Carta a São Pedro

Ontem acordei com o céu, como sempre, azul-azul. Mas, de repente, o tempo fechou. Nuvens surgiram do nada, uma ventania derrubando vasinhos de plantas, o céu sendo pintado de branco-infinito. Fiquei feliz: a chuva! Finalmente!

Eis que, menos de uma hora depois, sem que nenhuma gota caísse, o sol já reaparecia. À noite, mais uma vez, tudo estava tão limpo que todas as estrelas podiam ser vistas. E hoje, de novo, cá está o céu azul-azul, o de brigadeiro.

Assim não dá mais, São Pedro. A garganta acordou arranhada, a poluição machuca nossos olhos e vias respiratórias, os ambulatórios estão lotados, está quente demais. A chuva se faz necessária.

E não só por essas razões individualistas, mas também pelas gerais. Metade dos municípios do Brasil corre risco de desabastecimento de água iminente. Várias cidades estão em situação de emergência agora. Até o rio São Francisco, aquele mar de rio, está ficando sem água, gerando prejuízos incalculáveis para a população que dele depende. A energia, consequentemente, também corre risco. Se não chover pra valer em um mês, a coisa vai ficar bem feia.

Eu sei que a culpa não é só da chuva. Outro dia fiquei irritadíssima — e externei minha irritação — ao ver um sujeito lavando O TELHADO (!) com mangueira. Tenho vontade de chamar a polícia toda vez que vejo alguém fazendo o mesmo com a calçada. E, se os indivíduos já fazem essas merdas, as gestões — municipais, estaduais e federal — tampouco tomam atitudes sérias para coibir o desperdício. É muita água jogada no LIXO, como bem ilustrou o Duke na última sexta-feira:

dukeagua

Uma série de reportagens, das ótimas repórteres Queila Ariadne e Ana Paula Pedrosa, mostra parte do problema causado pela seca. CLIQUE AQUI para ler “Às Margens da Seca”, do jornal “O Tempo”. Creio que o senhor vai se comover com a situação dos pequenos produtores.

E saiba que, em tempos eleitorais, qualquer coisa — até o clima — é usada de forma politiqueira. Sua inação pode ter consequências até para o nosso futuro político, veja bem.

São Pedro, São Pedro, eu estou com medo. Já imagino a chuva furiosa que vai desabar do céu quando não tiver mais jeito de segurar tanta água aí em cima. Já prevejo as inundações, enchentes, enxurradas, desabamentos e afogamentos. Os alertas da Defesa Civil, os resgates dos bombeiros, os carros ilhados na Prudente de Morais, os pobres que perdem tudo o que têm na lama, as casas que rolam morro abaixo, tanto nos aglomerados quanto nos bairros de luxo, com vista privilegiada da cidade. Fora os acidentes de trânsito, porque ninguém dirige direito na chuva e as pistas ficam escorregadias, sujas de óleo molhado.

Deixa chover, meu São Pedro. E deixa chover aos pouquinhos, com delicadeza. Diariamente, dias e noites inteiros, um dilúvio de 40 dias. As praias e clubes vão esvaziar, as peles vão desbotar, os vendedores de coco vão perder uma graninha, as obras de construção civil vão ter que ser suspensas, os acidentes ainda vão acontecer, os reclamões vão reclamar de tanta chuva em pleno fim de semana, os penteados vão se desfazer antes das festas, as roupas vão demorar mais a secar nos varais, mas ainda assim será um dilúvio necessário e bem-vindo. Fica meu pedido.

Encerro esta carta com uma imagem nostálgica, para o senhor se lembrar de como é bom dormir embalado pelo barulhinho de gotas caindo nas poças:

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Ai, ai…

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Mentira tem perna curta, Prefeitura de BH

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Meu pai é adepto da minha teoria de que os cidadãos também podem fazer política pública. Ou fui eu que aprendi com ele a registrar e publicizar os pequenos e grandes desvios dos agentes públicos.

Seja como for, a Prefeitura de Belo Horizonte cometeu um desses desvios e ele não deixou barato.

