Juros altos e o caos na economia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Só assisto ao “Bom Dia Brasil” da TV Globo enquanto tomo o café da manhã. Nesta terça-feira, surpresa!, a Miriam Leitão saiu-se com uma crítica aos altos juros cobrados pelos bancos, algo impensável quando Roberto Marinho era o dono do Banco Roma nos maus dias da ditadura. E bem depois disso, é verdade. Não sei se me senti bem ou mal acompanhado. Durante anos, desde os tempo em que dirigi o jornalismo da Rádio Alvorada em Belo Horizonte, sentia-me isolado ao criticar bancos.

Naquele tempo, cheguei a ser proibido de dar notícias ou fazer comentários sobre bancos brasileiros. Afinal, o dono da rádio era o proprietário do Banco Bandeirantes. Se Gilberto Faria houvesse me escutado, talvez seu banco não precisasse ter sido vendido quase às vésperas da bancarrota (ainda existe essa palavra que aprendi na adolescência lendo “O Homem da Máscara de Ferro” de Alexandre Dumas?). Hoje banco em dificuldade não vai à bancarrota, pois recebe uma mãozinha do governo e é comprado por outro banco na bacia das almas. O Bandeirantes, comprado por um banco português em 1998, acabou no ano 2000 caindo nas mãos do Unibanco e, em seguida, do Itaú.

Só não tive impedimentos aqui, no blog, e no “Hoje em Dia”, quando eu escrevia os editoriais do então jornal do bispo Edir Macedo que, tenho certeza, não precisava pagar juros a bancos, dono de uma igreja talvez mais rendosa do que muitos deles.

Eu me pergunto: o que terá levado Miriam Leitão a cair na real? Será que clientes de sua carteira de bem remuneradas palestras já não aguentam mais os juros? Mas, e os bancos que, se não me engano, também contratam seus serviços? Com extrema boa vontade, diria que se deve à real preocupação dela com o estado atual da economia brasileira, que se encontra num caos, como bem descreveu, domingo passado, em editorial, o novo “Jornal do Brasil”, que pode ser lido aqui e que chegou a propor a estatização do sistema bancário, “Porque somente sem eles nossa economia poderá voltar a crescer”.

Trabalhei no JB por 16 anos e, por um tempo bem mais curto, a Miriam Leitão foi sua editora de economia e o Paulo Henrique Amorim, o chefe da redação. Agora, diz o novo “Jornal do Brasil”, a taxa Selic caiu para 6,5%, a mais baixa de toda a história, mas o “oligopólio que forma o sistema bancário brasileiro, composto por quatro famílias que administram 60% da base monetária, não se sensibiliza diante do caos instalado na economia, cujo principal motivo são as taxas de juros que cobram, não só de quem cria riquezas e gera empregos, mas também de 62 milhões de trabalhadores que se encontram inadimplentes junto aos bancos e financeiras”.

Os bancos fazem isso sob o “olhar complacente da Justiça, pois, na maioria das ações contra as empresas e trabalhadores, dá-se ganho de causa aos bancos, jogando o devedor no precipício da desesperança, diante dessa injustiça ‘legalizada’”, diz o JB, acrescentando que ocorre o mesmo quando os bancos são perdoados de dívidas, “como foi o caso do Itaú, que teve perdoada, no CARF, dívida fiscal de R$ 25 bilhões.”

O jornal aponta os quatro bancos privados que fazem o oligopólio do sistema financeiro no Brasil: Itaú, Santander, Bradesco e Safra. Os três últimos também estão sendo processados por suposta compra de votos no CARF para anular multas bilionárias.

O JB mencionou ainda que “a causa do endividamento público nos últimos 20 anos deveu-se, sobretudo, às taxas de juros que o Estado brasileiro pagou aos bancos e, na última linha, aos rentistas que, sem nada produzir, vivem do suor alheio”.

Renascido em papel, o jornal carioca demonstra aqui a velha têmpera do JB no qual trabalhei. Por exemplo, não vê justificativa “para que as quatro famílias continuem cobrando, das empresas e dos trabalhadores deste país, juros acima do que cobra qualquer agiota que atua na clandestinidade. E ainda gozam do privilégio de não pagar imposto sobre os generosos dividendos. Não é possível – e já provamos neste jornal – que à revelia de qualquer fundamento macroeconômico e/ou político, as taxas praticadas possam continuar sendo de 400% ao ano!”

Pois é, eu dizia algo assim, sem a mesma contundência, nos artigos que tenho escrito. Em 10 editoriais do “Hoje em Dia”, em 2014, tratei do problema trazido à economia pelos bancos. Naquele ano, Dilma Rousseff disputaria a reeleição e não conseguira segurar a Taxa Selic. Ela começou com 7,25% em janeiro de 2013 e chegou a 10% ao fim desse ano. No dia 31 de janeiro, escrevi: “Se a política econômica do governo tem sido boa para os trabalhadores, que vêm obtendo salários melhores e enfrentando menos dificuldade para pagar suas dívidas, ela tem sido ótima para os bancos, que lucram com maiores taxas de juros e inadimplência menor”.

Não vale a pena transcrever outros trechos, pois, como eu previa, já que não sou de todo tapado, os editoriais não mudaram em nada a política econômica. Até mesmo porque, como observa o JB, os presidentes do Banco Central “são sempre funcionários dos bancos que formam o oligopólio”. Um escárnio.

Tão grande a aberração, que até a “Folha de S.Paulo” descobriu, em reportagem de Mariana Carneiro, na última segunda-feira, que “um ano e quatro meses depois do início do corte dos juros pelo governo, a taxa cobrada pelos bancos no cheque especial praticamente não saiu do lugar”.

Só lembrando que a formação do oligopólio começou na década de 1990, no governo Fernando Henrique Cardoso, o feliz comprador do apartamento de 450 m² no rico bairro paulistano de Higienópolis, logo depois de deixar a presidência da República. O apartamento pertencia a Edmundo Safdié, dono do Banco Cidade, vendido no último ano de seu governo (2002) ao Bradesco.

Bradesco, Itaú e o espanhol Santander foram grandes beneficiários do programa de privatização dos bancos estaduais levada a efeito pelo governo FHC. Foram parar nas mãos do Itaú: Banerj, Bemge, BEG e Banestado. Com o lucro do primeiro ano de funcionamento do Bemge privatizado, o Itaú recuperou os R$ 583 milhões que pagara ao governo de Minas, governado por Eduardo Azeredo, do PSDB. Que, não por isso, foi condenado em segunda e terceira instância, mas continua em casa.

Foi depois de Azeredo que seu amigo Aécio Neves se tornou presidente nacional do PSDB. E que ontem se tornou réu, por decisão do Supremo Tribunal Federal. Quando e se será condenado, Deus sabe.

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Dívida pública, campeã da corrupção

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Minas Gerais deve ou não à União? A dívida de R$ 65 bilhões, classificada durante o governo Antonio Anastasia, em 2013, como impagável, já não existe? Qual mágica fez sumir todo esse dinheirão e mais alguns bilhões de quebra?

E por que não vi fogos de artifício comemorando a notícia dada há mais de um mês, em entrevista a um jornal mineiro, pelo governador petista Fernando Pimentel? Logo ele, que a mim me parecia, ele sim, ter sumido, fugindo da Polícia Federal e dos que querem cassar o seu mandato – ou pelo menos, mantê-lo acossado e silencioso pelos próximos dois anos.

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Sem vingança apocalíptica, por favor

Reprodução / Facebook

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Texto escrito por José de Souza Castro:

Um dos artigos mais intrigantes que li nos últimos dias tem como título “A vingança apocalíptica”. Foi escrito pelo físico Rogério Cerqueira Leite, em seu site.

“Hoje estão em consonância no Brasil forças extremas da sociedade, que em tempos mais serenos ficariam em campos opostos. O PSDB abraça os descontentes chantagistas do PMDB, enquanto o vampiresco Eduardo Cunha e sua horda de zumbis dão beijocas no sanguinário deputado Carlos Sampaio”, diz o físico. E após desencadear uma série de questões, vem com a hipótese da renúncia de Dilma Rousseff. Então, a questão maior: o que aconteceria em seguida?

Não haveria mais um inimigo comum – Dilma e PT – a unir a reacionária alta burguesia, a imprensa direitista, a população alienada e a estudantada militante alinhadas para os panelaços. “Vocês já imaginaram a balbúrdia que se instalaria no Brasil? Sem um inimigo comum, um bode expiatório geral? Como iriam comportar-se esses atores tão individualistas, tão egocêntricos da política nacional?”, indaga Cerqueira Leite. E conclui: “Ah, que pena que Dilma não é vingativa. Que pena, mas que sorte!”

Pensando bem, o Brasil tem sorte. Pela própria natureza, o Brasil tem sorte. Tem sorte também porque não é uma ilha isolada do resto do mundo. Mesmo quando tudo parece conspirar para manter o país na ignorância de sua riqueza e de seu potencial humano e econômico, chegam do exterior algumas notícias que não podem continuar sendo ignoradas pela imprensa local.

O caso, por exemplo, das descobertas feitas na Suíça que se tornaram manchete, neste sábado, 10 de outubro, da “Folha de S.Paulo“. Informa o jornal paulista que a Procuradoria-Geral da República recebeu dossiê enviado pelo Ministério Público da Suíça. Ele revela que dinheiro de propina recebida pelo atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, para viabilizar um negócio da Petrobras na África – a compra de um campo de exploração de petróleo em Benin por US$ 34,5 milhões – foi depositado em contas secretas atribuídas a Cunha e sua mulher, a jornalista Cláudia Cunha.

Dessas contas teriam saído, ao longo de sete anos, recursos para pagamento de despesas pessoais de Cunha e sua mulher no valor total de US$ 1,09 milhão (cerca de R$ 4,1 milhões), incluindo faturas de dois cartões de crédito e de uma famosa academia de tênis na Flórida.

Outra notícia a mostrar que, apesar da roubalheira de alguns políticos, o Brasil tem jeito, foi divulgada pela BBC Brasil: “O número de pessoas vivendo em situação de pobreza extrema no Brasil caiu 64% entre 2001 e 2013, passando de 13,6% para 4,9% da população, segundo dados divulgados nesta semana pelo Banco Mundial.”

Minha tendência é continuar acreditando no futuro do Brasil, apesar dos pesares. Não tenho o conhecimento nem a clareza de um Celso Antônio Bandeira de Mello, professor de direito da PUC-SP e tido como o maior especialista em Direito Administrativo brasileiro, mas concordo com ele em muitos pontos de uma entrevista recente que pode ser lida aqui. Segundo ele, o país não está tão mal hoje quanto no tempo do governo Fernando Henrique Cardoso, em que o Brasil quebrou duas vezes – ou seja, por duas vezes precisou recorrer ao FMI.

Na opinião do jurista, a maior diferença entre os governos tucanos e petistas se relaciona com o comportamento da imprensa, que antes minimizava as dificuldades e hoje as reforça. Nas palavras dele: “Então não estou tão impressionado assim com a situação econômica. É que houve notoriamente uma crise internacional muito grande. A Dilma pegou essa crise. Eu não vou dizer que a administração dela é isso e aquilo, porque não sou político, não estou por dentro, mas, seguramente, não é calamitosa como a de Fernando Henrique. Logo, o que há de diferente? Há que a imprensa resolveu derrubar a Dilma.”

E, se a imprensa for bem-sucedida — ou Dilma resolver se vingar, como imaginou o físico que abre este post — o que aconteceria em seguida? Deixo para a imaginação de cada um.

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Taxa de juros sobe. Qual a novidade?

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Texto escrito por José de Souza Castro*:

A notícia divulgada no dia 29 de abril não chamou muita atenção, pois está se tornando costumeira. É a quinta alta consecutiva da taxa básica de juros (Selic), que chegou agora a 13,25% ao ano, com possibilidade de novo aumento na próxima reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), em junho.

A escalada dos juros começou há dois anos e só foi interrompida durante o período eleitoral. O que se assiste é a retomada incontestável da política de 1999, do governo Fernando Henrique Cardoso, de usar a Selic como instrumento de política monetária.

Indaga-se: o que não deu certo naquela época, dará agora pelas mãos treinadas na gestão do Bradesco do ministro Joaquim Levy?

Certamente, dará certo para o Bradesco e outros bancos que há muito tempo vivem em clima de festa no Brasil. O balanço trimestral do Bradesco não deixa dúvidas. No mesmo dia em que o Copom decidiu elevar a Selic, o banco revelou que obteve nos primeiros três meses do ano lucro líquido de R$ 4,2 bilhões.

Em comparação com o quarto trimestre do ano passado, quando Levy era ainda diretor-superintendente, desde junho de 2010, do Bradesco Asset Management, o lucro do Bradesco aumentou 6,3%. Em comparação com o primeiro trimestre de 2014, invejáveis 23,3%.
Vejamos o que ocorreu em 1999.

Numa sexta-feira de janeiro, chamada na época de “sexta-feira negra”, o clima no país beirava o pânico, com previsões catastróficas e boatos alarmistas sobre feriado bancário e confisco financeiro. O presidente FHC demitiu o presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e desvalorizou o real, abandonando o regime de câmbio fixo. O país passou a operar no regime de câmbio flutuante, até hoje.

Em setembro de 1998, faltando pouco para a sua reeleição, o presidente havia admitido que era grave a crise brasileira. Talvez tivesse sido melhor que Dilma Rousseff, que vem seguindo agora os passos de FHC nos rastros de Levy, tivesse feito o mesmo em setembro passado.

Para contornar a crise, Fernando Henrique tratou também de aumentar impostos, para tentar tapar o buraco do déficit fiscal. Empresários da indústria reagiram. Sabiam que com altas taxas de juros e baixo crescimento econômico, as chances de sobrevivência de muitas indústrias diminuíam a cada dia. Era falir ou vender para alguma multinacional de olho gordo no mercado consumidor brasileiro.

As perspectivas seriam diferentes hoje? O Banco Central parece pouco preocupado com a produção. Pelo menos, bem menos que com a inflação e com o desempenho dos bancos aos quais tem o dever de fiscalizar. No comunicado sobre o último aumento da Selic, ele repetiu o discurso das duas últimas reuniões, de que tomou a decisão “avaliando o cenário macroeconômico e as perspectivas para a inflação”. Uma frase com efeitos anestésicos, talvez, pois a gritaria hoje é menor que em 1999.

Quem sabe esse comportamento de resignação do Brasil não anima o Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) a aumentar as taxas de juros, apesar da freada em sua recuperação econômica? No primeiro trimestre deste ano, o PIB americano cresceu apenas 0,2%, comparado com o mesmo período de 2014. No quarto trimestre, o crescimento foi de 2,2%. Se pelo menos os juros no exterior fossem maiores, as indústrias brasileiras aguentariam mais tempo, não? Porque, aqui, eles não caem.

Os bancos brasileiros – e os estrangeiros que para aqui vieram no governo FHC – não deixam. Eles têm muito a lucrar, quando a Selic sobe, pois os juros que cobram no mercado acompanham essa alta, mas em escala maior. Só o governo federal deve R$ 2,44 trilhões. Parte dessa dívida é cobrada pelos bancos com base na Taxa Selic.

Não tenho informações recentes. Mas, há um ano, a participação dos títulos corrigidos pela Selic na dívida interna era de 9,5%. Se o percentual se manteve, a alta que ocorre pela quinta vez consecutiva tem reflexo significativa no endividamento público. Ninguém gosta de falar sobre isso, aparentemente. Sobretudo na imprensa.

Enquanto isso, o financiamento imobiliário ao consumidor caiu 4,6% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2014. A primeira retração para o período, nos últimos 13 anos. Os depósitos da caderneta de poupança, principal fonte de recursos do setor, ficaram menores R$ 30,2 bilhões neste ano, até o dia 23 de abril.

Diante de recursos escassos, a Caixa Econômica Federal fez dois reajustes nos juros cobrados e passou a dar prioridade aos empréstimos voltados à baixa renda e a imóveis novos, vendidos pelas construtoras, especialmente dentro do programa Minha Casa, Minha Vida.

O governo parece mais preocupado em como garantir o pagamento da dívida, com medidas de ajuste fiscal para tentar cumprir a meta, tendo anunciado corte de despesas de R$ 18 bilhões neste ano. E não se fala em taxar mais os ricos, mesmo com a queda de R$ 14,8 bilhões na arrecadação no primeiro trimestre deste ano, comparado o primeiro trimestre de 2014.

Em compensação, deixou de gastar R$ 1,7 bilhão para subsidiar as contas de energia elétrica. Quem pagou foi o consumidor.

E não é culpa dele, pois não come minério de ferro, que a Vale registrou prejuízo líquido de R$ 9,5 bilhões no primeiro trimestre…

O governo não vai taxar as grandes fortunas, pois parece que Dilma Rousseff não tem disposição para enfrentar mais esse desafio. Mas, que tal pôr a Receita Federal para obrigar os mais ricos a pagarem o que devem? Por que o silêncio em relação à sonegação de mais de R$ 19 bilhões constatada na Operação Zelotes desfechada pela Polícia Federal há pouco mais de um mês e já esquecida?


 

* A blogueira continua de férias, mas o blogueiro seguirá postando sempre que puder, viu? 😉

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Dilma pode sentir na pele o golpe paraguaio

Texto escrito por José de Souza Castro:

Do blog do jornalista Ricardo Kotscho, que foi assessor de Lula, neste 4 de fevereiro: “Foi dada a largada. Em caudaloso artigo publicado domingo no Estadão, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu a senha: como não há clima para um golpe militar, a derrubada do governo de Dilma Rousseff deve ficar por conta do Judiciário e da mídia, criando as condições para votar o impeachment da presidente no Congresso Nacional o mais rápido possível.” Íntegra AQUI.

Do jornalista Acílio Lara Resende, arguto observador político tucano, em artigo que “O Tempo” publica hoje:

“Veja bem, leitor: além dos problemas por que passa o país – na economia, na educação, na saúde, na mobilidade urbana, na volta da inflação, nos transportes, no aumento do desemprego, na infraestrutura, na falta de água, na falta de energia etc, que envolvem responsabilidade direta do atual governo, a presidente terá que explicar o que de fato aconteceu, durante anos, na Petrobras; e, de lambuja, ainda correrá o risco de um impeachment, analisado, recentemente, em longo e minucioso parecer, pelo ilustre jurista Ives Gandra da Silva Martins.”

Concordo com Ricardo Kotscho, mas não acho que a largada foi dada agora, e sim quando o presidente dos Estados Unidos, o democrata Barack Obama, nomeou, no dia 14 de junho de 2013, a nova embaixadora no Brasil, Liliana Ayalde, em substituição a Thomas A. Shannon, que ocupava o cargo desde 2009, final do governo Lula.

Shannon foi incapaz de impedir a eleição de Dilma Rousseff e, Ayalde, a sua reeleição. Mas não terá faltado esforço de ambos. Cabe agora à primeira mulher no comando da embaixada dos EUA no Brasil ajudar a impedir que a primeira presidenta do país governe por mais quatro anos. Pior, que possa ser sucedida, em 2019, por Lula.

Mas esse trabalho da embaixadora tem que ser feito de forma muito discreta, pois Obama, assim como Kennedy no começo da década de 1960, não gostaria de escancarar a ajuda dos Estados Unidos a um golpe para derrubar mais um governo democraticamente eleito. Kennedy sim, pois começou a governar em 1961 e só não viu a queda de João Goulart, em 1º de abril de 1964, porque ele morreu assassinado, em Dallas, quatro meses antes.

Toda a preparação para o golpe militar foi feita durante seu governo. Eu era adolescente em Lagoa da Prata, com menos de 5.000 moradores em 1962, e a cidade já era inundada com panfletos publicados pelo IBAD – muitos deles encartados em jornais do Rio de Janeiro e São Paulo – para preparar os brasileiros para o golpe militar. A USAID, agência na qual a atual embaixadora dos Estados Unidos trabalhou durante 24 anos, tendo sido diretora de missão na Nicarágua, Bolívia e Colômbia, antes de ser nomeada embaixadora no Paraguai, entre 2008 e 2001.

No Paraguai, ela preparou, com grande competência, o golpe que derrubou o presidente Fernando Lugo. Os interessados podem ler AQUI um bom artigo escrito pela repórter investigativa brasileira Natália Viana. Foi publicado pela Agência Pública no dia 4 de fevereiro de 2013, oito meses depois que um conluio entre o Congresso Nacional e a Corte Suprema resultou no afastamento de um presidente eleito pela esquerda paraguaia. Natália expõe a forma como o governo dos Estados Unidos mantinha influência em todas as esferas de poder que foram fundamentais para a remoção de Fernando Lugo. Selecionei alguns trechos:

  • Na véspera do julgamento do impeachment que o destituiu da presidência do Paraguai em 22 de junho do ano passado, Fernando Lugo reuniu-se com o embaixador norte-americano James Thessin na capital Assunção. A reunião estava marcada havia muito tempo, bem antes da matança de Curuguaty – uma operação policial de reintegração de posse na região de Curuguaty que deixou 17 mortos no dia 15 de junho de 2012, e foi usada como argumento pelo Congresso para depor Lugo uma semana depois. Seguindo o protocolo, Thessin convidou Lugo para a recepção de celebração ao 4 de julho, data da independência americana, a ser realizada na embaixada, que toma um quarteirão inteiro no centro da capital paraguaia. “Mas você está me convidando para eu ir como presidente ou como cidadão?”, indagou Lugo.  “Como presidente, é claro”, tranquilizou-o Thessin. Lugo já não era mais o presidente do Paraguai no dia 4 de julho e não compareceu à cerimônia, que teve direito à execução dos dois hinos nacionais, refrescos e tira-gostos. A data marcava o fim de uma semana de trabalho duro em relação à deposição do ex-bispo da presidência e à ascensão do seu vice, o liberal Federico Franco, ao poder. Um trabalho que envolveu mais do que diplomatas americanos e foi realizado silenciosamente – os EUA só se pronunciaram sobre o Paraguai 20 dias depois do impeachment.

  • Lugo não estava errado ao indagar o embaixador americano sobre seu futuro quando convidado para o 4 de julho. Afinal, o apoio dos EUA é fundamental para o futuro de qualquer governo naquele país. As reticências dos americanos em relação à sua presidência foram bem descritas pela antecessora de Thessin na embaixada, Liliana Ayalde, que escreveu em telegrama enviado em 7 de dezembro de 2009, e vazado pelo Wikileaks: “Temos sido cuidadosos em expressar nosso apoio público às instituições democráticas do Paraguai – não a Lugo pessoalmente”.

  • A influência americana sobre o Paraguai não é apenas uma questão diplomática. Através de doações administradas pela USAID de mais de US$ 100 milhões (em cinco anos) a empresas, ONGs e órgãos governamentais dificílimos de monitorar, os americanos garantiram a proximidade com diversas esferas de poder no país. “Atores políticos de todos os espectros nos procuram para ouvir conselhos”, resumiu a ex-embaixadora Ayalde no mesmo relatório confidencial. “E a nossa influência aqui é muito maior do que as nossas pegadas”, pontuou.

  • O treinamento das forças de segurança paraguaias estava entre os principais programas financiados pela USAID. Entre 2005 e 2010, cerca de mil militares e policiais foram treinados – a maioria em 2009, ano seguinte à posse de Lugo – e dali saíram alguns comandantes das Forças Armadas nomeados por Franco quando assumiu o poder. A Polícia Nacional foi a responsável pela operação que resultou na matança de Curuguaty. O Ministério Público, que baseou-se exclusivamente em depoimentos de policiais para atribuir aos camponeses a culpa pelo massacre, e a Corte Suprema, que negou dois recursos movidos pela defesa de Lugo, também foram contemplados com programas financiados pela USAID.

  • Documentos obtidos pela Pública através da Lei de Acesso à Informação dos EUA revelam que, antes mesmo da votação do impeachment, o encarregado da USAID por zelar pela democracia paraguaia já planejava seus passos com o novo governo: “Comecei a fazer reuniões internas para avaliar e traçar uma estratégia sobre a melhor maneira de manter o andamento dos programas no novo governo”, explicou Eschleman em um email às 17h20 do fatídico 22 de junho para a direção da Millenium Challenge Corporation (MCC), agência financiadora ligada ao Congresso americano. Observando que “às seis horas, Franco já deve ser presidente”, Eschleman escreveu: “Provavelmente vai levar alguns dias para saber quem serão os novos ministros e como podemos abordar a nova liderança para garantir não só estabilidade nos programas, mas a habilidade para caminhar adiante”. Mas, ressaltou, a mudança governamental significava “boas novas” para a USAID: “Franco e a sua equipe conhecem muito bem o programa Umbral porque trabalharam próximos a nós nos últimos anos”. Duas horas depois o diretor da USAID enviou outro email contando que, logo após o discurso de posse, o novo presidente nomeou novos ministros. Mais “boas novas”: “Tanto o ministro do Interior (Carmelo Caballero) quanto o novo Chefe da Polícia (Aldo Pastore) trabalharam conosco no programa Umbral, e são pessoas que chamaríamos de aliados!” Depois, sobre o ministro de Finanças, Manuel Ferreira Brusquetti, e o chefe de Gabinete de Franco, Martín Burt, celebrou: “Conhecem e respeitam a USAID, e trabalharam conosco no passado”.

  • Não era bem isso que dizia a embaixadora Liliana Ayalde nos despachos enviados em 2009 ao Departamento de Estado. Na mesma época em que destinava 2,5 milhões de dólares à Corte no programa Umbral, em um despacho diplomático Ayalde afirmava que a Corte, “ampla e corretamente”, era vista como corrupta, mais focada “em interesses políticos e pessoais do que em questões legais”. E escreveu: “A interferência política é a norma; a administração da Justiça se tornou tão distorcida, que os cidadãos perderam a confiança na instituição”.

  • “O controle político da Suprema Corte é crucial para garantir impunidade dos crimes cometidos por políticos hábeis. Ter amigos na Suprema Corte é ouro puro”, escreveu no despacho, em 25 de agosto de 2009.  “A presidência e vice-presidência da Corte são fundamentais para garantir o controle político, e os Colorados (oposição a Lugo) controlam esses cargos desde 2004. Nos últimos cinco anos, também passaram a controlar a Câmara Constitucional da Corte”.

  • Presente há cinquenta anos no Paraguai, a USAID sempre foi um forte braço da política norte-americana para o país. Um estudo detalhado sobre a sua atuação feito pelo Instituto Base Investigações Sociales (Base-IS), revela que a presença da USAID cresceu progressivamente no país a partir de 2008, quando Lugo foi eleito. “Em termos de fundos, houve um aumento importante na assistência norte-americana para o Paraguai: de US$ 17,25 milhões em 2007 para US$ 36,2 milhões em 2010”, diz o estudo. Porém, os fundos de assistência distribuídos a uma infinidade de ONGs e órgãos governamentais são difíceis de monitorar, como descobriram os pesquisadores do Base-IS. “É complicado conseguir fechar os números reais, porque os fundos provêm de diferentes fontes, inclusive dentro das USAID, a atores diversos, alguns deles diretamente ao governo ou canalizados por ONGs internacionais”, explica Marielle Palau, que coordenou o estudo. O quadro se complica com a tendência à privatização da assistência internacional. Desde o ano de 2000, os recursos da USAID repassados diretamente para empresas privadas americanas a título de consultoria vêm crescendo, e são elas que, na prática, comandam a distribuição do dinheiro em cada país. Somente no ano de 2010, 40 empresas faturaram mais de US$ 6,7 bilhões em contratos com a USAID – uma enorme fatia dos recursos da agência para aquele ano.

Raramente os Estados Unidos tiveram no Brasil um representante tão discreto como a embaixadora Liliana Ayalde, que fala fluentemente o português. E a USAID, tão serelepe nos anos 60 e 70, quase nunca aparece na imprensa brasileira. Gostam de trabalhar em silêncio, nos bastidores. Sem deixar pegadas.

Não precisam aparecer, pois têm quem o faça, com grande acesso à mídia – quando não a própria mídia e alguns programas, como o Millenium da Globo News. Entre os porta-vozes informais dos Estados Unidos, ousaria citar Fernando Henrique Cardoso e, por que não, Ives Gandra da Silva Martins – mas a lista é imensa. Após afirmar isso, recorro ao artigo de Kotscho, citado no início:

“O primeiro a responder prontamente ao chamado foi o sempre solícito advogado Ives Gandra Martins, 79 anos, que já na terça-feira apresentou a receita do golpe no artigo “A hipótese de culpa para o impeachment”, publicado pela Folha, em que o parecerista aponta os capítulos, parágrafos, artigos e incisos para tirar Dilma da presidência da República pelas “vias legais”.

Candidamente, Martins explicou na abertura do seu texto: “Pediu-me o eminente colega José de Oliveira Costa um parecer sobre a possibilidade de abertura de processo de impeachment presidencial por improbidade administrativa, não decorrente de dolo, mas apenas de culpa. Por culpa, em direito, são consideradas as figuras de omissão, imperícia, negligência e imprudência”.

E quem é o amigo José de Oliveira Costa, de quem nunca tinha ouvido falar? Graças ao repórter Mario Cesar Carvalho, da Folha, ficamos sabendo nesta quarta-feira a serviço de quem ele está nesta parceria com o notório Gandra Martins, membro atuante da Opus Dei e um dos expoentes da ala mais reacionária da velha direita paulistana .
“Sou advogado dele”, explicou Costa ao repórter, referindo-se, também candidamente, ao seu cliente Fernando Henrique Cardoso, um detalhe que Martins se esqueceu de apresentar na justificativa do seu parecer a favor do impeachment de Dilma.

Conselheiro do Instituto FHC, o até então desconhecido advogado negou, porém, que a iniciativa da dupla tenha qualquer caráter político. FHC, claro, disse que só ficou sabendo da operação pelo jornal. São todos cândidos, esses pândegos finórios, que estão brincando com fogo, em meio à mais grave crise política e econômica vivida pelo país desde a redemocratização.”

E concluo com uma frase que encerra o artigo de Acílio Lara Resende, meu chefe na sucursal do “Jornal do Brasil” em Minas, nas décadas de 1970 e 80:

“Valha-nos Deus e… São Pedro!”

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