Francelino, um político duro de morrer

Francelino Pereira em foto de 2011. Reprodução/TV Globo

Texto escrito por José de Souza Castro:

Francelino Pereira é aquele político com quem se é obrigado a conviver por dezenas de anos e que por outros tantos anos fica esquecido, até voltar a ser lembrado pela notícia de sua morte. Quando morre aos 96 anos, qual o sentimento que fica? Morreu uma espécie de símbolo civil da ditadura militar, e isso é bom. Morreu sem nunca ter sido publicamente punido, como Paulo Maluf, outro símbolo – e isso é mau.

De certa forma, ele terá recebido alguma punição, a da velhice. Leio aqui que nos últimos anos Francelino Pereira, que havia perdido progressivamente a memória, a visão e a audição, vivia recluso junto à família, até ser internado no Hospital Mater Dei, onde morreu de causas naturais na manhã desta quinta-feira.

Há muitos anos, “Ninguém escreve ao Coronel”, como naquele romance de Gabriel García Márquez. O coronel é o oitavo filho do “Capitão” Venâncio Pereira dos Santos, lavrador e vaqueiro em Angical, no interior do Piauí. E que se mudou aos 18 anos para Belo Horizonte, para estudar. Formou-se em Direito, casou-se com Latife – filha do comerciante Miguel Haddad, em cuja casa alugava um quarto, e mãe de seus três filhos.

Elegeu-se vereador da capital mineira em 1950, pela UDN, mas foi derrotado ao candidatar-se a deputado estadual quatro anos depois. Ressuscitou politicamente no começo dos anos 1960, no governo Magalhães Pinto: foi chefe de gabinete na Secretaria do Interior e Justiça e em seguida chefe da Assessoria de Assuntos Municipais do governador. Nos dois cargos, pavimentou a estrada para se eleger deputado federal em 1962.

Ficou nacionalmente conhecido ao discursar da tribuna anunciando o rompimento do governo de Minas com o governo João Goulart. Veio o golpe militar em 1964 e o Ato Institucional nº 2 que acabou com os partidos existentes. Francelino foi um dos fundadores da Arena, da qual veio a ser, em 1975, o presidente nacional, nomeado pelo ditador Ernesto Geisel, após ser o deputado federal mais votado em Minas em 1974.

Como gostava de dizer, Francelino presidia o maior partido político do Ocidente. O partido que apoiava a ditadura, contra o MDB – que em 1974 dera uma surra eleitoral na Arena, elegendo 18 senadores.

O presidente da Arena passou a inspirar humoristas, chargistas e jornalistas, por causa de tiradas como esta: “Que país é este em que o povo não acredita no calendário eleitoral estabelecido pelo próprio presidente?”. Explica-se: Geisel prometera iniciar uma transição democrática lenta, gradual e segura. E afirmou que os governadores seriam eleitos pelo voto direto nos próximos dois anos. Mas, em abril de 1977, Geisel fechou o Congresso, aumentou o mandato dos presidentes da República para seis anos, criou a figura dos senadores biônicos (o “bionicão”) e, com a Lei Falcão, limitou a propaganda eleitoral em rádio e TV à leitura de currículos dos candidatos.

Francelino Pereira foi indicado governador de Minas por decisão de Geisel e do general que viria a sucedê-lo, João Baptista Figueiredo. Tomou posse em março de 1979. Sua obra mais destacada foi a construção do Aeroporto Internacional em Confins. Mas era mais lembrado pelas greves do funcionalismo público que pipocavam em seu primeiro ano de mandato. Como a dos professores estaduais, cuja manifestação na Praça da Liberdade foi duramente reprimida com jatos d’água.

De certo modo, o governo de Francelino foi uma festa para a imprensa que ia aos poucos se livrando das limitações da ditadura. Mas nada disso impediu que ele prosseguisse na sua vitoriosa carreira política. No governo Fernando Henrique Cardoso, por oito anos, foi senador por Minas. No começo do governo Aécio Neves, foi nomeado para o Conselho de Administração da Cemig.

Duro de matar, esse Francelino.

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A estátua do Duque de Caxias e as lições da História

Texto escrito por José de Souza Castro:

Este texto com correção na edição do dia 7 deste mês do jornal “Folha de S.Paulo” lembrou-me de episódio do qual já havia me esquecido e que, no entanto, foi marcante no jornalismo brasileiro em plena ditadura militar. Uma ditadura que muitos, por ignorância ou má fé, querem ter de volta.
Não me lembrei do artigo do jornalista Lourenço Diaféria quando eu escrevia, uns 30 anos depois, para o blog da Novae, um relato contrário ao Duque de Caxias, o herói da Guerra do Paraguai. Houve polêmica entre os leitores, e pouco depois a Novae desistiu do blog e eu deixei de colaborar para o site do qual uma das minhas filhas jornalistas, a Kika, fora por um tempo a subeditora.

De qualquer forma, o artigo não me levou à prisão, ao contrário de Diaféria. Os tempos eram outros, não vivíamos mais numa ditadura. As ameaças a jornalistas vinham da Justiça, como se vê aqui. Por enquanto, nada mudou.

Lourenço Diaféria era colunista da “Folha de S.Paulo”. No dia 1º de setembro de 1977, publicou um texto intitulado “Herói. Morto. Nós”, em que comentava a morte de um sargento do Exército dentro do fosso das ariranhas no Zoológico de Brasília. O sargento estava de folga e levara sua mulher e os quatro filhos para passear. Ao ver um garoto de 14 anos sendo atacado pelas ariranhas, pulou dentro, jogou-o para fora – e morreu dilacerado pelos bichos.

O autor também pagou pela ousadia. Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Seu texto foi considerado pelo ministro da Justiça e pela Justiça Militar ofensivo às forças armadas. Pode-se ler o texto aqui, no final do artigo de Franklin Valverde, publicado em setembro de 2008 pelo Observatório da Imprensa, pouco depois da morte de Lourenço Diaféria, que já havia sido absolvido pela Justiça.

Qual a ofensa do jornalista? Continuar lendo

Golpe militar: generais chocam o ovo da serpente

Texto escrito por José de Souza Castro:

Neste momento, quem tem espaço para escrever não pode se omitir diante da revelação do general Antonio Hamilton Mourão de que “as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil”, como afirma o filósofo Vladimir Safatle, acrescentando: “Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, descartou qualquer medida e ainda foi à televisão tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as Forças Armadas podem intervir se o ‘caos’ for iminente.”

Caos é a palavra chave. Sobre isso, raciocina Safatle em seu artigo na “Folha de S.Paulo”, uma semana depois da revelação de Mourão:

“Ao que parece, “caos” seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?

Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.

De toda forma, como esperar moralidade de uma instituição que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes ações morais? As Forças Armadas brasileiras nunca tomaram distância dessas pessoas, expondo à nação um mea-culpa franco.

Ao contrário, elas os defenderam, os protegeram, até hoje. Que, ao menos, elas não venham oferecer ao país o espetáculo patético de aparecerem à cena da vida pública como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas mãos de imoralistas. As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o “caos”. Elas foram parte fundamental do caos.”

Um dia antes, no mesmo jornal, o jornalista Janio de Freitas advertira que, com a contribuição do general Mourão, reforçada com o aviso de que tem a concordância do Alto Comando do Exército, “estamos informados de que o país recuou 53 anos em sua lerda e retardada história. De volta aos antecedentes de tutela armada vividos, com as ameaças, os medos e os perigos cegos do pré-golpe de 1964”.

Como lembra Janio de Freitas, durante o último período da ditadura militar, as ideias na caserna e nas academiais se formaram por processo equivalente a lavagens cerebrais. “Fábricas de posições sem reflexão, apenas ecos de sons vindos do Norte” e, por certo, muitos ainda ocupam níveis mais altos da hierarquia, como o general Mourão. São muitos os Mourões que pensam ser possível derrubar tudo, se têm as armas e não tem ideia do que significa tal decisão. “Essas foram as premissas de todos os golpes militares, fantasiadas ou não”, afirma o experiente colunista da Folha.

Parece-me que estamos vivendo circunstâncias históricas parecidas com as que precederam, na Alemanha da década de 1930, a ditadura de Hitler. Na qual pensadores e políticos alemães diziam que não haveria golpe, por diversas razões. Como é o caso, agora, de um pré-candidato à Presidência da República, Ciro Gomes, para quem “não há condições objetivas para a consumação de qualquer golpe, porque os golpistas atuais estão levando a cabo a agenda internacional e local que interessa aos verdadeiros poderosos”. A declaração pode ser vista aqui.

Os verdadeiros poderosos no Brasil são os banqueiros. Desde o governo Lula, eles nunca lucraram tanto. E jamais foram incomodados por irregularidades praticadas na obtenção de lucros estratosféricos.

Nesse ponto, a análise de Ciro Gomes se enfraquece, considerando-se o que revela aqui a “Folha de S.Paulo”. Se o governo Temer ousar mexer com os bancos sonegadores, alarga-se a possibilidade de um golpe, pois Temer vai perder seu principal ponto de apoio internamente. E parece-me que os Estados Unidos, com Donald Trump, veriam com bons olhos militares brasileiros, dada sua formação direitista, no comando do Brasil.

Ressoa neste momento a famosa frase do general Juracy Magalhães pronunciada quando era embaixador nos Estados Unidos, nomeado pelo general Castelo Branco, o primeiro presidente após golpe de 1964: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Só que não. A entrega de áreas do pré-sal para os Estados Unidos e seus aliados no exterior, por exemplo, não é bom para o Brasil.

Voltando, porém, ao ataque aos bancos sonegadores (que, na minha modesta opinião, não dará em nada, havendo ou não golpe), o que dizem as repórteres Maeli Prado e Flávia Lima: Continuar lendo