Agora dou a devida publicidade à carta que ele registrou junto à Ouvidoria, após, depois de vários pedidos para uma limpeza de boca-de-lobo, o ouvidor ter respondido que a prefeitura já tinha realizado o serviço — uma inverdade completa, pra não lascar logo que foi uma mentira:

Belo Horizonte, 6 de janeiro de 2013
Dr. Saulo Luiz Amaral
Ouvidor-Geral do Município
Prezado Senhor:
Sou o síndico do Edifício X, no Bairro Y (endereço tal), onde resido há 20 anos.
Tem esta o propósito de comunicar que a informação recebida por V. Sa. da Superintendência de Limpeza Urbana e que retransmitiu ao engenheiro A, responsável técnico pela construção do Edifício e morador do apartamento 801 desde o habite-se, é inteiramente falsa.
Ao contrário do informado, a SLU não fez no dia 21/12/2012 a limpeza da boca de lobo solicitada por mim no dia 29/11/2012 e reiterada no dia 18/12/2012 pelo engenheiro A (protocolos tais).
Tantos eram os inconvenientes para os moradores do edifício causados pelo entupimento (os dois poços dos elevadores estavam cheios de água desde finais de novembro, sem possibilidade de escoamento, com mau cheiro e riscos para a saúde e para o bom funcionamento dos elevadores), que, não podendo esperar mais, no dia 22/12/2012 contratei os serviços da Desentupidora TC Service Ltda, nome fantasia Desentupidora Millenium, para limpar o bueiro, o que realmente foi feito naquele mesmo dia, e paguei R$ 1.500,00 pelo serviço. Os comprovantes estão à disposição de V. Sa., caso seja do seu interesse apurar.
É até compreensível que a prefeitura não consiga atender a todas as solicitações dos cidadãos no devido tempo, mas é inaceitável que, não o fazendo, dê informações falsas a respeito do solicitado. Não é muito exigir que providências sejam tomadas contra quem, além de se omitir, mentiu.
Atenciosamente.
José de Souza Castro
Telefone para contato: tal
E-mail: tal

Vamos ver se chegará alguma resposta. E pobres dos cidadãos que não fazem essas pequenas políticas públicas e acabam engolidos pelas mentiras corriqueiras dos administradores da nossa cidade. Literalmente engolidos, como vimos pelos estragos causados pelas chuvas de ontem, muito ampliados pelas bocas-de-lobo entupidas.

De caos e enchentes

(Foto: CMC)

Quando começaram os primeiros trovões, ontem à noite, eu já estava sã e salva em casa. A chuva caiu de repente, por volta das 22h, e só me bastou fechar as duas janelas que estão sempre abertas (a terceira eu só deixo fechada), e continuar digitando aqui nesta mesma cadeira. Mesmo assim, foi possível perceber que se tratava de uma chuva mais forte que o normal. Escrevi ao meu pai, às 22h05: “Agora tá caindo o mundo com chuva, nunca vi chover tanto assim! Amanhã vai ter só noticiário de caos.”

Naquela hora, ao prever o caos, a primeira coisa que me veio à cabeça foram as histórias que ouvi, há um ano, no Jardim Pantanal (teve um dia que uma moradora de lá me ligou às 3h da madrugada para dizer, apavorada, que a água estava subindo de novo). Depois, lembrei de histórias que ouvi no município vizinho de Itaquaquecetuba. É claro que não me esqueci tampouco das histórias dos moradores e comerciantes da Pompéia, que também sofrem há anos. Histórias não faltam, cada chuva é uma coleção.

Não é que a chuva foi tanta que pegou de surpresa os governantes. Não dá para dizer que, numa cidade do Sudeste deste país tropical seja surpresa para alguém que chuvas torrenciais caiam no veranico. Aliás, com a tecnologia, deveria se saber precisar até o minuto em que o aguaceiro vai cair.

Faltam investimentos reais em infraestrutura urbana, desde as miudezas (limpeza de bueiros, varrição de ruas, campanhas educativas, limpeza e reforma de córregos canalizados etc) até medidas mais amplas (construção de parques lineares, piscinões, minipiscinões, mapeamento extenso e completo da rede hídrica subterrânea, investimento pesado em previsão meteorológica e, claro, investimento ainda mais pesado em moradias adequadas para as pessoas, longe de áreas de risco).

São políticas públicas necessárias pra São Paulo (e, de resto, em várias outras cidades do país) há décadas, então não há como colocar a culpa exclusivamente nos atuais governantes. Mas também eles estão sendo omissos, obviamente, já que fazem parte de um grupo que continua no poder há um tempo bastante razoável para que algo já tivesse sido feito de forma definitiva.

Enquanto isso, resta-nos ao menos um pouco de inspiração:

Pântano

Rose tinha um sofá

Comprado em várias prestações

Tantas quanto as da casa

Ainda não sua, da Caixa.

Tantas quanto dos armários,

Hoje, madeira podre.

Tudo ruiu com a enchente.

Foram os documentos dela

E os retratos da filha criança

E os diplomas e certificados

E os trocados na lata de biscoito

E os sonhos.

E os sonhos,

escoados numa água só.

Com a lama,

Com as cobras,

Com os sapos (e os lagartos)

Rose mora dentro do rio.

(23/01/2010)