Sibipirunas e as pessoas que, afinal, não gostam da primavera

Todas as fotos: Flickr / Reprodução

Todas as fotos: Flickr / Reprodução

A sibipiruna é uma árvore alta e frondosa, que pode chegar a 28 metros de altura e seis metros de diâmetro de sua copa. Ela tem lindas flores amarelas, que costumam aparecer depois de agosto e podem estender-se até o final do verão. É a árvore mais comum em Belo Horizonte, segundo o inventário feito pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente, que catalogou 18.946 representantes dessa espécie na cidade.

Duas sibipirunas majestosas podem ser encontradas na porta da minha casa. Imensas, elas ultrapassam o prédio onde eu moro, que tem cinco andares. Suas raízes incontidas já quebraram parte do passeio.

sibipirunaFico feliz da vida toda vez que estou voltando para casa e, ao olhar para cima, vejo aquelas copas verde-e-amarelas. Quando olho para o chão, vejo o passeio totalmente coberto com as florezinhas amarelas, um verdadeiro tapete colorido.

sibipiruna2Infelizmente, nem todo mundo gosta desse carnaval da Natureza. Todas as manhãs, fazendo o caminho inverso, noto algumas donas-de-casa furiosas, “varrendo” as calçadas com a mangueira. Não podem ver as florezinhas ali, elas têm que ser escorridas pela boca-do-lobo, como se fossem algo nojento, sujo, poluído.

Mas são só florezinhas, minha gente!

 

Não vou nem comentar o descalabro de usar água potável da mangueira para varrer a calçada. Já falei muito disso por aqui. Mas acho espantoso alguém se perturbar tanto com esta prova de beleza da primavera. Por que é bonito ver aquelas fotos do outono canadense, com as ruas cobertas por folhas douradas, e é feio ver nossas próprias ruas, coloridas pelo tapete amarelinho das sibipirunas?

Me fez lembrar um desenho que publiquei aqui no blog há exatamente um ano. Por mais pessoas do primeiro tipo neste mundão!

Ilustração de Roberto Kroll

Ilustração de Roberto Kroll

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Os vigilantes da água

chuveiro

— 29 minutos!, exclama, desligando o cronômetro.

— O quê, pai?

— 29 minutos de banho! É um absurdo!

Com o ouvido colado à parede, ele escutava atentamente o barulho da água no encanamento que divide com o apartamento ao lado.

Preocupado, telefona ao vizinho do bloco B:

— 29 minutos de banho! Cronometrados!

— Pois meu vizinho hoje gastou 32 minutos e meio. Pior: deram duas descargas só nesse período de tempo.

— Isso não pode mais continuar! Vamos convocar uma reunião.

Antes de ligar para o síndico, ele se senta no computador e abre a planilha. Anota: “31 de janeiro de 2015. Apartamento 32, bloco A. Banho: de 10h25 a 10h54. Sem interrupção para passar sabonete e xampu.”

Percorre a planilha inteira, cada vez mais assustado. Número total de descargas na semana: 102. 15 litros de água por descarga; total: 1.530 litros de água desperdiçados. Minutos de banho por semana: 630! 5.670 litros de água no ralo! Isso só nos dois apartamentos que vigiava.

Disca para o síndico:

— Oi, sou eu, do 33A. Precisamos marcar uma reunião de emergência entre os vigilantes da água. Sim, agora. A situação está insustentável. Só nesta semana, 7.200 litros desperdiçados. Sem contar o tempo de lavar vasilhas e faxinar a casa, que ainda não estimei. No bloco B a situação está ainda pior. Precisamos emitir um alerta vermelho.

Todos os vigilantes são contactados e, em coisa de 5 minutos, reúnem-se no apartamento do síndico. O clima é tenso, todos com o olhar sombrio. Algo precisa ser feito! Não dá mais para continuarmos assim!

— Estou sem tomar banho há três dias, lamenta um deles, e esses folgados ficam meia hora debaixo do chuveiro.

(Realmente, o perfume que vem dele é francês, dos mais fortes.)

— Eu separei uma privada só para xixi, outra para o número 2. Na primeira, não damos descarga há um mês! Está parecendo banheiro de beira de estrada, mas fazemos tudo pela consciência. Enquanto isso, meus vizinhos do bloco C dão descarga a cada cinco minutos, aposto que para descartar lixo!

E assim seguem os protestos.

O síndico, depois de ouvir tudo, promete divulgar um alerta para todos os condôminos. Avisaria que o prédio tem vizinhos conscienciosos, que estão vigilantes quanto ao desperdício. Mas, claro, sem dizer que existe o grupo secreto dos vigilantes da água. Todos vão para casa mais tranquilos.

Na mesma noite, o aviso é pregado em todos os murais, elevadores e paredes do condomínio. É também distribuído debaixo das portas e pelos porteiros:

aviso

 

Alguns vizinhos ficam escandalizados. Ameaçam um motim. Um deles aciona a imprensa, que vai até o prédio para fazer reportagem de domingo. O síndico recebe ligações a cada cinco minutos, questionando como essa “observação” vinha sendo feita.

Ele se vê obrigado a convocar outra reunião; desta vez, no salão de festas, com a presença de todos os moradores do condomínio.

Quando a gritaria começa a ultrapassar os muros do prédio, um dos vigilantes — o mais antigo morador do prédio — pede a palavra. Para assombro de todos, ele anuncia a existência do grupo secreto. E mostra suas planilhas, anotadas a mão: apartamento 11A, 15 mil litros de água desperdiçada. Apartamento 12A, 16.230 litros. E assim por diante.

Os outros vigilantes também vão listando os volumes observados em suas planilhas.

No começo, os outros moradores ficam perplexos com essa fiscalização e indignados com o grupo secreto. Aos poucos, no entanto, a cada vez que um apartamento é citado, seus moradores começam a ser olhados com ódio por todos os vizinhos e, constrangidos, se encolhem em suas cadeiras. Até que chega a vez do morador da cobertura, o único que tinha construído uma piscina no prédio. Seu vigilante havia guardado o trunfo para o final: 55 mil litros de água desperdiçada!

Foi um Ohhhhhhhh! geral. Todos do prédio, inclusive os que tinham achado um absurdo o comunicado do síndico, se revoltam contra o dono da cobertura. A briga desanda em ameaças e, por pouco, ele não é linchado. Só consegue se salvar quando promete mandar soterrar a piscina no dia seguinte (ele acaba sendo injustamente acusado de enterrar dinheiro lá dentro, mas esta é uma outra história).

Os ânimos se acalmam, os vizinhos juram que vão economizar água e que, a partir daquele dia, todos ajudarão a vigiar uns aos outros, para que os banhos não durem mais de 3 minutos (o do perfume francês funga, ainda achando demais), com paradas para ensaboar.

E aquele prédio se tornaria, depois, um dos mais conscientes de toda Grande São Paulo.


 

A história acima é, por enquanto, apenas um conto de ficção, do começo ao fim. Mas foi inspirada por aquele comunicado real, distribuído no condomínio de um amigo que mora em São Paulo. Que sirva de reflexão para todos nós, nestes tempos de seca, patrulhamento, racionamento, rodízio e de água sendo desperdiçada em 40% pela própria Copasa

Atualização às 15h: Como surgiu esta dúvida, esclareço aqui: trata-se também de uma sátira, com boas doses de ironia, porque acho que, embora o uso consciente da água seja importante, o patrulhamento carece de limite. Ou logo teremos uma “guerra da água” e linchamentos reais, ou outras medidas extremistas, fascistas e fanáticas, nesses tempos de acirramento de tudo. E isso é algo que estou longe de defender.

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De novo, o desperdício de água

Não adianta a gente se esforçar para evitar o desperdício de água no nosso apartamento se, no prédio, a faxineira continua lavando a calçada com mangueira durante vários minutos.

Outro dia a Cecília Quintão, irmã de uma amiga minha, flagrou o pessoal de limpeza do Centro Cultural do Banco do Brasil lavando AS PAREDES do prédio com mangueira! Pasmem:

A culpa não necessariamente é deles: muitos estão só seguindo ordens. A falta de consciência foi tema da charge do Duke nesta quinta-feira (16). As pessoas dão de ombros enquanto a água continua pingando em suas torneiras. Beira o cinismo:

agua

A questão é: até quando a água vai continuar pingando? O racionamento já chegou à nossa porta aqui na Grande BH! Ontem, Caeté, que fica já na região metropolitana, decretou estado de emergência e vai cortar o fornecimento de água, diariamente, de 10h às 20h, para todos os moradores da cidade, por um período de 60 dias, prorrogáveis por mais 60. Também ficou proibido lavar calçadas e carros com mangueira ou encher piscina, por exemplo, sob pena de multa. Em Formiga, já foi decretado estado de calamidade pública, que é uma situação ainda mais grave. Em BH, a Copasa não está assumindo ainda o racionamento, mas vários bairros, como Padre Eustáquio, Sagrada Família, Floresta e Santa Tereza estão enfrentando cortes de água. Logo vão ter que decretar estado de emergência aqui também, não vai dar pra fugir do assunto pra sempre.

Se as pessoas não têm essa consciência sempre — como deveriam — que a desenvolvam pelo menos em tempos de crise. Já está passando da hora, a ampulheta já virou.

Atualização em 17/10: Já falta água em 81 bairros de Belo Horizonte. Se a Copasa não admite é uma questão de transparência, mas o racionamento já chegou à capital mineira. CLIQUE AQUI para ver a reportagem de Ludmila Pizarro.

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Carta a São Pedro

Ontem acordei com o céu, como sempre, azul-azul. Mas, de repente, o tempo fechou. Nuvens surgiram do nada, uma ventania derrubando vasinhos de plantas, o céu sendo pintado de branco-infinito. Fiquei feliz: a chuva! Finalmente!

Eis que, menos de uma hora depois, sem que nenhuma gota caísse, o sol já reaparecia. À noite, mais uma vez, tudo estava tão limpo que todas as estrelas podiam ser vistas. E hoje, de novo, cá está o céu azul-azul, o de brigadeiro.

Assim não dá mais, São Pedro. A garganta acordou arranhada, a poluição machuca nossos olhos e vias respiratórias, os ambulatórios estão lotados, está quente demais. A chuva se faz necessária.

E não só por essas razões individualistas, mas também pelas gerais. Metade dos municípios do Brasil corre risco de desabastecimento de água iminente. Várias cidades estão em situação de emergência agora. Até o rio São Francisco, aquele mar de rio, está ficando sem água, gerando prejuízos incalculáveis para a população que dele depende. A energia, consequentemente, também corre risco. Se não chover pra valer em um mês, a coisa vai ficar bem feia.

Eu sei que a culpa não é só da chuva. Outro dia fiquei irritadíssima — e externei minha irritação — ao ver um sujeito lavando O TELHADO (!) com mangueira. Tenho vontade de chamar a polícia toda vez que vejo alguém fazendo o mesmo com a calçada. E, se os indivíduos já fazem essas merdas, as gestões — municipais, estaduais e federal — tampouco tomam atitudes sérias para coibir o desperdício. É muita água jogada no LIXO, como bem ilustrou o Duke na última sexta-feira:

dukeagua

Uma série de reportagens, das ótimas repórteres Queila Ariadne e Ana Paula Pedrosa, mostra parte do problema causado pela seca. CLIQUE AQUI para ler “Às Margens da Seca”, do jornal “O Tempo”. Creio que o senhor vai se comover com a situação dos pequenos produtores.

E saiba que, em tempos eleitorais, qualquer coisa — até o clima — é usada de forma politiqueira. Sua inação pode ter consequências até para o nosso futuro político, veja bem.

São Pedro, São Pedro, eu estou com medo. Já imagino a chuva furiosa que vai desabar do céu quando não tiver mais jeito de segurar tanta água aí em cima. Já prevejo as inundações, enchentes, enxurradas, desabamentos e afogamentos. Os alertas da Defesa Civil, os resgates dos bombeiros, os carros ilhados na Prudente de Morais, os pobres que perdem tudo o que têm na lama, as casas que rolam morro abaixo, tanto nos aglomerados quanto nos bairros de luxo, com vista privilegiada da cidade. Fora os acidentes de trânsito, porque ninguém dirige direito na chuva e as pistas ficam escorregadias, sujas de óleo molhado.

Deixa chover, meu São Pedro. E deixa chover aos pouquinhos, com delicadeza. Diariamente, dias e noites inteiros, um dilúvio de 40 dias. As praias e clubes vão esvaziar, as peles vão desbotar, os vendedores de coco vão perder uma graninha, as obras de construção civil vão ter que ser suspensas, os acidentes ainda vão acontecer, os reclamões vão reclamar de tanta chuva em pleno fim de semana, os penteados vão se desfazer antes das festas, as roupas vão demorar mais a secar nos varais, mas ainda assim será um dilúvio necessário e bem-vindo. Fica meu pedido.

Encerro esta carta com uma imagem nostálgica, para o senhor se lembrar de como é bom dormir embalado pelo barulhinho de gotas caindo nas poças:

chuva4

Ai, ai…

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Uma reportagem de leitura obrigatória

Foto: Mariela Guimarães / O Tempo

Foto: Mariela Guimarães / O Tempo

Já escrevemos sobre o mineroduto da Anglo American (e, antes, da MMX) algumas vezes, neste e em outros blogs. Meu pai falou dele AQUI, citei o problema por último AQUI. Quem nos acompanha nestes 11 anos de blogosfera já sabe bem, portanto, como essa “solução” para escoamento do minério de ferro brasileiro para suprir a demanda fora do país provoca graves consequências sociais e ambientais. Por onde aquele duto de água passa, rios secam, cursos d’água são desviados, o desperdício é gritante. Sem água, os moradores se desesperam. (E estamos comemorando o Dia Mundial da Água neste fim de semana, então a reflexão se torna ainda mais atual).

Tudo isso, no entanto, era algo que a gente lia a respeito, ouvia falar, deduzia. Mas, nas últimas semanas, as repórteres do jornal “O Tempo” Ana Paula PedrosaQueila Ariadne e Mariela Guimarães foram muito além: percorreram os 525 km de extensão do mineroduto, entre Conceição do Mato Dentro, em Minas, e o Porto de Açu, no Rio, pisaram em dezenas de comunidades que nem existem no mapa, falaram com centenas de pessoas, e documentaram uma situação de extrema gravidade, que beira ao surrealismo. Não à toa elas decidiram comparar o que viram com o universo imaginário de Gabriel García Márquez, como podemos ler logo no lide da reportagem principal:

“Se Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas Gerais, tivesse saído da imaginação do colombiano Gabriel García Márquez, talvez a cidade se chamasse Macondo e sua riqueza fosse banana em vez de minério. Tal como o povoado fictício da obra “Cem Anos de Solidão”, do autor, a cidade mineira também viu sua vida alterada repentinamente pela chegada de uma empresa estrangeira. No livro, é a Companhia Bananeira quem faz “uma invasão tão tumultuada e intempestiva que nos primeiros tempos era impossível andar na rua”. Em Conceição, é a instalação do projeto Minas-Rio, pela Anglo American, que está virando a vida dos moradores de cabeça para baixo.”

Recomendo veementemente a leitura de todo o material, que ainda será complementado com reportagens ao longo dos próximos dias. Por hoje, temos o seguinte: