido de líderes mundiais que assinaram, em 2015, o Acordo de Paris, um pacto de combate ao aquecimento global. Pacto que está sendo combatido por Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, um dos países signatários. O Brasil, que também assinou, só espera a eleição de Jair Bolsonaro para também se retirar do acordo.

Trump e Bolsonaro não acreditam em aquecimento global, ao contrário, entre outros, dos prêmios Nobel de Economia deste ano, William Nordhaus e Paul Romer, que dedicaram décadas ao estudo dos impactos do clima na economia e ao papel da tecnologia na sustentabilidade.

O IPCC recebeu em 2007 o prêmio Nobel da Paz, juntamente com o americano Albert Gore, como reconhecimento pelo trabalho deles na orientação de governos. Donald Trump, porém, não se orienta pelo IPCC e Bolsonaro já deu mostras de se orientar por Trump.

Com a retirada desses dois gigantes da humanidade, ficará impossível evitar a tragédia prevista para 2040. Conforme o relatório, para evitar os danos previstos com o aquecimento global, seria necessário transformar a economia mundial em velocidade e escala sem precedentes na história.

Se continuarem as emissões dos gases causadores do efeito estufa no mesmo ritmo de agora, a atmosfera da terra estará 1,5 graus centígrados acima do que se registrava no período pré-industrial. Essa elevação da temperatura causaria inundação de áreas costeiras e aumento das secas e da pobreza no mundo. Um dano estimado em US$ 54 trilhões (cerca de R$ 199 trilhões).

Para evitar isso, seria necessário transformar a economia mundial em poucos anos. O relatório supõe que, tecnicamente, é possível realizar as mudanças necessárias, mas, politicamente, parece impossível.

Quando elaboraram o relatório, os autores nem sabiam que Bolsonaro poderia ser o próximo presidente do Brasil, a reforçar a posição política e igualmente imbecil de Trump.

Ao invés de impostos pesados sobre emissões de dióxido de carbono, como já fizeram legisladores de todo o mundo, incluindo China e União Europeia, para conter o aquecimento global, Trump prometeu queima intensificada de carvão nas usinas de energia dos Estados Unidos.

O Brasil é o sétimo maior emissor de gases causadores do efeito estufa e Bolsonaro já disse que também tem planos para abandonar o Acordo de Paris assinado por Dilma Rousseff. Ele sabe mais que os 91 cientistas de 40 países que analisaram mais de seis mil estudos científicos que resultaram no relatório do IPCC.

Os eleitores de Bolsonaro que se deixam guiar pelas mentiras, agora mais conhecidas como “fake-news”, que não se preocupam com o futuro da Terra – e do Brasil, em primeiro lugar –, só vão descobrir que seu ídolo não sabe tanto assim, quando, se ainda vivos, tiverem que fugir das águas do mar, dos incêndios e da extrema pobreza.

Paulo Migliacci traduziu uma reportagem do “The New York Times” sobre o relatório do IPCC. Os interessados podem ler AQUI ou no original, AQUI.

Leia também:

***

Quer assinar o blog para recebê-lo por email a cada novo post? É gratuito! CLIQUE AQUI e veja como é simples!

faceblogttblog

Anúncios

Prometo, é pior do que você pensa

Texto escrito por José de Souza Castro:

O blog do historiador mineiro Ricardo Faria traz resumo do artigo publicado no dia 10 de julho pela “New York Magazine”, intitulado “The Uninhabitable Earth”. Escrito pelo jornalista David Wallace-Wells, que entrevistou cientistas renomados, o artigo despertou em todo o mundo grande interesse, até mesmo pela importância da revista. O blog publica resumo do artigo de mais de 7.560 palavras. O resumo (2.100 palavras) é de autoria de José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas. Vou fazer um resumo do resumo, na esperança de interessar os leitores deste blog para um assunto vital.

Havendo interesse, o artigo de Diniz Alves pode ser lido também no site EcoDebate e o artigo original AQUI. Wallace-Wells começa deste modo sua reportagem: “It is, I promise, worse than you think (Prometo, é pior do que você pensa). O jornalista prevê uma catástrofe climática, até o fim do século, se nada for feito para mudar os rumos da insustentabilidade do crescimento econômico. Continuar lendo

O Plano de Energia Limpa de Obama. E o vento levou…

eolica

Texto escrito por José de Souza Castro:

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, lançou na última segunda-feira, 3 de agosto, o Plano de Energia Limpa. O objetivo é combater o aquecimento global. Um dos pontos mais controvertidos do plano, que corre o risco de ser barrado no judiciário, é a meta de reduzir em 32%, até o ano 2030, em relação aos níveis de 2005, a emissão de carbono pelas termoelétricas movidas a carvão.

A oposição ao plano de Obama é liderada pelos republicanos, que têm maioria no Congresso dos Estados Unidos e pelo lobby da indústria de carvão. “The New York Times” informou que pelo menos 25 Estados deverão entrar com ação coletiva contra o plano. A indústria tradicional norte-americana tem sua principal matriz energética baseada no carvão. Os opositores dizem que os pobres serão os mais prejudicados e que o plano causaria o fechamento de centenas de usinas.

Mas Obama argumenta que as críticas são repetitivas e que “toda vez que os EUA fazem progresso fazem a despeito dessas críticas”. Para ele, o aquecimento global, negado por muitos, “não é opinião, é fato”. Diz que o plano trará melhoras na saúde da população e criará empregos. E incentiva o uso de energias alternativas, como a solar e a eólica.

Faltando um ano para as eleições presidenciais e quatro meses para a cúpula global sobre o clima, a ser realizada em dezembro, Obama tenta recuperar o tempo perdido em quase sete anos de governo.

Há um mês e pouco, durante visita da presidente brasileira aos Estados Unidos, Obama e Dilma Rousseff anunciaram um plano conjunto que não convenceu aos especialistas, que apontam que o Brasil não tem metas para cortar gases que provocam o efeito estufa.

Mas o Brasil está entre os que menos preocupam, em relação ao aquecimento global. Além de uma extensa área de matas e florestas, o país tem sua matriz energética baseada em fontes não poluentes, sobretudo a hídrica, como demonstra o quadro abaixo:

ons

Na última segunda-feira, enquanto Obama lançava seu plano, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) registrava que, da produção total no Brasil – de 58,7 MW médios naquele dia –, apenas 13,4 MW, ou 22,9% do total, vinham de usinas térmicas convencionais e nucleares, consideradas poluentes.

E no mesmo dia, o Brasil batia novo recorde de produção de eletricidade eólica (3.044 MW médios), alcançando 5,18% de toda a energia produzida no país. Considerando-se que no dia 3 de setembro do ano anterior os ventos respondiam por apenas 1.492 MW médios e, em 3/8/2013, por meros 524 MW, é indiscutível o avanço do país nessa área.

E deve avançar mais ainda. Hoje temos 258 usinas eólicas, e para o leilão marcado para o dia 21 deste mês, estão cadastrados 475 empreendimentos que somam 11.476 megawatts (MW). A meta é chegar ao ano de 2023 com a geração elétrica que provém dos ventos respondendo por 11% de nossa matriz energética.

Lembra aquele filme? “E o vento levou”… Para o plano de Obama, talvez o vento não leve a nada. Mas, no Brasil, pelo menos nessa área, apesar dos ventos uivantes que, em tantas outras, estão a produzir ruído e fúria, existe um vento soprando a nosso favor.

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

O colapso da civilização

charge-aquecimento-global

Texto escrito por José de Souza Castro:

Um estudo assinado por três cientistas das universidades de Maryland e Minnesota, nos Estados Unidos, e divulgado há alguns dias, vem causando polêmica em vários países, mas teve pouca repercussão no Brasil. Entre os grandes jornais, só o “O Globo” abriu espaço para o estudo, no dia 19, em sua editoria de Ciências. Título da reportagem: “Nasa prevê que planeta está à beira do colapso”.

A agência espacial norte-americana é citada também por jornais de vários países, principalmente o Reino Unido, como financiadora do estudo. Mas, no dia 20 de março, a Nasa se apressou a tirar o corpo fora. Em nota à imprensa, declarou que o estudo não foi solicitado, orientado ou revisado por ela. Esclareceu que se trata de um estudo independente feito por pesquisadores de universidades que utilizaram ferramentas de pesquisa desenvolvidas pela Nasa para outra atividade.

O próprio título do estudo explica esse cuidado da Nasa, uma agência do governo dos Estados Unidos, pois ele destaca a desigualdade na distribuição das riquezas no mundo como causa do colapso de nossa civilização.

Os autores tentam construir um modelo matemático simples para explorar as dinâmicas essenciais da interação entre população e recursos naturais. Concluem que duas características estiveram sempre presentes nas civilizações que soçobraram nos últimos milênios: a exploração predatória dos recursos naturais e a divisão das sociedades entre ricos e pobres, ou entre elites e comuns.

As elites controlam as riquezas acumuladas, inclusive alimentos, enquanto para a massa da população, que produz a riqueza, sobra apenas uma pequena parte, em geral o bastante para a sobrevivência. Como o consumo das elites tende a crescer, eventualmente os comuns se revoltam, dando início ao colapso. Até aí, nenhuma novidade. Karl Marx, entre tantos outros, escreveram sobre isso.

E não demorou quase nada para que os autores do estudo – Safa Motesharrei e Eugenia Kalnay, da Universidade de Maryland, e Jorge Rivas, da Universidade de Minnesota – fossem acusados de comunistas. De fato, o modelo matemático desenvolvido pela Nasa e utilizado por eles não se dedicava, originalmente, a medir como a desigualdade na distribuição de renda pode apressar o fim de uma civilização, como teria ocorrido várias vezes no passado. Essa questão foi introduzida por eles no modelo batizado pela Nasa como Human and Nature Dynamics (Handy).

Conforme a notícia publicada pelo “O Globo”, sem dar destaque a essa questão – compreensivelmente, dada a conhecida orientação pró-capital do jornal –, quanto maior a diferença entre ricos e pobres, maiores as chances de um desastre. “Segundo a pesquisa, a desigualdade entre as classes sociais pauta o fim de impérios há mais de cinco mil anos” – afirma o texto, no quinto parágrafo.

O diretor executivo do Institute for Policy Research & Development, Nafeez Ahmed, o primeiro a escrever sobre esse estudo – e o fez nas páginas do jornal britânico “The Guardian” –, afirma que, embora ele seja amplamente teórico, há muitos outros estudos mais empiricamente focados que alertam: a convergência das crises de alimento, água e energia poderia criar a tempestade perfeita dentro de aproximadamente 15 anos.

Nafeez Ahmed foi acusado de ter induzido jornais do mundo inteiro a atribuir o estudo à Nasa. AQUI ele contesta um dos críticos e a própria nota da Nasa, reafirmando que a agência teve participação, sim, no apoio ao estudo.

Independentemente desse estudo, como lembrou “O Globo” em sua reportagem, a Nasa já constatou diversas vezes a multiplicação de eventos climáticos extremos, como o frio intenso do último inverno na América do Norte e o calor que, nos últimos meses, afligiu a Austrália e a América do Sul. “Seus estragos paralisam setores vitais para o funcionamento da sociedade”.

O fim da civilização pode ser adiado ou evitado, conforme o estudo, desde que ela passe por grandes modificações. As principais seriam o controle da taxa de crescimento populacional e a redução da dependência por recursos naturais e sua distribuição de uma forma mais igualitária. Não é nada fácil e resta pouco tempo, ao que parece, para que providências a esse respeito sejam tomadas.

A depender das elites, não haverá qualquer providência. E elas, nos últimos cinco mil anos, jamais foram tão poderosas como agora. Segundo o “Guardian”, o patrimônio das 85 famílias mais ricas do mundo é igual ao da metade da população mundial, como pode ser visto AQUI, na tradução do artigo de Graeme Wearden publicado no dia 20 de janeiro deste ano pela “Folha de S. Paulo”.

Pobre civilização! Seus dias parecem já estar contados.

Para uns, para outros e para mim

Laerte de 23/6/2013.

Laerte de 23/6/2013.

Para uns, a Terra nunca esteve tão quente e o ano de 2013 está entre os mais quentes da História. Para parte desses, é culpa direta dos homens o avanço da temperatura do planeta, que levará a desastres e catástrofes naturais já em curso. Para outros ainda, há, na verdade, um esfriamento da Terra e o aquecimento global é um terrorismo infundado, patrocinado por grandes interesses econômicos. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

Para uns, é irrefutável a existência de um deus supremo, bondoso, piedoso, capaz de perdoar pecados gravíssimos cometidos na Terra, desde que devidamente penitenciados, e há a perspectiva de um paraíso após esta vida terrena. Para outros, não há vida eterna, mas um constante renascimento e morte, através de reencarnações, em que as pessoas atingem estágios espirituais em constante evolução. Para outros, existem múltiplos deuses, cada qual com seu poder específico diante da vida. Para outros ainda, não existe nenhum, e a vida é só esta, e, quando acabar, juntaremo-nos ao pó do restante do universo. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

Para uns, comer carne é algo natural desde o início da humanidade, que foi se aprimorando com o tempo, com a melhoria das técnicas de caça e de cozimento, e, por serem muito mais ricas em nutrientes e calorias, o maior consumo de carnes tem proporção direta com a expansão evolutiva do cérebro humano ao longo dos milênios. Para outros, os animais sofrem e não devem ser abatidos para matar a fome dos humanos, porque isso é cruel. Para outros ainda, até as plantas têm sentimentos e algumas são capazes de crescer com mais vigor quando num ambiente cheio de música, por exemplo, portanto tampouco deveriam ser mortas para saciar a fome de alguém. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

E assim por diante.

Uma coisa eu aprendi nesses anos de vida. Que devemos respeitar os pontos de vista do outro, principalmente quando estamos tratando de assuntos ainda não consolidados pelo conhecimento humano. Assuntos que são embasados apenas por hipóteses refutáveis ou contestáveis, ou que passam pelo campo da fé. Eu respeito o vegetariano, o vegano, o evangélico, o ateu, o espírita, os acadêmicos de várias linhas. O que não respeito é quem se acha superior ao outro apenas por ter uma visão diferente dele.

Acho que a sabedoria não está em acumularmos certezas e convicções, mas em convivermos bem com nossas dúvidas. É muito legal ter convicções sobre algumas coisas, é um chão. Há assuntos sobre os quais chega a ser esperado que essas convicções existam. Espera-se que estejamos convictos de que é melhor procurar viver num estado de felicidade do que de depressão. Temos convicções de que não é razoável matar alguém, nem roubar sem qualquer necessidade. Algumas convicções ajudam a moldar nosso caráter, nossa personalidade. Mas é a dúvida que, na maioria das vezes, nos torna mais sábios. Porque o excesso de convicção é parente das certezas absolutas, que estão a um pulo do fanatismo. E o fanatismo, bem, o fanatismo é burro.

Leia também: