Um recado ao eleitor que vai votar nulo ou branco

Arte do Guto Respi: www.facebook.com/guto.respi

Oi! Tudo bem? É com você mesmo que eu quero falar. Com você, que diz para quem quiser ouvir que não vota, que nunca votou na vida. Que repete que “todos os políticos são iguais”. Que nem sabe onde está guardado o título de eleitor, porque nunca foi usado.

Também estou falando com você, que já votou em candidatos do PT, já votou em candidatos do PSDB, “se desiludiu com a política”, e hoje prefere ficar em cima do muro. Vai votar branco, só pra não ter que pagar multa no TRE.

E você aí! Que vai estar em trânsito, mas, em vez de dar um jeito de votar, vai preferir justificar, “para não ter que participar desse circo”. Afinal, “um voto não faz a menor diferença”, não é mesmo?

Isso para não falar de você, que acredita naquele boato, já desmentido zilhões de vezes, de que, se mais da metade dos eleitores anularem o voto, uma nova eleição é convocada. Isso é mentira. O que vai acontecer é que todos esses votos nulos serão considerados inválidos e será preciso bem menos pessoas para eleger um boçal.

Ôxe, eu até entendo a desilusão com a política, entendo que um voto parece não fazer a menor diferença, mas não entendo alguém abrir mão de um direito tão sagrado, conquistado a tão duras penas, que é o direito de exercer a cidadania e votar em um representante. Porque, obviamente, a maior falácia do universo é acreditar que “todos os políticos são iguais”. Isso é discurso populista de quem nunca acompanhou a política de perto, de pessoas completamente despolitizadas e desinformadas.

E, mais grave que abrir mão do direito de votar é fazer isso nestas eleições polarizadíssimas, em que temos o grande risco de um sujeito que defende a ditadura militar, que defende o assassinato de cidadãos, cujo livro de cabeceira é de um reconhecido torturador brasileiro, de um sujeito com este naipe ser eleito.

Quem cala consente.

Quem fica em cima do muro, também.

Estas não são eleições para dar de ombros e deixar o barco andar, não. São eleições para se posicionar.

O risco à democracia, com o fortalecimento desse Jair Bolsonaro, é tão grande, que eleitores de todos os matizes ideológicos, gente que vai votar em Boulos/Ciro/Haddad, em Marina/Alckmin, em João Amoedo/Meirelles, em tudo quanto há, estão se unindo por uma causa comum: #EleNão. Pessoas que em 2014 estavam se estapeando nas ruas hoje estão unidas para tentar evitar a tragédia que seria para nosso país se um sujeito como Bolsonaro fosse eleito, ou mesmo chegasse ao segundo turno.

Tragédia não só dos direitos humanos, que os eleitores do sujeito parecem desdenhar mesmo, mas de todas as outras áreas importantes para dar sustentação a este frágil país: economia, educação, saúde, trabalho. Porque o sujeito, além de tudo, é um boçal, que nada entende de nada.

Por isso, amigo que está em cima do muro, amiga que nunca votou na vida, talvez seja a hora de sentar no computador, passar os olhos nos programas de governo que esses 13 presidenciáveis têm a apresentar para o Brasil, tirar um tempo para racionalizar em torno da sua escolha, e dar valor ao incrível benefício que foi conquistado para você por seus pais ou avós, essa dádiva que é poder votar a cada dois anos. Aproveite enquanto esse direito ainda não tiver sido arrancado de você, porque existe sim o risco de, em breve, não termos nem os mais básicos pilares da democracia em nosso país, como bem escreveu Celso Rocha de Barros nesta semana, em sua coluna na “Folha de S.Paulo”:Segundo o Datafolha, 13% dos eleitores pretendem anular o voto, um percentual altíssimo. Esses 13% poderiam virar o jogo do tabuleiro das eleições deste ano, poderiam dar asas a pelo menos uns cinco candidatos que ainda estão no páreo, poderiam enfraquecer este senhor que levou uma facada mas foi fazer pose de arminha na cadeira do hospital. (Como se não estivesse cercado por seguranças armados quando levou a facada…)

Se você faz parte dessa turma, saiba que tem um grande poder em mãos. E, com ele, como bem sabem os super-heróis, vem uma grande responsabilidade.

Você sempre se perguntou como um Hitler conseguiu chegar ao poder e fazer tudo o que fez? Ou como o golpe militar pôde acontecer no Brasil e perdurar por 20 anos? Eu também, mas hoje isso é claro como água. Quem avisa amigo é…

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Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

Hoje reproduzo mais uma valiosa contribuição do historiador e romancista Ricardo de Moura Faria, que também é nosso amigo desde os primórdios da blogosfera 😉 Ele é autor de dezenas de livros didáticos e paradidáticos e dos romances “O amor nos tempos do AI-5” e “Amor, opressão e liberdade”. Boa leitura!

Imagens: Pinterest

Tempos de ontem, tempos de hoje. Melhores, piores, ou apenas diferentes?

“A partir de 1918, os europeus, ainda desnorteados pelos rumos que a guerra havia tomado, com uma mortandade incrível, destruição imensa de cidades etc., começaram a reavaliar o período que antecedeu à Primeira Guerra Mundial, mais especificamente as três décadas anteriores. Cheios de nostalgia, a intitularam como “Belle Époque”.

Eles não se deram, ou não quiseram se dar conta, de que uma época realmente belle não iria produzir uma catástrofe como a de 1914, como argutamente notou a historiadora norte-americana Bárbara Tuchmann, em seu belo livro “A torre do orgulho”.

O mundo que emergiu da guerra era estranho, valores foram ignorados ou desprezados e, portanto, curtir o período anterior era o melhor a se fazer. O tempo dos avós e dos pais era diferente, era considerado melhor do que aquele que tinham de enfrentar.

Estou iniciando estas considerações com esse episódio, para tentar desenvolver uma ideia, a de que todas as épocas anteriores à nossa realmente eram diferentes e é assim em todos os tempos. Nós, historiadores, sabemos que sempre é uma palavra muito difícil para ser usada porque tudo se move, e nada permanece “para sempre”. Ou quase nada. As mudanças podem, talvez, não ser muito perceptíveis no momento em que estão ocorrendo, principalmente aquelas que estão relacionadas às mentalidades que, como já disse o historiador francês Lucien Febvre, se constituem dos comportamentos e formas de pensar. E essa concepção estava imbricada nas relações da Psicologia com a História.

Como já estou chegando aos 70 anos, começaria por dizer que os meus tempos de infância e adolescência (décadas de 1950 e 1960), com certeza, foram substancialmente diferentes do que vivem as crianças e adolescentes nessas primeiras décadas do século XXI. Morando numa cidade pequena do interior, os divertimentos eram na praça enorme que havia em frente à nossa casa. Ali se jogava futebol, ali se soltava papagaio. Nos quintais, o gostoso era subir em árvores bem altas para se avistar quase toda a cidade. Ou, na época das frutas, chupar jabuticaba, manga, goiaba. Crianças que, além da escola, brincavam com outras crianças. Não havia televisão, só o rádio. E a luz só existia em algumas poucas horas da noite. Dentro de casa, se podia jogar dama, ludo etc.

Um pouco mais velho, com 9, 10 anos, já se podia entrar na brincadeira dos adolescentes, quase sempre o “esconde-esconde”, que se chamava de “negro fugido”. Corríamos pela cidade quase toda para procurar o “negro fujão”, que tentava se esconder de um bando de crianças e adolescentes. Tudo na rua.

Eram tempos melhores ou piores do que os de hoje? As crianças, hoje, “brincam” com smartphones, com jogos eletrônicos. Não socializam como na minha época de infância. Não arrisco dizer que os tempos eram melhores ou piores. Eram diferentes, sim, bem diferentes.

Passando agora para a questão da sexualidade. Não existiam aulas de educação sexual, nem na escola, nem nas casas. Esse assunto era tabu. Claro que, na adolescência, sempre aparecia um que sabia das coisas e comentava, ao seu jeito, com os neófitos. Lembro que, cursando o Ginásio numa escola católica de Juiz de Fora, alguns padres tentavam convencer os rapazes (a escola não era mista) dos perigos da masturbação e outros – geralmente os professores de religião – faziam o maior mistério para uma “aula especial” que haveria na semana seguinte, quando iriam explicar como as crianças eram feitas. E a expectativa se frustrava quando um padre alemão, com sotaque carregadíssimo, tentava, suando, explicar como o “perrrru” entrava na mulher para produzir a nova vida. Todos os alunos vermelhos, não de vergonha, mas da tremenda vontade de rir, que só explodia mesmo na hora do recreio.

Hoje estamos vendo esse debate sem fim sobre a questão de gênero.  Já ouvi comentários que os consultórios de psicólogos e psicanalistas que atendem jovens estão repletos de casos de depressão oriundos exatamente dessa pressão para assumirem uma homossexualidade ou uma bissexualidade ou até uma transsexualidade. Pressão que, muitas vezes, surge nas escolas, e que levam garotas e garotos a terem relações homoeróticas, e que depois se acham em grande confusão mental. Acho que, inclusive, o fazem às escondidas de pais e parentes.

Ter ou não ter educação sexual nas escolas? Muitos dirão que sim, outros muitos dirão que não. E esses últimos apontam quase sempre para os tempos antigos, como se fosse possível repeti-los na atualidade. São tempos diferentes…

Pergunto: os jovens de hoje estão se reunindo para discutir política? Quando falo “os jovens”, quero saber se a maioria está fazendo isso, porque uma minoria eu sei que mantém a chama acesa. Ou hoje é mais importante ficar enviando mensagens pelas redes sociais com erros gramaticais, de concordância e de conceituação absurdos, ou ainda, se reunirem para jogar videogames? Que livros eles estão lendo? Que músicas estão ouvindo? As letras dizem algo?

Mesmo sem conhecimento de pesquisas a respeito, mas observando o que jovens escrevem no Facebook ou no Twiter, sou obrigado a reconhecer que, em termos de idéias políticas ou de politização, como dizíamos na época, no meu tempo de adolescente chegando à idade adulta, final dos anos 60 e início dos 70, o grau de conhecimento e envolvimento em questões políticas era bem mais acentuado do que hoje e envolvia a quase totalidade dos estudantes.

Creio que, se eu estivesse ainda atuando no magistério, poderia ter uma ideia melhor sobre isso, mas considero que a multidão de jovens nas ruas pedindo intervenção militar denota que eles ignoram completamente a realidade brasileira. Não por acaso – me permitam fazer essa colocação aqui – quando lancei meu livro “O Amor nos tempos do AI-5” na Bienal de São Paulo, um jovem de seus 18, 19 anos veio até mim querendo saber se o que eu escrevia era ficção científica, pois entendia que AI-5 significava Artificial Intelligence nível 5. Pode parecer engraçado, mas é trágico!

O meu ensino médio, que na época passou a se intitular Ensino de Segundo Grau, foi feito de 1966 a 1968. E nós tínhamos, no Colégio de Aplicação da UFMG, o curso Clássico e o Científico, o primeiro voltado para os estudantes que se dirigiam à área de Ciências Humanas. Foi o que cursei e tínhamos Filosofia, História, Português (com redação toda semana, temas livres), Latim, Inglês, Francês, Geografia. Lembro dos debates acerca do imperialismo americano, sobre a Primavera de Praga, sobre a Guerra do Vietnã. Três amigos e eu estudávamos antes das aulas noturnas na pensão onde um deles residia e ali tínhamos debates políticos. Também nos encontrávamos aos sábados na Camponesa, onde se comia um pão de queijo especial, tomava-se uma cerveja bem gelada e víamos que não apenas nós, mas todos os estudantes colegiais e universitários que lá frequentavam, que discutiam política o tempo todo. Recordo bem o que nós conversamos depois que aquele deputado Márcio Moreira Alves fez um discurso que os militares não acharam graça nenhuma e pressionaram o Costa e Silva. Nós saímos da nossa reunião no sábado, convictos de que a situação iria engrossar nos dias seguintes. E deu no AI-5.

Nós estudávamos História, Filosofia… e tínhamos condições de analisar a conjuntura em que vivíamos… Hoje se quer reduzir a carga horária de História e eliminar a Filosofia dos currículos… Tempos diferentes, sem dúvida!

Uma questão política da mais alta relevância: a luta da mulher pela igualdade de direitos. Só quero dizer que fico pensando o que as feministas dos anos 60 que lutaram bravamente para fugir da dominação machista, e brigaram, e lutaram e conseguiram tanto, o que elas pensariam se vivas estivessem, ao saber que no Brasil mulheres se autodenominam de frutas (melancia, pera, morango, melão, jaca e sei lá mais o quê) e postam fotos seminuas ou nuas, como se estivessem se oferecendo para serem comidas por machos famintos.

Eu concluo dizendo que, realmente, no meu tempo – que é um tempo recente – as coisas eram diferentes…”

Será que eram melhores ou piores? O que você acha?

 

 


Se você também tem alguma análise, poema, conto, crônica, resenha de filme ou outro texto bacana de sua autoria que queira ver divulgado aqui no blog, envie para meu e-mail! Vou analisar com carinho e, se tiver a ver com nossa proposta, seu texto poderá ser publicado na seção de textos enviados pelos leitores 😉

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NYT vê avanço militar no Brasil, pelo voto ou pela força

Texto escrito por José de Souza Castro:

Charge excepcional do Duke publicada no dia 20.2.2018

“Brazil’s Military Strides Into Politics, by the Ballot or by Force”. Este é o título de uma reportagem de 1.800 palavras publicada pelo “New York Times” no último sábado (em tradução livre: “Militares do Brasil avançam na política, pelo voto ou pela força”). Tipo de relato a que os brasileiros têm acesso em jornais como este dos Estados Unidos, mas não nos do Brasil.

Os repórteres Ernesto Londoño e Manuela Andreoni entrevistaram militares brasileiros de alta patente, na ativa ou na reserva. Entre eles, o general Eliéser Girão Monteiro, que se candidatou a governador do Rio Grande do Norte e que defendeu o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal que decidiram libertar políticos condenados por corrupção.

O sistema político criado pela Constituição de 1988 se tornou uma “caverna que aparentemente não tem saída de emergência”, disse Monteiro. Enquanto afirma que pessoalmente não apoia um golpe militar, acrescenta na entrevista: “A única saída de emergência que o povo está dizendo é uma intervenção militar”.

Se a eleição não trouxer mudanças rápidas, alguns destacados generais da reserva advertem que líderes militares podem se sentir compelidos a avançar para o reinício de um sistema político pela força, escreve o NYT.

“Estamos num momento critico, caminhando sobre o fio da navalha”, disse Antonio Mourão, um general de quatro estrelas que recentemente se retirou depois de sugerir no ano passado, ainda na ativa, que uma intervenção militar seria necessária para purgar a classe política dirigente. “Ainda acreditamos que o processo eleitoral representará para nós uma solução preliminar para mudar o curso”.

Bolsonaro diz que vai nomear militares nos ministérios, se eleito

Antonio Mourão foi eleito recentemente presidente do influente Clube Militar, no Rio de Janeiro. Esse general e outros oficiais reformados estão apoiando vivamente, segundo o NYT, a candidatura de Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército que tem proposto medidas polêmicas para restaurar a ordem, inclusive dando à polícia rédea solta para matar criminosos.

Bolsonaro, o primeiro ex-oficial militar a ter uma candidatura viável à Presidência da República desde a restauração da democracia, disse recentemente que nomearia generais para seu ministério, “não porque são generais, mas porque são competentes”.

A campanha de militares se apoia na ampla frustração de brasileiros com fé na democracia e nas instituições governamentais, surgida em anos recentes, principalmente depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e os enormes esquemas de propina que mancharam todos os maiores partidos.

Uma pesquisa do Latinobarómetro descobriu no ano passado que apenas 13% dos brasileiros estão satisfeitos com o estado da democracia, o mais baixo ranking entre 18 nações latino-americanas. Verificou ainda que somente 6% dos brasileiros apoiam seu governo, um ranking bem abaixo de outros governos profundamente impopulares, incluindo Venezuela e México.

Atentos a isso, generais da reserva e outros oficiais com fortes laços no comando militar estão montando uma radical campanha eleitoral, apoiando cerca de 90 militares veteranos para uma variedade de postos, incluindo a Presidência da República, nas eleições nacionais de outubro. Argumentam, diz o jornal, que o esforço é necessário “para resgatar a nação de uma liderança entrincheirada que geriu mal a economia, fracassou na redução da crescente violência e descaradamente roubou bilhões de dólares mediante corrupção”.

O mais lido jornal do EUA admite que o avanço militar na política é, para muitos brasileiros, preocupante. A última ditadura militar no Brasil durou 21 anos, antes de terminar em 1985, e desde então o maior país da América Latina experimentou o mais longo período de governos democráticos. “Muitos são aguerridamente defensores da separação entre política e militar, se resguardando contra qualquer potencial deslize rumo ao regime militar”.

Acho que podemos nos incluir nesse número. Quem quiser ler o texto completo do NYT, no original, pode acessar AQUI.

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Para Bolsonaro, assassinatos autorizados pela ditadura foram apenas ‘tapa no bumbum do filho’

Texto escrito por José de Souza Castro:

O deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ), capitão do Exército e candidato da extrema-direita às eleições presidenciais de outubro, comparou na manhã de hoje as execuções feitas durante a ditadura militar a um “tapa no bumbum do filho”.

A declaração foi feita em entrevista à Rádio Super Notícia, de Belo Horizonte, em que o candidato procurou desmerecer o documento escrito por um diretor da CIA, William Colby, em 1974, e revelado agora: “Voltaram à carga. Um capitão tá pra chegar lá. É o momento”, disse, referindo-se à possibilidade de ser eleito presidente da República em outubro.

“Quem nunca deu um tapa no bumbum do filho e depois se arrependeu? Acontece”, justificou Bolsonaro.

Não é o que pensa o Instituto Vladimir Herzog sobre o documento da CIA que revelou ter o general Ernesto Geisel aprovado a continuidade de uma política de execuções sumárias dos que ousavam se manifestar contra a ditadura militar. Para o instituto, essa comprovação torna urgente a revisão da Lei da Anistia, que perpetuou a impunidade.

Liberado somente agora pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, o documento afirma que Geisel teria orientado o então chefe do SNI (Serviço Nacional de Informações), general João Baptista Figueiredo, a autorizar pessoalmente os assassinatos. Em nota divulgada ontem, o Instituto Vladimir Herzog afirmou:

“Apesar de não haver nenhuma surpresa, essa é mais uma prova de que não houve porões da ditadura, e sim uma política de Estado de terror, desaparecimentos forçados e assassinatos”. Acrescenta que é dever do Estado “investigar, processar, julgar e reparar as gravíssimas e generalizadas violações de direitos humanos cometidas durante a ditadura militar”.

E reforça:

“A anistia concedida a agentes públicos que ordenaram detenções ilegais e arbitrárias, torturas, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres – como o documento do Departamento de Estado dos Estados Unidos atesta – é incompatível com o direito brasileiro e a ordem jurídica internacional, pois tais crimes, dadas a escala e a sistematicidade com que foram cometidos, constituem crimes contra a humanidade, imprescritíveis e não passíveis de anistia.”

Diante do documento da CIA, principal agência de espionagem dos EUA, “torna-se inaceitável”, acrescenta, “a explicação, que até hoje tem sido adotada pelas Forças Armadas, de que tais violações se constituíram em alguns poucos atos isolados ou excessos, gerados pelo voluntarismo de alguns militares”.

Ao ministro das Relações Exteriores, Aloysio Nunes Ferreira – um comunista sobrevivente da época das execuções e hoje membro destacado PSDB paulista –, o filho do jornalista Vladimir Herzog, Ivo Herzog, escreveu ontem pedindo que seja solicitada ao governo dos Estados Unidos a liberação completa dos registros realizados pela CIA. “Uma Nação precisa conhecer sua história oficialmente para ter políticas públicas que previnam que os erros do passado se repitam”, argumentou.

Herzog era diretor de jornalismo da TV Cultura quando foi preso, torturado e assassinado no dia 25 de outubro de 1975, nas dependências do DOI-Codi, dentro do quartel-general do II Exército, em São Paulo. Os torturadores tentaram, sem sucesso, fazer crer que ele havia se suicidado, enforcando-se em sua cela. Herzog se apresentara para se defender, depois de acusado de atuar em atividades “subversivas” do Partido Comunista Brasileiro.

Não há ainda resposta do Itamaraty a Ivo Herzog, mas o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, saiu à tarde em defesa das Forças Armadas:

“As Forças Armadas brasileiras são um ativo democrático que o país hoje tem e isso, evidentemente, não é tocado por uma reportagem. Chamo a atenção: não temos acesso a documentos oficiais e isso só poderá ocorrer, ou seja, um pronunciamento oficial, quando tivermos acesso direto a esses documentos”, disse o ministro em entrevista à imprensa.

Voltando ao capitão do Exército e candidato à Presidência da República que aparece bem nas pesquisas eleitorais. Na entrevista à rádio do prefeito de Betim, Vittorio Medioli, Jair Bolsonaro lembrou a Guerrilha do Araguaia massacrada pela ditadura militar:

“Se tivéssemos agido com humanismo ao tratar esse foco de guerrilha, teríamos no coração do Brasil uma Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). E graças aos militares daquela época, não temos”.

E completou:

“Esse pessoal que disse que matamos naquele momento, que desapareceu, caso estivesse vivo por um motivo qualquer, estaria preso acompanhando o Lula lá em Curitiba. Essas pessoas não têm qualquer amor à democracia e à liberdade. Eles querem o poder absoluto”.

Pergunta que não quer calar: E Bolsonaro, ele tem “qualquer amor à democracia e à liberdade”?

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As capas de jornal, as charges e o melhor discurso sobre a prisão de Lula

Hoje é um daqueles dias em que eu me vejo na obrigação de ver como estão as primeiras páginas dos jornais do Brasil. Porque é daqueles dias que entram para a História, que serão estudados futuramente pelo meu filho na escola. Lembram o que escrevi no dia 16 de fevereiro? Que estamos caminhando para a volta da ditadura militar no Brasil? Naquele post, contei 10 passos preocupantes. De lá pra cá, outros tantos ocorreram:

1- Marielle Franco foi executada no Rio da intervenção militar

2- Sua memória foi difamada por uma desembargadora e um deputado federal impunemente

3- Um general do Exército dá declarações absurdas (que até a “Folha” viu como perigosas) e não recebe qualquer punição pelo presidente da República

4- O STF decide contra um habeas corpus sem antes votar as ações diretas de inconstitucionalidade que dizem respeito diretamente ao mesmo assunto, e atropela a Constituição Federal – algo que até o Reinaldo Azevedo, que praticamente cunhou o termo “petralha”, admite que aconteceu

5- Um juiz de primeira instância, Sergio Moro, determina a prisão de um ex-presidente da República contrariando o acórdão da segunda instância que previa que a prisão só poderia ocorrer depois de esgotados todos os embargos naquela instância

Já estamos em plena ditadura, meus amigos. Porque o Estado Democrático de Direito foi ferido, a Constituição foi rasgada, e todos nós estamos sujeitos a ter nossa presunção de inocência substituída, arbitrariamente, por presunção de culpa. Ninguém está acima da lei, mas ninguém deveria estar abaixo dela também – como sabiamente disse um senador que voltarei a citar mais abaixo.

Ao ver as capas dos jornais de hoje, não me surpreendi: todas completamente acríticas, como era de se esperar de uma imprensa que tem contribuído com o golpe desde que ele se instalou no Brasil, em 2016. Aí estão algumas delas: Continuar lendo