A estátua do Duque de Caxias e as lições da História

Texto escrito por José de Souza Castro:

Este texto com correção na edição do dia 7 deste mês do jornal “Folha de S.Paulo” lembrou-me de episódio do qual já havia me esquecido e que, no entanto, foi marcante no jornalismo brasileiro em plena ditadura militar. Uma ditadura que muitos, por ignorância ou má fé, querem ter de volta.
Não me lembrei do artigo do jornalista Lourenço Diaféria quando eu escrevia, uns 30 anos depois, para o blog da Novae, um relato contrário ao Duque de Caxias, o herói da Guerra do Paraguai. Houve polêmica entre os leitores, e pouco depois a Novae desistiu do blog e eu deixei de colaborar para o site do qual uma das minhas filhas jornalistas, a Kika, fora por um tempo a subeditora.

De qualquer forma, o artigo não me levou à prisão, ao contrário de Diaféria. Os tempos eram outros, não vivíamos mais numa ditadura. As ameaças a jornalistas vinham da Justiça, como se vê aqui. Por enquanto, nada mudou.

Lourenço Diaféria era colunista da “Folha de S.Paulo”. No dia 1º de setembro de 1977, publicou um texto intitulado “Herói. Morto. Nós”, em que comentava a morte de um sargento do Exército dentro do fosso das ariranhas no Zoológico de Brasília. O sargento estava de folga e levara sua mulher e os quatro filhos para passear. Ao ver um garoto de 14 anos sendo atacado pelas ariranhas, pulou dentro, jogou-o para fora – e morreu dilacerado pelos bichos.

O autor também pagou pela ousadia. Foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Seu texto foi considerado pelo ministro da Justiça e pela Justiça Militar ofensivo às forças armadas. Pode-se ler o texto aqui, no final do artigo de Franklin Valverde, publicado em setembro de 2008 pelo Observatório da Imprensa, pouco depois da morte de Lourenço Diaféria, que já havia sido absolvido pela Justiça.

Qual a ofensa do jornalista? Continuar lendo

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Golpe militar: generais chocam o ovo da serpente

Texto escrito por José de Souza Castro:

Neste momento, quem tem espaço para escrever não pode se omitir diante da revelação do general Antonio Hamilton Mourão de que “as Forças Armadas têm um golpe militar preparado, que há uma conspiração em marcha a fim de destituir o poder civil”, como afirma o filósofo Vladimir Safatle, acrescentando: “Para mostrar que não se tratava de uma bravata que mereceria a mais dura das punições, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, descartou qualquer medida e ainda foi à televisão tecer loas a ditaduras e lembrar que, sim, as Forças Armadas podem intervir se o ‘caos’ for iminente.”

Caos é a palavra chave. Sobre isso, raciocina Safatle em seu artigo na “Folha de S.Paulo”, uma semana depois da revelação de Mourão:

“Ao que parece, “caos” seria a situação atual de corrupção generalizada. Só que alguém poderia explicar à população de qual delírio saiu a crença de que as Forças Armadas brasileiras têm alguma moral para prometer redenção moral do país?

Que se saiba, quando seus pares tomaram de assalto o Palácio do Planalto, cresceram à sua sombra grandezas morais do quilate de José Sarney, Paulo Maluf, Antonio Carlos Magalhães: todos pilares da ditadura. Enquanto eles estavam a atirar e censurar descontentes, o Brasil foi assolado por casos de corrupção como Capemi, Coroa Brastel, Brasilinvest, Paulipetro, grupo Delfin, projeto Jari, entre vários outros. Isso mesmo em um ambiente marcado pela censura e pela violência arbitrária.

De toda forma, como esperar moralidade de uma instituição que nunca viu maiores problemas em abrigar torturadores, estupradores, ocultadores de cadáveres, operadores de terrorismo de Estado, entre tantas outras grandes ações morais? As Forças Armadas brasileiras nunca tomaram distância dessas pessoas, expondo à nação um mea-culpa franco.

Ao contrário, elas os defenderam, os protegeram, até hoje. Que, ao menos, elas não venham oferecer ao país o espetáculo patético de aparecerem à cena da vida pública como defensoras de um renascimento moral feito, exatamente, pelas mãos de imoralistas. As Forças Armadas nunca foram uma garantia contra o “caos”. Elas foram parte fundamental do caos.”

Um dia antes, no mesmo jornal, o jornalista Janio de Freitas advertira que, com a contribuição do general Mourão, reforçada com o aviso de que tem a concordância do Alto Comando do Exército, “estamos informados de que o país recuou 53 anos em sua lerda e retardada história. De volta aos antecedentes de tutela armada vividos, com as ameaças, os medos e os perigos cegos do pré-golpe de 1964”.

Como lembra Janio de Freitas, durante o último período da ditadura militar, as ideias na caserna e nas academiais se formaram por processo equivalente a lavagens cerebrais. “Fábricas de posições sem reflexão, apenas ecos de sons vindos do Norte” e, por certo, muitos ainda ocupam níveis mais altos da hierarquia, como o general Mourão. São muitos os Mourões que pensam ser possível derrubar tudo, se têm as armas e não tem ideia do que significa tal decisão. “Essas foram as premissas de todos os golpes militares, fantasiadas ou não”, afirma o experiente colunista da Folha.

Parece-me que estamos vivendo circunstâncias históricas parecidas com as que precederam, na Alemanha da década de 1930, a ditadura de Hitler. Na qual pensadores e políticos alemães diziam que não haveria golpe, por diversas razões. Como é o caso, agora, de um pré-candidato à Presidência da República, Ciro Gomes, para quem “não há condições objetivas para a consumação de qualquer golpe, porque os golpistas atuais estão levando a cabo a agenda internacional e local que interessa aos verdadeiros poderosos”. A declaração pode ser vista aqui.

Os verdadeiros poderosos no Brasil são os banqueiros. Desde o governo Lula, eles nunca lucraram tanto. E jamais foram incomodados por irregularidades praticadas na obtenção de lucros estratosféricos.

Nesse ponto, a análise de Ciro Gomes se enfraquece, considerando-se o que revela aqui a “Folha de S.Paulo”. Se o governo Temer ousar mexer com os bancos sonegadores, alarga-se a possibilidade de um golpe, pois Temer vai perder seu principal ponto de apoio internamente. E parece-me que os Estados Unidos, com Donald Trump, veriam com bons olhos militares brasileiros, dada sua formação direitista, no comando do Brasil.

Ressoa neste momento a famosa frase do general Juracy Magalhães pronunciada quando era embaixador nos Estados Unidos, nomeado pelo general Castelo Branco, o primeiro presidente após golpe de 1964: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

Só que não. A entrega de áreas do pré-sal para os Estados Unidos e seus aliados no exterior, por exemplo, não é bom para o Brasil.

Voltando, porém, ao ataque aos bancos sonegadores (que, na minha modesta opinião, não dará em nada, havendo ou não golpe), o que dizem as repórteres Maeli Prado e Flávia Lima: Continuar lendo

Boas notícias. É o que realmente queremos?

Texto escrito por José de Souza Castro:

Vejo a Cris querendo boas notícias. Quem não quer? Parece óbvia a resposta, mas não é. Estou completando 45 anos de jornalismo e já vi nesse tempo muitas tentativas fracassadas, feitas por jornalistas, de tocar a profissão ocupando-se preferencialmente com boas notícias.

O problema é o leitor. Antes, a natureza humana, que teve como mestra primordial a própria natureza, na qual os fortes se alimentam dos fracos, numa cadeia alimentícia implacável. Ficar atento ao mal à nossa volta é essencial.

Se houvesse grande interesse em boas notícias, os house organs de grandes empresas com suas informações oba oba seriam um sucesso de leitura. Não são. No jornalismo brasileiro, temos muitos exemplos de importantes jornais que fracassaram quando mudaram de orientação para satisfazer governos que queriam boas notícias.

O “Correio da Manhã”, depois de se ver obrigado a fechar por causa da perseguição dos vitoriosos no golpe militar de 1964, deixando para trás um título respeitado, portanto valioso, foi refundado anos depois por empreiteiros incentivados pelo ditador de plantão. E morreu de novo, logo depois. Desta vez, morte inglória.

As revistas “Manchete” e “Fatos e Fotos”, de Adolfo Bloch, tiveram sucesso enquanto apoiavam um governo democrático popular, o de Juscelino Kubitschek. Mas elas sucumbiram ao fazer o mesmo – agora com o reforço de uma concessão, a TV Manchete – à ditadura.

A imprensa mineira, sempre disposta a agradar governos, em busca de verbas oficiais, nunca teve importância.

O “Jornal do Brasil”, relevante entre meados das décadas de 50 e 80 do século passado, começou a naufragar em março de 1985. Conto no livro “Sucursal das Incertezas”. O governo Sarney convenceu Nascimento Britto, genro da condessa Pereira Carneiro, que seria de interesse da empresa publicar boas notícias. A condessa havia morrido e o JB estava em crise, depois de a empresa investir muito para obter a concessão de uma televisão (a futura TV Manchete), negada pelo último ditador.

As “Histórias de Sucesso” patrocinadas pela Petrobras, por ordem de Sarney, e publicadas pelo JB, foram um rumoroso insucesso de leitura. Bem como o esforço do jornal para mostrar um Brasil em pleno crescimento econômico e descobrir cidades com uma população feliz. Trecho de minha narrativa:

“No fim, os proprietários do jornal viram o resultado dessa submissão. Além de o JB perder credibilidade e prestígio, Sarney concedeu a Roberto Marinho mais quatro concessões de televisão, durante seu governo. A televisão Globo massacrava o jornal da condessa. Divulgava doses maciças de publicidade do jornal O Globo, no horário nobre, mediante pagamento apenas simbólico e contábil dessa publicidade (…). Pois, imagine então encontrar, no vasto interior de Minas, uma cidade em que as pessoas sejam felizes… Bom, com muita força de imaginação, é até possível – mas jornalismo, presume-se, lida com fatos. (…) O contraponto ao Brasil visualizado por Sarney e retratado em preto e branco pelo JB veio de pesquisa do Instituto de Estudos Políticos e Sociais dirigido pelo cientista Hélio Jaguaribe. Em 26 de maio de 1986, Ricardo Noblat divulgou em sua coluna política no JB alguns dados da pesquisa: 38 milhões de brasileiros em estado de miséria; metade da população tem acesso a apenas 13% da renda nacional, enquanto 33% estão concentrados nas mãos de 5% da população mais rica; 1% dos mais ricos detém igual percentual (13%) de renda dos 50% mais pobres; a mortalidade infantil é de 65 crianças por mil nascidas vivas; e pelo menos um terço das famílias brasileiras vive em estado de subnutrição.”

Desde então, todos os governos tentaram passar uma imagem de país muito melhorado, com a ajuda interessada da grande imprensa, e, sobretudo da TV Globo. Mas, o que era ruim ficou pior.

É claro que não defendo um jornalismo só de más notícias. É preciso haver equilíbrio. Minha seleção de reportagens, no livro “O Caçador de Estrelas”, reflete essa minha preocupação.

O filósofo Vladimir Safatle reflete sobre a existência de paixões tristes e paixões alegres. Escreveu: Continuar lendo